Título: As mortes de Dezembro
Autora: RyekoDono
Resumo: As mortes de Dezembro não saíam do Jornal. L se empenhava em resolver aquele caso, enquanto Matsuda lutava contra as lembranças suscitadas na figura de Mikami. (NearxGevani/ MatsudaxMikami)
14. Mãos
As mãos de Mikami estavam acorrentadas, da mesma forma que as de Raito quando ele passou um mês todo provando a si mesmo que não era Kira.
No dia seguinte, contrariando todas as expectativas, Matsuda voltou a prisão. Era véspera de natal e o detetive estava cabisbaixo. Apesar do inverno, Mikami vestia apenas a roupa de presidiário e o olhar reprimido. Havia uma marca roxa embaixo de seu olhos direito, mas era Matsuda quem parecia realmente arrasado.
Ele não dormiu enquanto tentava entender...
Como alguém poderia amar Kira?
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Não houve palavras naquele primeiro encontro expontâneo. Matsuda ficou observando o ódio no olhar de Mikami e tentou puxar assuntos aleatórios, mas a cadeia não parecia um lugar para leviandade. Talvez o detetive o estivesse provocando para ouvir mais daquelas palavras agressivas. Mais acusações... Todos o bonificavam por ter atirado em Kira, mas até o momento Matsuda era o único que se sentia mal por ter sido responsável pela morte de Yagami Raito.
Na terceira vez que o silêncio se manteve, por horas a fio, talvez, Matsuda verbalizou as palavras que ele nunca tinha tido coragem de dizer.
"Eu amava Yagami Raito." - O detetive sorriu melancolicamente e cruzou seus olhos com as esferas inexpressivas de Mikami. - "Eu passei muitos anos ao seu lado tentando matar Kira... Ao mesmo tempo eu sempre odiei Kira."
O prisioneiro ergueu o seu olhar, encarando aquele homem de cima a baixo.
"Eu não consigo entender... Como eles poderiam ser a mesma pessoa. Eu não consigo... É simplesmente..." - Matsuda engoliu a própria falta de sentido. O policial apertou as mãos muito forte em suas coxas e respirou fundo. - "Eu não consigo entender... Como alguém como você pode ter amado Kira."
Aquilo não era segredo. A confissão de Mikami fora plena depois da morte de Raito. O japonês admitira todos os seus crimes, em todos os mínimos detalhes. Diferente de Matsuda, que se embaraçava com sentimentos e palavras, o outro moreno não hesitava em apontar o amor que sentia por Kira como motivação para seu crime.
"Alguém como eu...?" - A voz de Mikami começou como um sussurro. - "O que você pensa que sabe sobre mim?"
Matsuda riu nervosamente. O horário da visita estava acabando, ainda que como detetive condecorado ele não precisasse seguir estas regras. O rapaz se levantou e apertou o botão para chamar os guardas. Antes de partir ele se voltou novamente para o prisioneiro.
"De alguma forma... nós temos algo em comum."
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Passado o natal Matsuda voltou mais vezes.
Seu feriado foi solitário, regado a bebida e à presença não muito animadora de Aizawa. O amigo era uma boa companhia, mas o detetive tinha muitas preocupações em seu sorriso. (Ele ainda o forçava, mas apenas para não constranger a bela família do detetive).
Seu 'feliz natal' foi muito pouco autêntico e seguiu-se de visitas inconstantes à cadeia.
Foi uma surpresa que Mikami tenha lhe respondida quando ele perguntou sobre seu feriado. O prisioneiro deu os ombros e anunciou em alto e bom som que já havia tido piores. Matsuda comentou do clima frio, da última notícia na tv e da expressão emburrada do carceireiro. Quando se acabaram os assuntos supérfluos o rapaz ficou em silêncio. Não era nenhum segredo o que ele estava fazendo ali e o que buscava com aquelas palavras tolas.
Algo familiar, porém invertido. Yagami Raito não era nenhum esquizofrênico. Certamente havia coisas iguais nos dois rapazes que eles conheceram... personalidades integradas. O Raito que Matsuda conheceu, o Kira que Mikami seguiu, não poderiam ser pessoas diferentes.
Mas Matsuda sentia tanto ódio de Kira... Tanto. Ele não conseguia entender.
Cada dia que passava o detetive tentava não pensar mais naquilo, enterrar as dúvidas que a figura de Mikami lhe ressuscitaram. Elas lhe assombravam, mais do que as lembranças da traição de Raito. Como teria sido beijar a boca de Kira? Ele se perguntava... Matsuda nunca teria ousado nada com Raito, nunca teria conseguido. Na única vez que encontrou Raito numa situação incômoda com L o rapaz parecia gentil, segurando o queixo do detetive com amabilidade. Matsuda apenas poderia sonhar com aquela gentileza, mas se perguntava se os beijos de Kira não seriam mais agressivos...
"Você conseguiu pegar aquele assassino?" - Foi na segunda visita que Mikami lhe fez uma pergunta, a primeira delas. Arrancou Matsuda de seus pensamentos.
Naquela tarde o detetive vestia um terno bem arrumado, mas seu cabelo estava bagunçado pelo vento da manhã. Suas olheiras melhoraram inexplicavelmente.
"Ainda não... L não me passou mais detalhes do caso."
Mikami sorriu, como se compreendesse o motivo por trás daquilo. O prisioneiro reclinou as costas para trás, relaxado naquela situação que se tornava cada vez mais comum.
"Eu espero que encontrem... Aquelas atrocidade não deviam ser assinadas por Kira. Ele está manchando seu nome."
"Kira também era um assassino."
A resposta de Mikami foi imediata.
"Você também é." - Matsuda engasgou com a dureza de suas palavras. - "Mas há um abismo entre as intenções desse louco e as de Kira... Qual é o sentido de citar Loveless?"
"Loveless...?"
Mikami umedeceu os lábios.
"A prisão está cheia desses idiotas achando que são Kira. Você tem idéia de como é revoltante ter de passar a sua vida escutando bandidos mancharem a imagem de alguém que voc-"
"O que você disse sobre a citação?"
Matsuda havia se levantado. Ele fitou Mikami com as mãos trêmulas e o prisioneiro lhe encarou novamente.
"A citação no corpo da vítima. Foi tirada da estátua do centro comercial. Um verso de Loveless." - O prisioneiro se calou por um momento. - "Vocês não sabiam dessa informação?"
Matsuda permaneceu surpreso, olhares levemente arregalados. O prisioneiro quase sorriu com a tolice daquela expressão. Quando Matsuda admitiu que não sabiam, e lembrou-se da proximidade de uma escola de arte próxima do centro comercial, o detetive agarrou seu casaco da cadeira e partiu com a promessa de voltar logo.
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"Você está confortável?"
Mikami concordou com um menear de cabeça, ele se sentia mais confortável do que em anos. De banho tomado, barba feita e uma roupa nova, o prisioneiro ouvia a voz de L saída daquele aparelho. Apenas suas mãos permaneciam algemadas.
"Você se importaria de repetir calmamente as informações, Mikami?"
O japonês suspirou. Ele deixou as palavras se formarem em sua boca, tudo o que sabia sobre a citação, sobre anjos de gelo e sobre as mortes de Dezembro. Não era muita coisa, mas Mikami não escondeu nenhuma informação. Para o rapaz, vivendo pela lembrança de Kira, a pior coisa seria ver algum assassino manchá-la.
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"Você deve estar com fome..."
Mikami não respondeu. O prisioneiro tinha as mãos algemadas e estava na mesma sala que Yagami Raito havia passado um mês todo. O japonês não sabia disso, mas as lembranças faziam Matsuda engolir em seco. Muito seco.
"Eu lhe trouxe algo para comer. L está investigando, isso pode demorar mais algumas horas."
"Eu não tenho pressa."
Matsuda deixou o prato. Certamente Mikami conseguiria comer sozinho e não havia nenhum assunto para tratar com o prisioneiro. Alguma coisa lhe mantinha alí... tolamente calado. O japonês obserava aquele silêncio com uma curiosidade vaga.
"Por que você foi me visitar mais vezes? Não foi para resolver esse caso."
Matsuda negou.
"Você espera compreender Kira através das minhas lembranças?"
Matsuda não soube o que responder. Não estava claro nele o que o levou a repetir suas visitas, mas não era por dúvidas quanto ao plano divino de Kira.
"Não é isso... Eu apenas queria entender." - Mikami suspirou. As frases disconexas daquele detetive estavam começando a irritá-lo.
"Eu não conheci Yagami Raito. Para mim ele não significa nada." - O olhar de Mikami era duro no rosto do detetive. - "O que você pretende descobrir?"
"Eu..."
Matsuda suspirou. Ele não sabia a resposta, apenas suspeitava. O rapaz nunca havia sido um detetive brilhante...
"O que você quer de mim?"
Os olhos de Mikami eram de um formato bonito, havia um pouco mais de cor em seu rosto. Matsuda murmurou palavras quaisquer enquanto tentava impedir seu corpo de se aproximar.
"Eu queria compreender..." - Os passos o trouxeram para bem próximo do prisioneiro, e Matsuda se ajoelhou ao seu lado, equiparando suas alturas. Mikami era tão inabalável... Se por um lado o rapaz ilustrava seus sentimento com a morte de Raito, - um desespero resignado-, o olhar corajoso do japonês sobrevivera aos anos. - "Eu queria..."
"Provar?"
O detetive prendeu a respiração por um momento que não foi muito longo. Mikami era um rapaz perspicaz, compreendia as intenções por trás de seu beijo. Quando Matsuda inclinou seu rosto para tomar aqueles lábios o primeiro beijo foi a carícia que ele nunca conseguiria de Raito.
O segundo, mais profundo e interessante, foi o beijo de Kira.
Mas em todos os outros foi Mikami quem ele beijou.
