Nota: Este capítulo possui linguagens chulas e de baixo calão.
NE T'EN VA PAS…
III
Marie estava sentada sobre o único degrau pertencente à entrada do Barbolla's Bar; vendendo seus sorvetes de múltiplos sabores encolhidos sobre uma caixa pesada de isopor. O sol mantinha-se presente naquele inicio de tarde. Tão alto e exageradamente quente tornando o tempo abafado e desprovido de qualquer ventilação que pudesse refrescar os habitantes da cidade.
Por um lado, abanava-se com uma capa de papelão encontrada aos arredores da rua, resmungando baixo contra o calor insuportável, por outro, se alegrava pelos caseiros sorvetes vendidos e o dinheiro recebido que seria muito bem-vindo, principalmente a ajuda - lá nas últimas dívidas chatas que precisavam com urgência serem quitadas.
Aproveitava o bar consideravelmente cheio desde manhã, falara com Raymond, um velho conhecido de muitos anos com qual tivera um breve affair na juventude; recebera carta branca para comercializar sua doce e saborosa mercadoria na porta do estabelecimento e ficara repletamente feliz e satisfeita.
Um sorriso sedutor surgiu entre os lábios cheios e vermelhos. Seus olhos de um Iris castanhos claríssimos diminuíram a densidade e ganharam uma expressão jocosa e quente. Aproximou seus lábios de Raymond por um instante sem, no entanto, tocá-lo diretamente.
Apoiou-se no balcão e abaixou o tronco facilitando a contemplação de seu decote vulgar.
"Prometo recompensá-lo por esta gentileza, meu querido. Em memória também aos velhos tempos... Se você ainda lembrar-se deles... Você se lembra?".
Raymond acenou com ambas as mãos, despretensioso, sua barba branca e rala mal disfarçando o vermelhão que tingira suas bochechas morenas.
Em resposta Marie piscou com divertimento e malicia, voltando a caminhar com sensualidade como se soubesse que aquilo chamaria sua atenção.
Narceu, ligeiramente zonzo pelos copos que esvaziara há pouco tempo, ria descontraído, sem se preocupar em parecer discreto ao presenciar de muito perto o desenrolar da cena.
"Cuidado, homem! A velha bruxa esta louca de vontade para que você tire as teias de aranha que se formaram na calcinha dela!"
"Não fale besteiras, Narceu. Marie é uma senhora respeitável e trabalhadora. Eu mesmo conheço seu marido e jogo bola com seus filhos".
"Eu não estou tão bêbado para não perceber o que acontece aqui!".
"Quando é que você não está tão bêbado? E esta cara feia não me assusta. Já faz três dias que você não volta para casa, companheiro! Você esta fedendo e deplorável. Pensa na tua esposa e no teu filho! Devem estar desesperados procurando noticias sobre você".
Narceu fechou a cara e se remexeu do assento, sem deixar que aquilo o amolecesse e tomando a observação por outro ângulo.
"Ah! Chega! No que isso lhe diz respeito? Eu pago por tudo que consumo não pago?".
"Não é este o caso, Narceu. Há quantos anos nos conhecemos? Você esta acabando com sua vida".
Não estava realmente com paciência para sermão, principalmente de quem não possuía moral alguma para profetizá-las.
"Vá se ferrar, Raymond! Se te preocupasse minha vida ou como eu a conduzo, me negaria qualquer bebida deste chiqueiro".
Ponto. Raymond se calou por um momento constrangido. Ele tinha razão. Devia tê-lo ajudado e auxiliado quando começara se deixar abater pelo vicio. Devia tê-lo negado a bebida, mesmo que no fim fosse procurar em outro lugar... Não devia ter sentido pena diante de sua tristeza, pois ela era de certa forma "natural" diante as circunstâncias. Poderia tê-lo ajudado como um bom amigo de anos a superar aquela difícil perda. Ele próprio que havia perdido um filho covardemente para a vida; Talvez pensasse que... Dando a ele o que queria para ajudá-lo a "esquecer" estivesse quitando a dívida por em outros tempos ter sido Narceu a consolá-lo a perda de Jonathan.
Sim, ele se sentia em parte culpado por ver seu amigo arruinado e arruinando a vida daqueles que o amavam.
Ajeitou as ultimas garrafas nas prateleiras que ficavam atrás do balcão e recomeçou a limpar os copos limpos e vazios na superfície de baixo com um pano meio úmido. Suas costas estavam viradas para Narceu; e ele pôde sentir o sorriso de escarninho atingir sua nuca. Suspirou resignado; o estragado havia sido feito, mas talvez houvesse alguma forma de tentar contorná-lo.
"E ter minha mercadoria destruída como da última vez? Eu assumo minha culpa. E ninguém mais que Deus para saber o quanto a carrego comigo; principalmente quando penso na sua família".
"Não me venha falar de Deus! Onde Ele esteve quando eu perdi minha família? Quando meu pai se foi sem que eu pudesse sequer dizer adeus? Quando minha vida desmoronou?".
Raymond suspirou aborrecido e se dirigiu ao caixa com o semblante fechado. Esgotado. Narceu desenvolvera o hábito indestrutível de culpar a todos por sua desgraça, menos si próprio.
"Volte para sua casa, Narceu. Não lhe darei mais qualquer bebida por hoje e nem nunca mais! Para o seu próprio bem! Um dia você irá me agradecer".
Sua voz saiu mais alta do que gostaria, chamando a atenção de alguns presentes mais próximos. Sabia que estaria arrumando uma briga feia e milhares de bêbados já se sentaram nas cadeiras do seu bar para saber que alguém quando bebe, se desinibe gradativamente; normalmente se forma negativa, e acabava por dizer sentenças que faziam feridas na alma que nenhuma ferida do corpo superaria.
"Pro inferno então! Se isto for fazer sua consciência podre ficar tranqüila!".
Não terminaria ali. Se afastou um pouco da bancada e ficou parado esperando ele atravessar o balcão e agarrá-lo com violência. Isto jamais aconteceu.
Narceu se levantou, cambaleante, e aproximou-se da área do balcão onde o outro se "escondia", desafiando e se irritando ainda mais por sua hipocrisia e covardia. Sentiu que fosse cair, mais sua raiva o fez sentir seguro. Apoiou uma das mãos no banquinho preso ao chão e outra apontou um dedo rente a Raymond; o faria engolir sua falsa preocupação e o diria onde enviar a pseudo-compaixão.
"Este chiqueiro está com os dias contatos! E sabe porquê?? Porquê nada em que você já colocou as mãos deixaram de fracassar! Esse é você! Um fracasso como homem!! Por isso sua esposa te deixou! Por isso seu maldito filho atirou na própria cabeça!! Porque você é um fracassado!! Acha que precisa ter pena de mim??? Sua vida é uma merda! Sinta pena de você mesmo; porque você é um maldito gordo escroto e fracassado!!!".
Raymond apertava as laterais do balcão com força, ferindo os dedos. Sua respiração ficou descompassada e os visitantes do bar, todos focando suas atenções para o grave bate-boca se calaram, assistindo o desenrolar daquela discussão. Alguns se excitavam, desejando presenciar algo trágico e violento. Marie estava indecisa e temerosa sobre o que aconteceria e o que deveria fazer. Narceu esperou ansioso por uma resposta verbal ou física que nunca aconteceu. Saiu do bar com esforço, caindo na metade do caminho e levando a baixo uma das mesas encostadas na parede.
Levantou-se, ignorou completamente todos os olhares e os cochichos e então se retirou, não antes de mandar todos do estabelecimento ao inferno.
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No Colégio Estadual MineOnópolis o silêncio seria surpreendentemente absurdo se não fossem algumas carteiras sendo negligentemente arrastadas pelos pisos caros de porcelana, criando ruídos altos e estridentes por um breve momento antes de se silenciarem por completo e darem lugar a fina onda de vozes que preenchiam alguns pontos do colégio. Conversas, discussões cá e acolá pouco mais altas que o normal para a saúde auditiva de qualquer ser humano. Logo mais a diretoria se faria presente em algumas salas dilatando longos sermões e ordens rígidas para que o silencio fosse restabelecido o mais rápido possível e todos voltassem suas atenções ao ensino primordial, ou entediante, como se imaginavam muitos alunos.
No terceiro e último andar, ao fim do corredor, a última sala do prédio estava com a porta encostada. As vozes lá dentro eram proferidas em sussurros cuidadosamente baixos para que não chamassem a atenção do rígido mestre que ocupava-se em manter a aula maçante virado a lousa e escrevendo automaticamente sua matéria.
Um adolescente, ao contrário de alguns colegas, apreciava intimamente a aula, como sempre. Seus cabelos azuis chegavam a um ponto logo abaixo das orelhas e sua franja, colocada atrás delas não dificultava a visão que se tinha ao escrever com atenção e obstinação.
Uns risinhos petulantes chegaram ao seu ouvido, e isto não desviaria sua atenção por um momento que fosse, se a razão dos tais risinhos não fosse ele mesmo. Eles vinham da parte de trás da sala, do fundo precisamente, e vinha se espalhando até chegar a metade, onde se sentava. Ignoraria como fazia, mas sentiu que um papel liso e meio amassado havia ido parar por debaixo de seus pés. Começara a ficar irritado, mas não deixaria transparecer. Ignoraria. Uma das vozes o chamou, pedindo que recolhesse o papel de seus pés e o devolvesse. Seu tom era maldoso e falso. Ignoraria. Outra voz se vez presente pedindo a mesma coisa.
Ignorar... Ou acabar logo de vez com aquela estupidez? Depois deixaria para lá e retomaria sua atenção a assuntos realmente relevantes e essenciais como a dita aula.
Se abaixou rapidamente, amassaria o papel e o jogaria no lixo. Era o que fazia.
... Jurou que não daria atenção ao que tivesse escrito, não queria dar esta satisfação. No entanto, seus olhos não impediram-se de dar uma rápida visualizada.
A imagem era a de um boneco escroto, feito através de tinta preta e vermelha. Seu rosto, ordinário, como se tentassem recriá-lo naquele ser bizarro estava deformado e torto; seu corpo era um simples circulo e estava coberto por um babador "manchado". Suas mãos e pernas eram simples gravetos e ao seu redor haviam "tentado" desenhar pratos de comida, como doces e salgados que qualquer criança de três anos desenharia igual ou até melhor. Acima da imagem estúpida, o título de "Bûche de Noel¹ – O Terror das Geladeiras."
Aquilo fez com que algo dentro dele balançasse... Novamente.
Os risos tornaram-se um pouco maiores, fazendo seu peito contrair-se pesado e suas maçãs do rosto corarem ligeiramente. Seu rosto era impassível, mas seu corpo tremia. Decidiu-se por terminar aquela palhaçada. Porém, antes mesmo de finalmente amassar o papel e atira-lo ao lixo, o sentiu sendo violentamente retirado de suas mãos sem qualquer aviso prévio.
Sua cabeça mirou a figura do seu lado com espanto e surpresa. Ele segurava o papel com ódio, suas bochechas e parte do pescoço estavam ficando notavelmente avermelhadas e "pipocadas" suavemente.
"Que fais-tu, mon ami?"
Mais Milo não se deu ao trabalho de responder, ao contrário; rasgou a folha em pedaços e a espalhou pelo chão. Ignorou o amigo sentado ainda o olhando em meio ao choque e se dirigiu para o fundo com o punho fechado, seus colegas tentaram segura-lo mais foi em vão.
"Quem foi o filho da puta que desenhou aquela merda?".
Mestre Dohko Rozan rapidamente se virou do quadro negro e encarou assustado e impaciente a confusão estabelecida ao fundo de sua sala. Sempre os mesmos "adolescentes rebeldes" interrompendo suas aulas... Aquilo estava acabando com sua pouca paciência, tudo que não precisava para esta semana.
Sem perder mais tempo, ameaçou os alunos que jurava serem os responsáveis pela distração de sua aula, não importando em saber se estava certo ou não, com severidade. Porém, parecendo não ter sortido efeito algum, pois antes mesmo de concluir suas citações presenciou três de seus melhores alunos levantando-se de suas carteiras e apressando-se em segurar um outro aluno que lhe dava sempre, de longe, mais trabalho.
Tudo ocorreu muito rápido. Em um instante Kamus estava se esforçando para segurar Milo pelos pulsos, impedindo de fazer besteira, em outro, estava no meio de uma briga de socos e chutes iniciada pelo próprio Milo após acertar um soco certeiro em Cesare Mascavari, ou até então conhecido como "Mascara da Morte"; uma fama tanto quanto conquistada e que se espalhara pelo colégio como areia no deserto. Imbecilidade dos parvos estudantes somada ao austero modismo. Segundo sua opinião.
E Kamus quando dera por si... Estava sentado em frente à sala da Diretoria e ao lado de Milo e seu tosco olho roxo, Mascara do outro lado da sala o encarando com sincera repulsa e dissabor; como conquistara tamanhas emoções para si ainda era um mistério. Estava junto a alguns outros membros de sua trupe que se juntaram a confusão.
Shaka e Mu também faziam companhia num silêncio respeitoso (e, diga-se de passagem, receoso, pois jamais, junto a Kamus, tiveram que ir a diretoria) e estavam sentados ao seu lado com alguns arranhões por tentarem separar a briga.
Enfim, aquela semana não poderia ter começado melhor.
Seus olhos deixaram Mascara e decaíram sobre o rosto do amigo. Ele estava emburrado e ainda corado, mas as "pipocadas" em sua pele haviam desaparecido.
Seus olhos azuis encararam o aluno italiano em desafio; enfurecia a maneira como ele sempre achava uma maneira de atormentar Kamus e este ao invés de se defender como... Como... Como um homem, preferia sempre ignorar! Isso era ridículo.
Aquilo tudo era ridículo! Qual era o problema afinal? Inveja de seu amigo? Kamus podia ser um "pouco" acima do peso, mas foda-se! Ele sempre foi assim, e ele sempre foi um puta de um cara; a pessoa mais honesta, madura, gentil, elegante, inteligente, e... E todas as coisas, que já conhecera!
Kamus era muito melhor que todos aqueles merdas! Melhor que seus corpos sarados e seus cérebros minúsculos! Quem eles pensavam que eram? Se ainda estivessem enchendo o saco dele... Mas era Kamus. E Kamus jamais tratava ninguém mal. Ninguém deveria tratá-lo mal também, não na sua frente pelo menos!
Merda... Não suportaria outro ano naquela situação.
Foi tirado de seus devaneios ao sentir seu braço sendo gentilmente tocado querendo sua atenção.
"Pourquoi Milo? Quel a été que dans la classe?"(2)
A pergunta baixa junto a um ligeiro tom de repreensão chegou aos seus ouvidos por meio de um sussurro que apenas os dois ouviriam. A resposta surgiu da mesma forma, apesar de ainda soar emburrada.
"Estou de saco cheio, Kamyu! Ele não deixa você em paz".
"Milo... Ele sempre fez estas infantilidades estúpidas. Você devia ignorá-lo".
"O quê? É o que você sempre tem feito! E de que adianta? Que merda foi aquela na parede do banheiro semana retrasada? Não entendo Kamyu... Ele te humilha publicamente de todas as formas e você simplesmente quer ignorá-lo!".
"Eu me preocupo com assuntos mais sérios, Milo. Assuntos realmente importantes.".
"Você é importante pra mim, Kamus".
O som saiu um pouco mais alto do que deveria e o assunto terminou ali. Kamus balançou a cabeça em desagrado, corando; se esforçando em não dar atenção aos batimentos acelerados de seu coração, muito menos as sensações quentes que passeavam por seu estômago. Não daria crédito ao amigo. Ficariam todos muito ferrados pela inconseqüência de Milo.
Mascara fingia ouvir o que seus amigos diziam sobre os quatro rapazes da outra parte da sala; Dizeres que passavam longe de qualquer senso do bom vocábulo e da simples educação. Seus olhos se cerraram discretamente, notando com atenção a forma como a "orca francesa" e o "filho do bêbado" se interagiam entre si.
Eles eram detestáveis. Aquela coisa toda entre eles... Dava-lhe ânsia de vômito.
E, no entanto, por meros segundos muito rápidos, no mais intimo de seu ser... Chegou muito rapidamente...
A Querer aquilo também.
Tradução realizada pelo Google.
¹: Bûche de Noel é um tradicional prato francês geralmente feito no Natal, ela é enrolada como um rocambole e recheada de alguns doces (que me fez engordar cinco quilos só de olhar).
(1): "O que está fazendo meu amigo?"
(2): Por que Milo? O que foi aquilo na sala de aula?
