Chegaram ao Largo Grimauld pouco tempo depois. Roxane olhava à sua volta, preocupada como eles conseguiriam divisar a casa de Sirius. Assim que Snape se aproximou de uma passagem entre duas casas, entregou-lhe um pergaminho.
– Leia depressa e decore – disse, certificando-se que não havia ninguém próximo. E ordenou secamente: – Vamos, ande.
Ela passou os olhos pelas linhas traçadas com a caligrafia bem cuidada e devolveu-lhe o bilhete.
– Evanesce – ordenou. E voltando-se para ela: – Concentre-se no que leu, e me siga.
Os degraus de pedra gastos surgiram a frente dela, conduzindo a uma porta preta arranhada, onde se seguiram paredes sujas e janelas opacas de fuligem. A maçaneta de prata tinha a forma de uma serpente enroscada. Não havia buraco de fechadura, nem caixa de correio.
Snape deu uma leve batida na porta, que rangeu ao se abrir. Ele entrou mergulhando na escuridão completa do que seria um hall, e ela o seguiu. O cheiro do aposento era adocicado, um misto de poeira e umidade, o local parecia condenado. Os candeeiros a gás nas paredes ao longo do corredor se acenderam, lançando uma pálida luz sobre o papel descascado da parede e o tapete puído do corredor.
Entraram em uma porta que dava em um aposento cavernoso com paredes de pedra, onde a única iluminação vinha de um grande fogão ao fundo. Havia uma longa mesa coalhada de pergaminhos, garrafas de bebida e cálices, e várias cadeiras amontoadas envolta dela. Se não fosse pela fumaça de cachimbo que pairava no ar encobrindo tachos e panelas pendurados num teto escuro, não se diria tratar de uma cozinha.
Foi quando Roxane notou a presença de três pessoas lá dentro, além dela e Snape. Dois homens aparentemente da mesma idade de Severus. Um possuía cabelos escuros e olhos cinzas; estava sentado, apoiando a cadeira nos pés traseiros. Jogou os cabelos para trás e a fitou intensamente. O outro tinha um olhar cansado como se tivesse passado a noite em claro, e cabelos castanhos lisos. Ela reconheceu ambos; Black e Lupin.
Em pé, ao fundo, estava um velho de longas barbas prateadas, olhos azuis cativantes e oclinhos meia lua, que dispensava qualquer apresentação. Fascinada com sua presença, ela sorriu de leve para Albus Dumbledore. Snape avançou até ele, colocando-se ao seu lado.
– Boa Noite – disse frio, sem dar muita atenção aos outros dois. – Prof. Dumbledore, aqui está a moça.
– Boa noite, Srta. Norris, é um prazer conhecê-la – disse Dumbledore com a voz calma e confortável. – Severus me disse que queria falar comigo, poderia ser aqui? Ou preferiria que fosse em particular? – Ele a fitou curioso.
– Não há necessidade, diretor – disse tão calma quanto ele. – Preciso de sua ajuda; tenho que voltar ao meu mundo, à minha vida. As poucas horas em que estive aqui já foram difíceis. Eu estou alterando a história desse mundo, o curso das coisas, e posso acabar fazendo ainda mais com tudo o que sei.
– Receio senhorita, que não posso ajudá-la como espera. – Ele a fitou. Não devia ter mais que trinta anos, cabelos e olhos castanhos claros, uma beleza comum, mas ainda assim atraente. Olhou para Snape e para os outros, e continuou: – Não sabemos quem, ou o que, a trouxe para cá; nem o motivo. Os feitiços do tempo são delicados, e lidar com eles é extremamente perigoso, ainda mais que não sabemos como veio parar aqui. Poderíamos abrir uma outra brecha no tempo e prendê-la entre as duas.
– Mas eu preciso voltar, professor. Pode ser um desastre para seu mundo me manter aqui, acredite – ela falou aflita. – Preciso ver meus filhos... – um soluço entrecortou sua voz.
– Ela está certa, diretor – disse Snape seco. – Se tudo o que contou é verdade, esses tais livros e fanfics, ou coisa parecida, colocam em risco nosso mundo. E ela sabe de tudo o que se passa aqui, chega a ser absurdo.
– Creio que ela já alterou nosso mundo a partir do momento em que chegou aqui – disse Sirius sorridente –, então se tiver que ficar... Será bem vinda aqui, por todos nós – falou suavemente para Roxane. E completou: – Meu nome é Black, Srta. Norris, Sirius Black. É uma honra recebê-la em minha casa.
– Obrigada, Sr. Black – Roxane murmurou, enquanto ele depositava um beijo em sua mão, sob o olhar atento de Snape.
– Srta. Norris, acredito que infelizmente não tenha só alterado nosso mundo como Black falou a pouco, mas ouso dizer que alterou o seu também. – Dumbledore pigarreou e prosseguiu: – Vocês têm razão em dizer que tudo o que sabe sobre o nosso mundo pode provocar danos irreparáveis, mas não há escolha, você está presa a nós. E estou certo, porém triste, em afirmar que você não tem para o que voltar; seu presente está sendo construído a partir das suas ações de agora. Sinto muito.
Os olhos dela marejaram, o pulso acelerou, o ar faltou, e o chão sumiu sob seus pés. Snape percebeu o efeito das palavras do diretor sobre ela e adiantou-se em sua direção, mas estacou repentinamente ao ver Sirius tomá-la nos braços, fazendo-a sentar na cadeira próxima à dele. A sensação desagradável de vê-la sofrer e ser acalentada por Sirius foi imediatamente sufocada, não iria se envolver mais do que já havia feito. Ele era o Snape, frio e impassível.
- Quer dizer que não tenho mais filhos... – Roxane não conseguia articular as palavras em meio as lágrimas que corriam. Olhava diretamente para Dumbledore.
- Precisamente, srta. – Seus olhos azuis estavam no dela, e de alguma forma aquilo era reconfortante. - A sua vida antiga deixou de existir. – Confirmou calmamente vendo-a cobrir os olhos com as mãos.
Os olhos pretos caíram sobre a mulher que soluçava com as mãos sobre os olhos e depois sobre Sirius, que a abraçou mais forte, e eles brilharam de raiva. Lupin levantara-se e trouxera um copo, que passou para as mãos trêmulas de Roxane, dizendo bondosamente:
– Beba, senhorita, vai acalmá-la. – Ele sorriu, tentando diminuir o impacto das palavras do Diretor. – Não será tão ruim permanecer um tempo conosco, já que nos conhece tão bem; e creia, faremos de tudo para ajudá-la – completou polidamente. – É um prazer conhecê-la Srta. Roxane. Deixe-me apresentar, sou Remus Lupin. Tente se acalmar, está entre amigos.
– O lobo tem razão, senhorita – Sirius falou, jogando os cabelos para trás displicentemente. – Podemos parecer maus à primeira vista, mas garanto que somos inofensivos – sorriu maroto. – É claro que Snape não é muito sociável, mas iremos controlá-lo.
– Sugiro, Black, que reflita melhor sobre suas palavras. Não sou eu que tenho que ficar trancado em minha própria casa. – Deu-lhe um sorriso cínico – Contudo, se quer ser útil, pense em alguma solução prática para essa situação delicada. Tente ao menos uma vez agir como um adulto, e não diga palavras vazias, desprovidas de conteúdo e sentido.
– Senhores, por favor... – a voz de Dumbledore soou firme no aposento. – Primeiramente, temos que escondê-la. O Ministério estará atrás dela em pouco tempo, e espero poder contar com sua ajuda nisso, Sirius – disse fitando-o por cima dos oclinhos meia lua, e vendo um assentimento de cabeça como resposta. – Este é apenas o primeiro passo, mas ela não poderá ficar presa o resto de sua vida dentro dessas paredes, e quero crer que possa contar, mais uma vez, com a ajuda dos três. Sem rusgas adolescentes. – Ele olhou de Sirius para Snape. - Temos que pensar no passo seguinte, não sabemos quanto tempo ela precisará ficar aqui. Acredito que perceberam que só há uma maneira de resolver o problema definitivamente; ela é uma trouxa, e só será aceita em nosso mundo se casar com um bruxo. Eu não ousaria fazer tal pedido a mais ninguém, a não ser a um dos três. Infelizmente, Lupin está fora de questão, e Black também. Severus?
– Não, diretor – ele respondeu ríspido. – Definitivamente, não. Eu...
– Agradeço sua preocupação comigo, professor, mas não há necessidade de tal atitude – ela o interrompeu, baixando os olhos para as mãos. – Sei o quanto é imprópria a união de um bruxo com uma trouxa e não quero impor minha presença à ninguém. Eu me preocupo com vocês. E sinceramente, ainda estou tentando assimilar toda essa informação. Não posso simplesmente casar assim...
– Eu não achei que viveria tempo o suficiente para ouvir uma coisa dessas – Snape disse frio. – Uma trouxa que se preocupa conosco... Tocante.
– Infelizmente, senhorita, não temos muito tempo para agir. – disse calmamente Dumbledore. – Quanto antes justificarmos sua presença em nosso meio com o casamento, melhor. Isso evitará quaisquer problemas com o Ministério.
– Talvez ela não se preocupe com você, Severus. Há uma esperança – disse Sirius. E voltando-se para Roxane, sorriu: – Eu caso, Albus – continuou ainda sorrindo. – Sei que não sou o melhor partido, mas tendo em vista a reclusão de Snape e a personalidade dupla do Lupin, não sobra outra escolha, diretor. – E continuou cínico: – Posso ser procurado, mas o nome da minha família tem peso, ninguém negará nada a ela, mesmo sendo minha esposa. O que me diz, Srta. Norris? Aceita?
Ela fitou Dumbledore, que sorriu bondosamente, assentindo com a cabeça, e num murmúrio respondeu:
– Sim, Sr. Black. E agradeço-o imensamente pelo o que está fazendo por mim. – Deu-lhe um sorriso carinhoso. Os olhos ainda intensamente vermelhos o encararam, atônitos.
– Então teremos um casamento em breve. – E virando-se para Snape, Sirius o fitou com cinismo, perguntando: – Quer ser nosso padrinho, Snape? Afinal, foi você quem achou minha noiva.
– Se me permitem – Snape disse frio, sem dar atenção às palavras de Sirius –, não posso me ausentar de minhas funções por muito tempo. E já que minha presença não se faz mais necessária, devo ir.
– Não, não ainda. Como padrinho, você deve presenciar o noivado – rebateu Sirius, sarcástico. – Só um minuto, já volto – disse saindo pela porta.
– Às vezes, ele exagera, e me custa acreditar que tenha trinta e seis anos. – Lupin sorriu para Roxane, enquanto a mente dela voou até suas amigas da internet, lembrou-se da sua mana, e o quanto ela se sentiria feliz em ver que seu Lupin era realmente encantador. Sorriu de volta.
Alguns minutos depois, Sirius voltou à cozinha com um lindo anel. Dirigiu-se para Roxane, tomando a mão dela entre as suas e colocando no dedo o anel, onde havia uma letra B cravejada de esmeraldas. Ela sorriu palidamente, encarando Severus, que a olhou com desprezo.
- Não terão como duvidar de que está comprometida com um bruxo de puro sangue, srta. Não com a presença desse anel em seu dedo. – disse isso fitando Snape pelo canto de olho, e continuou: - Apesar de que irão achar isso tudo uma loucura, não a importunarão.
- Não pense, Black, que lhe deu um passe livre com esse seu gesto tão eloqüente. – Sua voz soou como seda. Não gostava da idéia dela casada com Black, não com ele. No entanto ele fora suficientemente tolo em aceitar aquela situação imposta por Dumbledore, e no mais, ainda poderia tê-la quando quisesse. Roxane podia ser noiva de Black, mas seria sua amante o tempo que ele desejasse. Tinha absoluta certeza disso. Esse pensamento o fez crispar os lábios, e com uma satisfação explícita na voz completou: – Será importunada pelo Ministério no primeiro momento em que colocarem as mãos nela. Afinal, é o seu brasão que está nele. É praticamente uma mapa de seu esconderijo, não?
- Por que não coloca o seu então no dedo dela? – Sirius o interpelou mordaz – Talvez tenha mais prestígio junto ao Ministério.
– Desejo-lhe felicidades, srta., mas aconselho-a a não sair dessas paredes enquanto o papel do casamento não seja lavrado. – Encarou-a com pretos cintilantes, sem dar ouvidos às palavras de Sirius. E completou: – Não posso me demorar mais, diretor. – E com um meneio de cabeça de Dumbledore, Snape foi em direção à porta. Saiu enfurnando sua capa pelo corredor escuro.
Após a saída dele, Dumbledore e Lupin, sorriram. Infelizmente, Roxane continuava com os pensamentos presos às suas lembranças, à sua vida anterior... Nada daquilo existia mais. Uma lágrima rolou.
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N/A: Obrigada pelas reviews!!! Bjus no coração de todas! Um grande bjo à minha beta BastetAzazis que aniversaria hj. Bjus especiais à Sandy, Shey, Aninha, fefa, Na e Mana.
