Commedia
por Jodivise e Olg'Austen
Capítulo 3: Ame-a ou deixe-a
Sentindo o colchão roto novamente às suas costas, Robert deitou-se ao lado do corpo arfante daquela mulher que virara-se de lado para melhor enxergar o rosto lavado em suor para desagrado do rapaz. Não queria mirar nos grandes orbes azuis de tal prostituta. Não novamente. Quando o fazia, e mesmo que com pouca freqüência, sentia-se o pior homem do mundo, o mais baixo dos machos e mais ridículo dos de sua espécie.
Azul. Porque diabos aqueles olhos haviam de ser azuis e não castanhos? E porque cargas d'água ele os via, como numa alucinação, variar dentre tons de chocolate e carvalho? Não era o rosto de largos traços dela que Bob imaginava. Durante todo o ato, o rosto de Isabelle parecia-lhe oval. Seus olhos tornaram-se amendoados e inesquecíveis, enquanto os lábios delineados em vermelho voltavam-se rosados a lhe sorrir, somente. O sotaque da mulher de má fama não era francês, passava longe disso. Aos seus ouvidos, a fala portuguesa misturava-se ao inglês nos momentos de ressôo. Porem não foi somente o semblante e o timbre daquela que amava que ficaram em sua mente, estampados. Nem ao menos fora o nome da prostituta que chamara. — Você está bem?
—Não... — sentindo a própria respiração pesada, Robert saltou da cama, deixando Isabelle com a visão de sua traseira nua, metendo-se num par de calças o mais rápido que pudera.
— Aonde vai? — a dona de uma fina cabeleira dourada pôs-se de bruços a lhe chamar, estendendo-lhe uma mão. — O quarto é seu, mon cherie!
—Obrigado, Belle... — o taberneiro levou uma mão aos caracóis do próprio cabelo, confuso com as próprias atitudes. — Mas foi um erro...
— Como "semprre"?
Engolindo em seco, ele socara a camisa por dentro das calças, apertando o cinto ao redor dos quadris. — Me desculpe. — seus olhos verdes ardiam, se não por chorar, por somente arder visto que nunca se dera muito bem com o efeito das bebidas e da fumaça que emanava dos lábios daquela mulher sobre a cama.
— Vai"rezarr"? Pedir "perrdão" a Dieu? — Isabelle brincou quando o viu se achegar à porta. — Peça pela "Victorie"... Seja lá quem ela for.
Se não fosse triste, alegre também não seria. Mulheres como Isabelle não lhe cobravam nada por uma noite. Quando não estavam precisadas, ofereciam-se porque lhes apetecia estar nos braços do belo jovem taberneiro, alguém que não as maltrataria no decorrer do serviço e que se importaria ao menos em tentar fazê-las um tanto menos infelizes. Não era sempre, mas Robert sempre pensava duas vezes antes de aceitar. Às vezes negava. Em noites como àquela não o fizera.
As pálpebras de longos cílios negros pesavam, não de sono, mas de vergonha. Quando Bob se sentou por trás do balcão de madeira da taberna, conseguiu apenas deitar a testa naquela superfície e se maldizer pelo que fizera. Traíra a si mesmo mais uma vez. Traíra o amor que numa certa altura de seu passado lhe ensinaram a cultivar, e o fizera por puro ódio. Ao, horas antes, ver Victória sair na companhia de Benjamin, tudo que lhe tomou a mente fora o quanto que aquele pirata estúpido teria de sua amada. Teria o que ele jamais tivera ou algum dia viria a ter.
Como que segundos apenas tivessem se passado desde que ele deixara-se descansar, acalmando a própria cabeça ensandecida, algo lhe puxou os cabelos, uma mecha apenas, fazendo-o se pôr acordado e logo erguer a visão para a luz do dia que raiava a entrar pela fresta da porta fechada do estabelecimento. — Bom dia, meu leprechaun. — quem lhe despertara dissera no tom de voz mais adorado por si.
—Victória? — os faróis cor de oliva de Robert vidraram-se na moça amanhecida que lhe cumprimentara, sentando-se à frente da sua figura sonolenta.
— Eu quero leite. — ela puxara uma das canecas que secavam sobre uma toalha. — Vi o leiteiro passar pela janela do meu quarto... Anda, vai pegar na soleira. —pediu agitando o que tinha em mãos, impaciente como sempre estava pela manhã.
Robert assentiu com a cabeça, sorrindo abobalhado. Não estava sonhando e a dor latente em seu pescoço estava ali para lhe provar aquilo, mas saber que Victória dormira na pensão lhe parecera o maior dos devaneios, pois, para si, ainda por entre os lençóis de Benjamin Sparrow sua querida jazia.
Tirando as travas das portas, ele mirou-a sobre os ombros, certificando-se de que ela estava em trajes simples. — Passou bem a noite? — perguntou, abaixando-se a fim de puxar, pela meia abertura da porta, a leiteira de barro. —... Digo... Não que me interesse. — o rapaz falou, tentando soar desinteressado.
—Porque pergunta, então? — Victória mirara aquele que erguera a leiteira a fim de lhe encher a caneca. — Se não quer saber, não pergunte, Bob. — levantando os olhos da espuma branca formada com o sacudir do galão, Victória levou a caneca à boca, bebendo do leite.
Sem jeito, Bob paralisou-se, vendo-a devolver a caneca sonoramente ao balcão. No rosto tão adorável de Victória um bigode de leite fazia-se visível sobre os lábios, mas este logo fora lambido rapidamente pela justiceira. Desviando os olhos de si, o irlandês emendara: — Bobagem minha, Slaughter.
— Larga disso, Robert! — inesperadamente ela lhe socara um dos ombros. — Minha noite foi... Pesada. Dormi como uma porca. E a sua noite, como foi?
— A minha? — no tempo, as palavras de Robert pararam. —... Pesada. Dormi como um... Porco. — falara. Não mentira, pois, de fato, sentia-se um porco de tão sujo que se percebia. —... Sparrow?
Sacudindo os ombros, Victória sorrira. — Que tem ele?
Robert passou por debaixo do balcão, começando os afazeres do dia ao agarrar uma vassoura que jazia escorada à parede atrás de si. — Foi bom com ele?
— Foi ótimo.
—Ótimo! — fazendo um bico ele repetira, na verdade muito mais exclamando do que repetindo.
— É, ótimo. O navio é grande, tem poucos tripulantes, meia dúzia de palermas, só. Também está atrás do pai, alguém que ele jamais se equiparará... Principalmente no trato com as mulheres.
Robert só faltava quebrar o cabo da vassoura que segurava. Se fosse um tecido já a estaria torcendo de tão fortemente que a apertava. — Céus! Deu para saber tudo isso do Capitão Benjamin? Já percebe como ele trata as senhoritas?
— Sim. Não me segurou a porta da cabine nem puxou a cadeira para que eu sentasse... —a portuguesa brincou, antes de apontar um dedo para o taberneiro. — Robert onde é que está vendo a senhorita aqui?... Eu percebi que ele é um parvo... É sem jeito, só isso. Dividimos algumas garrafas de rum... Ele me falou da mãe e do quanto que a admira... É meio Édipo, sabe? — disse — Também me contou sobre os planos que o grande Jack baseado numa história que ouviu do grande Teague, e... Bom o verdadeiro Sparrow foi atrás do pai, que é o avô do Ben, e...
— Ben?
— É. Ben... — Victória estreitou os olhos, ensaiando um discurso. — É mais curto que Benjamin e dá pra gritar da proa, apontando-lhe um dedo, rindo da cara parva que ele estará fazendo quando eu lhe roubar o Commedia!
Soltando a vassoura instintivamente, Robert apoiou as mãos ao balcão, encarando a expressão sonhadora no rosto da moça. — É isso? Você quer o navio?
—Pois... — levando um dedo ao nariz reto do irlandês, Victória disse. —... Sim. Aquele navio tem que ser meu. Todos os mapas e toda a rota que ele está planejando seguir.
De dentro do bar/hospedaria a voz da proprietária fez-se ouvida, interrompendo os dois jovens que jogavam conversa fora — Devaneios logo no café da manhã... Sossega o facho, Victória!
—Olha... — tirando o dedo da ponta do nariz de Robert, que se prostrara hipnotizado pelos olhos da portuguesa, Victória lhe falara. —... Me deixa com meus planos, Otávia.
— Só não mete o taberneiro neles, por favor! — a garota de mesma altura passou o avental à cintura, caminhando em direção à porta da rua a fim de abri-la.
Olhando de Robert para a amiga, Vi meneara: — Nem lhe fiz o pedido... — disse erguendo uma sobrancelha. —... A propósito, Robert... Quer juntar-se a mim nessa aventura? Eu só ainda não sei como sequer iniciá-la, mas...
—Claro. — sem pestanejar e sem sequer dosar o fato de que a justiceira poderia estar apenas brincando, ele respondera.
— Isto é sério? — Victória afastou o tronco do balcão, mirando Robert. — Me ajudaria a conseguir o Commedia?
— Que história é essa?! — Otávia assanhou os longos cabelos cacheados num ato de nervosismo. —Estão doidos?!.. Os dois?
Girando o corpo em direção à outra, Victória falara: — Eu quero meu navio, Otávia! Só posso encontrar o Sea Lion se juntar uma boa tripulação e tomar aquele Commedia... Eu não quero o navio do Sparrow Jr. Quero o Sea Lion que é meu por direito! Mas só chego até ele se estiver com uma embarcação à altura.
— Para mim isso é loucura. — a de cabelos castanhos falou, mencionando o empregado. —E tu, Robert... És igualmente louco!
Crispando os lábios, Robert ensaiara ao respirar fundo: — Eu... Eu não sou louco! — o rapaz gaguejara de início, antes de franzir o cenho ao se dirigir a Otávia. —Eu não gosto daqui. Odeio essa ilha. Só há piratas nojentos, pessoas infelizes e ébrias! Eu não vim para o Caribe para virar taberneiro...
—Pois... — o rosto fechado da garota em avental ralhara. — Até parece que não te vi na companhia de uma dessas pessoas infelizes ontem... Mais ébrio que muito pirata, Bob!
O rosto pálido do irlandês esquentara, adquirindo uma coloração avermelhada ao mesmo tempo que o ar lhe sufocara a garganta. O que Victória pensaria de si se soubesse que passara a noite em companhias que simplesmente não condiziam com o seu discurso? — Eu...?
— Aye, Otávia! — para sua surpresa, Victória tomara a palavra, levando uma mão até uma das faces ardentes dele, estapeando-a. — É um homem, não o trate como criança!
— Eu não o trato como criança... Ele tem até mais idade que eu... Só não me cheira hipocrisia. Robert fala de Tortuga como se não fizesse parte dela. — erguendo os olhos até o taberneiro, ela falou, prendendo-se à expressão envergonhada do jovem rapaz. — Desculpe, mas é a verdade.
Slaughter mordeu um lábio, pensando na vida. — Bom... — disse, apoiando os cotovelos no balcã.o — Todos têm o direito de mudar...
—Bom... Boa sorte aos dois nessa mudança.
— Vem conosco! — a voz da outra lhe falou, fazendo Otávia ergueu os olhos de pronto a encará-la.
—Primeiro, você nem sabe o que fazer, Vi... Só quer encontrar e reaver seu navio. Segundo, meu lugar é aqui. Minha mãe me deixou o Faithful Bride, não posso abandoná-lo. E, em terceiro, não, obrigada.
— O Sea Lion é mais do que um navio.
— Me fala dele. — fora Robert a pedir, imitando a pirata ao se apoiar nos próprios cotovelos, sustentando um ar sonhador no rosto.
— Bom, seu safadinho... — Slaughter brincou com o fato de ter descoberto as peripécias que o taberneiro fizera à noite, fazendo-o sorrir, encabulado. — Vou contar o que sei e o que vi, hum! O primeiro Capitão Slaughter o roubou de um comandante nórdico... Há uns 50 anos... Depois o Joe o herdou... Para quem nunca tinha visto o mar antes de ganhar a embarcação, o falecido até que dava-se bem na água...
Robert mostrou-se curioso, erguendo uma sobrancelha ao perguntar: — Parecia com o que dizem do Pearl?
—Também não é pra tanto! — Vi levou uma mão à testa. —... Mas eu vou-te dizer... Joseph Slaughter I...
—...Seu sogro?
— 'Cá?— ela lhe jogou uma toalha na cara, levando Robert a sorrir. — Cala a boca, Robertino! ... Mas, sim, meu "sogro", dizem que ele era tão estúpido que, mesmo com vento forte a favor, obrigava a tripulação à remar... Era um capitão bem limpo, não havia festejos à noite e, quando atracavam em Tortuga, se os homens não voltassem antes do amanhecer eram abandonados.
— Joe era assim também? — o taberneiro de olhos verdes quis saber.
Victória abanou a cabeça, olhando para as próprias mãos como se o passado ali estivesse para ser lido. — Eu não sei muito sobre o Joe antes de conhecê-lo. O que sei de seu pai foi ele que me disse. Mas sei que ele gostava de festas e sempre que podia regressava à Escócia... Era meio sujo também.
— Sei que vai conseguir seu Sea Lion de volta, Slaughter. — a fala irlandesa de Robert lhe confortara. — Sei que vai...
— Nós vamos, Bob. Só preciso saber como matar o Pequeno Sparrow.
Ouvindo Otávia se mexer a fim de atender um cliente que aparecera à porta, Robert esgueirou-se mais para perto da pirata. — Deus não aprova mortes! ... Basta tirá-lo do Commedia. Aí, é só convencer a tripulação a te apoiar, Vic!
— Vic? Gostei do apelido e muito mais da ideia.
— Que bom... — o jovem abrira um sorriso, olhando os cantos ao se gabar intimamente.
— Você vem da Irlanda... — Victória foi ao seu encontro, apoiando uma mão à superfície ao se pronunciar na direção dele. — A pirata que mais admiro veio da Irlanda! —alcançando o rosto do rapaz com a mão livre, Vi lhe tocara os ínfimos pêlos que nasciam de seu cavanhaque, atraindo o queixo do tipo de origens celtas para si.
Robert mantivera-se estático, com os olhos arregalados a observar cada gesto de Victória. A moça mirou os lábios carnudos deste, colando a própria boca à alheia no instante seguinte, num quase beijo. Mesmo que não viesse a aprofundá-lo, a justiceira demorou a se afastar, o fazendo apenas quando Robert falara algo, em busca de uma resposta àquela atitude: — Slaughter...?
— Você mereceu, safadinho... — ela comprimira os lábios, sentando-se novamente ao banco, nem minimamente tímida. —... Foi pela idéia.
—Jesus... — Robert engolira em seco, dando um passo em falso. — Preciso me banhar. — disse, seguindo pelo interior do bar, sumindo de suas vistas.
Victória mantivera um sorriso, rindo da inocência alheia enquanto terminava de saborear o leite que restara ao fundo da caneca. — Ficou com calor... Que imoral! —brincou antes de ouvir qualquer coisa soar dos lábios da proprietária do bar que regressava ao balcão. Logo, a pirata investiu: — Que há?
— Nada!— Otávia segurava-se por não sorrir, vidrando os olhos negros no que fazia.—... Vocês dois são doidos... Só isso.
— Você sente saudades...? Sente saudades da sua mãe? Você não fala muito dela.
— Se eu sinto falta dela? — Aquela um tanto mais jovem que si falou, não se abalando nem um pouco com a pergunta. — Sim. Mas Eva Doormat não sentia saudades de nada... Se sentisse teria-me deixado ao menos conhecer meu pai... É... Eu sinto saudades, mas talvez fosse pior se eu não estivesse por aqui... Longe de Tortuga seria muito pior, tenha certeza disso, Vi.
—Pára... — a pirata ergueu uma mão. — Vou-me trocar. Tenho coisas a fazer e há mais de três anos que eu não choro. Não me faz ficar emotiva, Otávia. Agora... Vou atrás do Brand. Ver se ele ainda sabe dos outros...
—Victória, aquele homem te odeia.
— Não quero que me amem não! Prefiro que me odeiem...
Após se trocar, Victória saíra do Faithful Bride às pressas, rumo às pensões mais baratas e de má fama, próximas ao píer. Lá, encontrara-se com Brand nos braços de uma mulher da vida, mas, antes mesmo do final da manhã, o porco conseguira localizar cinco bons tripulantes, velhos conhecidos de Slaughter. Cinco lobos do mar que obedeceriam à moça muito mais nova que eles de olhos fechados. Não chegaram a acompanhá-la ao lado de Slaughter, mas conheciam suas histórias.
Ela lhes pedira fidelidade, acima de tudo. Pedira também informações quanto a Benjamin Sparrow, descobrindo que, ainda que o sobrenome lhe valesse de grande e boa fama, Ben não era dos melhores capitães. Era esforçado, mas sua tripulação não parecia muito contente consigo. O rapaz ia de porto em porto há meses, procurando notícias do pai, expondo velhos e temidos piratas a cair nas garras da marinha. E, foi sem receio algum que Victória pedira o menos provável de ser aceito: — Me ajudem a convencer os homens dele.
Incrivelmente, o líder de sua futura tripulação assentiu sem muito pensar como se já planejasse tal ataque há tempos. — Aye, Capitã.
—Espero que sejam apanhados! — Brand disse às costas dos outros, apenas para Victória lhe ouvir. — Espero que sofra tanto quanto fez o Slaughter sofrer... Menina!
Num ar de riso, a pirata não se abalara. — Ele não sofreu. Foi rápido.
— Ora, sua...!
Vendo-o tomar ar, Victória o interrompera. — Cala a boca, Brand! — disse. — Vem conosco.
— Eu não lhe sou fiel.
—Porque você se amotinou? — a garota perguntara, devolvendo o próprio tricórnio à cabeça. — Sério, quando eu cheguei aqui à Tortuga, jamais pensei que voltaria a vê-lo... Achei que estaria há milhas daqui, ao lado do Walls.
Brand mirou as águas além do píer. — Walls disse para que a jogássemos no mar. Não lhes demos ouvidos... Mas, sim, se há alguém que sabe por onde andam aqueles filhos da mãe... Esse alguém sou eu.
—Ajude-me e eu vou-lhe provar que nem tudo que disseram de mim é verdade.
— Então você diz que não matou o Joe? Diga a verdade!
Victória forçara uma expressão dura. — É lógico que o matei, paspalho! — ela bradara. —Se quer vir comigo esteja naquele navio — e apontou para o Commedia à distancia.—... À meia noite.
— É muito tarde... Até lá, já vão ter tomado a cidade.
— Eles quem?
Brand decaiu o tom de voz, aproximando-se dela. — Não soube? — por entre os dentes estragados ele lhe falara. — A Marinha está em missão. Farão uma limpeza na ilha. Desembarcaram ao Norte hoje cedo, resolveram tudo por lá. E tomaram o caminho daqui. Antes que o dia amanheça já vão ter limpado este lugar... é bom sair antes da primeira hora de amanhã, vá por mim... Piratas, prostitutas e bares que vivem de contrabando... Será tudo passado a pente fino.
— Tu! —Victória lhe apontara, apressando-se. — Vai passar um pente nesses quatro cabelos que tens! — o mencionar da vasculha que seria feita fez um arrepio subir pela espinha da pirata — Tenho que ser rápida! E não me abandona, seu seboso, hum!
Tinha pouco tempo para tanto que ainda havia de planejar. Victória chegara ao Faithful Bride pouco depois, alardeando a Robert primeiramente. O rapaz ficara paralisado ao balcão, tentando compreender a fundo o que se passaria ali na ilha. — Você e a Otávia podem ser... Levadas à forca?
— Pior do que sermos levadas à forca é ficarmos presas. — as prioridades de Victória não condiziam com o que mandava a regra. — Vamos ter que colocá-la naquele navio! Quer queira quer não queira.
"Vão colocar quem no navio de quem?" — Às costas de Slaughter a voz da amiga soara, ocupada demais com os afazeres do bar. —... Victória?
— Você vai ter que vir conosco. — Robert falara, levando uma mirada da pirata.
— Vocês dois. — a mais moça apontara de Victória para o taberneiro. — Parem de beber!
—Otáv ia, é sério. — a portuguesa investira, segurando um braço da outra quando está tentou contornar o balcão. — A marinha está a caminho daqui.
— Eu não devo nada a eles!
—Desculpa... — a dona dos longos cabelos pretos, então apanhados por uma fita pusera-se séria a falar. —... Mas os teus fornecedores de bebidas são piratas.
— É inevitável! — por mais que Otávia dissesse que nunca sairia dali, que não fazia nada de ilegal, embora seus fornecedores fossem de fato contrabandistas, ela sabia que não havia muito que fazer em face da marinha que se aproximava. —Minha mãe me deixou o bar e... Deus sabe o quanto que ela sofreu para manter esse pardieiro de pé, transformá-lo num lugar ameno... Robert! — e voltou-se para o rapaz. — Você sabe o quanto que eu tive de enfrentar pra continuar aqui...
—Otávia... — ele tentou lhe dizer, mas ela não lhe deixou.
—Que... — puxando uma cadeira, a garota de olhar negro, perdido, falou apoiando o queixo num dos punhos. —... Triste!
A justiceira tocou-lhe um ombro. — Não é hora para choros, Otávia.
— Eu não estou chorando... Mas... Como? Como vai... Como vamos sair daqui? — vendo a outra erguer as sobrancelhas, como se o óbvio já tivesse sido tratado, a de cabelos castanhos se levantara de pronto erguendo um dedo — Está falando sério? Vai roubar o navio do homem?
— Ele nem é tão homem assim... — Vi sorriu de banda, reparando num sorriso também formado no rosto de Bob. — Só preciso saber como tirá-lo do navio, para que possamos entrar e...
A resposta viera de onde menos se esperava. — Ele é homem. — Otávia falou. Conhecia os homens bem, embora nenhum contato quisesse com essa raça. Lembrando-se do claro exemplo que tinha em seu bar, ao seu balcão, ela falou: — E se há algo que deixa os homens bobos... São as mulheres.
—Discordo! — o irlandês se pronunciou, franzindo a testa.
— Concordo.— Victória lhe atropelara, deixando-o a meio caminho andado, com a frase entalada. — Qual o seu plano, Otávia Doormat?
—Traga-o pra cá. — a outra disse. — Seduza-o, embebede-o e tire-lhe as roupas.
Victória não se demorou a concordar. — Perfeito!
— Ele é um pirata. — Bob agarrou a toalha de sempre, jogando-a por cima de um ombro, afastando-se do balcão. — Não cai nessas.
— O pai dele cairia. — Slaughter deu de ombros, apostando tudo que tinha naquele plano.— Joe cairia. Você cairia, Robert.
Com uma careta ele se esquivou. — Não cairia não! Não faz o mínimo sentido!
—Cairia sim! — Victória rebatera.
—Lógico que não!
Puxando-o pela gola da camiseta, a pirata trouxe-o para perto, fazendo o irlandês se debruçar ao balcão, ficando há milímetros de si. — Cairia... Sim!
— De fato... — ele erguera os olhos, engolindo em seco. — Cairia.
O recado chegara às mãos de Benjamin por um rapazinho. O pirata não esperou até à hora marcada, chegando um tanto adiantado ao Faithful Bride. Pagava para ver se aquela pirata fujona iria mesmo mostrar-se fácil a si. Conhecia piratas. Conhecia o bastante para desconfiar destes e com Victória Slaughter não seria diferente. Pisara no bar cerca de meia hora adiantado. Sentara-se ao fundo e nem a dona do estabelecimento o notara.
Victória dissera à Otavia que esta não deveria sequer fechar o bar. O trio, somados à tripulação comandada pela justiceira, abandonariam Tortuga a qualquer momento e tudo deveria ser deixado como estava; para trás. A portuguesa se recolheu após o cair da tarde. Banhou-se, perfumou-se, vestiu sua melhor roupa e pediu para que o melhor jantar fosse entregue em seu quarto. A comida conteria, segundo a própria Otávia, uma boa noite de sono misturada ao melhor tempero da ilha. O herdeiro de Sparrow comeria com tanto gosto que em meia hora estaria adormecido em meio ao colchão da pirata.
Mas, meia hora era muito tempo. Em meia hora, Victória sabia, um homem como Joe, por exemplo, sempre conseguia o que queria consigo. Meia hora era tempo demais para se ficar cozinhando Benjamin. E, no fundo, ela tinha certeza que o filho de Jack não era estúpido. — Pai nosso que estás no céu... — Há anos a pirata não rezava, mas, naquele dia, a viúva de Slaughter pôs os joelhos novamente ao chão, pedindo por sorte e nada mais.
"Pode-se entrar?" — o timbre louisiano fora ouvido do lado de fora, acompanhado de duas batidas espaçadas à porta. Fazendo-o esperar propositalmente, Victória susteve o ímpeto que tinha de lhe dar a passagem. — Slaughter, está aí?
— Capitão Sparrow! — atingindo-lhe no orgulho, Victória chamou-lhe com distancia e respeito, aparecendo por entre a porta que entreabrira. — Pode entrar.
Os olhos negros de Benjamin miraram-na de cima, adentrando naquele cômodo de pensão, avistando logo a mesa que próxima à cômoda fora colocada, rodeada por duas cadeiras e um vaso com uma rosa solitária a enfeitar a toalha de renda. —Boa noite, senhorita Victória.
— Por favor. — pedindo pela casaca deste e em seguida por seu chapéu, Victória pôs estes sobre o roupeiro, mas nem por um minuto tirou os olhos daquele homem. Sparrow parara de observar o ambiente à sua volta, sentando-se numa das cadeiras, simplesmente. Sob a luz fraca do candeeiro o rosto de largos contornos se perdia em meio à barba rasa de um castanho muito escuro.
Franzindo o nariz inglês, Ben esboçara uma expressão antipática repassando os próprios pensamentos. — Alguma coisa me dizia que era um erro vir.
— E agora? — erguendo uma mão até o rosto alheio, Slaughter tomou uma mecha comprida dos cabelos dele, fingindo lhe acarinhar. — O que você acha?
— Está muito bonita, Victória. — impedindo-a de continuar com aquilo, ele lhe segurou a mão, afastando-a delicadamente de si. — Até me perguntei se era possível ficar mais bela do que já me parecia, mas conseguiu ficar. — Descendo os olhos pelo corpo daquela parada ao seu lado, ele parecera-lhe devorar ainda que muito mais lhe analisasse. — Parabéns! Conseguiu-me trazer até aqui.
— A única beleza que estou vendo aqui nesse quarto é a sua, Benjamin.
O homem sorriu calado, mostrando os dentes brancos tão perfeitos que trazia à boca. Porem, logo, os lábios rosados de Sparrow voltaram a se crispar e, apoiando os cotovelos à mesa, ele unira as mãos num gesto que denotava espera. —Engraçado...! Nem banho eu tomei... Não me perfumei, não planejei um jantar e nem pus uma mesa bonita com uma rosa vermelha no centro para o seu agrado... Mas obrigado pelo elogio.
— Fala como o seu pai... — Victória ensaiou recordar-se de algo.
— Não conheceu o meu pai... — Benjamin quedara-se sério, mirando-a de perfil. —...Por isso não fale dele.
— Está desconfiado, Sparrow. — Slaughter curvou-se ao seu encontro, levando uma mão à nuca deste, para depois tocar-lhe um dos maxilares barbado. — Acalme-se! — a moça emendara. Em seguida, Benjamin erguera o rosto ao seu encontro, recebendo os lábios da pirata por entre os seus, num beijo estalado que logo se tornara molhado. Num chiar de salivas, ela se separou. Na verdade, se separara quando percebera uma mão deste lhe rodear os quadris, aproveitando-se da posição em que ela se encontrava. — O jantar já chegou.
Só então Ben ouvira as batidas na porta. Otávia viera discreta. Entregara a bandeja e duas garrafas de rum à própria Victória, tratando de sumir em seguida. — Não estou com fome... — mirando o pernil assado sobre a mesa, ele fez pouco caso. —... De comida.
— Prove um pouco. — a portuguesa reforçara o pedido duas ou três vezes, antes de falar:— Conheço a dona da hospedaria. A comida é boa.
—Não... Não quero. — tomando uma das garrafas foscas, Benjamin puxara a rolha desta, levando-a à boca — Mas agradeço.
Se ele não queria comer, não seria Victória que comeria. Teria de embebedá-lo. E Deus sabia como era difícil embebedar um pirata... Eles agüentavam uma, duas, três garrafas ou mais. Porem, tratando-se de um menininho da mamãe, talvez Benjamin fosse fraco ao álcool. — Esses bons modos são ingleses?
— A parte inglesa que tenho não é de lordes londrinos, senhorita Victória. —Benjamin sorriu, limpando os lábios na camisa. — Por mais nobre que fosse a família de minha mãe, eram falidos e provindos de Liverpool. Pior do que isso só poderia ser se fossemos irlandeses, se bem que muitos lá são descendentes dos celtas... Tem mais alguma curiosidade? Não, não tenho muito de inglês. Sou um cidadão do novo mundo. Cresci no meio do índigo, em New Orleans... Fim de história.
—Interessante. — Victória colocava-se séria quando na verdade queria jogar tudo pra cima e sair dali, mas não o fez. Tinha um propósito e iria com este até ao fim.
Após um longo gole de rum, Ben debruçou-se à mesa, tocando o rosto delicado de Victória.— Conte-me sobre você, sua história...
— Eu não tenho uma. — Vi lhe segurara os dedos, fingindo acariciar a si mesmo com estes, ao conduzi-los pelo próprio rosto. — Fim de história.
Sparrow lhe mirava longamente, procurando qualquer falha em seu comportamento. — Ouvi dizer que matou seu próprio marido.
—Pode-se dizer que sim.
—Quantos anos tem? Vinte? — ele supôs. — Foi sem querer? Ou foi inevitável? O porco desgraçado lhe tentava toda noite, tirando o último pingo de dignidade que tinha a cada pedido indecoroso que lhe fazia?
Após ser atingida pelas palavras deste, Vi abanou a cabeça, fingindo-se serena. —Não... Eu queria o navio. Só.
— E agora quer o meu? — sem papas na língua ele perguntou. — Hum?
— Até ontem eu o queria... — ela tentou falar algo que não fosse "não" ou "o que é isso, Sparrow?!" —... É sério, até você me levar até ele eu queria o seu navio, Benjy.
—Benjy? — Benjamin sorrira. — E porque não quer mais?
— O tamanho dele é desnecessário. Pensei que fosse algo como o Black Pearl, mas é muito maior e a tripulação é parva. Não, senhor. Eu não quero mais o seu navio.— Victória disse, levando as mãos do jovem Sparrow aos lábios, beijando-se a pele que antes devia ser branca, mas que depois de alguns anos navegando tornaram-se morenas, dignas de qualquer homem do mar. —... Agora eu só quero uma noite consigo.
— Eu não sou idiota, Victória. Posso ter fama de burro, mas não o sou. — ele lembrou-se da noite passada. — Fugiu de mim, menina. Porque fugiria se estava interessada numa noite comigo?
Victória lhe largou a mão, saindo da mesa, trazendo consigo uma das garrafas de rum. —Você faz muitas perguntas Sparrow!
— É que as respostas são necessárias. — erguendo-se um tanto, ele girou a cadeira, sentando-se de frente para o encosto a mirar a figura dela que se sentara à cama bem forrada. — Eu não tenho muitas mulheres e vou-te dizer porque...
—Porque é grego? — tal pergunta escapulira nos lábios da pirata que logo emendou.— Esqueça. Continue...
Sustentando o cenho franzido Benjamin continuara a falar. — Eu não confio nelas. Todas são muito dóceis e solícitas, mas nenhuma é verdadeira. Eu não confio em mulheres. Você matou seu marido? Pode muito bem matar a mim que não sou nada seu.
— Ele era um péssimo marido. — inventando uma meia verdade, ela falou, levando as mãos ao rosto, tentando chorar. —... Me obrigava a amá-lo. Era terrível, cada noite... Cada noite um suplício. Depois que o matei... Aliás, depois que ele morreu, eu nunca mais consegui amar de novo, porque... Que diabos que é o amor mesmo?
Por um breve instante Victória lhe soou sincera. De fato em parte fora, mas para Benjamin havia sido por inteiro. — Tenha uma boa noite. — levantando-se rapidamente, ele ensaiou tocar a maçaneta da porta, mas um pedido dela lhe fez ficar.
— Faça-me companhia, apenas. Eu... Eu imploro!
Os adoráveis olhos castanhos de Slaughter fizeram Benjamin ficar. Mesclado em lágrimas, o olhar tristonho da moça partiu-lhe o coração. Entre histórias inventadas e uma, duas, três garrafas de rum e mais alguma outra que Otávia viesse a trazer, os dois piratas se colocaram bobos à cama, gargalhando de qualquer coisa dita, perdendo as roupas aos poucos, conforme o efeito do álcool subia-lhes ao sangue.
— E ele disse que... — Benjamin apoiara os joelhos ao colchão, folgando o cinto das calças —... Foram tartarugas marinhas que o trouxeram à costa. Todos sabem que... Ha... Ha... Uns contrabandistas que o salvaram da ilha...
— Aqui, ô. — dando uma garfada do jantar à boca de Benjamin, Victória sorria, mesmo que por dentro estivesse doida para que este dormisse e um tanto tonta de fingir-se bêbada. — Presume-se que você foi o único filho que ele assumiu, pois?
— Deve ter outros... — a cabeça do filho de Jack pesava. —... E uma vez ouvi dizer que havia um cara em Singapura que era meu irmão... Vai saber. Ele nunca me assumiu mesmo. Eu já tinha treze anos quando o conheci.
Puxando o tecido da camisa dele acima, ela pediu. — 'Tá calor aqui...
Benjamin não se importou, ajudando-a a livrar a si mesmo daquela peça, jogando-se ao colchão antes dela vir por cima de si, fazendo a cabeça do capitão do Commedia rodar em 180º graus ao se por sobre seus quadris. — Victória... O que está... Ha ha ha... — o roçar dos lábios dela em seu pescoço repercutiam-se em cócegas.— O que... Está fazendo?
— Te dando uma ajudinha... — levando as mãos pelo tronco desnudo deste, Victória tocou-lhe o abdômen, descendo os olhos pelos pêlos que morriam no limite das calças do homem, denotando uma pelugem quase negra que por ali se fazia.
Porem, sobressaltada, Victória susteve a respiração ao ver este se colocar sentado. —Espera aí... — Ele falou, pousando as mãos nas coxas que lhe rodeavam os quadris. — Eu fico por cima. 'Tá?
Olhando os cantos ela não teria outra coisa por dizer. — 'T.. 'Tá.
O corpo de Benjamin sobre si fazia-lhe tremer. Não porque o desejasse, mas por que tinha receio de que ele nunca lhe fosse dar uma trégua. Porem, aos poucos, os beijos que aquele palerma lhe dava ao pescoço foram se acalmando... Acalmando... Acalmando e... Se findaram. O peso morto do pirata adormecido encima de si fora difícil de ser afastado, mas com um pequeno esforço ela pulou para fora da cama.
À distância, ouvia-se o ronco de Sparrow a lhe babar o lençol. Porem aquele martírio ainda não se via por concluído. Puxando as calças marrons que Benjamin vestia, Victória o despiu completamente, deixando a figura patética sobre a cama, nu em pêlo. E pêlos em Ben eram muitos.
Recolhendo as outras peças do chão, Victória até engraçou-se do par de botas, mas ao menos isso deixaria para o agora ex-Capitão do Commedia. Saindo daquele quarto, Slaughter deu graças por ter conseguido passar por aquilo. Não sabia que horas eram, mas da meia-noite com certeza se aproximava.
Sua cabeça doía. Latejava, na verdade. Tudo à sua volta parecia rodar, mas mesmo assim Benjamin rolou à cama, abrindo os olhos num rompante ainda que tudo lhe dissesse para ali continuar deitado. Onde estava? — Slaugh...ter — exatamente, estava no quarto de Victória, em seus lençóis, tendo a pior das ressacas. Amaldiçoou o rum que a moça lhe servira e o mesmo à comida que lhe revirava o estômago.
O luar iluminava o quarto, deixando-o ver os raios luminosos passarem pelo vidro da pequena janela sobre a cama, projetando as sombras dos poucos móveis dali. —SLAUGHTER! — num pulo, ele se pôs fora da cama, terminando por quase tombar para cima da mesinha do jantar. Subindo ao colchão, Ben chegou-se à beira da janela. Aquela deveria ser a visão mais bela dos quartos daquela pensão, mas aos olhos negros do pirata era das mais tristes.
Reconheceria as velas do Commedia a zarpar em qualquer paisagem. Seu navio partia sem ele. Deixaram-no para trás e aquilo, ele sabia, só poderia ter o dedo daquela garota engenhosa de nome Victória. À medida que seu coração apertava, Benjamin saíra em disparada porta afora, sonorizando com o solado das botas a bater contra o chão. O salão do bar estava cheio e por este ele passara, atraindo os olhares de todos e os risos do menos sobressaltados.
Correndo em direção ao píer, Ben avistou um grupo de mulheres que sorriam quase em finas gargalhadas ao lhe encararem. O vento frio que lhe cortava a pele não era sentido por menos. Descendo os olhos pelo próprio corpo Benjamin viu-se nu, apenas de botas a pisar o chão úmido em madeira. Estava tão avoado e estúpido, sob o efeito de qualquer coisa que nem notara ao despertar. Tentou se esconder, mas ou suas mãos tapavam-lhe o sexo ou a traseira. Optara pela primeira opção, claro, antes de se atirar à água, no rastro do navio.
Aprendera a nadar e a isso deu graças à infância livre que tivera. Ainda que fraco, Benjamin esforçara-se por chegar até ao navio. Braçada por braçada, ao erguer os olhos para a embarcação, viu Victória lhe acenar do convés. — ADEUS BEN!
—Sua...! — o jovem capitão tentara lhe ofender com qualquer palavra que fosse, mas seu cérebro simplesmente não trabalhava corretamente e, ao fazê-lo, acabou engolindo água.
—OBRIGADA PELO NAVIO!
—Victória... — à beira da amiga, Otávia cruzara os braços, acompanhada do olhar de um dos tripulantes, um tipo gorducho, de aparência suja, mas de semblante piedoso. —... Eu sei que fui a mente por trás de tudo isso, mas...
A voz de Robert logo a interrompeu, sorridente. — Não adianta voltar a atrás.
— Olha, te cala Robert! — a antiga dona do Faithful Bride falara. — Eu vou ajudá-lo. Esse senhor... — disse, mirando os olhos amarelados do homem. — Nós vamos ajudá-lo. Ele vai morrer nessas águas... Está fraco por causa do xarope que pus no pernil e... Me desculpe.
Uma mão pesada de Brand segurara num braço de Otávia. — Faz isso e está fora da tripulação!
— Me solte!
— Solta ela, Brand! — Victória bradou. — Raios, Otávia! Porque tem que ter pena de todos? — a pirata mordeu o punho antes de gritar a ordem para os demais. —HOMEM AO MAR!
O imediato do Commedia, o tal senhor de olhos amarelados e a própria Otávia se esgueiraram ao convés, lançando uma corda a fim de recolher o nervoso Benjamin em meio às águas. O pirata veio a bordo, tremendo em frio. Desviando-se das risadas, fora-lhe oferecido um cobertor. Batendo os queixos a observar o semblante de cada um daqueles traidores, ele ensaiou dizer: — Amotinados!
—Capitão, elas nos... — o homem tristonho tentou falar, mas um grito do herdeiro de Sparrow o calou.
—Cale-se, Sr. Pintel!
Victória deu um ar de riso, chegando-se próxima àquele cujos cabelos escorridos jaziam ensopados. — Cale-se você. Não é mais capitão desse navio.
— É lógico que eu sou.
Em coro, fora ouvido dois homens gritarem: — É lógico que ele é!
—Brand, Sr. Lewis... — Slaughter falou com dois dos homens de sua confiança. —Levem-no para uma das cabines. O Sr. La... La... Como chamava? Lala?
— Lane.— ele próprio lhe disse.
—Enfim... — num suspiro, ela mostrou-se nem um pouco interessada. — O Sr. Lala vai se retirar por algum tempo. Alguém se opõe? — mirando de Pintel para Otávia que com um ar amargurado engoliam em seco, ela seguiu a falar. — Prossigam, então, homens.
XXContinuaXX
