Título: Segredo em dose dupla
Autor: Fernanda
Capítulo 4
Temperance olhou para os cacos de vidro e depois para Booth.
_ Booth ! – ela pegou a mão dele. – Booth, fala comigo ! Você pode me ouvir ?
Ele nem se mexeu. Parecia estar dormindo. Um dos monitores ligados a ele não parava de apitar e ela saiu pelo corredor correndo, a procura do médico. Quando ela o encontrou, o médico se assustou ao notar o quanto ela tremia.
_ O que aconteceu ? A senhora está bem ? – ele perguntou preocupado.
_ Ele falou ! Booth falou comigo !
_ Isso é pouco provável, Dra. Brennan. Deve ter sido impressão sua. – o médico disse compreensivo.
_ Ele disse "Bones" ! Eu ouvi ! Não foi impressão minha coisa nenhuma ! – ela retrucou irritada.
_ Bones ? E por que ele diria isso ?
_ É um apelido que ele me deu, doutor. – ela explicou.
O médico a olhava desconfiado quando duas enfermeiras se aproximaram.
_ Dr. Jurzik ! O monitor cerebral do paciente do quarto 32 está mostrando leve atividade. – uma delas disse.
O médico a olhou com espanto. Era o quarto do Booth. Todos correram para lá, deixando Temperance parada no lugar, tremendo dos pés á cabeça. As portas do elevador se abriram e Jared apareceu, olhando-a confuso ao encontrá-la fora do quarto.
_ Aconteceu alguma coisa, Temp ? – ele perguntou com um tom de pânico na voz.
Ela abriu a boca para falar e não conseguiu. Ao ver lágrimas nos olhos dela, Jared interpretou de maneira errada.
_ Não ! Deus, não ! Temp, me diga que não é o que eu estou pensando, por favor ! – ele pediu já chorando.
_ Não é ! – ela enfim disse. – Ele está voltando ! Booth está voltando !
Jared arregalou os olhos e a abraçou eufórico, rodando com ela pelo corredor do hospital. Eles choravam juntos agora, pois não cabiam em si de felicidade. Depois eles voltaram correndo para o quarto, mas foram impedidos de entrar.
_ Eu quero ver meu irmão ! – Jared exigiu.
_ Calma, senhor Booth ! As enfermeiras estão tirando-o do respirador artificial e estamos dando medicamentos para que ele recobre a consciência mais rapidamente. Precisamos fazer alguns testes neurológicos para constatar possíveis danos.
_ Se ele tivesse algum dano cerebral não teria me chamado de Bones ! – Temperance retrucou tão impaciente quanto Jared.
_ Eu entendo a alegria e euforia de vocês, mas nós temos que seguir as normas do hospital. Vocês só poderão vê-lo à noite. Quem sabe até lá eu não tenha notícias de melhora ?
_ Mas... – Jared queria argumentar que ele teria que trabalhar até a noite.
_ Sinto muito. São normas do hospital. – o médico disse e voltou ao quarto.
Jared praguejou baixinho. Temperance agradeceu quando uma das enfermeiras trouxe sua bolsa. Ele a olhou e sorriu.
_ Ele disse mesmo "Bonés" ?
_ Disse. E eu derrubei o vaso de flores no chão. Os cacos devem estar lá espalhados. – ela disse sorrindo, como há muito tempo não fazia.
_ O que você vai fazer até a noite ?
_ Bom, vou trabalhar. Não vai adiantar ficar aqui.
_ Eu não posso voltar pra cá hoje à noite, tenho relatórios acumulados, e agora que voltei, meu chefe não desgruda do meu pé. Promete que me liga, se ele acordar ?
_ Claro !
Eles saíram juntos do hospital e se despediram.
Temperance sentou-se no carro e apoiou as mãos no volante. Foi aí que ela notou o quanto tremia. Ela fechou os olhos e respirou fundo, várias vezes. Ficou pensando na reviravolta dos acontecimentos. Será que o médico tinha razão, será que Booth ficaria com seqüelas ? Ela não queria pensar numa coisa dessas. Booth jamais aceitaria viver com limitações.
Depois de quinze minutos sentada no carro, ela tomou uma decisão. Não podia ir embora. Pegou o celular e ligou para Cam, avisando que não ia trabalhar, preferiu omitir o acontecimento, para não dar falsa esperanças. Esperaria ele acordar de verdade para dar a notícia. Depois ela fez o caminho de volta ao hospital, passando pela lanchonete para tomar o café da manhã, afinal tinha que cuidar da saúde de seu bebê, e da sua, agora que teria que contar ao pai dele sobre sua existência.
Temperance ficava imaginando qual seria a reação de Booth. Ela tinha sido precipitada, ela sabia, mas a dor de perdê-lo a havia cegado para as possíveis conseqüências, e agora estava feito. Seu filho estava dentro dela, e por nada no mundo ela seria capaz de interromper aquela gravidez. E alguma coisa lhe dizia que ele jamais permitiria tal coisa.
Meia hora depois...
Temperance saiu do elevador e espiou pelo corredor, percebendo a ausência das enfermeiras. Ótimo para seu plano. Ela não ia se contentar em ficar na sala de espera, queria ficar com Booth. Ela andou pelo corredor sem fazer barulho e entrou rapidamente no quarto, fechando a porta atrás de si.
Lá dentro pode respirar aliviada. Ela sentou-se no sofá e abriu seu laptop, para registrar os últimos acontecimentos em seu diário. O tempo passou e ela nem percebeu. Temperance se assustou quando a enfermeira entrou no quarto para trocar o soro de Booth.
_ Eu não sabia que a senhora estava aqui, Dra. Brennan.
_ Desculpe, eu sei que o médico não queria, mas eu não pude ficar longe. Prometo não atrapalhar em nada !
_ Não se preocupe, ele foi almoçar e está atolado com os outros pacientes. Mas a esta hora, eu acho que ele já teria liberado sua entrada de qualquer maneira. Já passa das três da tarde.
_ Nossa ! Nem vi o tempo passar ! Preciso descer até a lanchonete para comer alguma coisa, mas não queria deixá-lo...
A enfermeira sorriu.
_ Se prometer não contar a ninguém eu trago um lanche dos pacientes pra você. Comida de hospital, sabe como é... Mas pelo menos a senhora continuaria aqui com ele.
_ Eu adoraria, muito obrigada !
Ela foi buscar o lanche e Temperance aproveitou para esticar as pernas e ir ao banheiro.
Mais tarde...
Temperance cochilou no sofá e acordou assustada. Pela janela do quarto ela notou que estava escuro. Olhou rapidamente para seu relógio de pulso, oito e meia da noite. Ela se perguntava quando e se Booth recobraria a consciência.
Ela abriu novamente o laptop e quase o derrubou no chão, ao ouvir a voz rouca.
_ Você nunca desgruda desse computador, Bones ?
Temperance deu um grito e se levantou, indo correndo até a cama. Os maravilhosos olhos castanhos estavam encarando-a, não era um sonho. Booth tinha um sorriso no rosto.
_ O que foi, Bones ? Um gato comeu sua língua ? – ele provocou. – Se você está aqui comigo, quer dizer que deu tudo certo ! Então por que essa cara ?
Ela tentou falar, mas a emoção de vê-lo vivo, junto aos hormônios confusos por causa da gravidez foram demais para ela. Temperance começou a chorar.
_ Eu prometi... a mim mesma que não ia fazer isso... – ela sussurrou baixinho.
Booth esticou a mão e pegou a dela, puxando-a para que se sentasse na cama ao lado dele.
_ Bones, o que foi ? – ele perguntou preocupado. – Você mesma me disse que eu ia ficar bem !
Temperance soluçou e Booth se sentou na cama, abraçando-a. Ela o agarrou pelo pescoço, sem se preocupar com o emaranhado de fios que o prendiam às máquinas, e chorou. Booth a consolava com palavras de carinho, afagando seus cabelos.
_ Bones, por favor, me conta o que aconteceu ! – ele pediu, preocupado com a reação dela.
Isso não era do feitio dela, e ele começava a ficar preocupado. Talvez tivesse acontecido algo grave enquanto ele se recuperava da cirurgia. As únicas vezes em que ela tinha chorado daquela maneira foi ao descobrir o corpo da mãe e quando pensou ter perdido o irmão. Aos poucos ela foi se acalmando e se afastou um pouco, mas Booth não permitiu que ela saísse da cama.
_ Desculpe por isso. – ela disse num sussurro.
_ Para com isso, Bones ! Você é humana ! Não se desculpe por ter emoções humanas !
_ Você estava morto, Booth ! – ela disse de repente, acariciando o rosto dele.
_ O que ? – ele perguntou de olhos arregalados.
_ Você foi desenganado pelos médicos. Eles iam desligar os aparelhos, mas Jared não deixou, e nós assinamos uma ordem judicial para interromper a ordem do FBI e do hospital.– ela despejou as informações de uma vez. - Quando eu penso que quase o perdi...
Ela parou e Booth sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Ele estaria morto agora, não fosse por seu irmão e por ela.
_ Quando ? – ele perguntou sem desviar os olhos dos dela.
_ Quando o que ? – ela perguntou confusa.
_ Quando eles pretendiam me desligar.
_ Há mais de duas semanas...
_ Quanto tempo eu fiquei em coma, Bones ?
_ Quase dois meses...
_ Meu Deus ! – ele sussurrou mais para si mesmo.
Continua...
