Capítulo II

O murmúrio da pequena multidão que se reunira para assistir à cerimônia parecia um troar de canhões aos ouvidos de Isabella, acostumados ao silêncio. Ela se movia como se estivesse sendo transportada para o espaço, tendo como sua única referência o homem que passara a desempenhar a figura central no novo caminho que se abria para o futuro.

Com sua força, Edward lhe transmitia segurança. Com sua firmeza, a conduzia. Com suas atenções, a fazia sentir bem como em tempos passados.

A capacidade de compreensão de seu guerreiro era o atributo que ela mais admirava. Quando outros teriam reagido com exasperação a seu medo, ele a ajudara a superá-lo. Como se ela fosse feita de cristal, Edward a colocou de pé, fez com que apoiasse a mão na curva de seu braço, e o toque final que afastou os últimos resquícios do pânico, foi seu gesto carinhoso de cobrir sua mão fria com a dele, grande, áspera, mas também cálida e companheira.

Pouco a pouco, o noivo a retirou da clausura. Sua voz calma conseguiu fazê-la dar o primeiro passo e o segundo. Os demais foram mais fáceis. Apenas agora, ao atingirem o último dos degraus, Isabella descobriu que prosseguir seria impossível diante da multidão que os aguardava.

— Você está indo muito bem — Edward a incentivou. — Estamos chegando à porta do salão principal.

Isabella estancou como se as pernas tivessem se transformado em chumbo. Nem sequer o incentivo sussurrado tivera o poder de suplantar o burburinho que parecia criar formas ameaçadoras ao seu redor.

— Não posso! — confessou, trêmula. — Há gente demais. O barulho é ensurdecedor.

Ele lhe soltou a mão e a envolveu pelos ombros, como um manto protetor. A sensação de conforto era indescritível. Isabella se entregou à doçura do gesto e se aconchegou ainda mais ao noivo.

Para resistir às agruras de sua vida, ela tivera de aprender a ser forte. Pela primeira vez, estava se entregando à força de outro alguém. Não importava que Edward tivesse sido enviado por seu irmão. Naquele momento, precisava se concentrar na paz que irradiava daquele homem. Seu noivo.

— Essa gente é sua conhecida. Os convidados se resumem às serviçais que a atendem e a meus homens, mais alguns poucos habitantes dos vilarejos vizinhos.

Isabella respirou profundamente.

— Parecem milhares. Eu estive só durante anos.

— Agora não mais.

Edward a abraçou mais forte. Para não se desequilibrar, Isabella apoiou-se na cintura dele, mas afastou rapidamente a mão, sentindo que corava.

As palavras brotaram, espontâneas. Edward não poderia explicar, nem sequer a si mesmo, a emoção que lhe inundou o peito ao dizê-las. Nem a revolta que o assaltou ao cogitar sobre o culpado por Isabella ter sido abandonada em uma propriedade tão distante da sede do reino aos cuidados de poucas e indefesas mulheres e de não mais de meia dúzia de homens de idade avançada.

A intensidade da revolta que dominou Edward obrigou-o a parar e a mudar sua fisionomia. Era seu casamento. O guerreiro não tinha lugar naquela cerimônia. Não queria assustar os convidados. Isabella não podia vê-lo, mas sua sensibilidade poderia captar suas vibrações. Faria o culpado, ou culpados, pagarem pelo sofrimento de sua noiva. No momento oportuno.

— O que houve? — Isabella perguntou. — Você ficou tenso de repente.

Edward se censurou por sua imprevidência.

— Não foi nada. Eu não estava conseguindo localizar o pastor no meio dos convidados e pensei que não gostaria que a cerimônia tivesse de ser adiada.

O tom subitamente frio desconcertou Isabella. Era uma tola. O que esperava? Estavam se casando por conveniência. O fato de ela ter enveredado por fantasias românticas porque gostara do conforto daqueles braços não significava que seu noivo tivesse de fingir um sentimento que não existia em seu coração.

— Estava procurando por mim? — o pastor indagou, naquele exato instante, como se tivesse se materializado à queixa.

Edward antipatizou com o homem à primeira vista. Algo em seu olhar ou em seu sorriso o incomodou profundamente.

— Sim.

— Compreendo sua pressa — o religioso assentiu. — Confesso que raras vezes tive a oportunidade de casar uma jovem tão linda como lady Isabella.

Ímpetos de empurrar aquele homem para longe de sua noiva não faltaram. Edward não conteve uma imprecaução quando ele, finalmente, se afastou em direção ao altar improvisado.

— Idiota!

— Ele me é intolerável — Isabella contou baixinho, e uma inesperada cumplicidade nasceu instantaneamente entre eles. — Ian foi aprendiz de meu pai. Tinha planos de servir como escudeiro. Até ouvir o chamado do Alto, algo que eu sempre duvidei, ele vivia correndo atrás das mulheres. Fiquei atônita quando ele foi designado como pároco desta região. Achei que meu irmão deveria estar por trás dessa nomeação. Os dois são grandes amigos.

— Como você o reconheceu?

— Sem poder enxergar, você quer dizer? — Edward sentiu que corava a sua indiscrição. Isabella prosseguiu, contudo, sem demonstrar ofensa. — Nós somos mais do que um rosto e um corpo. Cada um tem seu jeito próprio, suas particularidades. Eu conheço Ian desde criança. Mesmo que não tivesse reconhecido sua voz, teria identificado seu modo peculiar de falar.

A camaradagem entre Edward e Isabella fez com que a animosidade inicial logo desaparecesse.

— Idiota ou não, a celebração de nosso casamento ficará a cargo dele.

Um arrepio de gelo percorreu o corpo de Isabella a essa declaração. Com total espontaneidade, ela se virou e apoiou a mão no peito de Edward.

— Você tem certeza de que quer fazer isto? Que não há outros meios para você se apropriar destas terras?

A observação soou quase brutal em sua franqueza. Edward hesitou.

— Você quer desistir? Está querendo me dizer que não deseja se casar comigo?

Isabella não precisou de mais do que alguns segundos para descobrir que não havia saída para sua situação. Se não fosse com Edward Beaumont, seria com outro. James jamais a deixaria em paz. Edward era gentil, ao menos. Ela precisava enfrentar a realidade. Seu casamento não era para ser um acontecimento feliz em sua vida; significava sua própria sobrevivência.

O silêncio de Isabella foi interpretado como concordância. Ela não saberia afirmar ao certo, mas pareceu-lhe ouvir um suspiro de alívio antes que Edward a beijasse na testa e a chamasse para que prosseguissem em direção ao altar.

A cerimônia ocorreu como um sonho. Uma névoa pareceu envolvê-la. Ela sentiu como se flutuasse no ar e apenas a voz máscula de Edward conseguisse trazê-la de volta para o presente, em sua jura de eterna fidelidade.

Sua alma vibrou com o beijo que ele lhe deu. Um beijo que selava promessas de amor e de respeito. Foi um momento mágico em que ela conseguiu esquecer a ameaça velada que significava qualquer ligação com James. Porque, em última instância, Edward chegara até ela a mando de seu irmão.

A multidão, fosse pela curiosidade com que testemunharam o pacto, fosse pela surpresa diante do beijo prolongado, trouxe Isabella de volta à Terra somente depois que Edward os convocou para que prestassem suas homenagens ao novo senhor de Shadowsend Keep e sua esposa. As vozes se elevaram em votos de felicidades.

Colocada em uma cadeira de braços, Isabella se portou com a altivez e a dignidade de uma rainha em seu trono. Edward permaneceu em pé durante esse tempo, a seu lado direito, e Renée do lado esquerdo.

Cada convidado se apresentou aos noivos, curvando-se em uma mesura. Isabella agradeceu com uma inclinação de cabeça. Não conseguia parar de pensar, contudo, que as histórias sobre o mistério da dama reclusa haviam chegado ao fim, para outras começarem a respeito da esposa cega do enviado do rei.

Ao anúncio de que o último convidado acabara de se retirar, Isabella quase chorou de alívio. Estava exausta de tensão. Seus nervos estavam em frangalhos. Assim mesmo ela se levantou sem ajuda. Precisava ficar sozinha. Não suportaria por muito tempo mais demonstrar uma firmeza que estava longe de sentir.

— Quero ir para meu quarto.

Edward a segurou pelo braço. O calor de sua mão a tentou por um instante, mas o medo venceu.

— Renée me levará.

Percebeu pela súbita tomada de ar de Edward que ele se sentira desprezado e humilhado com sua recusa. Fingiu não notar, mas se questionou sobre a prudência de tal atitude assim que Renée a atendeu e a deixou sozinha.

As lágrimas não mais puderam ser retidas. Isabella escondeu o rosto com as mãos e permitiu que vertessem livremente. Já não sabia o que era real e o que era falso em sua vida transformada de forma tão radical da noite para o dia. A mulher romântica que existia dentro dela chegara a acreditar por alguns instantes no compromisso daquele beijo. O peso daqueles olhares curiosos se revelara uma dádiva, de certa forma, por ajudá-la a retomar a dura realidade.

Agora sua deficiência fora revelada aos quatro ventos. Até mesmo seu mais recôndito segredo lhe fora roubado. Por Edward. Não podia permitir que o marido tivesse todo esse poder sobre ela. Se relevasse ao esquecimento o fato de ele estar em sua vida por interferência de James, seu odioso irmão seria o vencedor.

Controladas as lágrimas, Isabella suspirou. Parecia simples, mas era extremamente difícil. Fazia tempo demais que alguém não se importava com ela e lhe oferecia o conforto de um abraço. Seu padecimento se tornava menos real cada vez que Edward se apresentava a seu lado. Com seu charme rústico, ele representava um perigo a ser evitado a todo custo.

Alheio aos pensamentos tenebrosos da esposa, Edward se encaminhou para a mesa colocada no centro do ambiente. Estava empoeirada pela falta de uso, mas a excelência da madeira era inegável. Dera ordens para que aquele, como todos os demais cômodos fossem limpos do chão ao teto. Ele saberia valorizar seu patrimônio e fazer com que fosse respeitado. Deixara claro a todos que vinham servindo a Isabella e agora a ele, que pretendia inspecionar cada canto e recanto da propriedade e da mobília porque aprendera a importância de cada realização.

O carvalho sólido sob suas mãos, contudo, não estava lhe proporcionando a satisfação que esperara durante o longo trajeto até as terras do norte. Faltava algo. Poder e bens materiais de repente o faziam sentir ainda mais vazio do que antes de sua cerimônia de casamento.

Um frio estranho parecia ter se apoderado de suas entranhas desde que Isabella repelira sua ajuda e o mal-estar só estava crescendo e aumentando com o passar das horas. Por mais que tivesse tentado negar o fato, o gosto amargo da rejeição sobrepujara o prazer da vitória. Ocupar a mente e o tempo com tarefas não surtira o efeito desejado. Instruções foram transmitidas no sentido de que um banquete fosse organizado para acontecer naquela noite. No dia seguinte, os estábulos seriam preparados para a chegada dos cavalos que ele mandara vir de Gales.

O aroma que vinha da cozinha antecipava o êxito que seria a festa. Seu apetite estava aguçado após os rigores da viagem. Um apetite que se estendia por seu corpo cada vez que ele se lembrava da suavidade do corpo feminino entre seus braços e do beijo intenso que haviam trocado ao final da cerimônia que os consagrara como esposo e esposa.

O toque fora rápido, mas o ardor daquele beijo ficara impregnado em todo o seu ser. Para sempre. Com sua inocência, Isabella transformara seu universo. Barganhas, obstáculos, ódios, tudo o que pudesse haver de mal no mundo fora esquecido naquele breve momento. Porque, com seu inesperado procedimento, Isabella o empurrara de volta ao abismo do qual não conseguia sair, por mais que lutasse para se salvar.

A chegada de Renée o trouxe de volta ao presente perturbador.

— Milorde.

O modo submisso com que a serviçal se colocou à porta o fez notar seu constrangimento. Endireitou os ombros para que ela não interpretasse sua postura como sinal de fraqueza. Em seguida, ignorou o mau estado em que se encontrava a cadeira atrás da escrivaninha e sentou-se. Antes não o tivesse feito, o móvel estalou a seu peso. Só faltava a cadeira quebrar e derrubá-lo. Sua desgraça, então, estaria completa.

— O que deseja?

— Vim avisá-lo que milady está repousando para a festa.

Edward ergueu uma sobrancelha em franca demonstração de surpresa pela inutilidade da informação. Obviamente Isabella teria de se apresentar à comemoração de seu próprio casamento. Seria de esperar que estivesse descansando e se preparando para a noite.

— Há algo mais importante que queira me dizer?

Era a chance pela qual Renée vinha esperando desde a chegada de sir Edward. No mesmo instante, ela entrou na sala e fechou a porta.

— Peço que me diga se a atitude de milady o ofendeu.

— Não mais do que ela pretendia fazer — Edward respondeu com fingido descaso.

Renée suspirou.

— Ela não tinha nenhuma intenção de ofendê-lo, milorde. O que disse foi em reação a seus próprios pensamentos.

Renée percebeu que sua explicação soara confusa. Mais ainda quando ouviu as palavras seguintes:

— Isabella não poderia ter sido mais clara em sua aversão ao que acabara de acontecer. Seu comportamento foi uma demonstração legítima de sua falta de interesse por mim.

— Não! — Renée retrucou, enfática. — Não foi isso! Milorde não entendeu a situação. Milady estava assustada demais para se comportar de maneira lógica e sensata.

— Assustada? O que havia a temer? Eu a ameacei por acaso?

— Não é ao senhor que ela teme milorde. Seu medo antecede a ordem que ela recebeu para lhe entregar estas terras e a si própria em casamento.

— De que você está falando?

Renée prosseguiu sem se importar com a fúria que transformara o semblante de seu novo amo.

— Não é ao senhor que Isabella teme, mas ao irmão.

A declaração exerceu um efeito paralisante sobre Edward.

— Isabella tem medo do irmão?

— Sim. Eu não tenho conhecimento de todos os horrores que ele lhe fez, mas sei que lady Isabella treme só em se lembrar de sua tenebrosa figura. Sir James a visita a cada três meses. Nesse período, recebemos ordens para nos afastar e só voltarmos depois que ele deixa a propriedade. Invariavelmente, a encontramos encolhida em um canto, como se tivesse sido mortalmente ferida, embora não haja evidências de sangue.

— O que ele vem fazer aqui? Por que a visita com tanta frequência?

— Ninguém sabe. O que acontece fica apenas entre os dois. Milady se refere à situação como se fosse uma espécie de jogo. Um jogo em que ela não tem nenhuma chance de vencer.

Edward se surpreendeu com a força com que seus dedos haviam agarrado o tampo da mesa. Um ódio feroz pelo monstro que fizera de sua esposa a criatura frágil que se apresentara a ele o levou a jurar a si mesmo que saberia compreendê-la e protegê-la a partir daquele momento.

— Eu mudarei as regras desse jogo, seja qual for — Edward prometeu.

— Apenas se ela permitir — Renée decidiu confiar naquele que sua intuição dizia ser a única chance de salvação para a mulher que considerava como uma filha. — Para lady Isabella, milorde também é seu inimigo, uma vez que foi James quem o escolheu para desposá-la. Para ela, o senhor faz parte desse jogo. Milady o teme porque acredita que veio para cá como o grande trunfo do irmão.

Edward franziu o cenho.

— Ela lhe fez todas essas confidências?

— Sempre conversamos. Eu sou a única pessoa a quem ela concedeu o privilégio de sua confiança. Mas desde sua chegada, ontem à noite, milady preferiu ficar sozinha. Eu estou preocupada que ela não resista ao tumulto em que se afundou sua mente.

Por um momento, Edward chegou a esquecer a presença de Renée. Nunca antes fora invadido por um ódio tão absoluto que chegava a corroê-lo por dentro. Precisava se conter. Precisava manter a mente clara e serena para pensar em uma estratégia que o levasse à vitória. Porque o irmão de Isabella acabara de se tornar seu maior inimigo.

James Colebrook se tornara o homem de confiança do rei por suas intrigas. Que o miserável o tivesse usado para manipular Isabella em seu ignóbil jogo de perversão estava acima de sua capacidade de perdoar. Nada poderia justificar que ele o tivesse usado como uma arma em sua guerra particular. Porque quando havia vítimas, não se podia chamar de jogo, mas de guerra.

Um sorriso selvagem brotou dos lábios de Edward ao considerar que James Colebrook cometera seu primeiro erro naquele sórdido plano. Edward Beaumont não era alguém que pudesse ser usado por um dos parasitas da corte. Principalmente para ferir alguém que ele tomara sob sua proteção.

E Isabella lhe pertencia agora.

— Você me fez entender o que houve. Eu lhe sou grato por ter me contado o que sabia. Prometo que não se arrependerá de sua consideração.

Renée deixou escapar um suspiro de alívio que não percebera estar contendo.

— Fico contente por milorde não ter interpretado minha atitude como uma impertinência, mas eu conheço lady Isabella e sei que o medo a domina a ponto de obscurecer sua razão.

Edward entrelaçou os dedos e apoiou os cotovelos na mesa. Ele estava apenas começando a se inteirar dos fatos. Não sossegaria enquanto não resolvesse a situação.

A capacidade de liderança de Edward trouxe uma nova vida a Shadowsend Keep. Antes que o sol se pusesse, o salão principal havia se transformado. O chão e os móveis reluziam aos últimos raios do astro-rei. Mesas haviam sido trazidas para acomodar todos os convidados durante o lauto jantar que seria oferecido em homenagem aos noivos. Azevinhos enfeitavam os arcos das portas e arranjos com laços de fitas haviam sido colocados em cada mesa. Um ar festivo impregnava o local. A agitação era constante com os criados se deslocando de um lado para o outro. A atmosfera lúgubre que Edward detectara em sua chegada parecia pertencer ao passado. Agora, uma nova esperança parecia brilhar em cada olhar.

Tecidos vermelhos formavam uma cúpula sobre a mesa que ele ocuparia com Isabella. As cadeiras também haviam sido adornadas com fitas da mesma cor. Caçadores haviam trazido animais para serem assados e costureiras haviam trabalhado horas a fio para compor os trajes especiais para o grande evento.

Edward não poderia estar mais satisfeito em seu papel de anfitrião, observando seu povo se divertir e se regalar em sua festa de casamento. Como noivo, porém, ele se viu se obrigando a recordar as palavras ditas naquela tarde por Renée em confidência. Por mais que ele quisesse acalmar Isabella e despertar sua fé de que ele zelaria por sua felicidade e segurança, o momento ainda não havia chegado. Restava a ele apenas aguardar e admirar em silêncio a esposa mais linda com que poderia ter sonhado.

Isabella havia trocado a veste cor-de-rosa da cerimônia matinal, que a fazia parecer um anjo, por um vestido de veludo vermelho que aderia a suas curvas tornando-a a mulher mais desejável que ele já conhecera. Uma sensação inédita havia sido despertada em Edward à visão dos seios revelados pelo fundo decote. Cada vez que surpreendia olhares masculinos voltados para sua esposa, Edward precisava se ordenar a manter o controle. Fechava os punhos, mas seus dedos teimavam em abrir no ímpeto de tocarem os cabelos de Isabella. Eles brilhavam como ouro à luz das velas, cuidadosamente trançados com fios dourados por toda sua extensão.

Quem acompanhasse a trajetória de Isabella pelo salão não adivinharia que cada passo constituía uma ameaça de desfalecimento. Somente quando ela se apoiou no tampo da mesa, foi que Edward percebeu a força com que sua esposa se agarrara ao braço de Renée. Levantou-se e foi recebê-la. Ela o saudou com uma mesura e aceitou que ele a conduzisse até acomodá-la em sua cadeira. Depois disso, ignorou-o. Ignorou a tudo e a todos.

Manteve-se rígida, com as mãos repousando no colo, quando as bandejas foram trazidas para o salão e as iguarias servidas aos convidados. Sua postura não mudou quando os murmúrios de satisfação ecoaram ao seu redor.

Pareceu se fechar ainda mais em seu casulo, se isso fosse possível.

Embora ninguém pudesse notar, Edward não afastava seus olhos da figura de sua esposa. Ela nem sequer tocou em seu prato. Fazia questão de demonstrar que não se considerava o motivo principal da festa.

Edward a teria sacudido se o gesto fosse lhe devolver sua essência. Não queria uma estátua para esposa, mas a mulher adorável que beijara aquela manhã e que retribuíra seu beijo.

— O sabor da comida supera seu aroma — ele disse, por fim, incapaz de suportar a tensão que se criara entre ambos. — Eu diria que é a melhor que eu já provei.

— Fico contente que tenha apreciado os talentos de nossa cozinheira.

— Por que você não experimenta? Poderá se sentir surpreendentemente melhor. A menos que sua intenção seja se fazer de mártir perante seu marido.

— Você não poderia estar mais errado — Isabella retrucou. — Não estou sem apetite. Apenas não consigo comer diante de outras pessoas desde que sofri o acidente. Não é fácil usar talheres sem enxergar o alimento e eu não farei de mim um espetáculo, utilizando apenas as mãos, para satisfazer sua perversa vontade.

Um intenso rubor substituiu a expressão cínica de Edward. Não lhe ocorrera em nenhum momento que o banquete fosse constituir uma tortura para Isabella. Era de praxe celebrar bodas com festas. Ele pensara em seguir a tradição. Em vez de agradar sua noiva, fizera com que ela o desprezasse ainda mais.

— Por que você não me disse isso antes? — Edward protestou, tentando, sem êxito, esconder seu embaraço.

— De que adiantaria? — Isabella encolheu os ombros.

— Adiantaria que você não estaria passando fome na festa de seu próprio casamento — Edward respondeu, sério. E sem que Isabella percebesse, ele encheu a taça na frente dela de vinho, aproximou mais sua cadeira e disse:

— Eu vou alimentá-la. — Ele levou a colher até os lábios rosados que o fizeram lembrar novamente o beijo e a fez entreabri-los.

— Eu não...

Aproveitando o ensejo, Edward a fez comer uma pequena porção de carne. Atônita, Isabella não soube como reagir no primeiro instante. Edward não conteve um sorriso. Ou a noiva participava agora do banquete de casamento ou atrairia realmente a atenção dos convidados caso resolvesse desprezar seu oferecimento.

— Recuso-me a ser tratada como uma criança — ela resmungou, e Edward aproveitou para colocar em seus lábios um pedacinho de pão com ervas.

— Não adianta tentar me morder — Edward murmurou perto dos cabelos dela, inebriado que estava pelo perfume que se desprendia dos sedosos fios. — Porque vou continuar alimentando-a. Se quiser brigar comigo depois, ao menos terá forças para me atacar. — Brincou, fingindo não estar vendo o rubor de indignação que tingia as faces delicadas.

Na terceira vez que Edward levou a colher à boca de Isabella, o alimento foi derrubado pela rapidez com que ela trancou os dentes.

— Eu avisei — ela disse em tom de ameaça. Jamais poderia esperar que Edward fosse rir de seu gesto.

— Eu sei que você não é tola. Mas eu também não sou nenhum tolo. Com esse seu comportamento, você apenas está me incentivando a desenvolver minha criatividade.

Contra todas as suas expectativas, Isabella surpreendeu-se rindo do humor sincero de seu marido. Edward, também contra todas as suas expectativas, reconheceu a iminência em que se encontrava de se apaixonar pela mulher que o destino lhe reservara.

— Por favor, coma mais um pouco — ele implorou, sedutor. — Dá-me prazer olhar para você.

Isabella não resistiu ao apelo.

— Como dizer não a alguém que obviamente perdeu o juízo?

A colher ficou pairando no ar antes que Edward se lembrasse de colocar a maçã assada com canela entre os lábios entreabertos. Seu sangue, de repente, parecia ter se transformado em fogo líquido. Ele mal podia respirar. Era um homem mundano. Conhecera muitas mulheres. Nunca, porém, fora arrebatado por uma jovem inexperiente capaz de excitá-lo com sua pura inocência. A volúpia que ele sempre associara às relações sexuais acabara de adquirir uma outra conotação. Estava se sentindo no centro de uma teia de emoções. Ao contrário do que | seria de esperar, ele não queria a liberdade.

Não mais.

Sem se preocupar com os comentários que seu comportamento poderia provocar, Edward se levantou e puxou Isabella pela mão.

— O que houve? — Isabella perguntou, aturdida com o barulho que a cadeira fez ao tombar.

— Venha comigo.

Isabella precisou correr para acompanhá-lo. Edward só diminuiu as passadas quando alcançaram a base da escada onde ninguém poderia vê-los do salão.

— Edward, isso é uma loucura! — ela protestou, ofegante.

Ele só voltou a si nesse momento e sorriu ao notar a expressão de espanto no rosto angelical. Isabella tentou se desvencilhar. Em vez de ceder, ele a atraiu inteira ao encontro de seu corpo.

— Isso pode ser uma loucura — concordou, rouco. E antes que Isabella pudesse questionar o significado daquelas palavras, Edward se inclinou e carregou-a no colo. — Mas uma loucura agora permitida, minha esposa.

Isabella descobriu, para sua perplexidade, que estava gostando da sensação de calor que irradiava do peito e dos braços de seu esposo. Em vez de tentar lutar para que o marido a soltasse, ela se aconchegou ainda mais. Uma calma sem precedentes a inundou ao sentir as batidas do coração de Edward. Aconteceu como se uma faixa de luz brilhante vencesse a escuridão, fazendo com que se sentisse bem pela primeira vez desde que perdera seus pais.

Uma voz em sua consciência gritava, porém, para que ela se acautelasse. Porque aquilo tudo era uma ilusão. Nada que vinha de James poderia ser bom. Ele apenas mudara sua tática. Em vez de vir pessoalmente torturá-la, dessa vez se fizera representar por um lobo vestido com pele de cordeiro.

A necessidade de amar e de ser amada foi maior que a prudência. Ao menos por uma noite, Isabella queria se sentir como uma mulher igual às outras, com direito a lutar por sua felicidade. Edward estava certo. Eles estavam casados. Se aquilo era uma loucura, era uma loucura permitida.

A porta maciça resistiu à tentativa de Edward de empurrá-la com as costas. Isabella não saberia explicar sua conduta, mas sentiu uma súbita vontade de rir.

— Talvez você deva me colocar no chão.

Ela não reconheceu a voz que lhe chegou aos ouvidos. Tampouco reconhecia a mulher que se entregara com tanta confiança nos braços de um homem e que o estava encorajando a penetrar na intimidade de seu reduto. Ela existia. Apenas estivera adormecida à espera de alguém que fizesse vibrar as veias da paixão. Algo que James não conseguira lhe roubar.

— Talvez você esteja certa — Edward concordou. Com uma delicadeza surpreendente para um homem daquele tamanho, Edward deslizou o corpo esguio até sentir que os pés dela tocavam o chão. Isabella sentiu o fôlego faltar a um simples pensamento de que Edward pudesse desistir e se afastar. Mas ele parecia ter lido sua mente. Seus braços continuaram envolvendo-a, como se a ideia de se separarem também lhe fosse insuportável.

As emoções e sensações que percorriam seu corpo eram tão inéditas que ela não conseguia identificar nem sequer a si mesma. Mas o que sua mente não entendia, o instinto lhe ensinava como reagir. Edward não precisava pedir. Ela retribuía cada um de seus gestos como se eles já soubessem como agradar um ao outro.

Isabella o ouviu gemer baixinho antes de se inclinar para beijá-la. Ao primeiro contato, ela sentiu uma leve tontura de tanto que seu coração acelerou o batimento. Como se adquirissem vida própria, seus braços o rodearam pelo pescoço. Os lábios entreabriram, receptivos, ao sentirem a ponta da língua de Edward tocá-los. Com um gemido mais alto e rouco, Edward exigiu a posse completa de sua boca. Ela o recebeu com avidez.

Seu primeiro beijo de verdade.

A porta que se abria para um mundo novo. Era como se até aquele momento ela tivesse vivido apenas à espera do que estava por acontecer.

Edward estava lhe mostrando que a felicidade era possível.

Os gemidos e grunhidos e o farfalhar dos tecidos, ao roçarem uns contra os outros, eram música para seus ouvidos. Á música do amor.

Amor. O que significava exatamente fazer amor? Ela não sabia nada do amor entre um homem e uma mulher. Edward não lhe dissera como proceder. Seu corpo, porém, parecia conhecer o caminho que a faria cruzar o abismo do desconhecido de forma a chegar até ele.

Seus dedos se perderam nos cabelos macios. Sentiu que os lábios dele pousavam na curva de seu pescoço e, sem que ela pudesse entender o que se passara, a razão venceu a emoção e o calor que a invadira se transformou em frio e rigidez.

Suas mãos desceram até o peito de Edward e tentaram empurrá-lo. Dominado pela volúpia, Edward demorou alguns instantes para entender que sua paixão já não tinha resposta.

Isabella se manteve no controle. Conseguira seu intento. Edward se afastara como ela queria. Por que, então, estava sentindo aquele vazio inominável? Por que, então, estava desejando que ele a convencesse a continuarem?

Uma eternidade pareceu passar antes que ambos tivessem condições de voltar a falar.

— Eu sinto muito — Isabella murmurou, por fim. Edward lhe acariciou gentilmente a face.

— Sou eu que devo me desculpar. Por minha audácia. Eu a tirei de sua própria festa e me comportei como um irracional incapaz de conter seus desejos.

Ela percebeu que o marido fazia menção de se afastar e impediu-o. Segurou-o pela mão e tornou a pressioná-la contra o rosto.

— Eu não estou reprovando sua conduta. — Surpreendeu-se pela sinceridade que imprimiu à resposta. — Sou eu... Estou me sentindo esquisita...

O inesperado aconteceu. O medo e a preocupação foram substituídos pelo estupor. As risadas de Edward a fizeram chacoalhar em seus braços. Porque ao ouvir sua declaração, ele a reclamara de volta.

— Eu também estou. Não se preocupe com isso. Você precisa de tempo para se acostumar comigo eu lhe darei todo o tempo de que precisar.

Ao dizer isso, Edward se afastou e Isabella teve de se encostar à parede para que suas pernas não cedessem sob seu peso, de tanto que tremiam. Edward se portara como um cavalheiro, mas ela percebera pelo tom de sua voz que o decepcionara. Deveria ter pensado duas vezes antes de rejeitá-lo.

Arrependida, Isabella se sentou e abraçou os joelhos. A dor de Edward estava se refletindo em seu corpo. Ela estava captando a frustração do marido da mesma forma que absorvera seu riso. Edward interpretara sua atitude como um sinal de repulsa a uma demonstração natural de apreço e admiração masculina. Quando, de fato, foram lembranças das perversões cometidas por outro alguém que a fizeram se fechar em si mesma.

Emoções fortes, mas bem-vindas, deveriam ser sufocadas em nome do medo? Esse pensamento ocorreu a Isabella com súbita clareza.

— Eu não preciso de mais tempo.

A decisão foi tomada em voz alta. Isabella estremeceu ao som das palavras, mas foi com convicção que respondeu quando Edward tornou a se aproximar.

— Não é preciso que minta para me poupar. Teve toda razão em colocar um freio em meus avanços. Eu me portei como um selvagem.

Os passos de Edward se distanciaram. Isabella calculou que ele tivesse se encaminhado para junto da lareira. Teve certeza de seu palpite quando ouviu a cadeira ranger ao acomodá-lo. Dilacerado pela culpa e pelo desejo que conflitavam em seu corpo, Edward escondeu a cabeça com as mãos. Mais uma vez, Isabella sentiu que ele estava sofrendo. Não teve mais dúvidas. Guiada pela respiração entrecortada, ela o encontrou e se ajoelhou a seus pés. Pousou a mão na coxa musculosa para que o marido acreditasse que estava sendo sincera e também porque o toque lhe dava prazer.

— Você está enganado. De medo e de aversão eu entendo. Seu beijo foi bem-vindo. Eu o afastei de mim por um outro motivo.

— Você se encolheu.

— Não por medo de você.

— Eu tenho o dobro de seu tamanho.

— Mas não fez uso dele para tirar vantagem. Edward a respeitara. Jamais se esqueceria isso. Ele lhe dera a chance de escolha. Não tentara dominá-la pela força. E foi essa consideração que a levou a se comportar como jamais acreditara ser possível.

— Gosto de tocá-lo. Permite que eu continue?

Entendeu o silêncio como uma afirmação. Edward prendera o fôlego. Como negar algo que seu corpo ansiava febrilmente por merecer? Sentiu o sangue correr mais rápido por suas veias ao ver Isabella afastar suas pernas e se colocar entre elas. As pequenas mãos estavam subindo por seu tronco até alcançarem seu pescoço e suas faces. Depois ela tocou os lábios, a linha do nariz e das sobrancelhas. Por último, contornou as curvas de suas orelhas.

— É tão bom fazer isso — murmurou, voltando aos lábios e introduzindo o indicador levemente na linha dos dentes.

A carícia ultrapassou os limites de resistência de Edward. Incapaz de se conter, ele sugou aquele dedo como se fosse um néctar. Por pouco não tomou Isabella ao vê-la estremecer.

— Incrível que gestos tão pequenos possam nos afetar tanto — Isabella declarou, sensual em sua ingenuidade. — Estou sentindo a textura de sua língua percorrer minha pele até o estômago.

A exploração prosseguiu pelo queixo, pelo pescoço, pelos ombros. Ao encontrar a barreira da túnica, Isabella insistiu. Queria sentir o calor de Edward nas palmas de suas mãos. E seu desejo foi satisfeito com o movimento súbito que ele fez para se livrar do obstáculo.

Edward precisou fechar os olhos à excitação quando Isabella mergulhou os dedos no manto de pelos que cobria o tórax e descobriu os mamilos. Não sabia até que ponto resistiria ao ímpeto de buscar o desfecho natural do encontro.

Entretida em seu próprio prazer, não cogitou na tortura que estava causando. Ao chegar à altura do umbigo, ela espalmou as mãos, uma de cada lado. Deteve-se ao adivinhar marcas de ferimentos. Algumas cicatrizes pareciam ser antigas. A maioria, no entanto, apresentava aspecto recente. Edward se encolheu subitamente e ela afastou a mão. Tentou impedi-la ao adivinhar sua intenção, mas ela o venceu e beijou o local.

A surpresa o emudeceu ao ver Isabella se ajoelhar a seus pés para lhe dar conforto. Ninguém jamais o mimara. Nem mesmo em suas lembranças de criança. A ação de Isabella lhe despertou emoções inéditas. As vagas noções que aprendera sobre o casamento e sobre a necessidade de proteger a esposa se cristalizaram em uma sólida realidade que ele interpretou como sede de amor.

Um sorriso surgiu, finalmente, nos lábios agora vermelhos como se a febre dele a tivesse contagiado.

— Agora eu sinto que conheço você — ela disse. — Eu sei em minha mente como você é.

A mão de Edward tremeu ao tocá-la no rosto. Bastaria um único movimento para fazê-la completamente dele, Edward pensou. Isabella estava pronta fisicamente para se aprofundar nos mares da paixão. Ele estava mais do que pronto. Seu corpo estava inchado de desejo. Apenas ele fizera uma descoberta. Isabella era mais do que um corpo. E ele também. Deitá-la em um tapete diante da lareira lhe daria uma satisfação momentânea. A conquista de sua confiança e de seu coração o faria permanentemente feliz.

Ele queria agora o mesmo que ela lhe tomara com suas carícias e com o beijo que significara o marco de uma nova fase em sua vida.

Fez com que Isabella se amoldasse em seu colo. Ela tentou se esquivar de modo que ele precisou pedir que se aquietasse. Ela obedeceu, mas franziu o rosto porque essa mudança na atitude de seu noivo lhe causou estranheza. Em um momento, a tratava como mulher. De repente a segurava em seu colo como se ainda fosse uma criança. Ou feita de vidro. Ela gostara das sensações que Edward lhe despertara como mulher. No entanto, ele fizera questão de tranquiliza-la no aspecto de que jamais lhe imporia sua vontade. Ocorreu-lhe que se ela realmente quisesse que ele continuasse tratando-a como mulher, dependeria de seus atos a continuidade da relação.

— O que nós fizemos é o que fazem todos os casais? — ela resolveu perguntar. — Ou eles fazem mais do que beijar e trocar carícias?

Edward precisou pigarrear para recuperar a voz.

— Há mais do que beijos e carícias.

— Mas você parou — Isabella prosseguiu, para desconforto de Edward que francamente não se sentia em condições de traduzir em palavras o que se passava por seus pensamentos.

— Porque será melhor para você se esperarmos até conhecermos um ao outro e descobrirmos o que mais nos agrada e o que nos desagrada. Então eu lhe ensinarei tudo sobre o prazer que um homem e uma mulher podem se oferecer mutuamente.

— Eu estava gostando.

Edward engoliu em seco. Seu corpo estava em fogo. Em sua inocência, Isabella era a mulher mais ardente que ele já conhecera. E a mais doce. Não queria se arriscar a perdê-la, apressando uma situação contra a voz do bom senso.

— Eu também. Não pode avaliar como me agrada ouvir isso. — Edward apoiou o queixo no alto da cabeça de Isabella e brincou com as madeixas da cor do ébano, enquanto seu olhar se perdia nas chamas como em busca de coragem para adiar o momento pelo qual ansiava. —

Mas para que você continue gostando de tudo que fazemos juntos, eu acho que precisamos ir devagar.

— Você prefere ir mais devagar só por minha causa?

A impaciência de Isabella o estava afetando mais do que desejaria admitir. Se ela insistisse, acabaria vencendo sua resistência.

— Devagar se vai ao longe. Conhece esse ditado? Eu tenho muitos planos para o futuro e pretendo realizá-los todos. Não seria possível alcançar êxito se os percorresse todos de uma vez. Nesta primeira noite, eu me contentarei em abraçá-la. Quero segurá-la junto de mim, se você também quiser.

Com o corpo ainda latejando de desejo, Isabella se viu forçada a reprimir seus impulsos. Não ficaria bem continuar provocando seu marido, depois do que ele dissera. Afinal, se ele queria esperar, ela também conseguiria.

— Dormiremos abraçados ou você está pensando em termos de nos recolher a aposentos separados?

Ela sentiu que Edward a abraçava com mais força antes de responder.

—A partir desta noite, seu quarto também será o meu.

O tom ditatorial roubou de Isabella a estudada calma. Ela estava se sentindo frustrada, de uma maneira que não saberia explicar. Como o marido podia decidir sobre o que era ou não bom para ela? Como podia se apoderar de um espaço que sempre pertencera exclusivamente a ela? Seu refúgio sagrado?

Com passos firmes, no território que conhecia palmo a palmo, Isabella foi até o leito, puxou a manta de pele e atirou-a na direção de onde viera.

— Imagino que esteja acostumado a dormir no chão quando em campanha.

Ele apanhou a coberta em pleno ar, por reflexo. Em outras circunstâncias, teria ficado zangado, mas desculpou Isabella. Em sua pretensão de dominá-lo, ela se esquecia de que ele era o mais forte e que poderia lhe impor sua vontade quando bem entendesse. Mas medo era uma das emoções que Edward odiaria despertar em sua esposa e deveria ser justamente essa condição que a estava fazendo tremer ao pé da cama.

— Se é assim que você deseja, assim farei — Edward concordou, tomada a decisão de protegê-la, de fortalecer seu espírito de confiança. — Embora eu esteja acostumado ao chão dos campos de batalha, atrevo-me a pedir que me empreste ao menos sua cadeira.

A estratégia não funcionou. Isabella esperava que seu desafio rude fosse enfurecê-lo e atirá-lo contra ela, mas Edward continuava se portando como se nada tivesse o poder de abalar sua vontade.

Ao silêncio que se seguiu, Isabella precisou engolir em seco.

— Você não vai ficar olhando enquanto eu me preparo para dormir, não é?

— Posso fechar os olhos, se você quiser.

— Como vou saber se você cumprirá sua promessa?

— Terá de aprender a confiar em mim, pequena. Eu sou um homem de palavra. Quando digo sim, é sim. Quando digo não, é não. — Ele bocejou de propósito. — Além disso, estou cansado demais para manter meus olhos abertos por mais um minuto. Boa noite.

Isabella o ouviu soprar uma vela e conteve a respiração. Seu coração batia tão forte que o som parecia ecoar pelas paredes.

— Edward? Você não está olhando, está? — ela acabou por chamá-lo após alguns instantes de completo silêncio.

Ele não respondeu. Desajeitada, por não estar habituada a trocar de roupa sem a ajuda de Renée, puxou as pontas da fita para desfazer o laço que prendia o corpete. Era sua noite de núpcias e o orgulho a impedira de revelar a verdade. Do outro lado, Edward apertava os lábios no esforço de conter o protesto que teimava em se manifestar. Ele já havia passado por momentos difíceis, mas nenhum que se comparasse a esse. A tentação de abrir os olhos e ver Isabella nua beirava o insuportável. Ela nunca teria conhecimento caso ele cedesse a essa tentação. E ele teria se aproveitado dessa vantagem se não estivesse tão compenetrado em se redimir de seu passado, e de se tornar um novo homem, capaz de amar e de respeitar sua esposa.

Então se entregou ao deleite de ouvi-la. Ouviu seus murmúrios de esforço e de alívio quando finalmente conseguiu afastar o vestido dos ombros e fazer com que resvalasse para o chão. Nas circunstâncias, até mesmo o sussurrar dos tecidos apelava para seu erotismo.

Um fio de suor umedeceu-lhe a fronte, mas ele se manteve firme em sua decisão. Só tornou a abrir os olhos depois que a ouviu puxar as cobertas e se deitar. — Você olhou? — Isabella perguntou baixinho. Ele não pode evitar um sorriso e uma necessidade premente de tomar fôlego diante da vista magnífica dos cabelos negros espalhados sobre o travesseiro branco. E de satisfação à certeza de que Isabella confiara em sua palavra, apesar de mal se conhecerem.

— Não, pequena. Eu não olhei.

Um bocejo antecedeu o movimento que Isabella fez ao se virar de lado para finalmente se entregar ao torpor que a invadira. Suas últimas palavras tornaram impossível para Edward conciliar no sono antes do amanhecer.

— Eu acho que não teria me importado se você resolvesse espiar só um pouquinho.

Edward acordou com um sobressalto. Sua mente o levara de volta para os campos de batalha onde lhe fora atribuída a missão de contar os mortos.

Ele estava ferido. Havia sangue por toda parte. Por mais que se esforçasse por realizar sua tarefa, o número de corpos nunca chegava ao fim. Era um pesadelo que se repetia. A única forma de afastá-lo era acordar e lavar o rosto com água fria.

Com um movimento brusco, Edward tentou enxergar alguém vivo entre as pilhas de mortos. Descobriu que estava completamente sozinho. A angústia explodiu em forma de um gemido abafado que o fez acordar.

Aliviado por se livrar do pesadelo, Edward olhou ao redor. O fogo havia se extinguido. Agora só restavam cinzas na lareira e o frio começava a penetrar em seus ossos. Moveu-se na cadeira na tentativa de encontrar uma posição mais confortável. Para um homem de seu tamanho, dormir sentado era também uma tortura.

Um ruído abafado o colocou em alerta. Virou-se na direção da cama e viu Isabella se debater. Seu grito foi tão assustador que o fez levantar de um salto. Em dois segundos estava ao lado dela.

Sentiu-a fria ao tomá-la nos braços. Chamou-a e ela não respondeu. O terror o contagiou. Isabella continuava se debatendo como se lutasse contra fantasmas. O coração dele se apertou de compaixão.

— Isabella, pelo amor de Deus, acorde!

Os olhos abriram, mas Edward sabia que ela continuava no escuro. Seus próprios olhos encheram de lágrimas de tristeza e de dor. Em seguida, Isabella escondeu o rosto com as mãos e seu corpo foi sacudido por soluços.

Edward descobriu que não importava se ela continuasse dormindo ou acordasse. Porque seus medos a perseguiam sem trégua. Para Isabella não havia diferença entre o dia e a noite. Entre a luz e as sombras. Ele atraiu-a contra o peito e se pôs a embalá-la, subindo e descendo a mão por suas costas para confortá-la.

Isabella se entregou ao calor daquele abraço. Era a primeira vez que não precisava buscar alívio em seu travesseiro. Agora contava com os ombros e o peito de seu marido para repousar sua cabeça atormentada. Com a voz sussurrada lhe dizendo que estava tudo bem, que ele estava ali para protegê-la.

Devagar, ela foi se acalmando. Mas ele não a soltou. Talvez Isabella não precisasse mais de seu amparo, mas Edward se descobriu precisando daquele aconchego como do ar que respirava.

O sorriso tímido que surgiu naquele rosto pálido e brilhante de lágrimas foi a coisa mais linda que ele já vira na vida. Com o polegar, as secou. — Quer me contar a respeito?

Isabella mordeu o lábio e negou sem falar.

— Às vezes, a carga se torna mais leve quando a partilhamos com alguém — procurou persuadi-la. Novas lágrimas surgiram naqueles olhos sem vida.

— A carga é pesada demais. Mesmo que eu tente dividi-la, ela sempre continuará a me esmagar.

Ocorreu a Edward que não deveria pressionar sua esposa sob o risco de perturbá-la ainda mais. Isabella precisava de tempo em todos os sentidos. Talvez algum dia ela conseguisse falar de seus medos. Então ele beijaria as feridas de sua alma, como ela beijara as cicatrizes de seu corpo.

Edward deslizou as pontas dos dedos pelos braços de Isabella até lhe pegar as mãos. Nesse instante, hesitou.

— Você gostaria que eu continuasse aqui a seu lado na cama? — Ele procurou imprimir indiferença à pergunta, mas sua respiração estava suspensa de expectativa.

Até ouvir o oferecimento, Isabella não se atrevera a materializar seu desejo de ter Edward a seu lado. Um homem em sua cama. A ideia a fez estremecer. Mas como recusar a proteção ao seu alcance quando o demônio do medo a assaltava sem aviso?

— Sim. Por favor, fique.

Antes que Isabella pudesse se arrepender, Edward a recostou sobre o travesseiro. Suspirou, tomado por uma paz indescritível ao vê-la fechar os olhos e se aconchegar a seu peito. Não importava que tivesse sido o terror o responsável por ela tê-lo aceitado em sua cama. O fato de ter confiado nele em sua primeira noite de casados era mais do que ele jamais teria ousado sonhar. Mas, por mais que se esforçasse por se confortar com esse pensamento, não foi capaz de se conformar com a realidade.