CAPITULO 04
Montada com Damián na Harley, o vento fazia ondear seus cabelos. Os campos de cultivo deram passo a densos bosques de carvalhos e ciprestes. Um arroio corria ao lado da estrada: o aroma da água fresca excitava seus sentidos. Enterrou o rosto nas largas costas de Damián.
Perito como era em antiguidades, Alexandre seguia analisando a fundo a pintura, mas ainda não tinha encontrado a seguinte pista. A frustração de Damián era evidente, mas esse dia tinha decidido deixá-la de lado para ir a uma reunião familiar.
Continuaram por uma pista de terra até que chegaram a seu destino: um claro mais ou menos extenso no bosque, rodeado de árvores. A um lado se estendia o igarapé. E no meio se levantava uma encantadora casa de dois andares, cinza com venezianas brancas e um amplo alpendre.
Damián se deteve ante a casa. Já havia vários carros e motocicletas estacionados. Jamie desceu e tirou o capacete. Sua cautela habitual em relação à família se avivou. Tinha tentado matar Damián com um vírus letal. Em contrapartida, a família adotiva de Damián a tinha recebido desde o início. Só que a família tinha garras e dentes e era perigosa ...
—Hey... —Damián lhe adivinhou o pensamento— não tem nada que preocupar-se.
Mas Jamie estava aterrada. Damián subiu as escadas do alpendre e anunciou:
—Já estamos aqui!
O rumor de conversação que tinham ouvido do alpendre cessou de repente. Entraram em uma grande sala de jantar. Ao redor de uma imensa mesa de carvalho havia dezenas de pessoas. Jamie tragou a saliva.
O bolo era enorme. Com letras de risco infantil estava escrito a frase: "Feliz aniversário, Jamie." E todos começaram a cantar a conhecida canção.
Uma festa surpresa para ela. Um grande bolo com muita gente lhe cantando Feliz Aniversário. Fez um nó em sua garganta.
Sentiu que algo lhe puxava a calça. Inclinou-se para ver a angelical Ana, com sua juba loira recolhida em duas simpáticas tranças.
—Eu ajudei a fazê-la. Disse que você gostava de bolos rosa, assim lhe fizemos um.
Havia vinte e uma velas. Sua vista se nublou. Aquilo era o que tanto tinha ansiado, a família que tinha desejado sempre. Enxugou as lágrimas e sorriu. Levantou Ana nos braços.
—Necessito que alguém me ajude a apagar tantas velas. Ou um extintor de incêndios.
—Como com o Paw Paw. Outro dia lhe fizemos um bolo com quase duas mil velas.
Todo mundo se pôs a rir. Jamie e Ana assopraram as velas. Ato seguido, Damián se dedicou a apresentá-la: eram muitos rostos e nomes. Seus pais adotivos, Remy e Celine, deram-lhe um carinhoso abraço.
—Logo apresentarei você a Paw Paw. Disse-me que tinha os ossos muito casados e que precisava repousar... Mas primeiro quero que conheça Índigo. Não é da família, mas o consideramos nosso irmão. É meio vampiro e meio draicon...
Jamie contemplou admirada ao gigante de cabelos negros. Largo como um armário, tinha uma barba negra, fechada. Sua tez era de um tom café pálido, uma mescla de nativo americano com polinésio.
Estreitou-lhe a mão, ao mesmo tempo em que a felicitava. Logo se afastou, balançando o chão sob seus pés.
Havia dezenas de presentes, de todo tipo: desde acessórios de informática até um xale de seda dos pais adotivos de Damián. E um notebook presente do próprio Damián, último modelo.
—Era o mínimo que podia fazer, depois de haver quebrado o seu.
Cortaram o bolo e começaram a reparti-lo.
—Obrigada — sussurrou Jamie a Damián, aproximando-se.
Um brilho de ternura ardeu em seu olhar enquanto lhe acariciava uma bochecha.
—Já era hora de que alguém o fizesse — e a beijou.
Depois de comer o bolo, saíram ao jardim. Fazia um sol radiante. Sentado em uma das cadeiras de balanço do alpendre havia um ancião vestido com um simples macacão de brim e uma camisa branca. Seu rosto sulcado de rugas e seus vivazes olhos azuis destilavam sabedoria. Damián o apresentou com tom sério, quase reverencial. O senhor se levantou para saudá-la e lhe disse algo muito rápido, em cajún.
—Isso não me soou muito bem — disse Jamie a Damián, algo temerosa.
Paw Paw lhe estreitou com força a mão.
—É uma maibaigb: alguém que traz força e cura a nossa gente. Sua raça é extremamente rara, possuidora da magia que antigamente tinham todos os draicon.
Força e cura? Quando tinha tentado matar Damián? Jamie sacudiu a cabeça.
—Na manada de Damián, é Maggie a que cura. Eu só... destruo.
—Sua força nos ajudará a nos unir e seus poderes nos permitirão recuperar o que perdemos. O poder está dentro de você. Mas antes tem que perdoar a si mesma.
Mais lágrimas lhe nublaram a vista. As enxugou enquanto o escutava enumerar seus poderes. Telepatia. Viajar pelo espaço e reaparecer em outro lugar. Levitação. A magia que tinha ansiado possuir durante toda sua vida. Suas possibilidades lhe assustavam.
—E se não puder controlá-lo? Não quero fazer mal a ninguém.
—Damián te ensinará. Por isso é seu dracairon. Durante toda sua vida aprendeu a controlar sua magia. Você esteve sempre à deriva e agora encontrou seu rumo.
A esperança bateu asas em seu peito. Tinha encontrado seu rumo graças a Damián, que a tinha apoiado apesar de todos os seus defeitos. Mas... amaria-a? E poderia ela arriscar-se a amá-lo, a deixar-se absorver por seu mundo e tudo o que significava?
Damián a atraiu brandamente para si.
—Paw Paw tem razão. Eu serei seu rumo. Agora e sempre.
Sempre. Jamie apoiou a cabeça em seu ombro. Não. Não pensaria nisso, não nesse dia. Esse dia se conformaria celebrando seu aniversário.
Vários membros da manada formaram uma improvisada orquestra com uma rabeca, um violão e um acordeão. Depois de fazer-se um pouco de difícil, Gabriel começou a cantar em cajún. Começou a festa. Inclusive Damián tirou Jamie para dançar.
Um par de horas depois, organizaram-se uns eficientes turnos de recolhimento e limpeza. Já estavam terminando quando os irmãos de Damián, com Índigo, começaram a jogar futebol.
Jamie guardou o prato que acabava de secar enquanto contemplava a cena pela janela. Damián se mantinha afastado do jogo, olhando a outros com expressão triste, melancólica.
—Já te disse quão contentes estamos todos que Damián te tenha encontrado? —disse-lhe Celine, lhe pondo uma mão no ombro— Conseguiu que volte a sentir-se jovem. Porque meu filho é jovem em idade, mas ancião em espírito.
—Mas eu não sou draicon. Como podem me aceitar sem me conhecer realmente?
Celine esboçou um sorriso pormenorizado.
—Não importa quem seja, Jamie. Aceitamos você por tudo o que é e não é, porque é a companheira de Damián. É assim a família. Posso ver a forma que te olha Damián, com essa luz que tornaram a ter seus olhos. Necessita-te e com isso é suficiente. Anda, vá com ele, Jamie. Faz o que te dite seu coração. Leva caminhando muito tempo na escuridão. Seja sua luz.
Sua luz. Sua esperança. Depois de ter visto a escuridão que lhe atormentava pela morte de sua família, compreendia-o bem.
Jamie assinalou seu suéter.
—Tem alguma roupa velha para me emprestar? Algo para jogar futebol?
Minutos depois, saiu ao alpendre vestida com um moletom duas vezes maior que ela e uma calça de agasalho. Damián estava apoiado contra um tronco de carvalho: sempre alerta, sempre receoso. Os jogadores tinham interrompido a partida. Enquanto se dirigia para ele, Jamie recolheu a bola.
—Tome — entregou a ele — Vamos ver quão rápido é. Lança-me.
Damián ficou olhando a bola como se fosse uma serpente. Jamie retrocedeu, elevando as mãos. Finalmente, ele decidiu lançar, sem nenhuma força..
Jamie, em troca, a devolveu com todas suas forças, e a bola o golpeou no peito. Ficou olhando surpreendido.
—Vamos. Mais forte.
Sorrindo levemente, voltou a lançar. Jamie não chegou a agarrá-la; quando se afastou para recolhê-la, viu que todos os irmãos estavam olhando. Assinalou Damián com a cabeça e lhes disse algo marcando as palavras com os lábios, para que ele não pudesse ouvi-la. Logo lhe devolveu a bola.
De repente ressonou um grito e Raphael se lançou para Damián como um tornado... Bam! Derrubou-o e lhe tirou a bola. Esse foi o sinal para que se reatasse a partida.
Minutos depois seu companheiro... sim seu companheiro, a palavra lhe soava bem... tirou a camisa e a jogou a um lado. Fascinada, ficou olhando o desenho dos músculos de seu torso.
A partida terminou. Jamie se emocionou ao ver o sorriso de alegria de Damián. Elevou a face ao sol. Aquele era um grande dia, possivelmente o melhor de toda sua vida.
Damián voltou a colocar a camisa e a puxou pela mão.
—Jamie, vêem aqui. Meus irmãos querem te ensinar algo.
Levou-a onde estavam sentados. Damián lhe pediu que desse a volta.
—Já pode se virar.
Ao virar-se de novo, Jamie descobriu três lobos cinzas estendidos na grama. Um tinha raias negras no focinho. Era Etienne, com as marcas do Alpha. Outro tinha uma característica banda branca: Gabriel. Índigo ultrapassava os outros em tamanho e corpulência. O terror lhe fechou a garganta ao recordar aquela noite...
— Sente-se — disse Damián— Não lhe farão o menor dano.
Obedeceu, fazendo provisão de toda sua coragem. Os lobos se levantaram para aproximar-se dela. Submissamente, baixaram as cabeças e se estenderam de novo a seus pés.
—Adiante. Toca-os.
Estirou uma mão, maravilhada, e arranhou as orelhas do que tinha mais perto.
—É Gabriel. Gosta muito que lhe façam isso... —murmurou Damián.
Jamie fechou os olhos, desaparecendo todos os seus temores. Quando voltou a abri-los, os irmãos de Damián tinham recuperado sua figura humana.
—Obrigada... Obrigada a todos pelo que fizeram... ao acabar com essa coisa que matou meu irmão.
Etienne sorriu. Os outros a olharam muito sérios, com expressão quase solene. Alexandre esclareceu a garganta: a expressão de seu rosto, de traços tão duros, suavizou-se. Inclusive Índigo tinha perdido sua ferocidade.
Não eram bestas cruéis, a não ser machos nobres, orgulhosos, sensíveis. Irmãos. Irmãos de verdade, não como Mark. Esse pensamento surpreendeu Jamie. Até que conheceu Damián, nunca tinha sabido o que era uma verdadeira família. Mas... poderia integrar-se em seu mundo depois de ter vagado sozinha durante tanto tempo? E se trocavam de idéia e a desprezavam, como tinha feito seu tio?
Para romper a tensão do ambiente, tentou fazer uma brincadeira.
—Acredito que seria melhor que voltassem a se transformarem em lobos. Assim correriam mais jogando futebol. Porque... sabem uma coisa? Correm como virgenzinhas.
—Hey, eu só tenho cento e noventa anos — protestou Gabriel, divertido.
—Aposto que ganho em uma corrida. São muito mais velhos que eu — e, sem esperar sua resposta, Jamie saiu correndo.
Rindo, saíram atrás dela. Jamie sorriu e correu mais rápido. De repente sentiu uma mão aproximando-se de suas costas, roçando-a... Experimentou uma pontada de pânico. Suas costas...
Retrocedeu de repente no tempo. Voltava a ter sete anos e corria fugindo de seus primos, que a perseguiam furiosos. A adrenalina circulava como uma corrente por suas veias. Ofegava sem fôlego, até que um ramo lhe enganchou na calça...
Perdeu o equilíbrio e caiu; a calça tinha escorregado por sua cintura. E sua calcinha. Muito tarde se lembrou que pôs a tanga de seda para parecer mais sexy, e não sua roupa íntima habitual...
—Oh, meu Deus, que diabos é isso? —murmurou alguém.
Envergonhada, virou a cabeça para descobrir Damián ajoelhado a seu lado. Sentiu a carícia de sua mão naquela parte que jamais tinha mostrado a ninguém, nem sequer quando tinha feito amor com ele.
Com a ponta dos dedos, delineou as letras gravadas com fogo.
—Jamie, minha preciosa Jamie... O que lhe fizeram?
Fechou os olhos, imaginando o que estava vendo. As horríveis cicatrizes azuladas, as letras que seus primos lhe tinham gravado na pele, que agora eram cicatrizes: Bruxa
Logo que Damián se deteve ante a casa da Esplanade, Jamie entrou correndo, desesperada por refugiar-se em seu quarto. Já era bastante mau que ele tivesse visto as vergonhosas marcas, mas... seus irmãos? Sentia-se como se fosse uma das famosas bruxas de Salem.
Depois de levantar do chão, seus olhares de compaixão a tinham enchido de vergonha. Damián sabia como lhe tinham feito aquelas marcas. Tinha-lhe lido o pensamento, tinha visto seu passado como em um filme.
Foi à cômoda e procurou sua habitual roupa íntima com mãos trementes. Mas debaixo encontrou o tanga azul turquesa. Era preciosa, muito fina. Ficou olhando pensativa. Quanto lhe teria gostado...!
Damián acabava de entrar no quarto.
—Que tonta sou. Queria pôr isso para estar bonita para você. Como uma surpresa — pôs-se a rir enquanto fechava a gaveta— Que surpresa...
Damián lhe embalou o rosto entre as mãos.
—Jamie, me olhe — lhe pediu com tom suave— É uma mulher preciosa e nada, nenhuma marca ou cicatriz, afetará à percepção que tenho de você. Entendido?
Algo se relaxou dentro de seu peito.
—Odeio essa marca. Oxalá pudesse apagar isso. Faz que me sinta tão suja...
—E se faz uma tatuagem? Índigo tem uma loja. Dedicará-te todo o tempo que seja necessário.
Uma tatuagem. Possivelmente fosse uma boa idéia.
—Você decide. Mas tenho que lhe advertir que doerá.
—Nada poderá me doer tanto... como o que me fizeram.
Beijou-a nos lábios.
—Vou chamá-lo. Sairemos agora mesmo.
—Já está, ma petite.
Jamie abriu os olhos. Sentou-se, esboçando uma careta, e se olhou no espelho que Damián lhe tinha aproximado.
—Oh, é precioso... Tão majestoso... Obrigada!
Índigo sorriu, tímido. Imediatamente abandonou a habitação para lhes deixar um pouco de intimidade. Damián ainda não tinha visto bem a tatuagem... por isso teve uma surpresa. Ficou olhando-a com a boca aberta.
Era uma representação exata do lobo de Damián, com seus olhos verdes e vivazes, o olhar perdido no horizonte. Como um rei contemplando seus domínios.
—Jamie, por que eu?
—Necessitava algo formoso e nobre para cobrir a fealdade — lhe acariciou a bochecha com um dedo— Agora já posso suportar levar a marca, e todo mundo saberá que sou um membro de sua família, de sua manada. Sou tua. Para sempre.
A emoção relampejou nos olhos de Damián.
—E eu sou teu. Toujours.
De repente soou seu celular.
—Estaremos ali às dez — Damián voltou a fechá-lo, olhando-a sorridente.
—Alexandre encontrou a última pista. Está na casa de Rafe, nos esperando.
Alexandre, Raphael, Gabriel e Etienne os esperavam no salão. Bastava ver suas expressões. Jamie se aferrou à mão de Damián. Más notícias.
A pintura do lobo no igarapé estava sobre a mesa.
—Por que demorou tanto? —perguntou Damián a Alexandre.
—Na realidade encontrei a pista ontem — olhou seus irmãos com expressão sombria— Nos reunimos os quatro e decidimos... que era melhor esperar para lhes dar a notícia para não danificar a festa de Jamie.
Jamie experimentou uma pontada de terror. Não podia deixar de tremer.
—Quando separamos o tecido do marco, isto foi o que encontramos.
Alexandre estendeu a Damián uma pequena peça de madeira, com um diminuto coração gravado no centro. Damián tomou e a aproximou do nariz.
—Cipreste. Reconheço o aroma. Meu pai escondeu o livro no velho igarapé. Estava acostumado a dizer que o cipreste representava o coração dos draicon por sua figura alta e orgulhosa, que destaca sempre nos bosques sobre outras árvores.
Apoiando ambas as mãos na mesa, baixou a cabeça. Jamie não entendia a causa daquela reação. A notícia não podia ser tão má. Certamente o igarapé era muito grande, mas os draicon, com seu excelente sentido de olfato, não teriam muitos problemas em encontrar o livro...
—O que acontece? Estamos mais perto de encontrá-lo, não? Era no igarapé onde seu pai estava acostumado a caçar... Vamos, é quase de noite. Se levarmos lanternas...
Damián elevou a cabeça. A expressão de absoluta desolação de seus olhos deixou Jamie aturdida, enjoada.
—O antigo igarapé já não existe. Drenaram-no para levantar edifícios. O livro está agora enterrado sob o cimento.
O fio de esperança se rompeu em seu peito. Jamie procurou a cadeira mais próxima e se sentou, enterrando o rosto entre as mãos. Ia morrer.
Aproximava-se a noite. Damián passeava de um lado a outro da mansão, desesperado. Jamie estava no dormitório do primeiro andar, descansando.
Havia tornado a falhar. Não podia salvar a seu ser mais querido. O livro, perdido para sempre. Todos seus poderes, as batalhas que tinha liderado, suas habilidades como guerreiro... tudo tinha sido inútil.
Mas se negava a resignar-se. Quem seria o desconhecido que tinha oculto aquela pista sobre o Natchez? Ele teria o livro, ou estava também morto e enterrado? Subiu ao dormitório de Jamie. Chamou brandamente. Ao não receber resposta, abriu a porta.
—Jamie? — entrou. A cama estava feita, o armário...
Vazio. Uma nota dobrada sobre a mesinha chamou imediatamente sua atenção. Leu-a:
"Sinto muito, mas tenho que ir. Tenho que encontrar outra maneira. Minha vida está em jogo."
Sentiu-se terrivelmente doído, traído. Jamie não tinha fé nele. Mas a faria voltar, embora tivesse que enviar em sua busca ao último draicon sobre a terra. Chamou Rafe. E começou a caça.
Jamie desceu do bonde e se dirigiu ao City Park, carregada com uma mochila e uma mala. Quando chegou ao pé de um carvalho, sentou-se no chão, deprimida. Que diabos estava fazendo?
Não tinha nenhum lugar aonde escapar, ou onde esconder-se. A morte se dirigia para ela como um furacão. Enterrou o rosto entre as mãos. Na tormenta em que se converteu sua vida, só uma imagem permanecia calma, serena: Damián. Ele sempre tinha velado por ela, tinha-a protegido. Tinha aberto seu coração e compartilhado sua dor. Tinha acreditado nela, apesar que não lhe tinha dado nenhuma razão para fazê-lo.
E, como pagamento, ela tinha fugido. Que estúpida. Tinha seguido a pauta de toda sua vida: fugir em vez de fazer frente a seus problemas. Se realmente ficava tão pouco tempo de vida... com quem quereria passá-lo?
—Com você, Damián —sussurrou— Até o último segundo.
Levantou-se e ajustou a mochila. O último bonde da parada da rua Ursuline já tinha saído. Teria que caminhar.
Acabava de recolher a mala para sair do parque quando ouviu um rugido de motocicletas. O coração lhe subiu à garganta. Vinte motoqueiros, todos embainhados em trajes de couro negro, dirigiam-se diretamente para ela. Raphael comandava o grupo. Tinham-na encontrado.
Damián a esperava no salão da mansão. Tinha um brilho selvagem nos olhos. Seus largos ombros estavam rígidos como uma rocha.
—Nos deixem — ordenou.
Raphael e os outros os deixaram sozinhos. Jamie nunca o tinha visto tão fora de si: com os punhos fechados, apertava os dentes em um esforço supremo por manter o controle.
—Você... nunca volte a me fazer isso.
—Precisamente me dispunha a voltar quando me encontraram, Damián. Quando me detive a pensar no que tinha feito, dava-me conta de que não tinha nenhum lugar aonde ir. Que você foi a única pessoa que nunca tinha me abandonado...
Damián continuava olhando-a fixamente, imóvel.
—E que jamais me abandonará, estou segura. E te dei boas razões para isso. Mas estou assustada. Não fica muito tempo, Damián. Estou farta de estar sozinha. Quero-te e quero aproveitar contigo o pouco tempo que fica...
Os olhos de Damián arderam como laser. Agarrando-a pelos ombros, apoderou-se de sua boca.
—Tenho que entrar em ti — murmurou contra seus lábios— Agora.
Sem deixar de beijá-la, levantou-a nos braços. Subiu as escadas de dois em dois. Uma vez em seu dormitório, baixou-a ao chão.
Despojou-se rapidamente da roupa. Nu, rasgou-lhe a blusa, fazendo saltar os botões. Um rouco grunhido brotou de sua garganta enquanto suas unhas se convertiam em garras, com as que lhe cortou o sutiã. Logo lhe baixou a calça e a calcinha.
Tombaram-se na cama. Damián se apoderou de um mamilo e começou a chupar-lhe. As pequenas e rápidas lambidas a excitaram imediatamente. Logo lhe separou as coxas, afundou a cabeça e se concentrou em acariciá-la ali com a língua. Embebeu-se de seu sexo, aspirando seu aroma. Jamie se retorcia de êxtase, gemendo.
Colocou-se em cima. Sua expressão era firme, decidida.
Finalmente, afundou-se nela. A primeira impressão de Jamie foi de surpresa: sentia-o maior, mais duro que nunca. Abriu-se todo o possível, entregando-se por completo.
—É minha, minha — murmurou ele, incorporando-se sobre os cotovelos. Empurrou de novo, retirou-se e empurrou novamente, afundando-a no colchão. — Minha. Entendido, chére?
—Damián...
—Me responda — voltou a retirar-se. Deteve a ponta de seu membro justo ao bordo, ameaçando-a em deixá-la vazia, doída, ofegante.
Jamie soltou um soluço e lhe cravou as unhas nos ombros.
—Sim, sou tua, só tua... —gritou.
Damián esboçou um sorriso satisfeito. E a recompensou voltando a afundar-se profundamente nela e apoderando-se de seus lábios.
Jamie elevou a cabeça e lhe mordeu o pescoço. Grunhindo, Damián começou a mover os quadris como pistões, fazendo tremer a cama, cada vez mais rápido. Jamie se estreitou contra ele. Olhou-o aos olhos: tinha-os obscurecidos pelo desejo, sua expressão era dura, decidida. O calor do orgasmo se aproximava sem que pudesse alcançá-lo de tudo, e ficou a soluçar, desejosa, desesperada...
—Sim, isso, se deixe levar, neném, sim... —disse-lhe ele. As palavras e a ternura de sua rouca voz dispararam a mola. Jamie se arqueou, elevando-se do colchão, quando alcançou o clímax. Cravou-lhe as unhas na pele. Damián jogou a cabeça para trás, com todos seus músculos em tensão, e rugiu seu nome.
Derrubou-se sobre ela com um suspiro, apoiando a cabeça no travesseiro. Jamie enredou as pernas em sua cintura ao tempo que lhe acariciava as suarentas costas.
—Abandonou-me outra vez — recriminou ele enquanto se colocava de lado e a atraía para si.
—Sinto muito. Não te teria culpado se você tivesse me abandonado — apoiou a cabeça em seu ombro, envergonhada.
Damián lhe elevou o queixo com um dedo.
—Antes teria sido capaz de me arrancar um braço a dentadas. Você não morrerá, Jamie — enterrou a face em seu cabelo— Não permitirei.
Ficaram um momento adormecidos, até que Jamie deslizou uma mão entre suas coxas. Damián, que descansava a seu lado, começava a endurecer-se. Ele soltou um gemido quando ela começou a acariciá-lo e se incorporou para tombá-la de barriga para baixo.
Naquela posição se sentia vulnerável, mas confiava nele. Com gesto reverente, Damián lhe beijou a tatuagem. Ato seguido a penetrou rápida e profundamente, e começou a mover-se a um ritmo constante, que desatou Jamie em um espiral de prazer. Inclinava-se sobre ela, lhe acariciando as costas com o pêlo de seu peito, lhe murmurando ternas palavras em francês. Em um momento determinado deslizou uma mão entre suas pernas para acariciá-la.
Jamie voltou a alcançar o clímax, gritando, apertando-se contra ele. E Damián se reuniu com ela, estremecendo.
Quando Jamie despertou horas mais tarde, o quarto estava às escuras. Seus sentidos a alertaram do perigo antes que Damián a tirasse bruscamente da cama. Foi então quando cheirou. Fumaça.
Damián amaldiçoou enquanto colocava os jeans a toda pressa. Jamie tirou uma camiseta da gaveta, colocou a calça de moletom e correu à janela. Abaixo havia pelo menos trinta pessoas. Não humanos, a não ser morpb. O medo lhe acelerou o pulso.
—Nunca poderiam vencer aos homens de Rafe, assim só querem que saiamos. Não se separe de mim.
Empurrou-a em direção ao corredor. A porta do sótão abriu de repente e Cindy apressou em tirar Michael, Sophie e Sandy. Etienne os seguiu, com Ana nos braços. O último foi Gabriel, com o torso nu, enquanto colocava os jeans.
—O fogo está na parte de baixo. Lançaram um coquetel molotov por uma janela e as cortinas se prenderam. Teremos que saltar pelas janelas — Gabriel guiou à família de Etienne pelo corredor, para sua habitação.
—Como conseguiram penetrar na propriedade? — quis saber Etienne.
—Alguém usou suficiente magia para debilitar o escudo protetor.
Vários pares de olhos se voltaram para Jamie.
Os jogos com os meninos fazendo-os voar, suas desmaterizações... tudo isso tinha debilitado o escudo que protegia a mansão.
—Onde está Rafe? — gritou Gabriel.
—Aqui — respondeu uma voz com tom tranqüilo. Vestido de couro da cabeça aos pés, não parecia absolutamente nervoso— Estão fora. Esperando que saiamos.
—Vi-os — disse Damián com gesto sombrio— Gabriel, leve as crianças e Cindy à propriedade dos Cassidy. Rafe e eu cobriremos o jardim se por acaso se aproximam. Logo volte. Precisaremos de você.
Jamie estava se sufocando com a fumaça. As crianças saíram primeiro; Gabriel já tinha aberto as portas de sua habitação que davam no terraço. Em vez de descer de um salto, Etienne se dispôs a descender pouco a pouco, com Ana nos braços.
Damián sim que saltou e o esperou abaixo, com os braços estendidos, se por acaso caía algum menino. Existia essa possibilidade, já que estavam muito nervosos.
Jamie correu então para Etienne e lhe pediu que entregasse Ana.
—Confia em mim... —pediu-lhe com tom suave, e se ajoelhou frente aos meninos—Meninos, lembram-se de quando jogávamos basquete voando? Pois agora vamos jogar a outro jogo de voar. Eu lhes sustentarei no ar durante todo o tempo, de acordo?
Sophie assentiu ao tempo que tomava Ana pela mão.
—Isso, lhe dê a mão. Está assustada e você é sua irmã mais velha. Não a solte.
Aspirando profundamente, concentrou-se. A dor lhe ferroou as têmporas. Os meninos começaram a flutuar e descenderam lentamente para os braços de Damián.
Cindy desceu pela parede. Minutos depois os meninos estavam a salvo na propriedade vizinha. Jamie tocou as têmporas, que ameaçavam explodir. Não poderia fazê-lo duas vezes. A dor era muito grande.
De repente, um grito chamou sua atenção. Cindy estava assinalando uma lateral da casa: um grupo de lobos se dirigia para eles. Morph. A última barreira de magia tinha caído; acabavam de penetrar no jardim.
Damián não duvidou. Agarrou Cindy pela cintura e virtualmente a lançou ao outro lado da cerca, à propriedade vizinha. Logo se voltou, disposto para a luta.
Mas os lobos o ignoraram para situar-se justo debaixo da terraço, concentrados em Michael e Sandra. Esperavam aos meninos com as mandíbulas bem abertas, com dentes agudos como navalhas de barbear.
Raphael e Gabriel olharam para baixo.
—Poderemos com eles — gritou Rafe— Entre os quatro nos administraremos.
—Mas não podemos deixar aos meninos sós — protestou Etienne— E se algum morph consegue subir até aqui? Necessito que protejam aos meninos.
Ignorando a dor que seguia lhe ferroando as têmporas, Jamie se ofereceu novamente a ajudar:
—Por favor, confiem em mim. Eu os abaixarei.
Etienne aproximou Michael e Sandy ao corrimão.
—De acordo. Faz.
Jamie se concentrou em fazê-los descender e transladá-los logo à propriedade vizinha. Enquanto isso, Gabriel, Raphael e Etienne desceram de um salto para reunir-se com Damián. Os quatro irmãos se metamorfosearam simultaneamente em lobos.
Fechando os olhos, Jamie se desmaterializou para reaparecer no jardim do imóvel vizinho. Fraquejavam-lhe as pernas. Nesse momento sim que podia sentir o veneno circulando por suas veias, o feitiço fazendo seu efeito, impondo-se à magia de Damián...
Cindy se apressava em colocar aos meninos na casa. Cambaleando-se, Jamie conseguiu apoiar-se em um tronco de árvore enquanto os quatro irmãos se engalfinhavam com os morph. Em poucos minutos acabaram com eles.
Fazendo um esforço supremo, caminhou até a porta, em busca de Damián, que a sujeitou quando caía.
—Sinto muito... é minha culpa... eu debilitei o escudo que protegia a casa.
—Shhh — lhe acariciou o cabelo— Não aconteceu nada. Todos estamos a salvo.
—Onde está Alex? —inquiriu de repente Gabriel.
—Foi à rua Bourbon — respondeu Etienne, reunindo-se com Cindy e os meninos.
—Não. Faz meia hora que voltou — disse Rafe.
Todas os olhares se voltaram para a casa. Jamie levou uma mão à boca. Damián gritou:
—Alex, salta!
Seu irmão não fez gesto algum de abrir a janela. Damián quis correr para ele, mas Rafael o deteve.
—Muito perigoso, t'frére. Não poderá subir as escadas.
—Alex...
A angústia se desenhava nos traços de Damián enquanto contemplava a casa. Seu irmão, morrendo... ouviam-se já as sirenes dos caminhões de bombeiros. Para quando chegassem, seria muito tarde.
Quando se voltou para olhar Jamie e lhe leu o pensamento, ficou branco.
—Jamie, não, não...
—Sim. Tenho que redimir meus pecados — lhe deu um rápido beijo. E desapareceu.
Ardiam-lhe os olhos pela fumaça quando voltou a materializar-se ao pé da janela onde se encontrava Alexandre. A dor ameaçava lhe fazer estalar a cabeça.
—Não — gritou Alexandre— Volta com Damián.
—Virá comigo.
—Não posso. Eu morrerei... e serei livre ao fim —sussurrou— Minha companheira e minha filha estão me esperando no Outro Mundo. Não posso seguir vivendo assim. Tenho que voltar com elas.
Jamie tomou-lhe uma mão e sentiu a enorme violência de sua dor.
—É um egoísta — lhe recriminou— Só pode pensar nos que perdeu, e não nos que perderão a você? Eu teria dado meu braço direito por ter uma família como a tua, que me quisesse tanto... O que me diz de Damián? Sua morte lhe destroçará. E eu não quero que isso aconteça.
Ficou olhando-a estupefato.
—Alex, ainda não chegou seu momento — abriu a janela de par em par. Os pulmões lhe ardiam pela fumaça. Com a mente, tentou levantá-lo. Mas os pés de Alex apenas se separavam do chão.
«Pensa em Damián. Pensa em tudo o que perdeu... e no muito que sofrerá se chegar a perder também a Alexandre», disse-se. Concentrou-se em Damián, em seu amor, em sua coragem, em sua lealdade. Fechou os olhos e imaginou Alexandre flutuando no ar, saindo pela janela para reunir-se com seus irmãos... A família era o único importante.
Quando voltou a abri-los, viu realmente Alexandre aterrissando são e salvo no jardim do imóvel vizinho. Ela mesma se desmaterializou para aparecer segundos depois a seu lado. Mas começou a cair e uns fortes braços a sustentaram antes que a escuridão a tragasse.
—Não deveria ter feito isso.
A voz grave e profunda tinha um tom acusador. Em vão se esforçou por abrir os olhos. Sentia seu corpo como um peso morto. Tentou elevar a cabeça, mas lhe custou muito.
Estava deitada em uma cama. Vagamente recordava haver despertado, com Damián levando-a à ducha para lavá-la com deliciosa ternura. E recordava também havê-lo visto convexo a seu lado quando voltou a desmaiar.
—Sinto muito. Eu... —repôs outra voz masculina— Não pode imaginar quanto sinto.
Com um tremendo esforço, conseguiu abrir os olhos. Damián estava ao pé da cama, frente a Alexandre. Os dois irmãos se abraçaram. Quando se afastou, Alexandre parecia lutar contra as lágrimas.
—Damián, tem que haver uma saída, uma solução... Seu pai não pode ter deixado o livro ali, a risco de que ficasse enterrado sob o cimento... Ainda podemos salvar Jamie. Acredito firmemente nisso.
—Tranqüilo. Conseguiremos. E agora vá descansar — Damián ficou olhando seu irmão enquanto se retirava. Logo se voltou para Jamie— Ah, já está acordada... —sentando-se na cama, acariciou-lhe a testa— Está melhor agora? Não terá mais desmaios?
—Não voltarei a desmaiar —sorriu— Prometo.
—Esta é minha garota — se inclinou para depositar um terno beijo em seus lábios. —O que aconteceu?
—Estamos em sua casa. Todo mundo se instalou aqui salvo Etienne, Cindy e as crianças, que foram para a casa de Paw Paw.
Beijou-a de novo. Mas Jamie se deu conta da dor que o embargava. Estava sofrendo terrivelmente.
—Nada de arrependimentos, mon amour —lhe disse ela— Tinha que fazer o que fiz. Quero acabar minha vida sem me arrepender de nada.
Algo escuro e feroz brilhou nos olhos verdes de Damián.
—Você não vai morrer. Encontraremos uma maneira de te salvar.
—Poderia pedir a Raphael que viesse para ver-me? —tentou sorrir— Preciso falar com ele.
—Claro — lhe acariciou uma mão. Mas quando baixou o olhar, ficou apavorado. Consternado.
Jamie também o fez e soltou um grito.
—Oh, meu Deus, minhas mãos!
Tinha os dedos rígidos, incapazes de qualquer movimento, duros como pedra.
—Está se estendendo rápido — Damián a atraiu para si— Temos que encontrar uma maneira. Não nos renderemos.
—Não — sussurrou ela a sua vez.
Mas suspeitava que já fosse muito tarde.
Jamie adormeceu ligeiramente. Damián permanecia a seu lado.
Pouco depois Raphael entrou no quarto.
—Só queria ver como está Jamie... Deixa-nos um momento a sós?
Damián saiu entristecido. Jamie despertou.
—Está sofrendo muito — disse ela— Posso sentir sua dor.
—Sei.
A voz do kallan era quase terna. Sentou-se na cama.
—O que quer irmãzinha?
Tinha-a chamado «irmã». Já era da família. Aquilo lhe deu forças.
—Quero te pedir um favor. — o olhou fixamente— Que acabe comigo agora. —Nenhuma emoção brilhou nos olhos escuros de Raphael. — Logo, antes que já não possa falar. Antes que termine me convertendo em pedra.
—Por quê?
—Não posso suportar vê-lo assim, ver a maneira que me olha enquanto estou me convertendo em uma morta viva. O processo o matará. Será pior que a morte. Eu sofrerei, mas para ele será uma agonia.
Jamie esperou. Olhou a adaga de Raphael, perguntando-se se ele decidiria acabar de uma vez com seu sofrimento, para economizar também o sofrimento de seu próprio irmão.
—Quanto o ama, irmãzinha?
A resposta chegou sem duvidar.
—Mais que a minha própria vida.
—Então não se renda. Nunca se sabe.
—O que quer dizer?
—Que às vezes se produzem milagres.
Levantou-se e partiu. Damián entrou pouco depois.
—Quanto tempo resta? — perguntou Jamie a Damián.
—Não sei — lhe acariciou uma bochecha— Uns poucos dias, possivelmente, se não usar mais magia. Quanto à minha... —parecia perdido, desorientado— já não serve de nada.
—Me leve abaixo, Damián. Quero sentir o sol na face, antes que já não possa senti-lo.
Levantando-a delicadamente nos braços, levou-a ao jardim e a instalou em uma cômoda espreguiçadeira. A mão de Damián tremeu quando voltou a lhe acariciar uma bochecha. Mas logo pareceu recuperar as forças.
—Tem que haver uma maneira. Meu pai não pode ter deixado o livro em um lugar que poderia ficar enterrado, perdido para sempre.
—Não sem dizer antes a alguém... —Jamie se animou de repente. Incorporou-se, excitada. De repente tudo encaixava— Damián, a pista do Natchez, que alguém preparou depois da morte de seu pai... Tem que haver outra pintura do lobo. Por que alguém teria se incomodado em preparar uma nova pista se o livro estava enterrado sob o cimento? Possivelmente essa mesma pessoa o resgatou.
—E a pintura que encontramos foi uma pista falsa. Uma distração — acrescentou Damián, tão excitado como ela— Uma pintura distinta... Acredito que já o tenho. Dieu, espero que sim... Já volto.
A praça Jackson formigava de turistas. Damián corria entre a multidão, com o coração acelerado. O pintor, por certo, tinha que seguir ali...
—O loup garou nunca fais dodo no bayou, mon frére.
Virou-se rapidamente. Era o artista que lhe tinha solto aquela mesma frase o primeiro dia, quando chegou à cidade. O pulso lhe acelerou ainda mais. Examinou a pintura.
O lobo, ao lado da cabana no igarapé. Um orgulhoso lobo cinza com umas marcas Alpha como as suas, olhos de um verde jade... seu pai. Aspirou profundamente enquanto se obrigava a recordar a infância que tanto se esforçou por esquecer. Os bons tempos, as risadas, os amigos... A família, os amigos. O pai de seu amigo, que pintava uns quadros tão formosos...
O artista se voltou lentamente para ele e tirou os óculos de sol. Damián se aproximou. Tinha o olhar perdido. Estava cego.
—Mon Dieu... Jordán? —Tomou-lhe brandamente os ombros
— C'est vrai, não morreu... É você Damián. Damián Marcel. O primogênito de André.
E o abraçou, emocionado. Damián beijou as bochechas do homem que tanto tinha querido seu pai.
—O que se passou com seus olhos?
—Os morph me cegaram — explicou Jordán — Eu fui o único que sobreviveu ao ataque. Tive que sobreviver, para guardar o livro para você... Os outros membros da manada me disseram que tinha morrido. Eu me neguei a acreditá-lo. Busquei-te por toda parte e não te encontrei. Mas jamais perdi a esperança...
—A manada me repudiou.
—Sinto — lhe acariciou uma bochecha— Seu pai recomendou que eu me encarregasse do Livro de Magia se lhe ocorresse algo e que o guardasse para lhe poder entregar algum dia.
—Primeiro Renee e agora você vivo... Mon Dieu.
—Renee está viva?
—Estava — Damián apertou os dentes— Dissimulou seu aroma e permaneceu escondida durante todos estes anos. Mas os morph a assassinaram faz uns dias porque conhecia a primeira pista para encontrar o livro, a da loja de antiguidades.
—Oh — o draicon se mostrou visivelmente afetado— Foi tanta a tristeza depois do ataque dos morph... mas eu nunca perdi a esperança que seguisse vivo. Você, de toda nossa manada, tinha que sobreviver. É forte, digno filho de seu pai. Esperei e esperei, sem confiar em ninguém. Os morph aprenderam a dissimular seu aroma, por isso não te abordei diretamente. Limitava-me a perguntar aos forasteiros cujo aroma me resultava familiar. Segui esperando que voltasse, reconhecesse a pintura... e recordasse as palavras que estava acostumado a te dizer seu pai.
—O lobo nunca dorme no igarapé, irmão —repetiu Damián, sorrindo— E o que trabalha duro nunca dorme. Meu pai sempre me dizia isso — a emoção lhe subia pela garganta. Olhou a pintura — É o igarapé, non?
—Não exatamente. Precisamos falar em um lugar seguro. Vamos, leve-me.
Jamie experimentou uma pontada de esperança quando Damián lhe apresentou ao amigo de seu pai e deixou a pintura sobre a mesa do jardim.
—Toca-a, mon frére —lhe pediu Jordán — Toca a pintura e pronuncia as palavras.
Damián fechou os olhos. Colocou uma mão sobre a pintura e pronunciou as antigas palavras em língua draicon que lhe tinha ensinado seu pai. Faíscas iridescente se elevaram no ar enquanto a superfície da pintura se convertia em... um grosso volume encadernado em pele de cor vermelha. O Oculto Livro de Magia.
Jamie ficou maravilhada. Damián começou a lê-lo e a passar as páginas com uma expressão de absoluta veneração. De repente franziu o cenho.
—Aqui está a entrada do feitiço, o cabeçalho. Mas não há nenhum texto abaixo.
Jamie teve uma horrível suspeita.
—É um feitiço maligno e requer escuridão, ou carência de sentimentos, para decifrar as palavras. Dê-me isso. Eu poderei lê-lo.
Damián depositou brandamente o livro em seu colo. Jamie procurou concentrar-se. A maligna magia morph que ainda levava em seu interior a capacitava para ver o que Damián era incapaz de distinguir. O sangue lhe congelou nas veias.
—O que acontece? Me diga o que é para que possa te curar... —pediu-lhe Damián.
Sua expressão era absolutamente desesperada. Jamie o olhou, emocionada. O amor prevaleceu sobre o medo. Amava-o. Mas já era muito tarde.
—Necessitamos do Raphael e de sua adaga.
—A adaga sagrada?
«Para o ritual de despedida», respondeu em silencio Jamie enquanto assentia com a cabeça.
—Me beije —lhe pediu em um sussurro.
Damián voltou a colocar o livro sobre a mesa e a beijou. Jordán esperava a um lado, pensativo. Justo naquele momento bateram na porta de entrada.
—Hey, amigo. Rafe nos enviou para ver se necessita de ajuda. Jamie se encontra bem?
Adam e Ricky entraram no jardim. Jordán virou rapidamente a cabeça para eles, esboçando uma careta. A cegueira tinha desenvolvido ainda mais seu olfato de draicon, de maneira que pôde cheirá-lo antes que Damián.
Jamie também detectou o aroma: a lixo. A podridão. O coração lhe acelerou de pânico.
—Não... —sussurrou.
A escuridão que ainda aninhava em seu interior lhe permitiu ver o monstro em sua autêntica figura... justo quando Adam apunhalava Jordán.
Damián se moveu com incrível rapidez, colocando-se diante dela. Jamie se esforçou por levantar-se da espreguiçadeira. Não pôde; sentia os braços como pesos mortos. As pernas eram como colunas de granito.
Viu que Damián levava uma mão ao bolso traseiro de seu jeans, tirava o celular e pulsava um botão. Logo voltou a guardar-lhe Acabava de pedir ajuda.
Adam sorriu, com sua adaga na mão. Empurrou com um chute o corpo de Jordán.
—Ricky... —disse Damián em voz baixa— Já sabe o que tem que fazer.
—Oh, não te escutará. Só obedece a mim — disse Adam— Vá por ele, Ricky.
O outro draicon começou a aproximar-se, obediente.
—Muda — ordenou Adam.
Ante o horrorizado olhar de Jamie, o rosto de Ricky começou a agitar-se e a contorcer-se, até converter-se... em uma cópia exata de Adam.
O coração lhe acelerou de pânico. O primeiro Adam balançou sua adaga e disse:
—Sabia que matar a um parente dá poder, mas matar a sua própria mãe te converte praticamente em um ser invencível? Pode criar clones sem gastar energia. Clones humanos, não só animais. Clones humanos com seu aspecto que podem matar por você e transmitir a energia a seu anfitrião... —pôs-se a rir—Poderia estar em dezoito lugares de uma vez.
Sua risada tinha um eco metálico. Esticando um braço, tocou o Livro de Magia com a ponta de sua adaga.
—Obrigado por me trazer isso. Sabia que acabaria encontrando-o. Estive seguindo todos seus movimentos pelo computador. Minha mãe tentou me impedir assim tive que matá-la. Pobre Renee.
O filho de Renee. Jamie estava aterrada.
—Mas Maurice morreu em um acidente de carro...
—Isso é o que disse a todo mundo. Troquei o nome e Renee guardou o segredo. Necessitava que ninguém conhecesse minha existência, claro. Pobre maman. Perdeu seu marido e logo seu filho, quando Claude tentou te matar sendo ainda um bebê, Damián. Ele sabia bem, como eu, quão perigoso chegaria a ser. Assim quando se converteu em lobo pela primeira vez... tive que atuar e matar você e a sua família — sorriu, perverso— Eu gostei do medo de todos. Encheu-me de energia. Sobre tudo o de Annie...
Damián estava absolutamente imóvel. Jamie podia sentir sua imensa raiva, mas parecia controlado, dono de si.
—Renee não podia suportar estar sem mim. Era um bom acerto. Eu caçava pelas noites e voltava para sua casa pelo dia, para me esconder. Até que você veio à loja, vaca... —dirigiu-se a Jamie— Então ela disse que não podia seguir vivendo assim. Que em você tinha visto a bondade triunfando sobre as trevas, e que em mim não via nada mais que escuridão. Ameaçou me denunciar. Por isso a matei e fiz que um de meus clones adquirisse o aspecto de Arquimedes, seu gato. Joguei o verdadeiro Arquimedes à rua e esperei para ver quem se apresentava na loja. Foi você, Damián. Eu sabia que você gostava muito de animais, e precisava colocar um espião na casa de Jamie. Com o que não contei foi com que o verdadeiro Arquimedes se metesse também na casa e que você logo mataria meu clone ao descobrir que era um morph — voltou a balançar a faca— Mas agora que já tenho o livro, ninguém poderá me deter. Sou o mais capitalista de todos.
—Isso você crê, canalha... —resmungou Damián antes de converter-se em lobo.
Adam bramou uma ordem e Ricky se converteu em um lobo negro. Jamie ficou aniquilada quando o lobo se dividiu em dois: uma, duas vezes. Até que foram cinco os lobos negros que atacaram Damián.
Dois se lançaram a seu pescoço, enquanto os outros três o atacavam por trás. Damián resistiu, mas não tinha nenhuma oportunidade.
Jamie convocou então as forças que ficavam, todo seu amor por Damián. Elevou no ar dois lobos e os lançou contra o muro de tijolos como se fossem bonecos.
Liberado daquela imediata ameaça, Damián lutou com os que o atacavam por trás.
Justo nesse momento se ouviu um potente uivo e três grandes lobos cinza entraram no jardim. Jamie esteve a ponto de desmaiar de puro alívio: os irmãos de Damián se somavam à briga. Pouco depois Adam e seus clones jaziam mortos no chão.
Damián e seus irmãos recuperaram sua forma humana. Raphael se aproximou de Jordán e tomou o pulso.
—Está vivo. Ficará bem. Me ajudem a levá-lo ao piso de cima.
O velho draicon estava pálido, com a camisa cheia de sangue. Enquanto Gabriel e Alexandre se encarregavam dele, Damián se apressou a abraçar Jamie.
—Já acabou tudo — lhe sussurrou— Tudo terminará arrumando-se, chére — se afastou para olhá-la melhor— Está tão fria... O feitiço está se acelerando... Diga-me de uma vez, por favor... Como podemos rebatê-lo? Você leu no livro...
Jamie tinha a sensação que os pulmões estavam se enchendo de cimento... Custava-lhe respirar. O veneno estava atuando em seus órgãos internos. Muito em breve ficaria absolutamente paralisada.
Raphael, Gabriel e Alexandre voltaram em seguida e se congregaram em torno do livro.
—Damián, me deixe no chão. Assim... resultará muito mais fácil fazer o que terá que fazer... Não há cura. Só teria sido possível nos primeiros estágios da enfermidade. É muito tarde.
Damián ficou olhando Jamie, estendida no chão. Sua palidez tinha uma cor cinzenta. Inclusive o branco de seus olhos tinha adquirido um tom de ardósia. Seus lábios estavam se convertendo em granito.
—Te amo — murmurou Damián, preso em uma insuportável dor— Não posso deixar que se vá...
—Não há outro remédio — Jamie pronunciava as palavras com dificuldade— Tem que fazê-lo. É a única maneira que tem meu espírito de libertar-se... do feitiço. O ritual de despedida.
—Não o faça, Jamie, por favor... Agüenta. Por favor, não me deixe ainda. Eu... preferiria morrer.
Damián leu seu pensamento. Jamie não queria que tivesse que velá-la para sempre, uma estátua de pedra cuja morte lamentaria até o fim dos tempos. Sabia que desperdiçaria sua vida, abandonaria a sua manada, estaria preso para sempre, desejando o que jamais poderia ter: acessar a sua alma, encerrada atrás da dura pedra.
Não, Jamie o amava muito. E queria que fosse livre. Como seria sua alma se consentia em fazer o que lhe estava pedindo.
Um brilho de dor apareceu em seus olhos cinza. Olhou Raphael, desesperado. Seu irmão desviou a vista: não havia nada que fazer.
Resignada, a expressão de Jamie lhe rasgava o coração.
—Eu... amo você —murmurou ela— Por favor... deixe-me ir Damián. Por favor. — estava se sufocando.
—Faz algo, por favor, qualquer coisa... —suplicou Damián a seu irmão. Nunca antes tinha suplicado a ninguém. Tinha sido muito orgulhoso. Muito teimoso.
—Laissez-faire. Deixa que se vá, t'frére — lhe aconselhou Raphael, baixando a voz— É o momento. Faz. Terá que deixar que se vá se quiser que volte para você.
O ritual de entregar a um ser querido à eternidade. Tinha que fazê-lo. Tinha que assegurar-se que sua alma abandonava seu corpo convertido em estatua para encontrar por fim o descanso que merecia. Seu amor seria como um farol que o guiaria de volta a Jamie quando sua vida também se apagasse. Com voz entrecortada, recitou as palavras sagradas:
—Que sua viagem ao Outro Mundo seja rápida, eterna sua alegria, livre seu espírito. Que descanse para sempre em paz. Meu amor por você é eterno e te levarei em meu coração até o final de meus dias. Até que voltemos a nos encontrar em outro tempo e em outro lugar.
Damián rasgou sua camisa camisa. Seu irmão tirou do seu cinto a sagrada adaga e a entregou.
Ele apenas sentiu o corte que fez em sua palma. O corte que se fez no peito foi mais profundo, uma dor que acolheu de bom grato. Ele cobriu o ferimento com a mão.
—Meu coração guardará sua lembrança, que viverá para sempre dentro de mim — sussurrou na antiga língua.
Com a garganta fechada pela dor, inclinou-se para beijá-la na boca, dura como a pedra.
—Quero-te —murmurou— Te quererei sempre. Me espere do outro lado. Algum dia voltaremos a nos reunir. Eu tenho que ficar aqui e seguir adiante. Deixo-te, Jamie. É livre para partir, meu amor.
Jamie começou a gemer.
—Eu... eu te amo, Damián. S-sinto não lhe haver dito isso... antes. Você é... —seus lábios deixaram de repente de mover-se, transformados em pedra.
—Adeus, irmãzinha — murmurou Raphael enquanto se inclinava sobre ela.
Damián a beijou. Tinha a vista nublada pelas lágrimas e algo relampejou em seus olhos, como uma tremenda explosão de energia. Logo ficou sentado sobre os pés, com o olhar perdido.
Com um muito leve suspiro, Jamie morreu. Apagou-se como uma vela. O brilho de seus olhos. Seu corpo.
—Não... —sussurrou Damián.
—Seu espírito está a salvo. Já não segue encerrado neste corpo de pedra — lhe disse Rafe.
Os lábios entreabertos de Jamie destilaram uma pequena nuvem negra que se dissolveu no ar: era o último resto de magia morph que abandonava seu corpo.
—Jamie...
Acabou. Jamie tinha morrido. Damián imaginou perfeitamente sua própria vida desde aquele mesmo instante. Um fantasma vivo, à espera de reunir-se novamente com ela na eternidade.
Sentiu as lágrimas lhe escorrendo pelas bochechas. Salgadas, eram salgadas. E as de Jamie tinham sido doces. Jogou a cabeça para trás e lançou um grito horrível, dilacerador. Soluçou, molhando com suas lágrimas aquela muda estátua de granito.
Tinha que beijá-la uma vez mais, uma última vez. Aproximou a boca de seus lábios gelados. Raphael e os outros se retiraram.
Mas algo não ia bem. Damián ficou olhando o rosto de sua amada. Parecia recuperar a cor... um efeito da morte? Outra lágrima rodou por sua bochecha, até cair na de Jamie. A lágrima deixou um rastro de pele rosada... desfazendo a pedra.
De repente compreendeu tudo.
—O feitiço, mon Dieu. Lágrimas. O sal combate à pedra. E eu que acreditava que era minha magia o que rebatia o feitiço... eram as lágrimas. Maldita seja, tragam cubos de sal! Rápido!
Minutos depois, repartiram uma cuba cheia de sal em vários de água e começaram a salpicar Jamie com água salgada. A cor cinza abandonava sua pele como as capas de uma aquarela apagada pela chuva. Sim, isso tinha que funcionar...
Quando terminaram de esvaziar o último cubo sobre seu corpo, tinha a pele tão rosada como a primeira vez que Damián a viu. Ao ir beijar seus lábios, o que sentiu não foi pedra, a não ser carne. Mas seguia morta.
Raphael então lhe rasgou a blusa e lhe fez um pequeno corte à altura do coração. Logo se cortou no pulso e derramou quatro gotas de sangue sobre a ferida. Lambeu o pulso e inclinou-se sobre ela para lhe insuflar seu poderoso fôlego.
—Meu Deus... olhe Damián —assinalou Gabriel.
O peito de Jamie se elevou e voltou a abaixar. A ferida de seu peito cicatrizou em questão de segundos. Raphael se afastou por fim dela. Estava pálido, cansado. Consumido.
Damián estava estupefato. Não se atrevia a esperar e entretanto... Seus olhos, seus preciosos olhos cinza... abriram-se. Pestanejaram várias vezes até que posou o olhar nele.
—Damián. Oh, Damián, está aqui...
Era a voz mais doce do mundo, Damián tomou sua mão, emocionado. O coração ameaçava sair do peito.
—Por favor, me diga que não é um sonho...
—Não a curve. Deixa-a descansar — lhe aconselhou Rafe— Necessita.
Damián a estreitou contra seu peito, sentindo o firme batimento de seu coração e enterrou a face em seu cabelo. Logo olhou a seu irmão.
—Deu-lhe seu sangue. Sua magia.
—Não pode, Rafe... —Gabriel ficou olhando com a boca aberta— Está proibido de fazê-lo com qualquer um que não seja... Vai contra...
—Contra nossas leis, já sei. Deixa. Me preocuparei com isso depois.
Damián lhe agradeceu em silêncio. Gabriel se aproximou então do Livro de Magia e começou a passar as páginas.
—Não se lê muito bem, mas parece que diz que o feitiço só pode ser combatido em sua fase inicial... com água salgada. Se fizer isso muito tarde, o corpo revive, mas o espírito se perde para sempre a não ser que o ritual de despedida tenha sido executado por um ser querido, entregando a alma ao Outro Mundo.
—As lágrimas derretem o coração da pedra. E o amor salva a alma perdida — pronunciou Rafe.
—O ritual de despedida... Eu tinha que liberá-la e demonstrar assim meu amor por ela — refletiu Damián.
—Igual Jamie te demonstrou seu amor não querendo ver você sofrer. Esse beijo que Jamie te deu antes aumentou seu vínculo.
Voltou a beijá-la. Essa vez seus lábios eram quentes, suaves. Salvou-se.
—Mas sua draicara, Rafe, sua única oportunidade para salvá-la... e se... ?
—Oh, duvido que encontre a minha alma gemea alguma vez. E não podia ver você sofrer dessa maneira...
Abrir os olhos à vida e ver Damián tinha sido um verdadeiro milagre. Tinha sacrificado tanto por ela... mas, sobretudo, tinha sacrificado seu coração. E, ao fazê-lo, tinha-lhe salvado algo mais que a vida. Havia-lhe devolvido seu espírito e sua esperança.
Esperaram dois dias para que terminasse de recuperar as forças. Naquele momento, enquanto baixava as escadas, Jamie viu todo mundo esperando-a abaixo. Toda sua família. Os irmãos de Damián, incluindo Etienne, Cindy e os meninos. Também estava Paw Paw, que insistiu em fazer a viagem. O coração lhe inflamou de gozo.
Mas sua atenção se concentrou em Damián, vestido em traje negro e camisa branca, com um brilho de puro amor em seus olhos verdes. Abriu os braços, sorridente.
—Seus desejos são ordens. Queria te emparelhar comigo? Sou todo teu.
Foi uma simples mas comovedora cerimônia. Como draicon de maior fila, Raphael oficializou a cerimônia na antiga língua. Logo tirou sua adaga sagrada. Damián subiu a manga. Jamie contemplou assustada a fulgurante folha.
—Tranqüila. Dê a Rafe sua mão direita. Com a palma para cima.
Estendeu a mão. Raphael lhe fez um corte rápido na parte baixa da palma. Logo repetiu a operação com Damián. Gabriel lhes ofereceu uma fita de seda branca e uma gaze, dentro de uma pequena caixa de veludo.
Raphael limpou a folha de sua adaga e voltou a guardar. Tomou suas mãos e as apertou para que seus respectivos sangues se mesclassem. Por último, atou-lhes os pulsos com a fita branca.
—O que antigamente foram duas metades voltam a ser uma. Um só coração, um só sangue. Vão para selar com seus corpos esta união.
Todo mundo explodiu em gritos e aplausos. Damián a subiu pelas escadas. Para assombro de Jamie, passou por seu quarto.
—É uma surpresa — murmurou ele— Pedi a todos que a redecorassem.
A porta do apartamento do segundo andar estava aberta. Era o dormitório principal da casa. Longos tecidos cor azul celeste penduravam de paredes e janelas. Na imensa cama de carvalho luzia uma colcha da mesma cor. Em um canto, uma mesa simples, mas elegante.
O sol da tarde se filtrava pelas frestas das venezianas brancas. Um aroma de madressilva impregnava o ar.
Ali estava Jamie, viva, livre. Dele, para sempre. Desatou a fita de seus pulsos. O desejo ardia em seu olhar. A fita de seda foi parar no chão.
Amava-a com loucura.
Uma vez nus, não deixaram de beijar-se enquanto se aproximavam da cama. Jamie ardia de desejo por ele, por fundir-se com seu corpo... Damián lhe acariciou o pescoço com sua boca ardente e se apoderou de um mamilo. Suave e delicadamente, começou a chupar-lhe.
Jamie se aferrou a seus ombros, cada vez mais excitada. Deitou-se primeiro na cama, abrindo os braços. Damián se instalou entre suas coxas.
Podia sentir seu duro membro pressionando seu úmido sexo. O pulso lhe acelerou de espera, de desejo.
—Te amo tanto... —murmurou ele— Nunca voltarei a te perder, mon amour. Você é minha vida, o ar que respiro, a chama da minha alma que nunca morrerá.
—Me faça tua, Damián. Para que nada nem ninguém volte a nos separar nunca.
Ele entrou nela, profundamente. Jamie jogou a cabeça para trás e gemeu de prazer. Enredou as pernas em torno de sua cintura, aproximou-o ainda mais.
Damián começou a mover os quadris. Jamie alcançou o orgasmo e gritou seu nome, retorcendo-se de gozo. Jamie viu que ele jogava a cabeça para trás, com os músculos e tendões a ponto de estalar, estremecendo seu poderoso corpo. O calor de sua semente se estendeu por seu interior.
Acabava de soltar um suspiro de prazer quando o sentiu: uma explosão interna de puro amor. Quando abriu os olhos, viu uma chuva de faíscas iridescente caindo a seu redor, envolvendo-os por completo.
—O que está acontecendo?
Aferrou-se a seus ombros, sentindo que sua ereção se alargava e aumentava até limites impossíveis... sentiu a si mesma dentro da cabeça de Damián.
Damián se incorporou sobre os cotovelos e a olhou muito sério:
—É a magia do emparelhamento. Tranqüila, mon amour.
E a envolveu em seus braços. Jamie apoiou a cabeça em seu peito, confiando completamente nele. Estava chorando. Sentia Damián em sua cabeça e em seu coração: todo ele, seu passado, seu presente e suas esperanças. Sentia sua magia enchendo seu corpo, pulsando em suas veias; a maravilha de converter-se em lobo, a excitação da caça, seu orgulhoso sentido de responsabilidade como líder da manada.
Damián lhe acariciava os cabelos, lhe sussurrando palavras carinhosas. Minutos depois, as faíscas se apagaram.
—Não se preocupe. Estou bem — se afastou para olhá-lo. Tinha respondido a uma pergunta que lhe tinha feito telepaticamente— É muito estranho. Sinto-me como se formasse parte de você. Como se você estivesse no fundo da minha mente, mas não se intrometendo em meus pensamentos, a não ser me apoiando como se estivesse me acariciando por dentro. É maravilhoso.
—Pois eu só sinto um absurdo desejo de jogar World of Warcraft. E pensar que em minha vida nunca joguei isso...
E puseram-se a rir. De pura felicidade.
Minutos depois materializaram-se na propriedade que ocupava a manada de Damián no Novo México. Jamie sorriu ao ver sua expressão de surpresa.
—Curiosa a sensação do movimento de suas moléculas enquanto viaja, não é?
—Agora sei por que nunca gostei de Star Trek — ele puxou sua mão enquanto começavam a andar.
Jamie estava um pouco nervosa. A última vez que tinha visto sua manada, deixou surpreso a todo mundo ao tentar matar seu líder. Tanto Maggie, que tinha sido quem tinha curado Damián graças a seus poderes, como seu companheiro Nicolás tinham sido muito amáveis com ela. Duvidava que a recebessem com os braços abertos...
Levou a surpresa de sua vida quando viu uma multidão descendo pela colina. Reconheceu Maggie e Nicolás, que sustentavam sorridentes uma bandeira com a ajuda de duas crianças pequenas escrito: Bem-vinda a sua casa, Jamie.
Lágrimas de felicidade começaram a rolar por suas bochechas. Damián lhe apertou a mão.
A manada se deteve, surpresa. A menina loira que sustentava uma ponta da bandeira ficou olhando com expressão triste:
—Está chorando... E nós que acreditávamos que ficaria contente ao ver a bandeira...
—Está tudo bem — Jamie sorriu— Chorar é algo muito saudável.
Foi uma das melhores lições que tinha aprendido.
Fim
