História Três: A mulher com o dom da cacofonia
Silêncio. Somente o som do vento era audível até aquele momento.
Alguns segundos antes, Orrin estava perfeitamente bem, mas agora seus sentidos estavam extremamente apurados. A amazona demonstrava a mesma coisa. O clima entre eles era tenso. Numa batalha, quem dá o primeiro passo pode cometer erros terríveis. Era um momento de reflexão e análise, ambos muito concentrado em cada centímetro do corpo do outro.
Orrin tomou uma iniciativa. Saindo da sua posição de batalha, falou retirando o manto que estava usando preso aos ombros. A mulher só acompanhou com o olhar. Sabia que aquele gesto não era agressivo, mas a maneira de soltar o manto poderia ser.
- Eu gosto de saber com quem combato, para que seu túmulo possua um nome.
- Não será necessário. Isso posso garantir, Orrin de Cão menor.
"Quem é essa invasora", pensou Orrin. "Não há uma armadura como essa entre as oitenta e oito constelações. Parece ser um morcego, ou algo semelhante". E era mesmo. A mulher possui uma armadura sombria que variava sua tonalidade entre os tons azuis mais escuros, com detalhes vermelhos. Seus longos cabelos ruivos quase tinham a cor dos olhos, vermelhos sangue. Quase dava para confundir os olhos com o brilho maligno de Marte. Além disso, sua armadura possuía asas semelhantes à de morcegos, que podiam se prender aos braços da amazona quando ela desejasse.
Com seu manto na mão esquerda, estendido, Orrin preparava-se para aplicar um bote.
- Façamos o seguinte: quando o manto cair no chão, começamos. De acordo?
- Sim.
Por um momento, Orrin evitou o combate imediato. Queria está pronto mentalmente. O vento estava esperando ansiosamente por aquele momento. A noite toda tentava inutilmente arrancar o manto de Orrin, mas ele havia estado muito bem preso. Largou-o. O vento levou-o para o alto a princípio, mas logo parou de soprar fortemente e o manto ficou preso em uma lápide alta qualquer. Com uma velocidade de cortar os ouvidos, ambos, Orrin e invasora, arremessaram-se um contra o outro.
O choque foi caótico. Uma grande onda sísmica se espalhou invisivelmente ao redor deles. Todo o solo tremeu com o impacto dos dois. Orrin sentia uma forte dor no pé do estômago. O joelho da "mulher morcego" havia o acertado em cheio, por pouco não acertou o coração. Numa fração de segundos, ambos se recuperam do primeiro ataque e investiram um contra o outro. A velocidade era fenomenal, mal dava para acompanhar. Orrin que estava temeroso confirmou suas expectativas. "Ela é poderosa", pensou enquanto aplicava um gancho violento que arremessou sua adversária para os céus, "deve ser uma amazona de bronze de alto escalão, como eu, superando até mesmo alguns cavaleiros de prata. Seus movimentos são graciosos como o vôo de um pássaro, mas ainda há muita brutalidade em seus ataques, o que os torna fortes, mas lentos e fáceis de serem percebidos".
A mulher ganhava cada vez mais altitude. Dez, quinze, vinte metros, até que com uma acrobacia se recuperou do gancho recebido e bateu as asas para manter altitude. Seu adversário estava sorrindo lá embaixo. "Por que ele está sorrindo? Ele recebeu uns quinze golpes poderosos e parece que não sentiu nada, somente o primeiro. Sem problemas. Se meu adversário acha que pode me vencer com tanta facilidade, então vou lhe mostrar um pouco do meu talento musical".
Por um momento, Orrin não sabia o que a amazona estava fazendo, até sentir o fluxo poderoso de cosmo que havia sentido a pouco, antes do combate. A mulher recuou um pouco com o corpo, como se para tomar impulso, e realizou um mergulho mortal. Em queda livre, a mulher apurou as garras em suas mãos e as estendeu para atacar o adversário. Pensando rápido, Orrin deu um grande pulo para trás, fazendo a mulher destruir todo o chão onde antes estava pisando. Antes mesmo de ele ter ganhado mais altitude ou a poeira do chão ter subido com o poderoso ataque falho, a mulher ergue seu rosto na direção de Orrin.
- SONIC EXPLOSION! – gritou a mulher.
Mas nenhum som foi audível. Vendo somente os lábios da mulher mexendo, Orrin achou que ela havia reclamado de dor, ou xingado algo para ele baixinho, mas viu que se enganou. Viajando na velocidade do som, uma quase invisível onda sonora azulada cruzou o ar partindo da boca da mulher até atingi-lo em cheio. Como se todo o seu corpo tivesse entrado em ressonância com o ataque, ele ouviu seus tímpanos zunirem como nunca antes a ponto de explodirem. Seus líquidos internos aqueceram-se de maneira extremamente rápida, e todo o seu corpo, juntamente a armadura, sofreu um impacto colossal.
Quase surdo, sentindo a dor nas suas veias e com o corpo todo dolorido, Orrin caiu no chão de joelhos devido o equilíbrio fragilizado, com um olho semi-aberto e o sangue saindo em pequenas quantidades de ouvidos, boca e nariz. "Que ataque cruel", pensou. "Essa mulher utiliza um ataque sônico, quase imperceptível a olho nu, e impossível de se ouvir. Um verdadeiro ataque surpresa. Provavelmente não é quase invisível por conter uma grande quantidade de Cosmo".
Ela vinha andando sensualmente em sua direção, olhando com a ponta dos olhos, a boca meio aberta, por onde ela passou a língua maliciosamente. Suas asas fecharam-se ao seu redor, formando uma capa protetora. Estava contentíssima.
"Ela realmente é poderosa, e age com um verdadeiro morcego", pensou Orrin. "Esses seres têm a capacidade de se movimentar com ondas supersônicas, mas não enxergam muito bem ou quase nada. Não parece ser o caso dela. Ela não abre a boca quando anda, o que não demonstra que ela se mova somente pelo som. Um morcego que enxerga normalmente, e ainda pode usar seu sonar! Um inimigo a altura".
Levantando-se meio desajeitado, Orrin a observou atentamente. Posicionou-se novamente em postura de combate, na ofensiva. Ela olhou a reação com um pouco de espanto, como se esperasse que ele desistisse. Ficando ainda mais contente, ela se aproximou mais cautelosa, mas ainda sim de maneira bastante sensual.
- Você é forte, Cãozinho, surpreendeu-me. Pensei que estaria surdo só de receber meu ataque, ou cego, mas ainda vejo que me observa muito bem, e seus ouvidos ainda estão zumbindo de maneira agradável.
- Foi você quem me surpreendeu. Seu Cosmo é de uma amazona de bronze, mas não está longe dos cavaleiros de prata, assim como eu. Foi um belo ataque esse, mas agora eu o conheço, e não poderá repeti-lo.
- É o que veremos, cavaleiro de Atena.
Nesse momento, em outro lugar do Santuário, muito longe dali, um ser altamente poderoso se aproximava cada vez mais do Portão Sagrado. Um soldado de prontidão observou a sombra que se movia ameaçadoramente. Puxando sua lança, esperou pela aproximação do homem que vinha totalmente coberto por um sobretudo amarronzado. O homem chegou mais perto e parou.
- Alto lá! Quem és tu que se aproxima do Santuário de Atena? – perguntou educadamente o soldado.
- Eu? – o homem ergueu um pouco mais o rosto. Somente dois brilhos avermelhados malignamente eram visíveis daquele ângulo. – Eu sou um mensageiro de uma outra península. Sou um ser que vem até aqui com uma missão: destruir!
