Bem vindos ao quarto capitulo de Ocean!

Capitulo de flashback com dose moderada de SpeBry.

Have fun!


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Quem olhasse para fora naquela manhã não veria nada fora do comum. O sol batia nos vidros fechados das janelas e derretia aos poucos os resquícios da neve esquecidos no jardim.
O silencio era apenas cortado pelo barulho das crianças no refeitório, brigando e rindo e pelo barulho dos talheres e xicaras.

Aquela era uma casa enorme e velha, circundada pelas arvores ao longe e pelo mar aos pés da colina. Tradicional e imutável. Tudo que ninguém queria mais acabava ali.

Nessas condições, ele apareceu.

"Seja bem vindo ao instituto Okye-"

"ME SOLTA!" Gritou o garoto de cabelo acinzentado desvencilhando seu braço das mãos enrugadas da diretora. "Eu não vou ficar aqui! Me levem de volta!"

Um barulho de pneus se distanciando permaneceu ao fundo por alguns instantes, mas ninguém pareceu notar.

"Creio que isso não seja possível, Bryan. Agora –".

"Não! Eu tenho que estar lá quando minha mãe vier me buscar! Me levem de volta!"

"Bryan!"

A diretora lançou um suspiro cansado ao perceber que seria inútil. Pediu a sua assistente que conduzisse o novo interno ao quarto assim que se acalmasse e abriu espaço entre os vários garotos curiosos e amontoados ao seu redor. Bryan permanecia aos berros, apenas com uma pequena mochila cinzenta nas costas e um bocado de revolta nos lábios.


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Nos fundos do casarão um garoto lançava uma beyblade rustica numa cuia improvisada de madeira. Era grande demais para sua idade e destacava-se pela robustez e pelos cabelos loiros espetados em sua cabeça. Concentrado, tentava um novo movimento de ataque que parecia bastante complicado aos olhos de Bryan.

"Ei"

O garoto de cabelo acinzentado viu um pequeno par de olhos verdes quando o loiro se virou, impaciente. O que Spencer viu foi apenas um garoto magrelo comum.

"O que você quer?"

"Por que você está sempre sozinho?"

Não houve resposta a principio. "Quem é você?"

"Meu nome é Bryan." – " Quer ser meu amigo?"

O loiro lançou um suspiro inaudível. Girou novamente sua beyblade, de costas.

"Eu posso te ensinar uma musica se você quiser."

"Eu não quero saber de musica nenhuma, me deixe em paz. Eu estou tentando criar uma coisa importante aqui."

"O que é?"

"Um ataque de beyblade. O mais forte de todos."

Bryan sorriu. Estava decidido em seu modo ingênuo; assim sem perceber, colocou a mão no pequeno disparador em seu bolso e se aproximou.

"Vamos fazer uma luta. Se você vencer, eu te deixo em paz e ai você pode continuar testando esse seu ataque. Se você perder, se torna meu amigo. O que me diz?"

"Você é um idiota."

"Está com medo?"

E assim o loiro teve a vitória mais rápida de sua vida.


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"Você è horrível nesse jogo. Não devia aceitar uma luta que não pode ganhar."

"Cala a boca. Eu não sou um covarde."

Naquela noite Bryan fora desafiado para uma luta de beyblade por Mikhail, em frente a todos os internos. Vira o garoto de cabelo castanho zombar de sua mãe e antes que qualquer um pudesse evitar, o garoto de cabelo cinza aceitou o convite com um soco forte nos dentes do outro.

"O problema é que você lança sua beyblade muito mal. Se continuar com o ombro levantado desse jeito, nunca vai ter giro o bastante pra vencer uma luta."

Bryan levantou o rosto, atingindo o outro com um olhar ofendido.

"Eu posso te ensinar, se quiser."

"O que?"

"Eu nunca gostei daquele cara. E decidi que vou ser seu amigo."

Quase um mês havia se passado desde que Spencer e Bryan se enfrentaram pela primeira vez. Ainda que o resultado não tivesse mudado, quase todos os dias o novato o desafiava - sempre com a mesma proposta. Mesmo que Spencer não fosse admitir, era confortável diminuir sua solidão. De algum modo ele começara a gostar da presença daquele garoto .

"Mas tem uma condição." - "Eu vou ser o seu único amigo. Você não poderá ter nenhum outro até o dia em que me vencer numa luta."

Bryan abriu um sorriso torto e infantil, que por pouco o loiro não confundiu com uma careta de dor. Fora a primeira – e ultima –vez que vira o outro sorrir daquela maneira. Ele estava feliz.

"Tudo bem. Eu não quero nenhum outro. Você é o único amigo que eu preciso, Spencer."


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Em segredo, desceram à praia ao pé da colina naquela manhã para treinar. O sol ardia sobre eles e iluminava as ondas ruidosas da maré cheia. Bryan lançava sua beyblade na areia macia, girando poucos instantes antes de parar por completo, furioso.

" É impossível treinar nesse lugar!"

"È muito difícil controlar na areia" disse de costas, ao lançar sua beyblade na agua. "Mas se conseguir ai, vai conseguir em qualquer cuia."

O garoto de cabelo cinzento resmungou algo ininteligível. Alguns metros adiante Spencer movia os braços e dava ordens a sua beyblade, que logo formou um redemoinho. Num salto tentou perfurar a agua, mas ao chocar-se foi lançada com força em direção as pedras.

"Ei, esse é aquele golpe que você estava tentando criar?"

"É. Mas ainda falta alguma coisa para o meu Furacão Voda dar certo."

"Furacão Voda?" Bryan gargalhou. "Que nome mais idiota!"

O loiro enrubesceu levemente e uma veia saltou de suas têmporas.

"Por que você não chama de Impacto Voda? É um nome bem mais forte."

"Hn. Acho que tem razão."

Sentaram-se sobre as rochas que avançavam sob o mar e observaram por alguns instantes o choque das ondas. O mundo lhes parecia incrivelmente simples.
Bryan ainda não era um lutador habilidoso , mas aos poucos deixava de ser somente um garoto comum mesmo aos olhos dos outros internos.

Já Spencer vivia seus dias mais felizes; e de modo sábio não pensava muito sobre isso.

"Ei, Spencer"

"Hn?"

"Como você veio parar aqui?" Aconchegou-se ao lado do outro e apoiou a cabeça sem muito jeito em seu ombro. "Você nunca me contou como chegou ao instituto Okyean."

"Ah." O loiro ponderou por um instante, mas o outro não percebeu. "O meu avô tinha uma uma cabana nos rochedos; ele era dia houve uma tempestade muito forte e a cabana foi destruída, junto com meu avô. O mar o engoliu."

Uma pausa. O outro ouvia em silencio.

"Eu estava escondido no meio das arvores, longe dali. Na manhã seguinte, quando as coisas se acalmaram, eu corri até a cabana destruída e encontrei o corpo do meu avô quando o mar o devolveu." Uma onda chocou-se contra as rochas, preenchendo o redor com cheiro de sal. "Eles disseram que eu não poderia mais ficar na vila. Então me mandaram pra cá."

Bryan estranhou a frieza daquelas palavras, mas não disse nada. Apenas cantarolou baixinho, perto do ouvido do outro.

"Através dos mares, através das ondas, hoje aqui, amanhã lá."

"O que é isso?"

"É uma musica que minha mãe me ensinou. Ela disse que eu deveria cantar sempre que eu ficasse triste. Você está triste agora, não está?"

Spencer jogou a cabeça para trás, fechou os olhos e então sorriu.

"Sem duvida ela á uma ótima mãe."

"É claro que sim. Você vai ver quando ela vier me buscar!"

Permaneceram em silencio por alguns instantes sentindo o calor do sol e apreciando o contato confortável de tocarem um ao outro, junto as ondas do mar.

Quando Spencer abriu os olhos, viu um vulto de cabelo arroxeado que os assistia do alto da colina.


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"Por que está fazendo isso?" A voz de Spencer ecoava num misto de surpresa e revolta. "Por que não me disse nada?"

Alguns dias antes Bryan forçara uma briga com outro garoto para que assim fosse transferido á outra instituição. Não contara seu plano ao loiro, que descobrira sua intenção apenas alguns momentos antes, ao avistar o outro com sua pequena mochila cinzenta nas costas.
Para Spencer fora apenas mais uma briga normal. Para ele seria mais uma semana normal. Fora pego de surpresa.

"Se eu continuar nesse lugar, você não vai conseguir se tornar profissional. Já é a terceira vez que aquele cara de cabelo roxo vem aqui e você rejeita a proposta dele."

"Boris."

"Se ele te levar para abadia Balkov, você vai poder ser um profissional. Ele se impressionou com seu ataque desde a primeira vez que o viu na praia. Ele disse que você poderia ter até mesmo uma Fera Bit!"

O loiro permaneceu em seu silencio furioso e inconformado.

"É o seu sonho, não é? Eu não quero mais tirar a sua coragem de partir." E sorriu.

Spencer se aproximou e abraçou o outro com força e sentindo a pesada textura do casaco em seus dedos – e por baixo dele seu coração.

Não soube o que dizer a principio. Tinha o desejo de partir tão grande quanto o medo que aprendera a ter de solidão. E naquele momento, tudo que tinha era uma perda e o cheiro suave do garoto em seus braços.

"Você é um idiota."

"Eu sei. Mas eu vou me tornar um bom lutador de beyblade e vou te encontrar lá na abadia Balkov. É uma promessa."

Spencer enterrou o rosto na curva do pescoço do outro e tomou cuidado para que Bryan não sentisse suas lagrimas. Bryan apenas o segurou mais forte - e então, em silencio, chorou.

Enquanto isso, como um ano antes, os resquícios de neve derretiam esquecidos do lado de fora.


Notas da autora: Capitulo maior, mais meloso e triste do que estou acostumada a escrever. Ele é uma especie de retorno á epoca em que eu eu considerava SpeBry o shipper principal. (O que faz um punhado de tempo, haha. XD)
Espero não ter matado ninguém de diabetes com o mini-Bryan inocente, que ganhou muito mais destaque do que eu havia planejado.

Flashback parte II, envolvendo Spencer, Bryan e Tala na abadia e continuação do capitulo 3: em breve.

Capitulo dedicado a Lily Carroll que aceitou fazer comigo o cosplay mais foda do mundo. XD

Lutadores de beyblade, agua, areia e reviews fazem sempre um bom verão.

Camaleao