Capítulo IV – Saindo da frigideira para cair no fogo.
Em um bairro industrial de Londres, Gina aparatou no hall de um prédio comercial quadrado, acinzentado e vazio de atividade humana, como Malfoy disse que estaria. A sua frente tinha um longo corredor, tudo em volta tinha uma aparência de abandono, a poeira se acumulava nos cantos e, mesmo na luz fraca do fim de tarde, poderia dizer que há muito este prédio estava fechado. Seguindo as instruções do seu causador de problemas, seguiu pelo corredor e entrou na última porta, à esquerda, bem perto do elevador. Aquela sala, ao contrário do resto que ela tinha visto, estava limpa e parecia ser um tipo de escritório bem organizado. As estantes abarrotadas de caixas e pastas etiquetadas cobriam todas as paredes, menos a da janela, que se encontrava firmemente fechada, apenas feixes de luz desbotada entravam pelas frestas da persiana. Em frente a esta havia uma escrivaninha com apenas um porta canetas em cima. Sem saber o que fazer enquanto esperava, decidiu analisar o cômodo, notou duas poltronas no canto mais escuro da sala, à sombra das estantes abarrotadas. Sentou-se em uma delas e murmurou "Lumus", achando que não tinha porque ficar na penumbra. Nesse momento ouviu, não, sentiu um movimento próximo à janela, do outro lado da sala e sussurrou:
- Malfoy?
- Sim? – Mas a resposta lenta e arrastada veio da direção da porta e Gina, confusa, apenas se empertigou na cadeira, não tinha ouvido a porta abrir.
Com passos lentos e deliberados, Malfoy entrou na sala fechando a porta atrás de si. Sentou-se na poltrona à frente e inclinou-se, pousando os cotovelos nos joelhos e o queixo nas mãos. Respirou fundo antes de começar a falar.
- Pois bem, Sra. Potter, agora que estamos aqui, vamos direto ao ponto.
Gina o achou incrivelmente seguro e senhor de si, totalmente ao contrário dela, que suava nas mãos e sentia um bolo enorme na garganta. Só não sabia se era por conta do nervosismo da situação ou por estar sozinha com ele e, não sabia se era melhor ou pior, num lugar NÃO público. Sentiu um calor súbito e teve uma vontade (insana na opinião dela) de beijá-lo novamente. Seu rosto deve ter transparecido de alguma forma esta vontade porque, ao invés de continuar a falar, Malfoy inclinou-se mais ainda, chegando perigosamente mais perto. Gina encolheu as pernas num gesto involuntário (e inútil) de proteção. A mão direita dele pousou no joelho esquerdo da ruiva, ondas elétricas se agruparam naquela região, com se a mão dele fosse um imã extremamente eficiente. A mente de Gina não soube como reagir, mas seu corpo sabia, pois ela também se inclinou em direção a ele e semi-cerrou os olhos em antecipação. Ele, entendendo o gesto, foi cobrindo o espaço que faltava entre eles lentamente, com os lábios entreabertos. E quando faltava um centímetro para suas bocas se encontrarem:
- Chega! – Foi a ordem alta que veio de trás da mesa em frente à janela. Gina deu um pulo na poltrona e, para seu horror completo, viu Harry Potter, seu marido, sair de baixo de sua lendária capa de invisibilidade. O cabelo dele, que já era naturalmente arrepiado, estava todo em pé, como se ele tivesse tomado um choque elétrico. Em sua mão direita estava a varinha e a outra segurava a capa com ferocidade. Não agüentando encarar Harry por mais tempo, Gina olhou para Malfoy e viu que a reação dele não era, como ela esperava, de espanto ou talvez um sorriso de superioridade e sarcasmo. Na verdade, ele estava em pé e já se encaminhava para a porta com a expressão séria. Com a mão na maçaneta, ele virou-se para Harry e falou:
- Desculpe, Potter, mas eu avisei, não precisava ter presenciado essa cena. – E sua voz parecia quase de pesar. "Mas que teatral, seu dissimulado!!", a mente de Gina berrou. Mas antes que ela verbalizasse esse pensamento, Malfoy já havia saído e ela não tinha mais escapatória nem aliados, teria que enfrentar a fúria do marido sozinha. As palavras não ditas (ainda) por Harry reverberavam nas paredes abafadas por estantes. O ar esfriara pelo menos dez graus. Harry estava parado respirando pesadamente, como se para controlar-se. Os pés de Gina começaram a tremer e a tremedeira subiu até os fios de seus cabelos. Ela conhecia o marido bem demais e sabia que ele estava a ponto de explodir e seria com ela, como nunca antes tinha acontecido.
- Porque? – Foi a primeira pergunta dele, sibilada, proferida entre dentes. – Porque ele? – E agora ele gritava. – Porque logo um medíocre? Que não hesitou em vir jogar na minha cara que minha mulher tinha se atirado para ele, com fotos para reforçar o argumento?
- Se atirado? – Gina balbuciou, mas Harry não estava ouvindo, gritava, soltando toda a raiva. As estantes começaram a tremer e ela rezou para que caíssem e a partissem ao meio, tamanha era sua vergonha e ódio de si mesma.
- Eu nunca te deixei faltar nada! Nem carinho, nem conforto. O que você está procurando, Gina? Emoção?! Está com crise de meia idade? – Ela riu ao ouvir dele o eco de seus próprios pensamentos. Mas Harry achou que ela ria dele e enfureceu-se ainda mais, se é que isso era possível. E a fuzilou com os olhos, mudo.
- Sim, talvez eu esteja, Harry. Mas eu me arrependi no momento em que aconteceu, você tem que acreditar em mim. – Gina tinha as bochechas molhadas de lágrimas e mãos que torciam a barra de sua jaqueta.
- Eu vi seu arrependimento, vi muito bem. – Ele agora parecia mais calmo. Harry, então, fechou os olhos por segundos e os abriu tanto e com tanta violência que Gina achou que eles saltariam para fora. – Vou estar na casa do Rony e da Mione, preciso sair de perto de você, não agüento mais olhar para sua cara traidora. – E antes que ela pudesse pedir para ele não contar ao seu irmão e sua cunhada o ocorrido, ele já havia desaparatado, a deixando sozinha, com apenas a culpa como companhia.
??
Perdera a noção de quanto tempo estava no mesmo estado letárgico, seus pensamentos eram lentos e desconexos. Encontrava-se ainda na mesma sala escura, incapaz de levantar da mesma poltrona em que estava quando sua vida ruiu. Não conseguia pensar em Harry, nem em seus filhos, nem em seus pais, seus irmãos, doía demais. Então, para conseguir sair do estado de imobilidade que se encontrava, direcionou seus pensamentos para Malfoy e seu corpo queimou de raiva. Agora que os pensamentos começavam a clarear, ela conseguia ver muito bem a estratagema de Malfoy. Obviamente ele não tinha ido até Harry com boas intenções, querendo alertá-lo sobre sua esposa adúltera. Não, Malfoy foi de uma esperteza incrível, pensou ela com nojo e admiração ao mesmo tempo. Paralisara duas fadas mordentes com uma borrifada só: 1) Harry agora sabia das fotos e de tudo o mais, assim um dos trunfos de Cohen tornara-se obsoleto; 2) O mirrado fotógrafo também não se atreveria a publicar as fotos, não iria arriscar entrar para a lista negra de Harry Potter(N/A: talvez vocês achem que não é muito, mas todos se lembram, e Cohen também, que Harry passou anos de sua vida tentando acabar com Voldemort, o louco mais perigoso de todos os tempos, e no fim Aquele-que-não-devia-ser-nominado acabou como uma mancha escura no chão, com várias testemunhas oculares para provar!). Gina tinha certeza que Malfoy tinha saído dali direto para encontrar-se com Cohen, para contar-lhe as novidades e talvez até ameaçá-lo com a ira dele e de Harry combinadas. "Pobre Cohen! Achando que iria se arrumar na vida...", não pode deixar de sentir um pouco de pena do homem. Mas e a Sra. Malfoy? Será que ela já sabia e tinha engolido quieta a história para manter as aparências?
Gina sacudiu a cabeça, animando-se por finalmente conseguir se mexer. Malfoy podia ter resolvido muito bem a sua parte do problema, nenhum nuque saiu de seu bolso e as conseqüências foram mínimas. Harry nem tinha tentado mata-lo, talvez as coisas tivessem saído até melhor do que o esperado, não houve nem duelo, nem nada de perigo para Malfoy. Mas para Gina, tudo dera errado, tudo! A família Potter, e a Weasley também, sofreria e a culpa era dela.
Levantou-se, sacudindo os braços e pernas para aliviar a cãibra. Iria atrás de Harry e iria agora.
