Capítulo 4 - Madrugada
E o despertador fazia aquele maldito barulho, além disso, mostrava que eram quatro da manhã.
Mal acordei e já estava me deparando com a baita bagunça feita no dia anterior, e só pra procurar o uniforme. Pensei que poderia limpar tudo mais tarde... Talvez esse seja um dos meus defeitos em relação a arrumação, sempre deixo tudo pra última hora, ou acabo simplesmente não fazendo nada.
Ignorei o monte de roupas que pareciam ter arrombado o guarda-roupas de dentro pra fora, sentei-me ao computador e fui ler meus E-mails.
"Bom dia, Heiro.
Decidi tomar coragem para revelar a ti quem sou, estarei presente no evento.
Espero que um dia goste de mim da mesma maneira que gosto de ti.
Beijos."
E meu coração pensou em disparar naquele momento, mas precisava me conter.
Então a menina que passou todo o ano anterior me mandando mensagens de força, de carinho...
Bem, ela ia finalmente se revelar e tudo mais.
Esbocei um sorriso enquanto me encontrava no espelho, imaginando como ela seria.
Mas tanto fazia, entendia os motivos dela em não ter se mostrado até ali, ainda assim, queria encontrá-la e dar-lhe um abraço.
Fui até o quarto de minha mãe procurar pelo meu par de tênis, sequer lembrava o motivo de tê-los deixado por lá.
-"Não estão sujas, então vão servir".
E enquanto saia, ela dormia, graciosamente, com os cabelos castanho-escuro jogados pelo travesseiro branco.
Mamãe era simplesmente a mulher mais linda do mundo.
Abri a porta, os céus estavam me saudando mais uma vez.
-Bom dia, Cidade dos Lírios. - Disse, em um tom animado.
Comecei o aquecimento na calçada, e logo parti pra corrida.
Corpo são, maiores chances.
O caminho que eu fazia era simples, duas horas e meia de corrida, em um ritmo um pouco mais forte do que o de costume nos fins de semana.
Usava esse tempo pra pensar na vida, no que precisava ser comprado pro almoço, e não necessariamente para me fortalecer.
Sentia prazer em estar em movimento. Ainda mais em um período de tempo onde a cidade estivesse praticamente toda dormindo, sem precisar encarar aqueles olhares, ou a falta deles.
Se meu pai tivesse feito uma outra escolha na vida, as coisas não estariam dessa forma, eu poderia ser uma pessoa normal, ter amigos.
Como que um raio em minha mente, lembrei-me da nova aluna do colégio.
Bela não só por aquelas pernas... E disposta a manter uma conversa normal. Me senti uma pessoa comum, mas justamente por ter sido uma pessoa estranha por tanto tempo, acabei por não saber lidar com a situação.
De qualquer modo, devo desculpas. Fui grosso.
Onde será que ela está morando?
Não existem muitas casas pra serem vendidas na cidade, tão pouco alugadas.
Olhei ao redor, todas aquelas construções simples e felizes, enquanto isso, o vento balançava as flores das calçadas e quintais.
Uma sensação que eu parecia conhecer, uma imagem da qual eu me recordava.
Casas...
Fico imaginando como estaria nosso antigo lar.
Em uma ação súbita e quase que involuntária, tomei a direita em uma esquina, logo notei que meu corpo estava me levando até lá...
Fui correndo, em um ritmo mais lento, apreciando a pracinha que ficava bem de frente pra ela.
Cheguei ao banco do ponto de ônibus que ficava exatamente de frente pra casa.
Sentei-me, um pouco cansado... Notei que estava com o Mp3 no bolso.
Já o estava procurando há uns dias. Caramba, sou mesmo vítima da falta de organização.
Baixei o capuz e foquei naquela antiga construção: Um único andar, com uma certa elevação nos cômodos de trás, uma cerca de madeira curta e branca. A arquiterua era em um formato cônico. Branca com telhas vermelhas.
Mamãe dizia que era a última demonstração de caráter do meu pai que ainda se mantinha viva.
Lentamente a porta da frente foi se abrindo, pocha, eu nem tinha notado que a placa de "Vende-se" não estava mais ali.
A menina nova.
Ela veio na minha direção, de pijama, chinelos e com o cabelo desarrumado, estava esfregando o rosto enquanto caminhava.
Era uma visão muito engraçada, mas também muito charmosa.
Aquelas pernas, aquele cabelo, aquele olhar...
Sentou-se ao meu lado.
-Olá, Heiro. - Ela usou um tom cômico.
-Olá, senhorita. - Fiz uso do mesmo tom, com grande vontade de dar risada do fato dela estar de pijama.
-O que fazes aqui? - Ela parecia estar em um interrogatório de seriado policial.
-Estava correndo, então decidi parar pra descansar um pouco. - Respondi, embora parecesse um pouco óbvio.
-Você é um rapaz muito grosso, sabia?! - Ela quase berrou, deve ter dado pra ouvir do outro lado da Praça devido ao silêncio da manhã.
-É sobre seu primeiro dia de aula, certo? - Usei um tom calmo pra que ela notasse o nível de voz elevado que usara.
-Sobre o que mais seria?! - Ela baixou o volume, mas ainda parecia nervosa.
Se tem um bom modo de acalmar o ânimo de uma mulher, este é simples, fazer um elogio.
Não que tenha sido da boca pra fora, eu realmente a acho linda... Então, uni o útil ao agradável, reuni coragem e:
-Desculpe-me, é que fico nervoso perto de meninas bonitas.
Onde é que eu estava com a cabeça? Me senti um tanto desconfortável sobre imaginar qual seria sua reação, achei que fosse melhor deixá-la para trás e ir para casa.
Ela me puxou pela mão.
-Pronto, ela vai me xingar. - Pensei.
-Fica. - Ela pediu.
-Por que? - Eu ainda queria um motivo pra ir embora, estava muito nervoso.
Dois segundos de silêncio cravados.
Mania minha ficar contando segundos quando estou nervoso, ajuda a acalmar.
-Pra gente conversar. - Ela parecia nervosa também.
-Sobre? - E a falta de preparo com conversas normais atrapalhava novamente.
-Não sei.
-Não sabe? Então somos dois. - Pensei.
-O que gosta de fazer? - Ela cortou meu raciocínio, me pegando um pouco desprevinido.
-Ouvir música, ler livros sobre espionagem, fazer exercícios...- Foram as primeiras coisas que vieram na minha cabeça.
-Gosto de música. - Ela disse, sorrindo.
-Nesse caso, acho que posso te mostrar algumas. - Agradeci a desorganização de meu quarto.
Esperei que ela soltasse minha mão, ao menos pra que eu pudesse me sentar.
-Mostre-me.
-Só se me fizer dois favores.
-Quais?
-Me diga seu nome.
-Mary... E o outro?
-Preciso de uma das mãos livres pra pegar meu Mp3.
-Desculpa! - Ela soltou minha mão - Eu nem percebi. - Estava completamente encabulada.
-Relaxa... - Peguei o aparelho de Mp3 - Quer ouvir algo?
-Claro.
Os fones eram um pouco curtos, ficamos tão próximos que vez ou outra o cabelo dela agarrava na pouca barba por fazer que restava em meu rosto, mas sempre dava um jeito de tirá-la dali sem que ela percebesse.
Aquele cabelo... Ondulado e desarrumado, entretanto, com um cheiro muito bom, por algumas vezes me peguei tentando adivinhar o Shampoo.
Falamos sobre aquela aula, sobre o menino que me insultou no corredor, sobre o que ela achou das pessoas da Cidade. Enquanto isso, eu só puxava assunto sobre as músicas que escutávamos, talvez ela nem percebesse sobre o que falava, ela parecia só prestar uma real atenção nas minhas dicas do que ouvir.
Fiquei feliz de fazer com que ela gostasse dos Strokes.
Fiquei feliz por saber que era possível ser um pouco normal.
Ainda assim, em um canto triste de meus pensamentos, a idéia de que não poderia sair por aí com Mary, conversando sobre como Strokes pode ser legal, ou sobre como ela deveria deixar de gostar da Britney...
Precisava fazer com que continuássemos nos conhecendo, mas sem o conhecimento de todos.
Em meio aos pensamentos confusos de como fazer isso, olhei para o relógio de pulso.
6 horas e 20 minutos cravados.
Batimentos um pouco acima da média.
Afastei os poucos fios de seu cabelo de minha barba, pela quarta ou quinta vez.
-Preciso ir.
-Já? -Ela pareceu triste.
-É, tenho que me arrumar pra aula, e creio que você também. -Já ansiasa por vê-la mais tarde, mesmo que de longe.
-Se é por isso... Tudo bem. - Ela me devolveu o fone, estávamos ouvindo Lyla, do Oasis - Mas preciso te perguntar algo.
Concenti com a cabeça, esperando alguma dúvida sobre o Senhor...
-Você corre todos os dias? - Podia jurar que ela perguntaria outra coisa.
-Bem... Vou correr todos os dias dessa semana. - Respondi, um pouco intrigado.
-Volta aqui pra gente continuar conversando sobre música?
-Tá, mas com uma condição.
-Qual? - Aquela face confusa. Uma incógnita muito atraente.
-Quando estivermos no colégio, ou em qualquer outro lugar público, não fale comigo.
-É tão importante assim? - Queria poder dizer não.
-Sim. - Respondi friamente, querendo fazer com que ela notasse que se tratava de algo realmente importante.
-Você é algum criminoso...? Fez algo de muito errado no passado?
-Não.
-Está sendo sincero? - Ela parecia não querer acreditar.
-Estou.
Fui saindo pela rua lateral.
Não resisti e comentei sobre o fato dela estar de pijamas, enquanto isso, ria apenas para mim.
-Ela é realmente uma garota diferente, não? - Perguntava-me.
E aquele início de madrugada com o relógio impertinente me pareceu ter servido de algo.
E pareceria me continuar servindo nos próximos dias.
