Era Dourada

Aiko Hosokawa

Cap4 Aliados Parte I

June ia a galopes rápidos, passando pelo mesmo caminho que os humanos haviam feito alguns dias atrás.

"Ainda bem que você é um ocigam". Pensou a elfa acariciando o pescoço de seu cavalo. Aquela espécie de cavalo selvagem era especial, pois tinha maior resistência, mais força, e velocidade muito superior a um animal normal, e por isso mesmo era quase indomável. Somente a um elfo era possível montar um daqueles, e mesmo assim o animal jamais seria totalmente domado; era visto como um companheiro que escolhia ao lado de quem iria estar. Graças a esse incrível ser a viagem, que normalmente duraria nove dias, seria reduzida a menos da metade desse tempo.

E ao amanhecer do quarto dia, Athlantis já podia ser vista no horizonte.

June entrou rápido na cidade, passando por muitos habitantes que se surpreendiam com a bela figura concentrada em um único objetivo: chegar ao castelo do rei. Quando já estava chegando ao seu destino a loira viu algo que lhe chamou muito a atenção: era uma jovem morena de aparência inocente e desprotegida, trajada com um vestido roxo com alguns detalhes no discreto decote um pouco mais claros.

Shunrei viu a bela loira passar rápido fitando-a, estremeceu com aquele breve olhar, que acabou quando a outra olhou para frente guiando seu cavalo em direção ao castelo. O movimento da cabeça da jovem permitiu que Shunrei visse a pontuda orelha.

"Um elfo! Shiryu!...". Sentiu um frio enorme percorrer-lhe a espinha e saiu correndo para o castelo.

June já chegou pulando do animal com estrema agilidade, e com rapidez começou a subir as escadas que iam até a entrada do castelo.

"Quem é você?". Um jovem loiro que estava de guarda impediu que ela continuasse.

"Sou June de Rhovanion. Quero falar com o rei". Disse imponente.

"Sinto muito, mas você não vai entrar! Eu sou Hyoga e nunca permitirei que um elfo chegue perto do meu rei!". O jovem estreitou os olhos e pegou a espada, pronto para lutar.

A elfa apenas riu "Quando um jovem tão patético poderia me ferir?". Pensou desviando fácil do golpe que o outro desferiu. "Não quero lutar! Abaixe a espada e deixe-me passar!". Falou em tom de aviso.

"Vai ter que me matar!". Hyoga quase gritou e novamente atacou.

Dessa vez ela não desviou, foi de encontro ao outro segurando seu branco ainda no ar, e, com ágeis movimentos, desarmou o loiro, ficando com a espada dele na mão. Apontou-a para o jovem e disse com arrogância:

"Ainda quer lutar comigo?".

Hyoga sentiu o sangue ferver, e mesmo desarmado partiu para cima da elfa. Essa jogou a espada longe, e quando Hyoga já estava muito perto, segurou-lhe pela camisa, puxou guiando o corpo para cima e jogando-o de encontro à porta de entrada do castelo, conseqüentemente abrindo-a e fazendo um grande barulho.

"Mas o que é isso?". Julian que até então conversava com seu conselheiro, se levantou assustado.

"É assim que Athlantis recebe seus visitantes? Posso garantir que os seus foram mais bem recepcionados em minha terra!". Afirmou a loira entrando no salão passando por Hyoga, que tentava se levantar com dificuldade.

"Quem é você?". O rei perguntou com imponência.

"Sou June da casa de Camlyu, vinda de Rhovanion para conversar com Vossa Majestade". Disse parando à frente do rei, mas sem curvar-se.

Nesse momento Shunrei entrou correndo pelo salão. Nem viu Hyoga ainda no chão e foi direto à loira, segurando suavemente em seu braço direito fazendo-a encarar-lhe.

"Você é uma elfa? Veio de onde meu irmão est�?".

June apenas confirmou com a cabeça.

"Diga-me: Shiryu está bem?".

"Sim, ele est�, Shunrei".

"Como sabe o meu nome?".

"Seu irmão pediu-me para avisar que ele está bem". O olhar da elfa era cheio de ternura, o que hipnotizou a jovem morena.

"Vamos acabar com essa palhaçada!". Hyoga levantou furioso.

"Vamos parar mesmo!...". Julian se pronunciou com sua voz forte calando o rapaz. "... Hyoga, entendo sua preocupação, mas essa jovem não é nossa inimiga. Vá chamar Daidaros". Falou em tom que não permitia resposta, e mesmo a contra gosto o loiro saiu do local.

June olhou para as mãos da jovem, que ainda a seguravam. Shunrei acompanhou o olhar da outra e ruborizou, desfazendo rapidamente o contato.

"Sinto muito toda essa confusão, senhorita. Em pouco instantes poderemos conversar, esperaremos somente por Daidaros que é quem está liderando o exército temporariamente".

Shunrei afastou-se, ficando quieta em um canto. Em poucos instantes, um loiro de cabelos repicados um pouco abaixo dos ombros chegou, e não veio sozinho: junto vieram mais três rapazes. Um a elfa já conhecia, pois era o loiro chato que a recepcionara; um tinha cabelos verdes e uma aparência andrógena. 'Deve ser o Shun' pensou lembrando da descrição que Ikki lhe havia dado; e por último um rapaz moreno de cabelos curtos um pouco espetados, esse tinha os olhos brilhantes de curiosidade e depois o brilho tornou-se de admiração quando por fim viu um elfo, melhor ainda, viu uma elfa! O grupo curvou-se ao rei em respeitoso cumprimento.

"Cavaleiros, essa é June, vinda de Rhovanion. Estes são Daidaros, Seiya, Shun, e creio que Hyoga a senhorita já conheceu".

Foi impossível conter o pequeno sorriso que surgiu no rosto da elfa ao olhar para o jovem que a encarava furioso.

"Vou direto ao assunto, pois não tenho tempo a perder". June começou a falar.

"Claro. Prossiga". Falou o rei.

"Não foram os elfos de Rhovanion que mataram seus homens...".

"Isso é mentira! Vimos as flechas!". Hyoga interferiu.

"Um elfo não mente!". Falou com orgulho.

"Fique quieto, Hyoga!...". Ordenou o rei. "Continue".

"Claro. Aquela flecha pertence a uma ordem de elfos que há tempos foi exilada nas profundezas da Terra-Média, e que mais uma vez tenta se levantar contra os povos desse mundo. Foi decidido pela elite de meu povo que nós ajudaríamos no combate. E nesse exato momento os elfos dourados, os mais fortes do meu povo, encaminham-se rumo à batalha junto com os três guerreiros que saíram dessa cidade".

"Uma guerra...". Murmurou o rei.

"Não é tão grave assim. Humanos e elfos são inimigos há muito tempo, já houve outras guerras, e estamos aptos a vencer!". Afirmou Hyoga.

"Não é tão simples assim...". June começou a explicar sobre os poderes e as energias que somente os elfos mais poderosos possuíam.

"Se isso tudo que diz é verdade, então não há como sobrevivermos...". Julian ficou confuso.

"Sozinhos não. Mas com nossa ajuda, sim".

"E por que querem nos ajudar". Finalmente Daidaros falou.

"O inimigo de meu inimigo é meu amigo. Além disso, a tarefa que Gaia incumbiu ao elfos foi a de proteger a terra e a vida".

"Então por que guerreiam contra os humanos?". Seiya perguntou meio confuso.

"Pelo mesmo motivo pelo qual lutei contra o seu amigo: fomos atacados. E com o passar dos anos o rancor separou as nossas espécies com um abismo quase intransponível. Mas já é tempo de mudar isso".

"Sei...". Murmurou Hyoga.

"Então prepararem o nosso exército!". Afirmou o rei.

"Creio que em quatro dias poderemos partir...". Disse Daidaros pensativo.

"Não temos todo esse tempo! Temos que ir amanhã o mais cedo possível, ou não chegaremos a tempo!".

"Isso é inviável!". Daidaros não acreditou na pretensão que ela tinha na voz.

"Senhor Julian, compreenda: não há tempo! Dê-me a sua elite. Iremos à frente, e o resto dos guerreiros vai depois".

"Perderemos a vantagem numérica...". Daidaros falou.

"Reúna os vinte melhores homens, general. Eles irão com June". O rei Julian não tinha certeza, mas seu coração dizia estar fazendo a coisa certa.

"Também irei!". Afirmou o loiro.

"Como queira. Vocês partirão amanhã".

Em silêncio, a elfa e os mais jovens saíram, deixando o loiro e o rei sozinhos para acertar os detalhes do que deveria ser feito.

Já do lado de fora, Hyoga olhava com cara de poucos amigos para a elfa. June o encarou com desdém no olhar e caminhou até ele.

"Com licença...". Chegou até os três rapazes (Seiya quase babou). "... Shun posso falar em particular com você?". Falou encarando os belos olhos verdes do garoto de aparência indefesa. Viu os olhos de Hyoga arderem em ódio. 'Ele tá com ciúmes?' Pensou.

"Claro". Shun guiou a loira em direção ao estábulo onde estava o cavalo dela.

"É um belo animal, esse...". Disse Shun indo acariciar o pescoço do cavalo que no ato reagiu afastando-se. "... e muito selvagem". Concluiu.

"O cavalo reflete o coração de quem o monta. É o que vocês humanos costumam dizer, mas esse não é assim, ele tem vontade própria e é livre para escolher se quer me servir ou não. Todos os seres deveriam ser assim".

"É verdade, mas creio que não me chamou aqui para falar isso". Disse Shun com um belo sorriso.

"Seu irmão...". A elfa começou a falar, e surpreendentemente ela e Shun se deram muito bem, passando resto da manhã conversando.

O dia chegava à metade e a movimentação era intensa. Tudo deveria estar pronto para o dia seguinte. Nesse momento June ajudava nos preparativos, sempre ao lado de Shun.

"Quero falar com você". Hyoga chegou perto do amigo e falou com autoritarismo.

"Agora não vai dar. Conversamos mais tarde no alojamento".

"Não posso esperar. Tem que ser agora!".

Shun olhou para June, que balbuciou um 'Ficarei bem' e Shun acabou concordando em ir com o amigo.

"O que é tão importante?". O jovem de cabelos verdes perguntou quando enfim chegaram ao alojamento que, a essa hora do dia, estava vazio.

"Você não vai ficar perto da elfa!".

"Nem meu irmão ditaria tais regras, não tenho que te obedecer. Não foi June quem matou Isaac". Shun falou baixo, porém com firmeza e encarando o loiro.

"Eu sei que não foi ela! É que não estou gostando de ver vocês juntos!".

Shun sorriu inocente. "Não precisa ficar ciúmes, você sempre será meu melhor amigo...".

Hyoga aproximou-se ficando bem próximo do outro. Shun assustou-se, mas não tinha para onde ir, era o amigo a sua frente e parede atrás.

"Amigos? Será que ainda não percebeu?".

Shun sorriu novamente, agora em gesto nervoso. Seus pensamentos iam às mais remotas lembranças. Sempre via Ikki, mas Hyoga também sempre estava l�, e apesar da personalidade um pouco arrogante, o loiro sempre lhe fora muito gentil e atencioso. Uma avalanche de emoções caiu em seu coração e o olhar que lhe era lançado não ajudava muito a raciocinar, muito pelo contrário. Sem pensar fechou os olhos com força virando o rosto. Logo sentiu o quente ar que era exalado pelas narinas do outro lhe tocando a pele na região do pescoço; em seguida sentiu os lábios do loiro tocando-lhe nesse local, um arrepio enorme percorreu-lhe o corpo e voltou a abrir os olhos.

"Hyoga...". Falou virando o rosto para encarar o outro, ato que resultou em uma aproximação dos lábios, que quase se tocaram, ficando a menos de três centímetros um do outro.

O loiro nada esperou, tomou os lábios que há tempos desejava. Shun arregalou os olhos e fez menção de empurrar, mas uma estranha e deliciosa sensação começou a invadir seu corpo então, timidamente, abriu a boca que foi prontamente invadida. Os braços de Hyoga apertaram a esguia cintura unindo o máximo possível os corpos.

Quando o beijo cessou Hyoga contemplou o belo e inocente rosto corado, e foi impossível conter um sorrido de satisfação ao ver seu amado assim. Surpreendeu-se com o olhar que lhe foi lançado. Shun o olhou com desejo e luxúria, jamais imaginara aquele olhar no rosto do 'inocente' Shun. Naquele momento percebeu que era amado, assim como amava, há muito tempo. A surpresa foi ainda maior quando sentiu as delicadas mãos tocando-lhe o rosto, sentindo os dedos finos entrelaçarem em seus cabelos e os lábios famintos procurarem pelos seus. Foi aos céus e lá ficou toda a tarde, que foi muito bem aproveitada com beijos e carícias.

June estava entediada. Ajudava no que podia, mas muitos humanos ficavam incomodados com sua presença; não entendia bem o porque, talvez fosse o fato de ser uma elfa, ou por ser mais forte até mesmo fisicamente. Ou simplesmente fosse tudo junto. Olhou para si mesma: estava sentada em um rochedo fora da cidade, olhando o horizonte com Athlantis atrás de si. Já era tarde, o céu começava a ficar alaranjado, e sentia em seu íntimo a proximidade da guerra. Pensava que em seus 190 anos de vida sempre fora forte, independente, auto-suficiente e sozinha. Pretendentes não lhe faltavam, mas em nada eles lhe interessavam. Bom pelo menos não por muito tempo...

"Com licença". Uma suave voz chamou, fazendo a elfa voltar à realidade.

"Shunrei? O que faz aqui?". Disse virando-se para trás.

"Notei que não comeu nada desde que chegou. Vim lhe trazer essas frutas". Afirmou a menina mostrando um cesta com algumas frutas e pães também.

Só então June percebeu: estava faminta. Durante a viagem não parou nem para beber água, e agora sentia o vácuo em seu estômago.

"Parece que você adivinhou". Sorriu para moça que sentou ao seu lado, ela também trazia uma cabaça contendo vinho.

June comeu em silêncio, enquanto era observada pela morena de olhos curiosos. Quando terminou, olhou para a outra.

"Algum problema?".

"Não...".

June novamente olhou para frente.

"... é que eu...". Shunrei não conseguiu terminar, mas levou a mão direita até o rosto da elfa afastando os cabelos para poder ver melhor. June olhou intrigada.

"Termina de falar".

Shunrei corou, retirou a mão e baixou a cabeça "Desculpe, mas fique curiosa por causa das suas orelhas".

June surpreendeu-se e colocou a mão esquerda na própria orelha.

"Que foi, não gostou?".

"É exatamente o contrário...". A menina corou ainda mais.

A elfa vislumbrou o rosto perfeito, viajou nas belas curvas, imaginou como seria aquele belo cabelo negro solto. Shunrei encarou a outra vendo o olhar de admiração, nunca havia notado um olhar com tanto desejo sobre si. Na verdade já havia notado, mas nunca se importou ou sentiu o que agora se passava em seu coração. Viu a loira guiar a mão até sua face e sentiu o suave toque, fechou os olhos viajando na carícia.

Do nada, a morena abriu os olhos alarmada, olhou para os lados, e levantou rápido.

"Fiz algo que não devia?".

"De modo algum, é que esse não é o local adequado...". Corou com a frase que começou.

June riu e levantou. "Entendo. Tem medo que os outros te vejam comigo? Acha estranho uma fêmea com outra fêmea, mesmo sendo de espécies diferentes?".

"Não é isso, mas vivo sozinha com meu irmão. Já fugi de muitas investidas de guerreiros e não sei se realmente quero essa situação...". A jovem ficou confusa.

"Nossa, você tá me confundindo! Quero ficar com você agora! Senti algo muito intenso em meu peito quando te vi e quero descobrir o que é esse sentimento. Mas se for para ficar colocando pedras em um caminho que mal começou é melhor não percorremos por ele".

Shunrei a olhou admirada; não pensou mais e foi em direção a ela, segurando em sua nuca e sendo abraçada na cintura, tendo os lábios arrebatados por um impudico beijo.

As emoções e as sensações se misturavam de forma intensa e avassaladora. Shunrei perdia-se naquele contato, e todo o traço de sanidade que possuía ia desaparecendo conforme o toque persistia. Por sua vez, June sentia um enorme calor invadir-lhe o corpo, e a vontade de sentir cada vez mais aquele sabor, aquele cheiro, aquele corpo junto ao seu.

Inebriadas! A mente deturpada com a nova e magnífica certeza: havia sim alguém para elas, e graças aos deuses finalmente as almas destinadas uma à outra se encontravam para unir-se novamente em uma só, forte e eterna

O beijo finalmente cessou. A morena sentia a face afogueada e ainda perdia-se no belo olhar da outra.

"June, eu...". Não entendia como, mas agora a vergonha tomava conta de seu ser. Nunca em sua vida imaginou que pularia assim no pescoço de alguém, ainda mais considerando que nem conhecia aquela elfa! O que seria pior: ter feito isso? Estar com alguém do mesmo sexo? Ou então ter gostado? Não sabia definir.

"Não precisa dizer...". Falou colocando o dedo indicador direito sobre os lábios rosados e tenros. "... Quer conversar em outro lugar?".

A garota sorriu aliviada; a outra parecia ter lido sua mente então apenas afirmou com a cabeça. Juntas foram para a casa na qual Shunrei morava.

"Você e seu irmão vivem há muito tempo sozinhos nessa casa?". June perguntou assim que entraram.

"Sim. Mas desde que se tornou um cavaleiro, Shiryu passa a maior parte do tempo com seus companheiros no alojamento, e eu fico aqui na companhia de minha ama".

"Ela não está aqui agora, est�?".

"Não. Porquê...". A menina nem teve tempo de falar, pois teve os lábios novamente tomados pelos da outra.

Em instinto puro, a elfa conseguiu encontrar o quarto, na parte superior da bucólica casa, e apressou-se a se deixar cair na cama sob o corpo da outra. Já acariciava de forma íntima, passando os finos e longos dedos pela cintura esguia da jovem Shunrei que gemia com o contato ousado.

June levantou lentamente o vestido da outra, deixando os dedos percorrerem a aveludada pele alva.

"Não...". Shunrei falou assustada erguendo um pouco o corpo.

"Não vou fazer o que você não quiser que eu faça!...". A loira levantou-se um pouco. ". Você é virgem?".

Shunrei afirmou com um movimento de cabeça.

"Bom, então deixaremos isso para depois. Mas beijar pode, né?". Sorriu maliciosa a elfa.

"Deve...". Murmurou a outra sentindo a face corar e vendo a monumental loira deitar-se novamente sob seu corpo começando a beijar de forma apaixonada.

Com suavidade, June soltou os cabelos da morena, finalmente vislumbrando a negra cascata e entrelaçando os dedos nela.

Era noite. Só naquele momento June percebia o estado de cansaço no qual seu corpo se encontrava, e após algum tempo juntas, acabaram por adormecer.

Amanheceu. Os primeiros raios solares entraram pelo quarto atingindo o rosto perfeito da bela morena, que despertou. A primeira coisa que viu foi o rosto alvo da elfa. Dormiram abraçadas, ambas de lado por sobre a cama, as pernas entrelaçadas e os braços envoltos na cintura uma da outra.

"Belo jeito de começar o dia". Pensou deixando escapar um pequeno sorriso de satisfação.

"Shunrei?". Uma voz incrédula fez com que a morena se virasse a loira acordasse.

"Seiya!". A morena levantou rápido tentando se recompor com a face vermelha.

"Bom dia... Para os dois". June falou sonolenta levantando-se e olhando para a menina e depois para o rapaz.

"Algum problema?". Disse ela.

"Para mim não, mas Shiryu não vai gostar nada disso". Seiya falou sorrindo sem graça.

"Meu irmão?". Aquela idéia ainda não havia se passado pela mente da garota.

"Só porque sou do sexo feminino?". A elfa ficou incrédula. Lembrava-se de ter visto Shiryu com Mú, e os dois pareciam muito íntimos, então por que Shunrei não poderia?

"Não é bem isso. Acho que é mais por você ser uma elfa". O rapaz ficou sem graça pela frase dita.

"Ah, é isso?...". June abriu um grande sorriso. "... Tenho certeza de que ele não vai se importar!".

Seiya sentiu-se incomodado com a afirmação. O que ela poderia saber sobre Shiryu que ele não sabia.

"Por que está tão segura disso?". Perguntou enfim.

"É que...". Pensou um pouco e achou a pergunta do rapaz suspeita. "... É isso que minha intuição me diz".

O rapaz riu. "É isso! Então t�! Eu vim aqui para te chamar, quase não acreditei quando me disseram que você tava aqui! Mas, o que importa é que os guerreiros estão prontos para partir. Vou esperar lá em baixo, acho que vocês querem conversar". Saiu sorrindo e achando que Shunrei tinha muita sorte em arrumar uma namorada tão bonita.

"Acho que agora é a hora de nossa despedida". Falou a loira quando ficaram a sós.

Shunrei baixou a cabeça sentindo os olhos encherem de lágrimas.

"Nunca mais vou ter ver...". Balbuciou abraçando a si mesma.

"Não diga isso! Eu vou voltar, e levarei você para minha cidade". Falou abraçando a garota e depositando um leve beijo na cabeça da morena.

"Promete?". Shunrei abraçou-a e olhou-a nos olhos.

"Sim, eu prometo". Acariciou a bela face, retirando algumas lágrimas que ali estavam, e começaram um longo e apaixonado beijo.

June deixou a casa vendo Shunrei parada à porta com o olhar triste, mas mesmo assim não vacilou e foi de encontro aos outros guerreiros.

"Vamos!". Chamou Daidaros saindo a galopes rápidos, sendo seguido pela pequena comitiva, rumo à maior batalha de suas vidas!


Ao fim da tarde do segundo dia de viagem Marin entrou em Háthyas, reino da senhora Saori, a mais pacífica rainha de todos os reinos humanos.

O reino em questão era muito próspero, se igualando a Athlantis, e muito belo, construído próximo ao maior rio da Terra-Média, o Nhozama, que este deságua no mar de água salgada. Era o reino mais próximo, por isso chegara rapidamente. Claro que também montava um ocigam.

Já estava no meio da cidade, mas sua presença não foi sequer notada, por não possuir traços élficos como a orelha. Finalmente chegou ao castelo. O belo animal branco malhando de cinza e preto empinou com a aproximação de um homem. Com agilidade, a ruiva fez com que o cavalo se acalmasse, e desceu encarando figura a sua frente.

"Quem é você?". Ele perguntou com voz firme.

"Sou Marin, e desejo falar com a rainha".

"Sinto muito, mas isso não é tão fácil assim". Falou o jovem de cabelos roxos repicados com a maior ponta chegando aos ombros. Era de estatura média, mais ou menos 1,75m; nos olhos a mesma cor do cabelo; o corpo era esguio, mas Marin não se deixou enganar, ele parecia ser muito forte.

"Algum problema, Odysseus?". Um outro jovem apareceu atrás do que ali já estava. Esse tinha cabelo rosa um pouco comprido, mas sem chegar aos ombros e também repicados; os olhos eram da mesma cor, em tom mais escuro. Ele era um pouco maior que o outro e o físico era mais desenvolvido, mas não chegava a ser muito musculoso.

"Problema algum, Io. Só essa garotinha aqui que pensa que pode falar com a rainha quando quiser". Falou debochando.

"Sinto muito, gracinha, mas se você estiver afim, eu posso conversar com você. Que tal um lugar mais reservado?". Io falou rindo e olhando a jovem de cima a baixo. Ela estava com uma capa cinza que cobria todo o corpo, mas se o rosto já era lindo, ficou a imaginar como seria o resto. Ambos riram.

Marin levantou uma sobrancelha, intrigada. "Garotinha? Gracinha?...". 'Quem eles pensam que sou?'. Pensou antes de prosseguir. "Sou uma guerreira! Vim de Rhovanion para falar com a rainha e assim o farei!". Afirmou segura de si.

"Rhovanion? Mas... você não é uma elfa!". Disse Odysseus já tocando no ombro da ruiva, pronto para expulsá-la dali!

Nesse momento a mestiça pegou a mão que ia tocar-lhe, apertando o pulso fazendo com que ela virasse, em seguida torcendo o braço e virando o cavaleiro de costas para si.

"Nunca tente me tocar. Pode ser perigoso para você". Murmurou no ouvido do guerreiro no segundo antes de jogá-lo no chão.

Io não ficou parado: desferiu um soco de esquerda que foi detido pela mão esquerda da mestiça, depois atacou de direita, tendo esse punho também preso pela mão da ruiva. Marin, então, usando sua agilidade de mestiça, pisou com o pé esquerdo na coxa direita de Io impulsionando o corpo para passar por cima do ombro direito do jovem, ficando assim com ele a suas costas; virou o corpo no mesmo instante que ele, e rapidamente socou a face do guerreiro fazendo o rapaz ir de encontro ao solo, já sangrando pela boca e nariz.

Muita gente viu a confusão, e mais guardas foram chamados. Marin viu-se então cercada por vários homens, alguns armados com espadas e outros com arco-e-flecha. A situação não era boa: estava com a entrada do castelo atrás de si, mas as escadas estavam na lateral, tanto a sua direita quanto a sua esquerda, a parte onde estava era como um degrau de aproximadamente 3m.

"Isso não era necessário". Pensou analisando a situação. Riu internamente, deu alguns passos à frente, afastando-se da parede.

"Fique parada senão...". Um dos homens falou, preparando o arco para atirar.

Ela estreitou os olhos e deixou escapar um sorriso irônico no canto dos lábios. Virou, ficando de frente para a parede, correu em direção a ela, bateu o pé esquerdo no mármore dando impulso para alcançar com a mão direita a parte mais alta do lugar; usando a impulsão conquistada fez com que o corpo elevasse dando um giro de quase 360º, parando no alto e de costa para os homens boquiabertos. O fino salto que ela usava ficou a um centímetro da beirada.

Como se nada tivesse acontecido, começou a andar vendo a porta do palácio se abrir, e de repente parou! O abrir da porta revelou um grande homem, aproximadamente 1.90m, cabelos castanhos claríssimos, olhos azuis e postura muito imponente.

Marin olhou de canto de olhos para trás, os outros já haviam subido e algo lhe dizia que o homem a sua frente era a maior de todas as ameaças.

"Siegfried, sua presença não é necessária, nós podemos cuidar dela". Disse Odysseus.

O homem olhou de cima a baixo para o companheiro vendo o estado lastimável em que esse se encontrava, todo sujo e como o orgulho ferido; Io estava pior, pois sangrava.

"Estou vendo como podem cuidar dela. Esqueceram-se de que nunca devem subestimar um inimigo?". Indagou.

"Não sou inimiga!". Marin disse encarando o homem que facilmente notou ser o general do exército; bastou ver como os outros abaixaram a cabeça para o que dissera.

"Então, por que atacou?".

"Oras, ou eu atacava ou era expulsa, e isso não posso permitir".

"Sinto, mas você agora é nossa prisioneira. Feriu guerreiros de nossa nação e pagará por isso".

"Não será tão fácil me prender!". Disse desfazendo-se da capa, deixando a mostra o belo corpo vestido com uma calça preta justa na cintura e quadril, larga no restante, a blusa era vermelha sem ombros ou alças dessa forma os ombros ficavam nus. Não carregava espada, mas sim uma "sai" presa em cada uma das coxas. (N/A: 'sai' é uma adaga de três pontas).

A ruiva pegou as armas, postando-se para a batalha. Do mesmo modo Siegfried o fez, retirando sua espada da bainha.

"Afastem-se! Essa luta é minha". Ordenou o general aos homens que estavam próximos.

A contragosto Odysseus, Io e os outros também, se afastaram.

Siegfried avançou três passos e Marin recuou a mesma quantidade, ficando ambos quase no meio do hall aberto que antecedia a entrada do salão da rainha. A porta foi fechada por dois homens, e no momento em que a pesada porta fez o estrondo do contato das partes se tocando, os dois correram em direções opostas, indo de encontro um ao outro.

O barulho dos metais se chocando se fez presente no local, a espada foi segura, em dois pontos, entre as pontas da 'sai'. Marin ergueu os braços levando o outro a fazer o mesmo e aproximando muito os corpos.

"Essa luta não é necessária". Afirmou só para o outro ouvir.

"Renda-se e ela acaba sem que você saia ferida".

"Nunca!". Ela disse tendo os braços forçados para baixo pela força que o outro aplicava.

"Ahhhhhh". Um grito de dor ecoou, a mestiça conseguiu sair antes de ter o braço decepado, mas não pôde evitar que um profundo corte fosse feito em seu ombro direito.

Os olhos brilhantes e azuis da jovem ganharam um brilho diferente, estava diante de um guerreiro a sua altura, mas ele ia pagar caro por te lá ferido.

"As pernas...". Pensou ela, era um homem alto e poderia atingir-lhe facilmente as pernas, ainda mais se considerarmos sua agilidade superior.

Atacou desviando, em um giro de 180º da espada se protegendo com uma sai enquanto a outra foi cravada na coxa direita do general. Postou-se vendo o outro quase cair depois do golpe.

"Você não é humana. Humanos não se movem assim, tampouco fazem o que você fez para subir aqui". Disse ele um pouco incerto.

"Sou uma mestiça: filha de um humano com uma elfa. E como já havia dito a seus amigos, vim de Rhovanion para falar com a rainha e eu o farei mesmo que tenha que te matar".

"O que pode ser tão importante para que você arrisque sua vida assim! Pois sabe que eu também posso te matar mesmo sendo uma mestiça, tenho força para esse ato!".

"O mais estranho é que me arrisco pela sua raça...". De repente essa idéia lhe veio à mente e percebeu que cometia um erro em lutar. Desfez a postura de combate ficando com a coluna ereta e os braços largados esticados e segurando as armas.

"O que você está fazendo?". Ele ficou muito intrigado.

"Me rendendo". Seu tom de voz era gélido, da mesma forma que seu olhar.

"Jogue fora a 'sai'...". Ela o fez, e ele aproximou-se colocando a ponta da espada na garganta da ruiva. "... Poderia te matar agora". Ele disse estreitando os olhos.

"Faça e seu reino cairá por não aceitar minha ajuda".

"Ajuda? Mas do que ela está falando?". Perguntava-se Siegfried em pensamento. O reino estava na mais perfeita ordem, porém aquele olhar não mentia; muito pelo contrário, passava convicção absoluta!

Ele aproximou-se segurando no queixo da ruiva, apertando ligeiramente a maçã do rosto. Chegou o rosto muito próximo, mas sem largar a espada.

"Tente algo e eu juro que lhe cortarei a cabeça". Murmurou em tom ameaçador, e em seguida solto-a, guardando a espada.

"Você está louco? Mate-a". Io chegou perto indignado.

Siegfried olhou de cima. "Creio que não ouvi bem. Quer repetir?".

Io estremeceu e reconheceu em pensamento que estava errado, afinal aquele não era qualquer um, mas sim o seu general. "Nada, eu não disse nada importante".

"Ainda bem". Falou voltando-se para Marin, encarando. "Vamos". Chamou indo em direção à grande porta, abrindo-a e transcendendo. Marin o seguiu, Odysseus também, mas Io ficou do lado de fora.

O local era lindo: na janela, vitrais com imagens dos deuses. Podia-se notar a adoração à deusa Athena, protetora do reino, isso graças a uma estátua de quase dois metros localizada atrás do trono de modo que os pés dela ficavam na altura da cabeça do soberano quando este estivesse sentado. A estátua em questão era toda de ouro, a deusa segurava na mão esquerda seu escudo e na outra a espada, apontada para o chão, que simbolizava Nike, a Vitória.

O salão estava vazio, com exceção aos que acabavam de entrar.

"Odysseus, vá chamar a rainha". Ordenou o general, que demonstrou não desejar respostas, assim como também não queria deixar a ruiva a sós com um guerreiro que não era capaz de enfrentá-la. Assim, o jovem de cabelos roxos saiu.

"Você é uma mestiça e vive em Rhovanion?". Perguntou ele, pouco interessado.

"Sim". Ela respondeu, com menos interesse ainda. Ocupava-se com gravar na memória todos os detalhes do local onde estava.

"Os elfos não aceitariam...".

"Você não sabe de nada!".

Siegfried virou-se para a ruiva indignado, e pronto para dizer meia dúzia de desaforos àquela garota mas, nesse momento, a rainha entrou no salão.

Com placidez e altividade, a jovem garota caminhou até o trono. Marin a fitava de cima a baixo. Ela era realmente muito jovem, a aparência era de uma mera menina mimada, mas escondia por baixo dessa couraça uma grande líder com alma de guerreira, nobre por natureza e guiada pela mais sábia das deusas. Os cabelos cor lavanda eram longos, lisos, de aparência sedosa, e podia se deduzir, perfumados. O vestido era longo, tecido acetinado em rosa suave que moldava bem os seios e a cintura e abria-se em uma pequena roda conforme ia chegando ao chão.

Na companhia da rainha vinha uma jovem ruiva; os cabelos puxados mais para alaranjado do que para vermelho estavam presos caprichosamente em uma trança curta, já que o cabelo não era longo, mas alguns fios caíam-lhe na face assim como a franja, o límpido azul dos olhos era o que mais chamava atenção na serva que aparentava ser um pouco mais velha que sua senhora e vinha com um vestido branco de bojo azul que deixava a mostra o ombro, a não ser pela alça de ambos os lados, mas esse tinha apenas quatro centímetros.

Marin viu os olhos violetas de Saori percorrer-lhe todo o seu corpo, contemplando a situação deplorável na qual se encontrava, já que sangrava tanto que sua roupa do lado direito do corpo estava toda manchada, assim como no chão se formava uma pequena poça do líquido vermelho e viscoso.

"Por Athena! O que é isso? Se você continuar assim, vai desfalecer aqui mesmo!...". Disse a rainha muito preocupada. "... Seika, leve-a para cuidar dessa ferida". Falou virando-se para sua dama de companhia.

"Sim, Majestade".

Assim que recebeu a ordem a garota foi em direção à outra com um lenço que trazia nas mãos, e assim que chegou perto o levou até a ferida no intuito de estancar o sangramento, apertando-o. Marin deu um passo para trás, a dor era forte e não gostava de ser tocada. Afastou-se de vez, mas ficou com o lenço, segurando-o com a mão esquerda.

"Creio que há assuntos mais urgentes a serem tratados, milady".

"Mas e seu ombro?".

"Depois cuidarei dele. O que tenho a falar é muito urgente".

"Então diga". Falou a jovem fazendo sinal para que Seika voltasse a seu lado.

"Sou Marin, vim em nome de meu povo: os elfos de Rhovanion e Avalon. Sempre houve divergência entre nossas espécies, isso é fato incontestável, e está prestes a explodir mais uma guerra entre Homens e Elfos".

"Então você veio aqui para declarar guerra? Shion vai nos atacar?".

"Shion não: Hades e os Signos Negros!...". Esse nome soou nada familiar aos que ali estavam, por isso Marin resolveu continuar. "... Desde os tempos mais remotos, lutamos entre nós pelo domínio da Terra-Média, mas nunca se buscou a extinção de uma das espécies, e por questão de honra os elfos nunca utilizaram seu verdadeiro poder contra os humanos. Na mais recente batalha houve também uma rebelião interna em meu povo. Hades levantou-se contra a nossa antiga líder em uma batalha sangrenta. Ela conseguiu aprisioná-lo em um reino no subsolo da Terra-Média, mas infelizmente isso causou a morte da Senhora, assim como levou vários elfos ao túmulo. A ambição de Hades não pode ser concretizada ficando ele e seus servos aprisionados".

"Não entendi bem o que isso tem a ver conosco". Falou a rainha um pouco incrédula.

"Acontece que a ambição de Hades é livrar a Terra-Média de todos os impuros e, de uma forma que ainda não sabemos explicar, Hades e sua legião conseguiram quebrar o selo que os prendia; assim, começaram a atacar humanos. Nesse momento, um pequeno grupo, os mais fortes de meu povo, os elfos dourados, dirigem-se para a batalha juntamente com três humanos do reino de Athlantis".

"Como posso acreditar no que diz?".

Marin movimentou-se rápido indo de encontro à rainha, deixando cair o lenço e levando a mão direita a suas costas. Siegfried, que a via de costas, viu a mão retirar uma adaga de vinte centímetros que até então estava oculta pelos cabelos revoltos, e apressou-se em desembainhar sua espada. Mas já era tarde, e a mestiça estava a menos de um metro da rainha. Com movimentos calmos mas ágeis, Marin estendeu a arma desembainhada à jovem e ajoelhou-se, e encarou-a com firmeza.

"Se duvidas, mate-me agora!".

Saori pegou a adaga, segurando-a em direção ao pescoço da outra, quase lhe tocando a pele. Encarou friamente tentando desvendar o que havia por trás daqueles azuis: verdade ou falsidade?

Absortas na situação, não notaram que o general colocou sua espada do lado direito do pescoço da mestiça.

"Guarde a espada, Siegfried! Meu coração diz que devemos confiar nessa jovem...". Assim o guerreiro fez, e a rainha sentou-se novamente. "... O que sugere que façamos, então? Sim, pois se já há guerreiros a caminho, não temos tempo a perder. Não há tempo para preparar um exército".

Marin levantou-se rápido, e com o movimento abrupto sentiu uma forte vertigem. Quase caiu, mas conseguiu se recompor.

"Você está bem?". Perguntou a rainha preocupada.

"Não se preocupe! Quanto ao que devemos fazer, o certo é levar o maior grupo possível desde que a partida seja amanhã, quando dos primeiros raios do sol".

"Siegfried, quantos homens podemos preparar com esse tempo?".

"Vinte, vinte e cinco. No máximo trinta".

"Então ordeno que comecem os preparativos agora. E quanto a você, Marin, vá com Seika. Ela lhe mostrara um dormitório e lhe ajudará a cuidar dessa ferida".

O corte era realmente fundo, e se não fosse uma mestiça já haveria caído inconsciente há muito tempo, ou quem sabe até mesmo morrido pela hemorragia que tingia onde quer que ela parasse.

"Não é necessário, eu vim aqui para ajudar...". O tom de voz tornou-se baixo, e nesse instante o corpo começou a cair; já não possuía mais forças para manter-se em pé e sentia a vida esvair-lhe do corpo. Só não chegou ao chão pois o braço forte de Siegfried segurou-a prontamente. A última coisa que Marin pôde ouvir foi a voz forte do general dizendo: "Fique tranqüila, você está entre aliados, agora". E desfaleceu.

Acordou assustada, sem saber onde estava. Marin conseguiu erguer ligeiramente a cabeça, olhando para os lados tentando se localizar no tempo e espaço. Não viu nada, somente as paredes do quarto onde estava. Reparou na cama em que deitava, ela era grande e confortável, os lençóis finos de textura suave tocavam-lhe a pele desnuda... Desnuda? Sim, seu tórax estava nu, envolto apenas em uma bandagem que cobria o ombro direito e os seios. Estava com uma calça branca e larga. Com um pouco de dificuldade conseguiu levantar-se, procurando suas sandálias, suas roupas e suas armas. Olhou para fora; já era noite.

"Gaia!".

Nesse momento, viu a porta se abrir. Assustou-se, e sem saber o que fazer ficou parada de frente para quem quer que entrasse.

Siegfried gelou com a cena! A bela mestiça em pé, o abdômen bem delineado a mostra, os seios completamente moldados pela bandagem, a calça abaixo do umbigo deixando parte da pele abaixo deste a mostra... Subiu o olhar, vendo os cabelos caídos por sobre os ombros em maravilhosa cascata escarlate, e nos olhos o brilho da incerteza... Fascinante! Suspirou, desviando o olhar.

"Perdão, pensei que ainda dormia".

"Quero minha roupas e meus pertences".

"Creio que as roupas não estão em estado de uso. Quanto a suas armas, não se preocupe. Estão comigo e as devolverei".

"Preciso de roupas".

"Vou chamar Seika e ordenar que lhe traga alguns vestidos".

"Calças e uma camisa. Não dá para lutar bem usando um vestido".

Siegfried riu achando aquele ser muito especial: era forte mesmo ferida; era determinada mesmo sozinha; tinha que reconhecer, era uma guerreira valorosa.

O general saiu, deixando-a a sós, perdida em seus pensamentos. 'Ele me ajudou, esqueci de agradecer'. Pensou olhando para a porta já fechada.

Em aproximadamente cinco minutos Seika entrou no quarto, carregando algumas roupas consigo. A serva ajudou Marin a vestir-se, mas em seu olhar havia uma interrogação que parecia saltar, tão evidente era.

"Pergunte logo!". Marin falou enquanto vestia a camisa.

"Como?...". Tentou fazer-se de boba.

"Sei que quer saber algo, então diga!".

"Bom é que... É difícil ser uma guerreira e ter uma vida como a das outras garotas? Eu sei que você não é humana, mas...".

"É tão difícil quanto decidir entregar sua vida para servir". Falou calmamente, encarando os olhos da outra.

"Mas... e seu marido ele aceita? Desculpe, estou sendo intrometida".

"Não há problemas. O meu companheiro é um elfo dourado, está indo para a batalha eu não poderia ficar parada e deixá-lo se arriscar sozinho. Sei que esse motivo e egoísta, mas se for para morrer, que nós estejamos juntos, pois não suportarei viver sem ele...". O amor que a mestiça deixava transbordar era tão grande que chegou a emocionar a serva.

Siegfried entrou. Não ouvira toda a conversa, mas as últimas falas de Marin ele entendeu perfeitamente, e por um estranho motivo sentiu-se incomodado.

"Com licença..." Disse assim que entrou. "... Logo irá amanhecer, acho melhor você comer algo se pretende viajar tanto tempo, e ainda se recuperando de um ferimento grave".

"Sim, claro". Concordou ela, realmente estava faminta!

"Só mais uma coisa, Seika...". Murmurou ela. "... Se você tem um sonho, lute por ele, pois se você luta e crê esse sonho vale a pena. Acredite!".

Seika sorriu lindamente. A jovem que via diante de seus olhos era realmente encantadora! Enfim saíram. Marin foi guiada a uma sala onde comeu e bebeu, satisfazendo-se com a gostosa comida.

No horizonte o sol já começava a levantar-se, mudando o azul escuro para alaranjado vivo e vibrante. Rumo a ele um grupo de vinte homens deixou para trás a bela cidade de Háthyas, guiados pela nobre mestiça.


"Solaryus...". Murmurou Thétis ao chegar ao grande portal de madeira maciça com vários desenhos. Via-se o sol em lugar de destaque, ante as montanhas e os lagos.

A cidade era toda cercada por altas muralhas. Havia várias casas de agricultores ao redor, e mais longinquamente, onde não se podia ver.

Poderia pular, mas para que se dar ao trabalho? Era só pedir, que certamente abririam a porta para ela.

"Olá". Chamou, esperando por alguma resposta.

"Quem é você? E o que quer aqui?". Uma voz masculina perguntou.

O guarda que estava do outro lado abriu uma pequena janela, de modo que somente seus olhos eram vistos.

A loira desceu de seu ocigam amarelado e aproximou-se da janela.

"Deixe-me entrar". Falou com voz doce e sedutora, encarando firmemente os olhos do jovem. Como por encanto o cavaleiro obedeceu à ordem, abrindo uma porta menor que se ocultava no grande portal. A elfa entrou, levando seu cavalo.

"Qual é seu nome, rapaz?".

"Chamo-me Jabú, senhorita".

"Muito obrigada, Jabú, você foi muito útil". Falou ela sorrindo e montando em seu cavalo, logo em seguida disparando rápido para o castelo.

O jovem balançou a cabeça, olhando para os lados. Só então se deu conta do que havia feito. Ela podia ser uma inimiga! Pelos deuses, onde estava com a cabeça? Odiou-se e saiu em busca de ajuda.

Thétis sorria maliciosa, era realmente muito boa no que fazia, e homem algum podia resistir a sua doce voz!

Os elfos foram os primeiros seres a conhecerem a fala, e nenhuma espécie da Terra-Média cantou antes deles, por isso sua voz possuía beleza e força superior às outras. Thétis manejava com destreza essa poderosa arma. Era, pois, uma sarcedotiza nascida do ventre de uma elfa que possuía os mesmos poderes, e filha de um grande guerreiro, logo também era uma guerreira. Seus poderes, utilizava-os quando julgava não ser necessária uma luta.

Em poucos instantes chegou ao castelo. Assim como a maior parte da cidade, ele possuía as paredes em tom amarelo claro; no alto do marco da entrada principal do castelo, entalhada na pedra, via-se a biga de Apolo, a que conduzia o sol. Olhou para seus pés e viu que abaixo, também entalhado na pedra que pisava, havia um grande desenho do astro-rei.

"É, esse lugar adora mesmo Apolo". Concluiu em pensamento. "Já não há mais tempo, tenho que falar com o rei agora". Conclui em pensamento caminhado para a porta.

"Hei! O que quer aqui?". Um homem de pele negra e cabelos brancos num curioso corte, que deixava as laterais nuas e crescia somente no meio chegando bem abaixo da cintura, interrogou.

"Leve-me a seu rei". Novamente usou seu doce e implacável poder de persuasão, e no mesmo instante o guerreiro abriu a porta, acompanhando-a até o interior.

O rei, que até então conversava com seu fiel general Atlas, surpreendeu-se com o que viu.

"O que está fazendo? Por que deixou entrar essa elfa?". Perguntou em alto e bom som, fazendo o cavaleiro sair de seu torpor.

"Majestade, eu... Eu não sei". Respondeu ele, confuso.

Nesse instante, Jabú entra correndo pelo salão. "Majestade...". Parou ao ver a elfa. "... Acho que cheguei tarde". Disse, sem graça.

"Mas afinal, o que está acontecendo aqui?". O general falou furioso.

"Perdão. Creio que a culpa não é deles, e sim minha". Falou observando a bela figura do rei com seus cabelos azuis, vestido com uma longa túnica branca com um faixa vertical que ia do peito ao chão.

"Isso eu já percebi! Diga, então: o que uma elfa está fazendo em meio reino?".

"Sim... Está para estourar a maior guerra já vista na Terra-Média, mas não em escala numérica e sim em poder. Um grupo de elfos que acreditam em uma Terra-Média inicialmente puramente élfica pretende retornar a esse passado, exterminando todas as espécies e raças diferentes deles...".

"Não há nesse mundo exército que possa combater os cinco reinos de uma vez!". Afirmou Atlas.

"Aí é que você se engana! Eles podem, sim, matar todos, pois têm poder para isso. Pense bem: é obvio que usei de meus poderes élficos para estar agora nesse salão, mas ao contrário de mim, os Signos Negros podem manipular de forma ofensiva seus poderes. Isso só é possível aos mais fortes de minha espécie. Em Rhovanion há apenas treze elfos capazes de fazer isso: eles são Shion, nosso líder maior, e os dourados que agora caminham para a batalha, em nome da liberdade e da sobrevivência de seu povo!".

"Não acredito em você! Saia agora de meu palácio ou mandarei te executar!". Falou o rei em tom ameaçador.

"Mas...". Ela tentou protestar, mas Atlas foi a seu encontro para tirá-la de lá. "Não me toque!".

O rei surpreendeu-se, vendo seu mais leal servo parar ante a ordem da loira.

"Como fez isso?". Ele disse incrédulo.

"Do mesmo modo que poderia fazer com o senhor, mas prefiro que acredite em mim sem a necessidade desse tipo de coisa".

Impossível negar que aquelas palavras tocaram-lhe profundamente. Se ela quisesse, poderia obrigá-lo a fazer qualquer coisa. Viu Atlas voltar ao normal e logo em seguida segurar a jovem pelos ombros, obrigando-a a caminhar de encontro à porta.

"Traga-a aqui". Ordenou, quando eles já estavam perto da saída. Atlas achou estranho, mas obedeceu.

"O que diz é de estrema gravidade, espero que compreenda isso. A batalha já começou, de certa forma. O que espera que eu faça?".

"Mande um pequeno grupo. Eles serão leves e ágeis, e chegarão a tempo, já que Rhovanion é o local mais distante do bosque negro de Doriath, onde a batalha acontecerá".

"Se é assim, amanhã logo cedo meus homens seguirão você até esse bosque. E que Apolo os proteja". Concluiu com pesar.

Como o rei ordenou foi feito: na manhã do dia seguinte um grupo de quinze humanos e uma elfa deixou Solaryus para a maior batalha já vista pelos seres daquele mundo.


NA/ O capitulo quatro ficou muito grande (a Kuu-chan, minha beta, que o diga ), por isso eu resolvi dividi-lo em duas partes.

Proxima parte: Jisty e Shina!