Notas da autora: Dramático, não deu pra evitar. Foi mais forte que eu. Fundo do poço total. Quem se habilita?


Quando pensou em viajar, Kyo teve em mente que precisava de agitação. Que movimento e diversão a sua volta poderia lhe fazer bem.

Nova York foi o primeiro lugar que pensou naquela noite na casa de Benimaru. Lá certamente não lhe faltaria o que fazer. A vida era intensa em todos os sentidos.

Talvez fosse melhor se divertir e não ter tempo de pensar. E assim o fez.

Cinema, teatro, shows e bares. Kyo freqüentou esses lugares, sempre sozinho. Não precisava estar acompanhado para se divertir e fosse como fosse, preferia continuar assim.

"Antes só que mal acompanhado" não era isso que diziam?

Kyo conseguiu diversão: assistiu filmes, peças e shows de música, visitou alguns parques. Coisas que lhe trouxeram alguma leveza, mas não tão duradouras quanto deveriam ser. Sensações fugazes não tinham tanta serventia. Ainda assim aquele lhe parecia o melhor lugar. Isso lhe parecia certo.

Porém, essa idéia durou apenas duas semanas, até o desfecho de uma de suas saídas noturnas.

Estava sentado em um dos vários bares de NY, assistindo um show de música e bebendo um drinque. Uma bebida de baixo teor alcoólico, nada que pudesse nublar seus sentidos. Sabia que era fraco com bebidas, e estava respeitando seus próprios limites, afinal estava sozinho em um outro país. Precisava ser sensato.

Apesar de o bar estar lotado e da música alta, as coisas pareciam relativamente tranqüilas. O problema era passar despercebido: logo começou a ser abordado por pessoas com outras intenções.

Mulheres e homens, sóbrios ou bêbados, de forma discreta ou não. Mas Kyo dispensava a todos educadamente.

Não queria "se dar bem". Isso não estava em seus planos. Queria apenas um pouco de paz, solidão. Outros pensamentos, coisas novas... mas seus planos não pareciam muito eficazes. Não quando um dos guitarristas daquela banda lembrava vagamente um certo ruivo.

Uma semelhança muito vaga, mas ainda assim capaz de despertar sensações que gostaria de esquecer. Com isso deu sua noite no bar como encerrada: pagou a conta e resolveu sair. Atravessar o corredor humano era uma tarefa chata, mas necessária.

Quando conseguiu chegar à rua, percebeu-a deserta. Não estranhou por causa do horário, e de qualquer forma seria bom. Sem a multidão típica de Nova York, talvez conseguisse chegar mais cedo ao hotel.

Mas seus planos foram frustrados ao sentir um forte puxão em seu ombro, que o fez entrar em um dos vários becos que havia pelo meio do caminho.

- É, garotão... nós nos encontramos de novo. É o destino, não acha? – sussurrou uma voz bem ao pé de seu ouvido, enquanto outras, mais distantes, sussurravam coisas entre elogios e obscenidades.

Aquelas vozes lhe eram familiares. Na certa era um dos homens que tentaram se aproximar enquanto estavam no bar. Não poderia dizer que qual deles, afinal mal se lembrava dos rostos, mas tinha certeza de que era isso: pessoas que não aceitaram a rejeição e queriam se divertir de qualquer forma.

Sentiu quando o prenderam contra a parede, quando mãos o mantinham seguro ali, tentando percorrer seu corpo e tirar-lhe as roupas. Sabia que estava cercado, mas não sabia por quantos. Quatro ou cinco pessoas talvez. A escuridão o estava deixando desorientado.

Porém isso durou apenas poucos segundos. Apenas o tempo de Kyo orientar-se minimamente e não gastar energia a toa. Queria ter precisão de seus atos.

Não houve palavras de sua parte e nem avisos. Sem demora, o seu punho cerrado atingiu o alvo pretendido.

Ouviu risos, assovios e palavras jocosas enquanto aqueles homem pareceram se tornar mais agressivos, afinal reafirmara a sua recusa e isso certamente não os deixou contentes. Afrontara a todos, especialmente aquele em que dera o soco.

- Olha aí, pessoal... ele é rebelde. – disse o homem, com a voz meio arrastada pela agressão sofrida. Ele puxou os cabelos do moreno, fazendo-o arquear o pescoço e deixando sua pele exposta. Sussurrava tão próximo que Kyo podia sentir a respiração quente e o hálito fétido de bebida. – Nós vamos te ensinar a ser mais educado, não é, galera?

- Ééééé... – responderam os outros, em coro.

- A festa vai começar, bonitão...

E a festa realmente começou, mas não da forma que pretendiam. Bastou que Kusanagi livrasse um dos seus braços. Não ia ser naquela noite que eles se dariam bem. Os golpes precisos e certeiros de Kyo garantiriam isso.

Porém não ficou ileso. No escuro, não pode evitar um golpe de punhal, mas não foi nada que o parasse. Só parou de lutar depois de se certificar de que seus oponentes já estavam fora de combate, usando a luz de suas chamas para checar o espaço. Todos eles estavam em seus devidos lugares: no chão, inconscientes ou tontos demais para se colocarem de pé.

Saiu daquele beco, e logo adiante, numa cabine telefônica, chamou a polícia relatando os acontecimentos como se fosse apenas uma testemunha. Ficou ali por perto até ouvir o som das sirenes, afastando-se em seguida para não ser visto, não querendo se envolver ainda mais na história. No fim, pôs-se a caminho do hospital mais próximo: o corte sangrava muito e provavelmente precisaria de cuidados.

E foi assim que terminou sua ultima noite em Nova York: em uma sala do pronto-socorro, deitado em uma maca enquanto uma enfermeira dava pontos em seu abdômen, ouvindo dela que o ferimento fora profundo, mas que teve sorte por não ter atingido um dos rins. Teria uma cicatriz, mas não se importou.

Era apenas mais uma marca a carregar, como tantas outras que já tinha em seu corpo.

ooOOoo

Paris foi um passo estranho de sua parte, tinha de admitir. Um lugar daqueles nunca estivera em seus planos. Tudo bem que a viagem começara sem planos de destino, mas nada que tirasse a perspectiva de absurdo a esse respeito.

Paris era uma cidade repleta de todas as formas de arte, rica em cultura e conhecimento. O total oposto de Kyo... pelo menos era o que ele achava.

Kyo Kusanagi nunca tivera sensibilidade para arte. O máximo que dispunha disso era um poema ou outro, escrito às pressas, rabiscado em qualquer lugar e de qualquer jeito. E mal escritos: pelo menos era o que pensava assim que os lia. Sentia-se ridículo sempre que fazia isso.

E cultura nunca fora o seu forte. Kusanagi mal estudou, não tinha o hábito de ler. Nunca fora incentivado para ir além do estritamente necessário. Isso não era importante na visão dos outros. Gostava de música, e se pudesse faria algum cursinho para aprender algum instrumento, mas no que isso faria diferença nos torneios?

Apesar de gostar daquelas coisas, era apenas um mero espectador. Por tudo que era, Kyo sabia que não seria mais do que isso. Talvez justamente por esse motivo tivesse ido parar lá. Um tipo de instinto ou desejo secreto.

Foi estranho sair do hotel para o primeiro passeio. Como já era de se esperar, sentiu-se completamente deslocado. Era previsível, mas acabou descobrindo pelo menos um ponto em comum: comida. A primeira coisa que fez naquele dia foi comer. Seu apetite sempre fora grande e seu estômago parecia saber de todas as promessas de sabores daquela cidade.

Pelo menos era um começo.

Depois disso, não foi difícil para Kyo seguir. Bastou agir como um turista comum e fazer os mesmos roteiros. De início, bastava isso para descobrir outros lugares, e a partir disso ter o que fazer não foi mais um problema.

Por mais incrível que parecesse, entrou em museus, galerias e bibliotecas. Não soube o que o levou para tais lugares: atribuiu isso primeiro ao senso de turista. Mas, ao fazer o mesmo caminho no dia seguinte, acabou admitindo que deveria ser uma vontade a mais.

O moreno descobriu a razão de Paris ser chamada de cidade-luz. Seus olhos, ávidos de curiosidade perseguiram tudo o que estava ao seu alcance e o distraíram de seus pensamentos.

Havia tanto a se ver que Kyo dificilmente ficava parado. Paris era agitada o bastante para distraí-lo. Distraiu-o a ponto de deixá-lo alheio aos olhares que recebia dos outros. Alguns discretos, outros mais expansivos. De encanto ou lascívia... muitas reações que ele nem se dava conta, continuando tão desligado quanto a isso como sempre.

Mas, apesar da agitação e de estar bem ali, sentia-se sozinho. Sentia falta de toques, de envolvimento.

Sentia falta do ruivo, mas isso estava fora de cogitação. Não devia e nem podia sentir falta dele porque aquilo havia acabado. Iori mesmo quem colocara fim no relacionamento.

Então decidiu que seguiria adiante. Se aparecesse alguém, ia investir. Se quisesse esquecer precisava viver coisas novas.

Foi uma decisão tomada um pouco antes de resolver entrar em um café. Estava distraído comendo um doce quando um rapaz se aproximou discretamente, perguntando se poderia sentar-se junto com ele. Kyo assentiu, percebendo que o lugar parecia lotado. E como se fosse uma consequência natural, começaram a conversar.

Kyo gostou daquilo. Há tempos não conversava com alguém. Desde que começara a viajar, seu contato com as outras pessoas era apenas de poucas palavras, fosse pela barreira do idioma ou pela falta de oportunidade.

O rapaz parecia simpático. Sua conversa era interessante e sua aparência parecia ser um bônus. Seu rosto era bem atraente, um conjunto harmonioso: rosto quadrado, de traços leves, olhos castanhos claros e amendoados, cabelos loiros em tom acobreado e lisos. Uma combinação que lhe dava um aspecto tipicamente francês, de porte aristocrático e quase arrogante.

Olivier Martel. Esse era o nome dele. Um escritor em início de carreira, ou alguém que gostaria de escrever, mas até o momento arriscara-se apenas em simples contos, segundo suas próprias palavras. Agora, queria escrever um livro. Por isso decidira viajar.

O que era uma simples pausa para um café evoluiu para uma conversa duradoura sobre assuntos amenos. E Kyo adorou isso, há quanto tempo não conversava com alguém?

Sentia falta disso. E como se fosse um presente que merecesse, aproveitou. Era uma outra atmosfera, outro tipo de pessoa e de assunto. Outro universo.

Foi uma tarde muito boa. Sem demora e já estavam quase conversando como amigos. Não amigos de infância, mas como quem já parecia ter alguma intimidade. O bastante para fazer uma conversa parecer muito interessante.

Com algum tempo, a coisa foi evoluindo para o flerte. Discreto, de início, mas que ia se intensificando a cada aceitação ou recusa discreta da parte de Kusanagi. Oliver era envolvente em suas palavras, talvez pelo fato de escrever, ou por ser francês, como se pudesse ser um dom natural de quem lá nascesse.

Muitos fatores que, unidos à aquele belo rosto lhe tornaram extremamente atraente. Kyo quase poderia ceder a ele, interrompendo aquele isolamento.

E foi o que acabou acontecendo, num desenrolar absolutamente natural. A conversa da tarde no café se estendeu para a noite. As amenidades fluíram para o flerte. E era natural que do flerte pudessem partir para o algo mais. Sem forçar a barra, apenas uma conseqüência natural.

Kyo aceitou o convite de Olivier para saírem do café e ir para um barzinho, e de lá para o hotel onde o outro estava hospedado. Estava se sentindo seguro pela atenção que ele lhe dava, por seus toques discretos e suas palavras. Tudo aquilo estava impelindo-o a ir adiante.

Bastou que entrassem no elevador para que seus olhares ganhassem intensidade, um pouco de desejo, mais exposto. E assim que fecharam a porta do quarto, um segundo foi tempo demais para esperar por um beijo. Os lábios de Olivier uniram-se aos seus em um beijo com um gosto bom. Um sabor diferente, não como o gosto de Iori.

Não havia comparação, seria injusto e não queria pensar no assunto naquele momento. Olivier parecia ansioso e Kyo não queria lhe deixar esperando. Então correspondeu-o, tentando acalmar e ao mesmo tempo atiçá-lo.

Kyo não precisava de muito para fazer isso. O simples ato de corresponde-lo parecia ser muito aquele rapaz que já estava quase se desmanchando com o simples roçar das peles. Não seria preciso muito para que começassem a se perder: um tendo apenas o corpo do outro como realidade. Os sons e indícios de prazer como tudo aquilo a ser dito e ouvido. Tudo na mais absoluta sincronia, fazendo com que horas parecessem apenas minutos por tal intensidade.

Momentos bons que se perderam em apenas uma frase ao fim de tudo.

- Você está bem? Te machuquei? – perguntou Kyo.

- Não, não me machucou. Você foi ótimo. E você? Te machuquei?

- Não, está tudo bem. Você foi gentil.

Olivier se ajeitou na cama, sentando-se para ficar mesma posição que o moreno, fitando-o com um olhar satisfeito.

- Eu sei que esqueci uma coisa... foi indelicadeza da minha parte, mas posso corrigir isso agora. Não combinamos o preço.

- Hã?

O loiro sorriu diante da quase-pergunta de Kyo. Virou para o lado oposto, e estendeu a mão, pegando sua carteira sobre o criado mudo, voltando a olhar para o seu parceiro.

- Você não disse quanto cobrava. – explicou, diante da confusão do moreno. Abriu a carteira, remexeu um pouco lá dentro, mostrando algumas notas de alto valor – Vamos, não se acanhe... você foi ótimo e tenho certeza que vale o que cobra.

Aproximou-se um pouco, buscando beijar-lhe o pescoço, querendo começar tudo de novo, mas Kyo não permitiu. Como num instinto, segurou os pulsos do outro, afastando-o para em seguida levantar-se da cama num pulo.

- Ei? O que foi?

Kusanagi não respondeu, perplexo demais com aquelas palavras. Rapidamente, tratou de recolher as roupas jogadas no chão, naquele ímpeto de horas antes, vestindo-se de qualquer forma, cobrindo-se o mínimo para deixar aquele quarto. Bastou apenas colocar a calça, e começar a vestir a camisa. Devia ser suficiente.

Não ouviu a voz de Olivier o chamando, embora ele estivesse próximo. Parecia distante, perplexo, entorpecido.

A voz do loiro soou ainda mais uma vez, com um tom mais preocupado. Porém tudo que obteve de Kyo foi um olhar estranho, rápido demais para que pudesse descobrir o que acontecera, pois o moreno partiu, deixando aquele quarto sem gestos ou palavras.

ooOOoo

Estava deitado na cama do quarto do hotel. Seus olhos fixos fitavam o vazio, alheio a tudo mais que pudesse haver.

Distraído, desfrutava as sensações despertadas pelos acontecimentos das últimas horas. Sensações bem conhecidas: exaustão e decepção.

Decepção pelas palavras que ouvira do rapaz loiro. Não que tivesse criado expectativas de algo mais. Quando entraram naquele hotel, Kyo sabia que deveria esperar por sexo casual, e talvez por um certo constrangimento quando aquilo acabasse e tivessem de ir cada um para o seu lugar... mas nunca que pudessem confundi-lo com um garoto de programa.

Quando ouviu Olivier lhe perguntar qual era o seu preço, não soube definir o que sentiu. Não foi raiva, nem ódio. E sim mágoa, decepção, frustração, não por aquele homem, mas por si mesmo.

Assim como o remorso. Cansaço.

Olivier não lhe dissera muito, e fora até gentil com a pergunta, mas nenhuma polidez ou gentileza tiraria o peso daquelas palavras de sua mente, misturando-se a momentos mais antigos, a outras palavras que preferia esquecer.

Antes poderiam ser remediadas, mas agora era impossível. Elas pareciam se juntar como peças em um quebra-cabeças, formando uma conclusão que lhe soava assustadoramente óbvia.

Era apenas uma boa foda. Não mais que isso. Nunca mais do que isso.

E sua situação era tão óbvia que mesmo aos olhos daqueles que não conheciam, confundi-lo com um garoto de programa era apenas uma confirmação.

"Apenas uma foda, não mais..." Isso já estava bem claro pela forma com que Yagami havia o expulsado, sobre acusações de ser um puto, de querer se esfregar em outro...

Sentiu um nó na garganta ao lembrar daquele dia, mas se conteve, tendo em sua cabeça apenas um pensamento: ir embora.

Não podia ficar nem mais um dia em Paris. Simplesmente não dava mais. Por isso jogara suas roupas na mala, de qualquer jeito, emboladas mesmo. Tão depressa e desatento quanto no momento em que saiu daquele quarto de hotel e não deu pela falta de sua jaqueta. Percebeu quando sentiu frio ao chegar até a rua, mas não tinha coragem de dar meia volta e ir busca-la. Os únicos itens que mereciam sua atenção eram dinheiro e documentos. No mais, tudo poderia ser resolvido depois.

A bagagem já estava pronta, mas ainda faltava um lugar para onde ir. Não podia sair sem um destino. Não que estivesse fazendo planos, pois não tinha idéia de onde poderia ir, queria apenas ficar sozinho.

Não queria lugares cheios de gente, nem agitação. Não queria o destino comum dos turistas e sim ficar sozinho. Queria um tempo para si, para colocar sua cabeça em ordem.

Precisava de paz. Solidão. Precisava de um lugar onde poderia se sentir bem.

Mas onde?

Uma pergunta respondida por sua memória. Um nome que talvez pudesse ser o lugar certo.

Um sorriso chegou aos seus lábios, mas dele restou apenas a intenção. Mas o simples fato de ter um destino em mente garantiu alguns minutos de indulgência. Suficiente para criar alguma espécie de esperança.

ooOOoo

Ibiza: esse era o lugar guardado em sua memória. Foi para lá que decidiu ir durante aquela última noite em Paris. Nome que lhe ocorreu ao se lembrar de fotos que vira em uma antiga revista sobre turismo. Um lugar com belas praias e paisagens exuberantes, para onde desejou viajar há tempos, mas que sua antiga rotina de treinos nunca havia permitido.

Um pequeno desejo concretizado foi o máximo que ousara dar a si mesmo em muito tempo.

Podia parecer estranho que alguém procurando por paz e silêncio escolhesse Ibiza como seu destino. Justamente um daqueles lugares badalados, conhecido por suas festas e agitação constante, porém Kyo pesquisara o suficiente para saber que não havia somente isso.

Com a ajuda de seu sobrenome, obteve na agência de viagens ainda dentro do aeroporto, tudo o que precisava. Um tempo recorde. E pela primeira vez na vida agradeceu por seu sobrenome e seu passado de lutador.

Eles foram quase uma carteirada junto ao dono da agência, um japonês saudoso de sua terra e de seus costumes. Não fora sua intenção usar o nome em benefício próprio, mas graças a ele encontrara o lugar ideal: uma casa mobiliada em local afastado das festas e agitações. Sem vizinhos por perto, com comércio local pequeno e pouco distante. Teria o suficiente para garantir um mínimo de paz.

Alugou um carro e fez algumas compras. Não muito, apenas o necessário como alimentos remédios e produtos de limpeza, já que não fazia muita idéia do que esperar.

Ao chegar no endereço indicado, teve um momento de hesitação, mas assim que abriu a porta e entrou na casa isso pareceu sumir diante da perspectiva de descobrir o que havia ali.

Aos entrar, pouco conseguiu perceber além do cheiro peculiar de lugares que passavam muito tempo fechados. Ao abrir as janelas da sala, deparou-se com um lugar não muito grande, com poucos móveis e estilo rústico. Na cozinha, nada além do básico: um armário com poucos pratos e talheres, uma mesa, uma geladeira desligada e um fogão velho. Nos dois quartos, um armário e uma cama com fronhas e lençóis empoeirados.

Na certa a última faxina ali fora há um ou dois meses, mas não podia reclamar. Isso sequer lhe passou pela cabeça.

Olhou pela janela e o que viu foi uma paisagem belíssima e não resistiu. Desceu as escadas, e assim que chegou à areia, tirou o tênis para sentir os grãos sob seus pés e aproximou-se do mar, atraído pelo azul claro das águas.

Sentiu o cheiro da maresia. Há quanto tempo não daria a vida para tirar férias e estar num ligar daqueles?

Sentiu uma ponta de satisfação por saber que realizou um desejo seu que, pelo menos até um tempo atrás, parecia impossível. Era como se fosse um presente, ou uma pequena compensação pelos últimos acontecimentos.

Mas sua dúvida era: merecia algo?

Era uma questão que desencadearia lembranças e sentimentos por um tempo que julgaria interminável.

Começou ainda ali, enquanto ainda estava na euforia da chegada. Aquela pequena alegria foi morrendo aos poucos, à medida que a pergunta vinha tomando força.

Merecia algo?

ooOOoo

Cansado pela longa viagem e por toda a confusão com os fuso-horários, não teve disposição para mais nada. Simplesmente foi para o quarto e deitou-se, sem se livrar daquelas roupas de cama cheia de poeira. Os olhos mal se mantinham abertos, mas o sono que o levou não lhe garantiu qualquer descanso.

Quando acordou sentiu o corpo pesado e a respiração difícil. Não tinha a mínima vontade de levantar, embora houvesse uma praia linda lhe esperando e várias coisas a fazer.

Havia tarefas mais importantes. Muitos acontecimentos e palavras a serem remoídas.

E Kyo lembrou de cada uma delas. Fortes o suficiente para responder suas perguntas.

Ele não era ninguém a quem as pessoas devessem dar alguma atenção. Sua própria existência não tinha grande serventia e o pouco que sabia fazer, servia somente a outros.

Ser um Kusanagi lhe dava poucas funções: matar Yagami, garantir a vitória de seu clã. Caso não tivesse a vitória, deveria ao menos gerar um herdeiro para continuar a história.

E Kyo conseguira frustrar tudo isso: desistira dos torneios, não mataria Yagami por quem nutria outra espécie de sentimento, e não geraria nenhum filho para continuar com aquela guerra maldita.

Qual era sua serventia então?

Tudo já ficara bem claro com aquela viagem. Nova York e Paris foram suficientes para ter uma resposta.

Sexo. Foder. Ser fodido.

Era tudo o que pensavam. Kyo Kusanagi era isso. Somente isso.

"Merecia alguma coisa?"

Não merecia nada.

ooOOoo

Foram suas próprias lembranças que o deixaram sem forças.

Estirado na cama de lençóis empoeirados, não tinha vontade de levantar. Não tinha planos, energia ou vontades. Tudo parecia ter sumido.

Havia pesar, mas não lágrimas. Não conseguia chorar e não reagia. Não havia qualquer estímulo para isso: dependia apenas de si mesmo. E Kyo não via nada que pudesse mudar a situação.

Estava cansado. Exausto. Não conseguia pensar em outra coisa, por mais que seus pensamentos o fizessem mal. Tinha consciência disso, mas não forças para evitá-los.

Afinal, o que mais havia para se pensar?

E a partir daí as idéias começaram a tomar forma em sua mente. Uma solução lhe parecendo tentadora e até mesmo fácil diante da perspectiva de que estava morrendo aos poucos, afastado de qualquer vínculo que ainda pudesse ter.

Estava sozinho. Não havia quem se importasse. Não havia deixado nada pelo qual as pessoas pudessem se lembrar com gosto ou algum afeto. Se estivesse longe, se estivesse morto, isso não faria diferença a ninguém.

"Sozinho."

Kyo não controlou o bolo que sentia em sua garganta e finalmente as lágrimas se fizeram presentes. Ninguém mais ouviu o choro alto e incontrolável de Kyo Kusanagi, que descarregava suas frustrações numa quase fúria. Aquilo doía, mas a necessidade de um desabafo era maior e mais forte que sua vontade e seu controle. Era simplesmente instinto.

Ao fim, quando aquilo terminou, estava fraco demais. Levantar da cama foi uma prova de fogo. A tontura que sentiu foi forte, mas forçou-se a chegar até a cozinha e comer alguma coisa qualquer. Nem soube o que era, pois sequer sentia o gosto. Era apenas uma questão de sobrevivência. Não tinha fome, tinha dúvidas se aquele alimento ficaria no seu estômago, pois sentia ânsia de vômito. Ainda assim, arriscou.

Ao sentir-se um pouco mais forte, saiu da casa. Seus olhos estranharam a luz do sol. A luz cegou-o por alguns segundos, mas o incômodo foi esquecido pela sensação boa de sentir aquele calor em sua pele. Foi reconfortante para alguém que, ainda há pouco, sentia apenas frio.

Descalço, desceu os poucos degraus que o separavam da praia. Sem demora, seus pés sentiram os grãos finos e seus olhos fitaram aquele mar azul que estava praticamente em seu quintal.

Mar azul de águas claras. A praia dos seus sonhos. O dia perfeito.

Sem que se desse conta, seus passos instintivamente o guiaram em direção ao mar.

Sentiu a maré, a água vindo e molhando seus pés. Estava fria, como era de se esperar, mas nada que o impedisse de ficar ali, pelo contrário: era bom. As primeiras sensações em um tempo incontável.

Começou a andar devagar, como se estivesse em um passeio, sem sequer olhar para os lados. Somente olhava para as pegadas que deixava no caminho, vigiando os próprios passos.

Momentos fugazes lhe vieram à mente. Coisas envolvendo conduta, rebelião. Desilusão.

Por que as coisas tinham de terminar de forma tão... feia?

Por que era tão fácil humilha-lo? Era castigo por algo errado que fizera?

Se houvesse um bom motivo seria mais fácil de entender. Não seria por maldade ou um ato simplesmente gratuito. Não seria pelo fato de somente existir.

Apenas perguntas sem resposta e sem sentido.

Suspirou. Olhou para o mar e ele lhe pareceu muito atrativo. Tão azul quanto o céu, com águas cristalinas... só quis se perder naquele lugar.

E seus passos o levaram mais a frente, enfrentando as ondas que, em pouco tempo lhe atingiam o peito. Avançou até seus pés não tocarem mais o chão, e quando isso aconteceu, não reagiu mais. Deixou seu corpo ser totalmente envolto pelas águas.

Mar claro, sol brilhante... o silêncio.

Paz.

Era tudo o que queria.

Continua...


Notas da autora: Ok, chapie longo e dramático, eu sei, mas foi inevitável. Alguém se habilita a comentar?