Capítulo 4 – Imprevisíveis retornos

Entre paredes de pedras escuras e sujas havia um salão. Muitas pessoas vestidas de roupas negras estavam ali, conversando, pareciam aguardar alguém ou alguma coisa. Era um salão não muito grande, revestido por cortinas verdes escuras, quadros, cabeças de animais mortos, cajados e espadas presas a parece, tochas acesas. Tinha realmente um ar diabólico, como se tudo ali respirasse a maldade.

Olhou para o lado e viu como se fosse um trono. Era feito de madeira. Havia um brasão entalhado nele, com uma forma de cobra, havia uma torre, uma espada e um anel. Começou a ouvir uns murmúrios das pessoas que estavam no salão e de duas que se encontravam ao seu lado. Não conseguiu ver o rosto de nenhum deles. De repente todos pararam de falar. Sentou-se no trono e começou a falar.

"Harry Potter! – Dizia a voz aguda e fria. – Será agora que aquele moleque estúpido verá a minha vitória. Não há mais salvação para aqueles que o escolheram como herói. - Uma pausa. – Vocês meus servos, fieis ou não, verão que não há nenhum poder maior que o meu, nenhum! – Disse a voz que começou a dar gargalhadas. Reconheceu que não era ele que estava vivendo aqui, mas sabia quem ".

Harry acordou num pulo. Estava com o rosto todo molhado de suor. Suas roupas também estavam úmidas. Pegou seus óculos do lado da cama e pode observar que não havia ninguém no quarto. Percebeu que Ron já tinha acordado. Levantou e olhou para a janela, mas não havia sombra de alguma alma viva por ali. Tudo estava silencioso. Arrumou a cama, trocou de roupa e decidiu descer para ver se tinha alguém além dele na casa.

E realmente não tinha. Tudo estava num silêncio que Harry estranhava, principalmente por ser a casa dos Weasleys. Tudo estava quieto. Não havia louça sendo lavadas sozinhas, vassouras andando, tirando o pó do chão, nada. Olhou para a mesa da cozinha e viu uma carta com seu nome. Abriu e reconheceu a letra.

"Querido Harry,

Não se preocupe conosco, fomos deixar o novo casal Weasley na estação. Voltamos logo. Pode comer o que quiser. Espero que tenha dormido bem. Já arrumamos a bagunça da festa. Beijos,

Molly".

- Droga, dormi demais! – Balbuciou sentando na cadeira da mesa da cozinha. – Queria ter me despedido do Gui e da Fleur.

Começou a mexer na cozinha tentando encontrar algo pra comer. Achou algumas bolachas e um pedaço do bolo de casamento. Sentou-se no sofá e começou a comer. Deu-se por satisfeito. Saiu da toca. Foi em direção de uma árvore com uma grande copa, um pouco distante da casa. Quando estava chegando avistou um tronco de madeira. Imediatamente sua mente foi levada a noite anterior. Num suspiro, disse: - Liane.

No mesmo instante, sua cicatriz ardeu, ardeu ainda mais que da vez que vira Voldemort em pessoa, no ministério da magia, quando ele tomou seu corpo. Harry ajoelhou-se e apoiou seu corpo no tronco. Sentiu sua cabeça pesar, parecia que estava sendo aberta à base de pauladas. Sentiu-se só. Sentiu frio. Não conseguia respirar. Todo seu pensamento estava voltado para fechar sua mente. Sentiu a presença de Voldemort tentando vasculhar alguma coisa em sua cabeça. Não conseguia sentir o vento passando por seu corpo. Parecia que estava sendo morto de dentro pra fora.

Quando percebeu que não conseguia mais lutar, estava perdendo as forças, sentiu que estava sendo levantado do chão. Escutou alguém dizer alguma coisa. Reconheceu uma das vozes. Experimentou uma sensação nova. Voltou a sentir todo seu corpo. Voltou a sentir o vento passar pelo corpo, e isso produzia uma sensação de refrescância. A dor de sua cicatriz não parara totalmente, mas parecia infinitamente menor.

Conseguiu abrir os olhos, mas a claridade do sol o fez fechá-los novamente.

- Vamos, temos que levá-lo para dentro. Molly já deve estar chegando com os outros. Vamos!

Harry reconheceu a voz. Era de Tonks.

- Pegue água, chocolate, alguns panos e faça uma porção de ibi lucem, vamos rápido!

Harry reconheceu a outra voz. Era a mesma que parecia ter falado algo enquanto tentava lutar com Voldemort em sua mente. Era Remo Lupin.

- Vamos colocar ele, aqui, no sofá, rápido. Vá logo pegar as coisas enquanto eu tento acordá-lo.

Harry tentou abrir os olhos. Percebeu que não estava mais fora da casa. Olhou para o lado e viu Lupin com a varinha nas mãos pronunciando algum encantamento. Sua varinha estava apontada para a cicatriz de Harry.

- Oi garoto. Sua dor de cabeça te pegou em cheio desta vez em. – Falou Lupin, rindo pelo canto da boca. – Fique deitado não tente se levantar. Eu preciso que fique quieto. Ou essa dorzinha pode voltar antes que eu possa te proteger.

Harry queria falar mais sua voz não saia. Tentou se mexer, mas não conseguia. Só conseguia abrir os olhos. Parecia totalmente dominado. Começou a sentir novamente a dor na cicatriz e seu corpo parecia se contorcer com a dor. Conseguiu gritar. Olhou para o amigo ao seu lado.

- Harry, calma. Você vai conseguir. Vamos Harry, lute! Vamos. Não desista, lute, Potter. Vamos – A voz de Remo era quase uma súplica. Lágrimas brotavam de seus olhos. Lupin então olhou para o lado e disse – Você!- Sua cara era de assombro total.

Antes de desmaiar, Harry viu uma sombra de uma pessoa vindo em sua direção. Sua visão estava embasada. Viu uma luz azulada e desmaiou.

Começou a recobrar sua consciência. Escutou as vozes de Ron, de Gina, de Hermione e de uma outra pessoa, mas era uma voz conhecida. Seu coração disparou. Não escutava essa voz há muito tempo. Já estava superando a perda que tanto o afetou no ano anterior. Abriu os olhos. Estava no quarto de Ron. Tentou se mexer, mas seu corpo ainda estava muito pesado. Sentiu dor por toda parte. Parecia que tinha sido triturado vivo. Conseguia mexer mais a cabeça e não sentia dor alguma na região onde estava sua cicatriz. Conseguiu dizer um "ai" e um "ahrr". Antes de ser envolto pelos amigos.

- Cara, ainda bem que você acordou! – Disse Ron Weasley caindo de joelho próximo a cama em que Harry estava. – Pensei que você ia dormir mais uma semana. Tome aqui os seus óculos.

- Bom dia, Belo adormecido! – Falou aos sorrisos Hermione – Seja bem vindo de volta a realidade.

- Não se preocupe, Harry, está tudo bem agora. – Dizia Gina ao pegar em suas mão. – Estávamos esperando que acordasse hoje ou amanhã. Você precisava dormir muito.

- O que foi que aconteceu? Por que eu dormi tanto tempo. – Harry falava com uma voz de doente, baixo e um pouco rouco. – Eu só lembro da dor, do Lupin, de um vulto e de uma luz estranha, depois eu apaguei. A dor era insuportável.

- Nos ficamos sabendo. Quando chegamos você já tava aqui no quarto. Lupin e Tonks estavam com você. Eles estavam bem nervosos. – Dizia Ron. - Até o cabelo dela tava nervoso. Era vermelho com as pontas amareladas. Estavam muito estranhos.

- Quando te vimos, Harry, você estava com o rosto sujo de sangue. Ele saia da cicatriz. Era um sangue muito escuro. - Falou Hermione. – Tive medo que você não sobrevivesse. Não quiseram nem te levar para St. Mungus.

- Tiraram a gente do quarto e só deixaram a gente te ver antes de ontem. Eles cuidavam de você durante o dia e a noite. Ninguém podia entrar aqui. – Gina falava e continuava segurando a mão de Harry.

Harry se sentiu muito preocupado. O que teria de tão grave nele que nem para o Hospital St. Mungus ele podia ir? Por que seus amigos foram afastados? Tinha dormindo durante uma semana. Sentia o calor das mãos apertadas de Gina entre as suas. Via nos olhos dos amigos a preocupação com ele. Tinha sido algo muito sério, além da dor que sentira.

- Eu me sinto um trapo. Parece que eu fui amassado, socado e jogado no chão de uma torre bem alta. Tudo dói, mal dá pra me mexer direito. Mas minha cicatriz não tá doendo nadinha.

- Pelo menos isso, não é Harry.

Era a voz de Lupin. Ele entrara pela porta sem ninguém perceber. Andou até Harry, colocou o dorso da mão na testa de Harry, como se aferisse a temperatura. Pediu que todos saíssem para que ele examinasse e conversasse com Harry. Ron e Hermione foram em seguida, mas Gina só saiu quando Lupin a tocou nas mãos, gentilmente, e a levou para fora do quarto.

- Pois bem, meu jovem, você passou por mais uma prova de fogo. – Dizia ele ao conjurar uma cadeira e sentar-se de frente para Harry. - Como você está se sentindo agora? Consegue mexer o corpo?

- Tudo está doendo. Menos a minha cicatriz. – Harry olho para o amigo, limpou a garganta. - Por que a dor foi daquele jeito? Parecia que eu estava recebendo uma maldição cruciatus bem dentro da minha cabeça. Sentia que estavam querendo mexer em tudo, ver tudo na minha mente. Piorou quando eu tentei usa oclumência. A dor piorou mil vezes.

- Harry, eu não sei direito o que tentaram fazer com você, mas sei que eles usaram magia negra para tentar destruir sua mente. – falou Remo. Sua voz era de calma, mas seu olhar exalava preocupação. – Sua cicatriz começou a sangrar. Mas o sangue que saia parecia sangue morto. Você estava com febre altíssima, estava paralisado, apenas seus olhos mostravam vontade própria. Vi que se demorássemos muito você morreria, ficaria num estado catatônico ou passaria para o lado de Voldemort. Penso que eles queriam te levar para o lado das trevas. Por isso eu e Tonks fizemos uma porção chamada ibi lucem. Ela é usada para trazer a realidade pessoas que foram possuídas ou levadas para as trevas contra sua vontade. Ela só tem efeito quando usada pouco tempo depois.

- Como você chegaram tão rápido. Eu estava sozinho.

- Eu e Tonks estávamos de Guarda. Sabíamos que os Weasleys tinham que sair. Então resolvemos ficar escondidos e deixar você mais a vontade. Te seguimos até a árvore e vimos que você começou a passar mal. Ai, fomos te ajudar.

- Remo, eu escutei uma voz. Eu acho que estava muito próximo da morte, pois eu ouvi a voz do... Do Sírius. – Disse num tom de pessimismo.

Remo riu. Olhou para o lado. Passou a mão com carinho sobre os cabelos de Harry. Levantou. – Harry, não foi só a porção que te salvou. Um grande amigo meu e seu veio até aqui. Ele trouxe esse presente que está no seu dedo. Foi graças a esse presente que você está vivo, rapaz.

Harry tentou mexer as mãos, passou uma mão na outra e sentiu um anel no dedo anelar esquerdo. Não sentia muita dor, por isso a levou até que pudesse olhar para o anel. Era um belo anel de prata com uma pedra azul no centro. Dentro da pedra parecia que algo se mexia. Nas laterais do anel e envolto na pedra azul saia um desenho de um dragão. Harry olhou para o anel. Sentiu algo crescer dentro dele. Transmitia muita paz. Ele percebeu que era isso que esquentava sua mão, e não as mãos de Gina.

- Que amigo é esse? Que tipo anel é esse? – perguntou tentando se sentar na cama.

- Espere um pouco. – Remo riu pelo canto da boca. Andou até a porta. Chamou alguém – Diga para ele subir agora, Harry está pronto. – Voltou para a cama de Harry e o ajudou a se sentar na cama.

- E ai, garoto, pronto pra próxima batalha!! – Disse a voz do homem que entrara pela porta. Parecia ter a mesma altura de Harry. Tinha um cavanhaque no rosto. Seus cabelos negros estavam arrumados, presos para trás, num rabo de cavalo. Trajava uma roupa de bruxo azul escura. Harry reconheceria aquela voz em qualquer lugar.

- SÍRIUS!!!

Sírius correu em direção da cama para abraçar Harry. Não queria que o menino fizesse um esforço maior. Ao se abraçarem Harry sentiu que reencontrava uma felicidade que fora perdida a mais de um ano. Abraçar seu padrinho era como se abraçasse seu pai. Era como deixar a dor que seu corpo sentia ser dominada por toda a felicidade que podia sonhar naquele momento. Lágrimas vieram aos olhos tanto de Harry quanto de Sírius e também de Remo Lupin que ainda estava ali, assistindo aquele reencontro.

- Eu, eu não posso acreditar. Eu não queria acreditar que você tivesse me deixado pra morrer naquele véu maldito. – Disse Harry as lágrimas. - Você não ia cair tão fácil. Eu sei que você é um grande bruxo, e ainda mais é meu padrinho, ia lutar pra ficar comigo!

- Depois eu te conto tudo, mas quero saber, como você esta se sentido. E sua cicatriz? Teve algum pesadelo ou sonho estranho?

- Não nada. Só dor pelo corpo. – Harry se arrumou na cama novamente, com a ajuda de Sírius e de Remo. Mas, e esse anel. Porque ele salvou minha vida. E por que você só apareceu agora. Porque ficou escondido esse tempo todo?

- Sírius, ele precisa de descanso. Fale sobre o anel, e... - saindo pela porta -... Deixe as aventuras pra depois. Não se esqueça de tomar a porção que está em cima da mesa, viu. – Remo saiu e deixou os dois.

- Sim, senhor! – disse Sírius em tom de deboche. Virou para Harry.

- Ele tá um pouco mandão, depois do que te aconteceu, parece sua mãe, cheio de cuidados com você.

Harry riu, como se não risse há muito tempo. Sírius sentou-se na borda da cama de Harry e apontou para o anel.

- Harry, você nunca viu este anel, não é! – Harry balanço a cabeça como se dissesse não. – Ele se chama Dragão real. È um anel mágico que pertenceu ao mago dos magos, Merlin. Era o anel que Merlin usou durante toda sua vida. Diz a lenda que com esse anel, Merlin conseguiu alcançar um nível de magia que nenhum outro mago conseguiu até hoje, mesmo Dumbledore. Ele foi muito desejado, mas Merlin sabia que esse anel não podia ser usado por qualquer um. Ele criou um feitiço para proteger o anel. O anel só mostraria seu poder quando usado por um de seus descendentes. Seu poder só se mostraria para defender a vida do seu usuário e no caso de combate pelo equilíbrio do poder mágico, sempre voltado para a vida, para a luz, nunca ao contrário.

- Quando Merlin sentiu que seu tempo estava acabando, deixou o anel com seu único filho, Mordred, avisando-o tudo sobre o anel. Merlin viu que seu filho poderia ser corrompido pelo poder e fez seu ultimo feitiço. Ele anulou o poder do anel, para ser usado somente quando o coração do portador possuísse amor puro e desapego pelo poder. Ele foi escondido pelos descendentes de Merlin. Esses mesmos decidiram também se esconder para que ninguém os reconhecesse, mudaram até seu sobrenome. A maioria deles eram bruxos e bruxas extraordinários, muitos deles eram os chamados inomináveis.

- Como você sabe de tudo isso e porque ele agora está na minha mão?

Silêncio. Sírius sabia que as próximas palavras iriam mexer com os sentimentos de Harry. Voltar ao passado, falar sobre a vida dos pais, mexer em segredos, sempre afloraram novas emoções em Harry.

- Foi Dumbledore. Ele nos contou sobre suas últimas descobertas sobre como destruir Voldemort. Logo depois que me recuperei, ele foi ao meu esconderijo e me confidenciou quase todos os seus planos. Ele, antes de tudo, me pediu que não fosse atrás de você, em hipótese alguma, pois eu poderia ajudá-lo, e assim ajudar você a se livrar daquele traste.

- Alvo falou que existiam chances reais de o mal ser derrotado. A primeira delas seriam descobrir o paradeiro das horcruxes. Quais eram, onde estavam, como poderiam ser destruídas... A segunda seria descobrir, através da profecia sobre você e Voldemort, qual seria o poder que ele desconhece que você o tem... E a terceira seria descobrir qual era a outra profecia feita sobre a destruição de Voldemort e, penso eu, é esta a mais trabalhosa.

Os olhos de Harry estavam esbugalhados. Sua cabeça parecia dar voltas. Eram muitas coisas que ele tinha que pensar e arrumar em sua mente. A surpresa do retorno de seu padrinho, o anel, e agora uma nova profecia, além de tudo que já havia se levantado, como a profecia onde ele e Voldemort deveriam se confrontar, a realidade da vida com os Dursley, sua maior idade chegado, seus sentimentos. Harry se sentiu fraco pra tudo aquilo, mas queria entender tudo.

Sírius olhou para seu afilhado. Pode perceber, através de seu olhar que o garoto não estava gostando da conversa ou tudo tinha começado a ficar confuso pra ele. Viu que era tempo de parar. Mas antes que falasse um a, Lupin entrou novamente no quarto.

- Ei, vocês dois! Não acham que tá muito bom de conversa por hoje. Harry, você precisa descansar. E você, Sírius, tem que voltar pra onde você estava, não acha.

- Claro. – falou quase suspirando - Tenho que voltar. – E se abaixando e dando um beijo na testa do afilhado, disse. – Outro dia terminamos essa conversa. Você precisa se recuperar e voltar pela última vez a casa de seus tios. Até mais.

Harry se despediu com um aceno de cabeça. Realmente estava começando a se sentir cansado. Sírius saiu pela porta e Lupin foi até a mesa, pegou um frasco e deu a Harry para beber, era o final da porção de sono sem sonho. Harry adormeceu quase que de imediato.