Fandral havia derrubado Loki pela terceira vez. Tyr balançou a cabeça negativamente. Ele sabia que não seria fácil manter Loki naquela turma. Eram mais velhos, eram maiores, mais experientes. Todavia, o deus dos Combates não tinha outra escolha. Loki precisava ser vigiado de perto. O caráter do filho mais novo de Odin não era tão óbvio quanto o do irmão mais velho.
- Parece que sem seus truques você não irá muito longe, Loki. Concentre-se!
O rapaz de cabelos negros levantou-se e mirou seu mestre de armas com ar de poucos amigos. 'Concentre-se!. O que acha que estou fazendo aqui? Brincando?'
- Hogun, tome o lugar dele. Thor e Volstag, pratiquem os golpes de hoje. Loki, venha comigo.
O rapaz acompanhou o deus dos Combates até a entrada da praça de treinos.
- Sente aqui, meu rapaz.
Loki obedeceu e Tyr sentou-se ao lado dele, explicando, com as mãos postas.
- Precisa aprender a silenciar sua mente, Loki.
- Silenciar a minha mente?
- Quando você está lutando, eu quase consigo ouvi-lo pensando. Você se preocupa demais com o que os outros estão achando de você. Deixa-se levar por qualquer sussurro, qualquer olhar, acreditando que é uma crítica e se desconcentra. Tem tanto receio de errar que erra. Teme tanto ser julgado que não ousa, não tenta novos caminhos…
- Você sempre diz que precisamos prestar atenção ao que acontece ao nosso redor – ele tentou se justificar.
- Não me venha com seus jogos de palavras, garoto. Guarde-os para seus amiguinhos. Você entendeu muito bem o que eu quis dizer. Ou não?
Loki baixou a cabeça.
- Entendi Tyr… é que… eu sou…
- Não! Chega de sentir pena de si mesmo, Loki! Esqueça os outros. Esqueça o que acham de seu tamanho, de sua idade e da cor dos seus olhos! Pare de se comparar a eles! Você precisa encontrar a sua luta, rapaz!
Loki assentiu.
- Pode ir agora. Pense em tudo o que eu disse e amanhã tentaremos novamente.
Loki chegou aos aposentos da mãe para sua lição diária. Ele parecia esgotado e jogou-se na poltrona a fim de aguardar Frigga.
'Encontrar minha luta…', ele repetiu mentalmente, enquanto esfregava a testa. 'Onde se encontra uma luga? Arg… Tyr!'
- Chegou cedo, meu filho – a rainha de Asgard não o fez esperar muito. - Como foi o treino hoje?
- Não quero falar sobre isso, mãe – Loki foi direto.
- E por que não? - ela indagou docemente.
Loki tentou sorriu.
- Tenho algumas perguntas a lhe fazer sobre este feitiço – disse, abrindo o livro na página que tinha separado.
Frigga aproximou-se e fechou-o delicadamente.
- Venha comigo, Loki.
A deusa do amor conduziu o rapaz até a sacada e apontou para uma caixa de madeira sobre a mesa.
No dia seguinte
Loki permanecera boa parte de noite repassando as lições até desmaiar de exaustão. Por conta disso, acordou de uma vez com a luz batendo em seu rosto!
- Pela escuridão eterna! - o rapaz pulou da cama e se vestiu o mais rápido que pode.
Fechou a caixa de madeira que jazia sobre a cama e correu. Ele a devolveria depois. Sua mãe certamente não se importaria.
Quando chegou a praça de treinos quase foi fuzilado pelos olhos de Tyr que caminhou em direção a ele, implacável.
- Essa foi a gota d'água, filho de Odin! Pensa que só porque é um príncipe pode negligenciar minhas lições? Eu o dispensei mais cedo ontem para que pudesse refletir e colocar um pouco de juízo nessa sua cabeça oca! - o deus dos Combates estava quase gritando. - Mas pelo visto parece que cometi um erro. Você está caminhando sobre o fio da navalha agora. Se não se sair bem, vai voltar para o nível anterior de onde, em minha loucura, eu ousei tirá-lo!
Loki engoliu seco e mirou seus companheiros. Todos estavam de cabeça baixa.
- Escolha uma arma e um oponente – o deus dos Combates sentenciou.
Loki aproximou-se do suporte onde os artefatos descansavam. Ele sempre havia preferido a lança, pois mantinha os oponentes a uma certa distância. As espadas a disposição mais atrapalhavam do que ajudavam, por conta de seu tamanho e peso. O machado? Nem pensar! Não era um gigante como Volstag.
- Vamos, Loki! Não tenho o dia todo.
Loki olhou para o canto. Ele estava lá. O par de armas esquecido e empoeirado. Raramente alguém prestava atenção neles. Loki tomou-os nas mãos, sentindo o peso e o formato. Foi como vestir uma luva. Pareciam mais uma continuação de suas mãos. O rapaz virou-se e caminhou em direção ao centro.
- Adagas? - Tyr indagou, incrédulo. - Você nunca lutou com isso antes!
- E daí? - Loki desafiou. - Resolvi… ousar um pouco…
Tyr pôs a mão no queixo, observando o rapaz.
- Que seja. Escolha seu oponente.
Loki mirou seus companheiros e não hesitou.
- Volstag.
- O quê? - Tyr não acreditou.
- Eu? - Volstag também não.
- Loki! O que está fazendo? - Thor levou as mãos a cabeça.
- Volstag – o rapaz confirmou, mirando as adagas que giravam em suas mãos.
- Se quer voltar ao nível anterior feito em pedaços, garoto – Tyr concordou - , não serei eu a impedi-lo.
O rapaz alto e forte apresentou-se com o machado em punho.
- Nunca lutou comigo, Loki – Volstag comentou. - Que birra é essa?
- Se estiver com medo, posso escolher outro – Loki desafiou. Não queria que tivessem pena dele.
Volstag estreitou os olhos. Ele havia tentado ser amigável, mas aquele pirralho estava implorando por uma lição.
- Como quiser, garoto. Em consideração ao seu irmão, prometo machucá-lo apenas o suficiente para que aprenda a segurar sua língua!
Volstag avançou com toda força e Loki desviou-se do golpe.
- Grande coisa! - Tyr gritou. - Sei que é mestre em se esquivar. Quero ver uma luta, não um jogo de gato e rato, Loki!
Ele fechou os olhos, recordando-se das lições de sua mãe.
"Abra a caixa, Loki. Sinta-as. Como prefere-se segurá-las? Pode direcioná-las pra frente ou para trás. Assim."
O rapaz posicionou-se de pé, apontando as adagas para trás. Permaneceu onde estava, aguardando o próximo ataque. Volstag não o deixou esperando e avançou.
"Vencerá mais facilmente os inimigos maiores. Eles são lentos. Espadas e lanças precisam de espaço. As adagas permitem que se aproxima e se movimente. Rápido e certeiro."
O rapaz desviou do golpe e apoiou-se no ombro do outro, rolando por cima dele e cortando parte da manga de couro, antes de cair do outro lado.
Thor abriu a boca. Frandal inclinou a cabeça para o lado. Hogun observava sério.
Tyr cruzou os braços. Havia algo de diferente em seu pupilo.
Volstag olhou de um lado para o outro, para descobrir onde Loki havia ido parar.
- Aí está você! Ainda brincando de gato e rato?
"Você poderá distrai-lo com movimentos rápidos, atacar enquanto se defende."
Loki riu com o canto dos lábios e não esperou um novo ataque, avançando em direção ao seu oponente.
Diante de tal ousadia, Volstag hesitou, sem acreditar que aquele garoto realmente o estivesse atacando.
Loki saltou como se fosse passar por cima dele novamente. O guerreiro ergueu o machado, mas, propositalmente, Loki havia imprimido pouca força em seu salto, com isso, retornou ao chão e ajoelhou-se, rolando e cortando a corda que prendia a blusa ao redor da cintura do oponente.
Volstag virou-se com fogo nos olhos.
- Ai está ela! - Loki disse.
- Ela quem?
- Sua barriga!
Thor não resistiu e riu da situação. Sentia pena pelo amigo, mas o seu irmão não estava se saindo nada mal.
Volstag tirou a camisa e atirou-a longe!
- Na verdade você me fez um favor! Agora estou mais livre!
"Você tem duas mãos e duas adagas. Quer dizer que poderá golpear seu inimigo de duas maneiras diferentes ao mesmo tempo se quiser."
Loki mirou seu adversário de alto a baixo e avançou.
Tyr quis sorrir. Aquilo estava ficando interessante.
Loki atirou uma das adagas em direção ao rosto de Volstag que usou seu machado para desviá-la, enquanto o rapaz escorregava e passava por baixo das pernas do gigante e golpeava um de seus pés com a outra, fazendo-o desequilibrar-se e cair com a cara no chão.
O rapaz não perdeu tempo, erguendo-se e posicionando-se com a adaga em frente ao rosto.
Volstag não era tão lento assim e também já havia se colocado de pé, porém estava bem menos disposto.
- Perdeu uma de suas garras, passarinho – o gigante provocou. - Vamos ver como vai se sair agora.
O gigante estava certo. Ou quase…
"Quanto mais próximo, maior o perigo. Tanto para você, quanto para seu inimigo."
Loki não se moveu.
Volstag avançou devagar, testando a coragem do menor.
O rapaz esperou.
O gigante chegou mais perto a um machado de distância.
O filho de Odin não recuou, nem tirou os olhos dos olhos dele.
- Você está diferente – Volstag observou, hesitando em erguer o machado.
- Desista ou golpei. De qualquer maneira você já perdeu.
- Loki! - Tyr interveio. - Não abuse!
- Pode deixar, mestre – Volstag afirmou. - Ele passará apenas uma noite nas casas de cura.
O gigante moveu o braço direito para a esquerda e mirou no ombro do rapaz. Ele tinha certeza de que Loki recuaria, como costumava fazer, ou ele o atiraria para longe como fazia com os insetos que se atreviam a incomodá-lo. Mas em vez de recuar, Loki se abaixou. Em vez de se afastar, ele se aproximou, girando o corpo em direção ao oponente e em um segundo a adaga estava na garganta de Volstag.
'Que tal mandá-lo para Vahalla?' o pássaro negro sussurrou.
Loki pressionou a lâmina e uma gota de sangue escorreu.
- Chega, Loki! - Tyr gritou.
O rapaz hesitou.
Volstag soltou o machado e ergueu as mãos.
- Loki? O que está fazendo? - o gigante indagou.
Ele piscou, como se estivesse saindo de um transe.
- Você venceu – disse, sem reconhecer o menino com o qual havia crescido.
Loki olhou ao redor. As expressões sérias em direção a ele. Engoliu seco. Tirou a adaga da garganta de Volstag e se afastou. Fechou os olhos. Certamente seria punido. Tyr aproximou-se.
- O que aconteceu aqui, Loki?
Ele estava mudo.
- Quando aprendeu a usar uma adaga?
Nenhuma palavra.
- Não o estou censurando. Quero apenas saber.
Um segundo de silêncio antes da resposta.
- Ontem.
Tyr estreitou os olhos.
- Você disse que eu precisava encontrar minha luta. Bem… encontrei.
- Onde?
Os olhos do deus do Combate estavam sobre ele. Loki sabia mentir, mas Tyr conhecia as trapaças da vida.
- Bem… tudo começou… com um livro… - não era mentira. Loki só não comentou que era um livro de magia e não de estratégias de combate.
Os aprendizes se entreolharam. Um livro?
O mestre estava sério. Concentrado. No entanto, aos poucos um sorriso surgiu na face austera até que Tyr soltou uma gargalhada e balançou a cabeça.
- Gosta de andar sobre o fio da navalha, filho de Odin. Convém que a adaga seja sua principal arma.
- Ele sempre gostou de lâminas – Thor comentou. - Lembram-se de quando éramos crianças e ele me acertou com uma adaga, depois de se disfarçar de cobra?
Loki ergueu o rosto, fitando o irmão. Aquele fora seu primeiro grande truque e Loki tinha muito orgulho dele.
Hogun aproximou-se, com a adaga que havia sido tirada de Loki durante a batalha.
- Você lutou bem – disse, entregando o objeto. - Se Tyr concordar, serei o próximo a enfrentá-lo.
- Eu sou o seguinte – Frandal ofereceu-se.
- Pois pra mim já chega! Pelo menos por hoje - Disse Volstag, tentando restabelecer o clima de amizade entre ele e o caçula de Odin. - Mais um pouco e ele iria cortar as minhas calças e fazer minha barba. Prefiro que uma garota faça isso.
Os rapazes gargalharam. Nem mesmo o sisudo Loki resistiu e deixou que um sorriso iluminasse seu rosto. Hogun resolveu aproveitar a oportunidade.
- Quando estava com a adaga na garganta dele, você teve vontade de matá-lo. Não teve, Loki?
O rapaz mirou seu companheiro e assentiu. Tyr deixou que Hogun falasse. Ele costumava se sobressair aos outros quando se tratava de perspicácia.
- É o risco que corremos. A guerra entra em nosso sangue. Por isso saber quando matar é mais importante do que saber como matar. Uma guerra pode transformar amigos de infância em inimigos mortais.
Loki baixou os olhos.
- Eu pensei… - e silenciou.
- Que só você sentisse isso? - Hogun prosseguiu.
Loki confirmou.
Hogun meneou a cabeça em uma negativa.
- Sinto vontade de matar Fandral pelo menos umas três vezes por dia – Thor brincou.
Os jovens riram novamente.
- Bem – Tyr tomou as rédias da situação. - Agora que meus corajosos, fortes e sábios aprendizes já tiveram uma pausa e se divertiram, vamos voltar ao trabalho. Escolham duplas e comecem a se enfrentar. Loki, venha aqui.
O rapaz aproximou-se. Tyr colocou a mão em seu ombro.
- O livro que você leu ontem, Loki…
O rapaz enrijeceu.
- Por acaso ele vinha dentro de uma linda caixa de madeira?
O queixo de Loki caiu.
Tyr ergueu as sobrancelhas.
Loki assentiu.
- Neste caso, estou certo de que em nenhum momento você deve ter lido nele que o sangue deve ser derramado em um treino, a menos que seja inevitável. Leu?
- Não, Tyr.
- Bom.
O deus dos combates apertou o ombro de seu pupilo.
- Dentro de nós existem luzes e existem trevas, Loki. Quero que lute usando as luzes. Pode fazer isso?
Loki assentiu.
- Neste caso, volte ao seu quarto e traga para cá o conteúdo da caixa de madeira. Estou certo de que lhe servirão bem mais do que essas velhas adagas.
Loki sorriu e não perdeu tempo.
Tyr observou seu aluno se afastar, cada vez mais certo de que havia sido uma excelente decisão trazê-lo para mais perto de si.
