O que não podemos deixar para trás

Resumo: Eu o amava até confessar meus sentimentos e ele rejeitá-los, ficar com outra e ainda ir embora. Agora, quatro anos depois, ele volta e quer que eu ainda sinta o mesmo de antes?

Disclaimer: "Twilight" pertence a SM. Acham que eu estaria aqui escrevendo fanfictions se fosse meu? Eu estaria na Ilha de Páscoa numa hora dessas!

Capítulo 4

Três semanas se passaram num piscar de olhos.

E nesse tempo eu não vi Edward Cullen uma única vez. Entrava e saía de sala como se estivesse fugindo do inferno mais quente do mundo.

Em todo esse tempo, não confiava ainda em mim mesma para encará-lo. Era quase a mesma situação de anos atrás, quando confessei meus sentimentos.

-Então continuamos na mesma? – olhei a figura dele através dos meus cílios. Ele tinha os lábios duramente pressionados numa linha, a expressão calculada, como se pensasse com muito cuidado o que dizer.

À mesa de um restaurante em Port Angeles, onde nos encontramos para conversar sobre minha "confissão", ele do outro lado enquanto eu traçava com meu indicador direito círculos na mesa, senti meu coração ficar mais pesado com cada olhar de pena que recebi dele.

E eu não podia encará-lo.

Na minha cabeça, a mesma frase se repetia, algo como "não era para ser assim" juntamente com "isso não está acontecendo".

No final de semana passado eu tomei a iniciativa e contei o que sentia por ele.

Ele falou que não queria arruinar nossa amizade. E que não tinha intenção de ter um relacionamento sério com o final da faculdade dele.

Na minha cabeça, só ouvi as mesmas palavras.

Não era para ser assim.

Isso não está acontecendo.

Depois que confessei meus sentimentos e perceber que haviam sido rejeitados, simplesmente sumi da vista de Edward por duas semanas – tão constrangida me sentia de olhar naqueles orbes verdes depois de me abrir com a pessoa que mais estava nos meus pensamentos.

Sumi por duas semanas. Evitei-o por Seattle por dois anos ainda. Três semanas agora era fácil se comparado ao que passei antes.

Entrei na sala dos professores muito cedo, como era de costume agora para evitar Edward. Ia pegar e deixar algumas coisas no meu escaninho. Atualmente eu mais pegava que deixava para evitar ter que voltar aqui quando precisasse de algum material.

Isso significava uma Bella carregando pastas, material e bolsas por todos os corredores e sofrendo de dor nas costas todos os dias.

Quando abri meu escaninho, meus olhos imediatamente pousaram no presente do dia.

Era um envelope pardo que tinha provavelmente mais um poema novo. Era constante agora que Felix Daniels deixasse com a secretária da sala dos professores um envelope com um ou dois poemas para mim depois do dia que aceitei ler o que ele escreveu no primeiro dia de aula.

Dizer que eu estava ficando mais e mais incomodada com o rapaz era atestar o óbvio.

Com certeza ele não fazia por mal. Ele ficou contente que eu tivesse lido e gostado. Agora eu pagava o preço por ter me mostrado muito receptiva aos escritos dele.

Peguei o envelope logo senti que era mais pesado que os outros. Abri-o sem precisar rasgá-lo porque não estava colado.

Havia um CD nele. Sem inscrição.

Dei um suspiro. Maravilhoso agora. Ele devia achar que um poema não era o bastante e ele resolveu gravar um CD com todos os poemas que ele já escreveu sobre a minha aula no computador dele. Talvez tenha até um romance a respeito.

Guardei o CD no envelope e joguei-o de volta ao meu escaninho, trancando-o. Eu teria que deixar mais um recado com a secretária para não aceitar mais nada de Felix, isso depois de outras cinco vezes na semana passada.

Dirigi-me à mesa de Heidi, uma garota que devia ter a minha idade, mas não completou metade dos estudos que eu tenho. Ela tinha as pernas cruzadas, computador ligado, e provavelmente respondia recados no bate-papo do Facebook ao mesmo tempo em que lixava as unhas.

-Heidi, oi... – aproximei-me como se não quisesse mais nada e como se não estivesse internamente furiosa por ela não entender parte alguma da frase não aceite mais nada que aluno Felix Daniels entregar aqui na sala para mim.

-Ah, senhorita Swan. – ela deixou a lixa de lado e posicionou o corpo na cadeira para ficar mais confortável – Um aluno deixou hoje um envelope. Deixei no seu escaninho.

Tive que morder o lábio para evitar soltar um comentário.

-Heidi... – disfarcei o melhor que pude a irritação – Já falei antes que não quero mais que aceite nada desse aluno.

Heidi me olhou tão inexpressivamente que achei que não tivesse coisa alguma funcionando naquela cabeça. Bem, se fosse oca explicaria o fato de ela não entender o meu pedido.

-Ok. – e voltou de novo a pegar a lixa e a se concentrar no bate-papo.

Internamente eu balancei minha cabeça. Provavelmente ela não tinha nada mesmo.

Girei meus calcanhares e me preparei para sair da sala. Não podia demorar muito porque eu não conhecia o horário dos outros professores e tinha muito medo de esbarrar em Edward por ali.

Abri a porta e dei de cara com uma das minhas alunas do último semestre, de Literatura Americana, preparada para bater na porta.

-Hmm... Boa tarde, senhorita Swan.

Pisquei duas vezes. Ela parecia assustada em me ver.

-Boa tarde, senhorita Hoggs. – analisei a figura dela por mais dois segundos antes de dar passagem para ela – Entre.

-Eu... hmm... – ela olhou para trás como se tivesse medo que alguém ouvisse – Gostaria de... conversar com você.

Talvez eu tenha piscado mais duas vezes.

-Comigo?

-Sim. – ela engoliu em seco, vi suor se formar na testa dela – É meio urgente. E muito sério.

Adela Hoggs não era uma aluna ruim, mas também não era das mais brilhantes. Era daquele tipo de aluna que gostava mais de passar pela disciplina sem fazer grandes aparições, sem fazer comentários.

-Hmm... – desta vez era eu quem murmurava – Quer conversar aqui dentro?

-Não. – ela respondeu meio urgente, apontando para um dos lados do corredor – Podemos usar uma das cabines da biblioteca? Acho que é mais seguro lá.

A forma como ela agia estava me dando medo. Eu assenti e praticamente corremos lá, ela com o passo firme e urgente, olhando para trás enquanto praticamente corria pelo corredor.

Entramos na biblioteca e eu, usando meu poder de professora, rapidamente consegui uma cabine de orientação. Elas não eram à prova de som, mas eram mais do que discretas para discutir qualquer caso num tom mais apropriado. Ninguém nos ouviria.

-Bem, senhorita Hoggs... – comecei, cruzando as mãos enquanto apoiava os cotovelos na mesa de madeira fria – Pronta para contar o que houve?

Adela deu um suspiro, fechou os olhos, deu outro suspiro, abriu os olhos.

-Desculpe por trazê-la aqui, mas eu fiquei preocupada com você e quis alertá-la.

-Alertar? – repeti o verbo dela em outro tempo – Sobre o quê?

-Sobre Daniels. Felix Daniels.

Arqueei uma sobrancelha ao ouvir o nome do rapaz. Eles não eram da mesma turma. Ela era um pouco mais velha que ele, pelo que conseguia notar de rosto.

O que estava havendo?

-O que tem ele?

Novamente, ela engoliu em seco novamente.

-Senhorita Swan, eu conheço Felix há muito tempo. Brincávamos juntos quando crianças, na verdade.

Assenti de forma que ela continuasse a contar.

-Desde essa época era claro para todo mundo... inclusive pra mim... que ele tinha... tem problemas.

-"Problemas"? – repeti, um pouco curiosa.

-Ele tem problemas... mentais. – ela olhou-me diretamente, como se quisesse me reassegurar que estava tudo bem quando eu comecei a ficar ansiosa – Ele é uma pessoa que desenvolve obsessões por outras pessoas.

-Como? – perguntei, sem entender.

-Sabe aquelas pessoas que você conhece por um minuto numa festa e ele não sai do seu lado pelas próximas cinco horas só puxando assunto? Felix é isso, mas oito vezes pior. Ele praticamente gruda na pessoa, segue por todos os cantos que ela estiver, e fala praticamente sobre ela o tempo todo. Ele...

Adela mordeu o lábio inferior, talvez ponderando sobre o que deveria ou não falar.

-Acho que ele está assim por você agora, senhorita Swan.

Minha boca ficou levemente escancarada. Ou muito levemente.

-Co-como... assim? – consegui murmurar.

-Ele tem um blog... aberto ao público... Todo mundo que o conhece lê o que ele escreve. Ele posta às vezes poemas que escreveu lá, por isso que nós conhecemos o endereço. Eu gosto que ele escreva um pouco. Ajuda a mantê-lo estável.

Minha boca continuava escancarada, e só depois que ela terminou de pronunciar "estável" eu a fechei.

-Hmm... Eu... hmm... conheço os poemas dele.

-Conhece? – ela inclinou o rosto para um lado, analisando o que eu falei – Como assim?

-Ele pede para Heidi deixar no meu escaninho os poemas dele. Praticamente uma vez por dia eu encontro um lá.

-Oh, que merda... – ela tapou a boca, mais envergonhada pelo palavrão do que com outra coisa – Desculpe, senhorita Swan. Eu não sabia que ele já estava fazendo isso.

-O que quer dizer?

-Quero dizer que soubesse antes que ele já estava nesse nível de obsessão, eu teria avisado antes. Você não pode mais aceitar os poemas dele. E nada mais que ele dê de presente.

-Eu avisei a Heidi para não aceitá-los, mas... Não funciona. Estava achando que ela não quer se dar ao trabalho de não aceitar. Hoje eu encontrei um CD.

-Da última vez que ele ficou obsessivo por uma professora, ele deixou também um CD no escaninho dela. Nele só tinha My heart will go on gravada quinze vezes. A pessoa nem precisava mudar de faixa.

Tive que morder o lábio. Aquilo era engraçado.

-Preciso mostrar uma coisa urgente. – ela tirou o iPad da mochila e digitou alguma coisa nele. Eu preciso de um troço legal desses – O blog dele.

Minutos depois, minha boca voltou a ficar escancarada. Isso juntamente com meu rosto queimando e suor em minhas mãos. Era nervosismo. Tudo por conta do que eu lia.

Adela mostrou-me postagens inteiras dele falando sobre mim. Sobre sonhos que ele tinha comigo. Fantasias. Poemas eróticos. Dizia quantas vezes por dia se tocava pensando em mim sexualmente. Chocante era que ele nem disfarçava, nem colocava um pseudônimo na musa inspiradora e meu nome aparecia lá com todas as letras – Isabella Marie Swan. Ele falava até sobre meu pai como se fosse genro dele.

E nas postagens mais recentes, ele praticamente gritava que estamos num relacionamento sério e nos poemas do dia que ele deixava no meu escaninho, proclamando o quanto eu adorava recebê-los.

Meu estômago girou. Minha cabeça doeu. Senti minhas extremidades gelarem e meus joelhos tremerem.

Estava passando mal. Muito, muito mal.

-Senhorita Swan... por favor... – Adela implorou percebendo como eu me sentia – Ele é assim instável, mas é uma boa pessoa. Nunca atacou ninguém.

Aquela informação não me deixou mais calma. Levantei-me e saí da cabine sem pedir licença à Adela, levando a mão à boca para conter a vontade de atirar o conteúdo do meu estômago no chão da biblioteca. Corri ao banheiro local, e fiquei trancada lá por alguns minutos.

Antes de sair, notei minha aparência no espelho próximo enquanto lavava as mãos. Eu estava pálida, o cabelo horrível e ainda tinha manchas de suor nas minhas roupas e escorrendo pelo rosto.

Lavei meu rosto e ajeitei meu cabelo o melhor que pude. O resultado, porém, ainda estava longe de dizer "estou bem e não vomitei tudo que comi hoje há alguns minutos".

Definitivamente, eu não podia dar aula hoje. As duas primeiras aulas seriam na turma de Daniels, e só de pensar nas coisas que ele escreveu... nas coisas que ele dizia que fazia pensando em mim me dava ânsia de vomitar de novo. Era um nojo muito forte contra uma única pessoa.

Adela escolheu aquele momento para entrar no banheiro. Ela tinha meu material nos braços, pois eu tinha saído com tanta pressa que havia esquecido minhas coisas na cabine.

-Você está melhor, senhorita Swan?

-Hmm... não muito. – consegui articular – Vou dispensar as turmas hoje.

Adela olhou-me com dúvida, mordendo de novo o lábio. Será que era um hábito que eu estava passando aos meus alunos?

-Sinto muito por deixá-la assim. E-Eu achei que você...

-Tudo bem, Hoggs. – minha voz estava rouca. Eu tinha que tirar o gosto ruim e tomar água – Foi bom o que fez. Eu precisava saber. Encontrar coisas dele no meu escaninho estava me incomodando.

Voltei a me concentrar na aparência e em outras coisas. Limpei minha boca e notei que ainda continuava pálida. Meus olhos estavam embaçados.

-Vou dispensar minhas turmas. Não posso dar aula para a turma de Daniels hoje.

-Acho que... acho que é uma boa decisão. – Adela falou, mesmo com evidente insegurança. Claro que ela não sabia se era uma boa decisão.

-Obrigada pelo aviso, Hoggs. – falei com toda a sinceridade – Vou tomar providências a respeito.

-Qualquer coisa, você pode mandar email para mim. Eu cheguei a trocar alguns com você por conta de um trabalho quando cursei Literatura Inglesa.

Ao sairmos do banheiro, a pergunta que não calava era: quais providências eu deveria tomar?


A sala da senhora Cope ficava no mesmo andar da sala dos professores e da biblioteca. Apesar da curta distância, o caminho pareceu longo demais. Eu comecei a olhar para trás assim como Adela fazia antes, com medo que Daniels me visse e corresse para entregar outros poemas.

-Oh, Bella, minha filha, o que houve? – a senhora Cope perguntou logo que me viu entrar na sala dela.

Era uma senhora de sessenta e poucos anos, cabelo pintado de castanho para esconder os fios cinzentos, voz clara e gentil. Ela havia me ajudado muito quando fui admitida aqui e nunca me tratou pelo sobrenome.

-Passando mal. – articulei fracamente. Ela notou a voz rouca – Terei que dispensar minhas turmas hoje.

-Oh, faça isso. – ela começou a abrir cadernos e a anotar coisas – Quais são as turmas?

-As de Literatura Inglesa do quarto e do sexto semestre. – esfreguei um lado da cabeça. Uma dor de cabeça estava começando a ficar mais forte – O que devo fazer? Pegar um atestado e...

-Você pode ir à enfermaria e logo cuidarão de você. Aí você pegará um atestado de três dias. Seus alunos serão avisados, Bella.

-Oh... – forcei um sorriso enquanto ela me entregava um termo de compromisso para reposição das aulas assim que eu voltasse ao trabalho – Irei imediatamente...

Antes que pudesse terminar de falar, ouvi a porta se abrir. Ainda estava de costas, mas imediatamente soube quem era.

A eletricidade que percorria meu corpo sempre que ele e eu estávamos no mesmo local percorreu minha espinha e fiquei imóvel. Não consegui terminar a frase e a senhora Cope me olhou com alarme, preocupada talvez com a possibilidade de eu sujar o chão da sala dela.

-Senhora Cope, eu trouxe os papéis que me...

Ainda de costas, percebi que ele havia parado de falar porque ele finalmente notou quem estava ali.

-Bella? – a voz, antes tão aveludada, soou fraquíssima aos meus ouvidos.

Fechei os olhos e orei silenciosamente pedindo forças. Ou iluminação. Ou um milagre. Talvez todas essas coisas juntas. Eu tinha ficado tão preocupada com o problema de Daniels que esqueci completamente de Edward.

Voltei-me lentamente para olhá-lo. Não esperava que meu primeiro encontro com ele depois de tantos anos fosse daquela forma – eu, com uma aparência de mendigo; ele, perfeito como sempre. Olhos verdes, um pouco de barba, cabelo bagunçado, ainda cor de bronze... Assim como no último dia que o vi.

Ao ficarmos de frente, vi-o abrir e fechar a boca duas vezes, mas nada dizer.

Não havia o que dizer.

Ficamos nos encarando até a senhora Cope, totalmente alheia à situação, chamar o meu nome para entregar mais alguns papéis. Eu não sabia o que eram. Apenas peguei-os e coloquei automaticamente numa das minhas pastas, assentindo com uma pergunta e outra que ela fazia. Nada do que ela dizia fazia sentido. Eu não tinha ideia do que ela falava.

Passei por ele sem falar mais nada, mas senti aqueles olhos verdes ainda em mim enquanto chegava ao final do corredor e descia as escadas em direção à saída do prédio, ao estacionamento, ao meu carro, meu refúgio.

Cheguei à picape e praticamente joguei minhas coisas lá antes de subir e trancar o veículo.

No silêncio, ali, eu praticamente bati minha cabeça no volante fechei os olhos. Na minha cabeça, agora só uma frase se repetia e que, com muito esforço, consegui expressar:

-Que dia horrível, meu Deus.


Um capítulo um pouco maior para compensar a falta da semana passada :) Espero que tenham gostado.

Notei que os reviews estão aumentando. Isso significa que ainda devo continuar a história, certo? :) O que acharam desse capítulo? Do que Felix estava fazendo? E do encontro entre os dois?

Próximo capítulo: dia 04/11! Aguardem!

Um beijo, Marie