4 – B é de sorvete
Donna sabia que não seria nada fácil começar essa loucura. Rachel estava literalmente fora de si quando sugeriu que Harvey fosse parte de sua matéria para a revista. Quando ele apareceu em sua porta na segunda-feira à noite, Donna não sabia que esse simples gesto a faria reconsiderar todo o planejado para os próximos finais de semana. Ela não poderia gostar de Harvey Specter. Ela não poderia se apaixonar por ele.
Eles tinham mais em comum do que ela pensava. O gosto musical, a literatura, o vinho, o senso de humor. Donna nunca foi adepta à astrologia, mas ela sabia que essa história de "os opostos se atraem" era pura mentira. O ser humano é propenso a se apaixonar por outro quando as almas são iguais. Ela não poderia deixar isso acontecer.
O pensamento de que ela planejaria os "encontros" intercalados com Harvey a assustava.
Pelo resto da semana, na tentativa de esquecer os pensamentos incoerentes, um dicionário inteiro de palavras com B perambularam a cabeça de Donna. Talvez se ela reservasse uma mesa no restaurante especializado em Bacalhau? Não, romântico demais. Uma balada seria legal? Não, cedo demais. Um jogo de baseball? Não, competitivo demais. Ela poderia comprar ingressos para times que Harvey não gostasse e fosse um desastre total.
Na quinta-feira,folheando uma das edições antigas da Pearson, Donna finalmente teve uma ideia brilhante. Ela avistou o anúncio e na hora soube que seria o tipo de programação ideal para um sábado. Não seria perigoso para os sentimentos dela e eles poderiam compartilhar uma boa diversão.
Vasculhou sua gaveta em busca de seu celular, selecionou um contato da agenda e apertou em ligar. No terceiro toque, uma voz feminina atendeu.
- Escritório de Advocacia Specter Litt, boa tarde.
- Boa tarde. Eu gostaria de falar com Harvey.. Harvey Specter.. Sr. Specter.. por favor. Ele está?
- Quem gostaria?
- Donna. Paulsen. Mas se ele estiver ocupa...
- Um momento, por favor. Irei transferir a ligação.
- Obrigada.
Donna havia pedido à Rachel o telefone principal do escritório dias atrás. Não queria ligar direto no celular de Harvey e dar a impressão errada. Havia limites e ela não queria ultrapassa-los. Eles nem sequer eram amigos, eram no mínimo conhecidos.
- Por que não ligou no meu celular? – Harvey atendeu um pouco exasperado.
- Boa tarde Harvey. Estou bem, obrigada por perguntar.
- Donna, me desculpe. – Agora Donna podia sentir o sorriso de Harvey através da ligação. – Eu estou meio ocupado agora mas autorizei minha secretária a transferir ligações pessoais.
- Oh, eu te ligo mais tarde então, eu não sabia...
- NÃO! Não, tudo bem... – Harvey precisava de um tempo para descansar depois da última reunião e sabia que ouvir a voz de Donna e conversar com ela ajudaria a esquecer dos problemas eminentes. - ... pode falar, sou todo ouvidos.
- Tem certeza? Não quero atrapalhar. – A preocupação na voz de Donna o fez sorrir mais uma vez.
- Certeza. – Harvey estava sentado em seu escritório com a porta de vidro fechada. Aproveitou esses minutos em total paz, afrouxou a gravata e colocou os pés em cima de sua mesa. – À que devo a honra de uma ligação no meio da tarde?
- Bom, gostaria de lhe informar que já sei qual será nossa programação de sábado. – Donna disse sorrindo, rabiscando riscos aleatórios em um bloco de notas localizado à sua frente.
- Isso é muito bom. Posso saber qual é a letra agora ou também faz parte da surpresa?
- Surpresa. – Uma colega de Donna à chamou ao fundo. – Harvey, preciso ir. Eu até te passaria o endereço do local para nos encontrarmos lá, mas eu sei que assim que eu te mandar você vai pesquisar onde é e vai descobrir tudo.
- Mentira! Prometo que não faço isso.
- Ah, você vai. Você pode passar no meu apartamento no sábado às 14h? Assim vamos juntos e você não corre o risco de estragar tudo.
- Sem problemas, capitã. Sábado, às 14h, no seu apartamento. Até lá.
- Então, é um lugar fechado ou ao ar livre? – Harvey havia chegado no apartamento de Donna alguns minutos atrás e, enquanto a ruiva terminava de pegar suas coisas, ele continuava tentando descobrir qualquer informação de onde eles estavam indo.
Mais cedo naquele dia, Donna lhe enviou uma mensagem o orientando a vestir roupas confortáveis e um tênis que não escorregasse. A informação só serviu para deixar Harvey mais curioso e, quando ele retornou a mensagem perguntando o que ela estava tramando, Donna apenas lhe respondeu com um simples "a paciência é uma virtude para poucos. "
- Você parece aquele burro do filme do Shrek. – Donna riu enquanto fechava o zíper da sua bolsa. – A gente já chegou? E agora? Já chegamos? Já chegamos? – Ela imitou o personagem, reproduzindo uma voz fina, levando Harvey às gargalhadas.
- Eu por acaso tenho cara de quem assiste desenho animado? – Harvey arqueou uma sobrancelha em sinal de confronto.
- Não, mas deveria. Quem sabe assim você para de ser sarcástico.
- Como se você também não fosse. E aí, a gente vai hoje ou amanhã? – Ele pegou a chave do carro que estava na bancada da cozinha ao lado de sua carteira e foi em direção à porta.
- Hoje, Harvey. Hoje. Vamos antes que eu desista e deixe você sem saber de nada. – Donna abriu a porta e os dois partiram em direção ao elevador.
Harvey apertou o botão para chamar o elevador e enquanto os dois permaneciam em silêncio parados na frente da porta de metal fechada, ele não conseguia tirar os olhos de Donna.
- Que foi? – Ela perguntou, constrangida.
- Nada. – Harvey balançou a cabeça em negação, desviando o olhar. – Não consigo parar de me perguntar quantas vezes você assistiu Shrek para ter decorado as falas.
- Eu não consigo parar de me perguntar como você pode ser referência em advogados e nunca viu um desenho animado. – A porta do elevador abriu e os dois entraram, rindo.
- Não queria admitir, mas estou com medo de onde você vai me levar. – Harvey disse, trocando a marcha do seu carro. Donna estava sentada no bando do passageiro. – Não sei se você percebeu, mas eu não lido muito bem com segredos.
- Relaxa, Senhor Certinho. – Donna olhava para a frente, imaginando que sua escolha de lugar talvez não tivesse sido tão ousada assim. – Vire à direita na próxima, por favor.
- Eu tenho um GPS aqui, sabia? Acho que a função dele é ensinar o caminho, para os humanos pouparem o trabalho.
- Eu sei. Mas não confio no seu carro, nem em você. – Donna agora olhava para o perfil de Harvey enquanto ele prestava atenção no trânsito. – Da última vez que me deparei com você como motorista, eu quase morri. Lembra disso?
- Como eu poderia me esquecer? Você quase amassou essa belezinha. – Harvey sorria como uma criança, preenchido com as lembranças daquele dia. – Eu realmente quis te matar. Você tinha estragado meu sábado.
- Eu simplesmente segui em frente e esqueci do que aconteceu. – A ruiva também riu. – Eu nem consigo me lembrar no que exatamente eu estava pensando.
- Com certeza não era algo tão importante assim, então. – Harvey diminuiu a velocidade. – Estamos perto agora?
- Estamos. Pode estacionar aqui ó, tem uma vaga. – Donna apontou para um espaço vazio na calçada em frente ao lugar que ela havia escolhido. Harvey começou a ligar os pontos assim que desatou seu cinto de segurança.
- Boliche? – Ele arqueou as sobrancelhas, sorrindo. – Nós vamos jogar boliche?
- SIM! E fica ainda melhor! – Donna soltou uma risada, iluminando o ambiente. Harvey não podia deixar de a admirar quando ela fazia isso, e ela fazia muito.
- Meu deus. Acho que voltei para os meus 15 anos. – Eles saíram do carro e Harvey o trancou. Donna caminhou para a entrada do boliche, abrindo a porta. Harvey entrou logo após dela.
- É exatamente essa a intenção.
Eles foram até o balcão e Donna comprou uma pista por 2 horas. Pediu um placar para apenas 2 jogadores e pagou também pelas botas. Harvey disse que ele pagaria, mas Donna insistiu. Para evitarem uma discussão desnecessária ali, Donna concordou que ele poderia pagar o que eles consumissem lá dentro.
- Eu sou campeã em boliche. É bom já te deixar à par disso. – Convencida, Donna fez sua melhor cara de vencedora, tentando intimidar Harvey.
- Como eu disse, me sinto com 15 anos de novo. Ganhei o campeonato de boliche estadual em 2001. É bom te deixar à par disso.
Donna ficou surpresa com a revelação. Em 2001 ela ganhou o campeonato regional pela sua escola, mas não conseguiu vaga no estadual por causa da sua idade. Se ela fosse um ano mais velha, teria conhecido Harvey anos atrás. Não...
- Menos papo, mais ação. Vamos logo. – Donna terminou de calçar sua bota e foi pegar a primeira bola na fileira que ficava ao lado de onde eles estavam. Ela se preparou, pesou a bola com as mãos, ajeitou, endireitou a coluna e jogou a bola.
- Strike! – Assim que todos os pinos caíram, Donna não pode conter sua animação e gritou. Parecia ridícula e infantil, mas ela até mesmo fez uma dancinha da vitória. Ao voltar para os assentos e para onde Harvey a observava, não pode deixar de incitar uma competição. – Se hoje foi o nacional, acho que eu ganharia. Boa sorte.
- Obrigado, mas não preciso de sorte. – Harvey se levantou, caminhou até a fileira de bolas assim como Donna havia feito e jogou sua bola.
- Strike! – Harvey sorria de orelha a orelha. Donna não conseguiu desviar o olhar da felicidade que emanava de Harvey naquele momento. – Vai ser uma longa tarde, capitã.
1 hora, 6 rodadas e 12 strikes depois, Donna resolveu que era hora de realmente contar o que ela havia escolhido para a letra B.
- Por que eu não posso abrir os olhos? – Donna pediu que Harvey fechasse os olhos e começou a guia-lo na direção da sorveteria Ben & Jerry's. O anúncio que ela havia visto na revista era dessa sorveteria. O lugar favorito no mundo todo desde quando ela era criança.
- Porque não. – Ela segurava a mão de Harvey e sem se dar conta, gostou da sensação de tê-la nas suas por algum tempo. – Tá, agora pode abrir.
Harvey abriu os olhos e precisou de 2 segundos para se ajustar às luzes fortes da entrada da sorveteria.
- Não acredito. Boliche e agora Ben & Jerry's? – Harvey riu com a situação. Ele adorava o senso de humor de Donna e realmente havia ficado fascinado com a destreza dela em escolher um lugar com B para eles passarem o dia. Com certeza essa pesquisa lhe traria muitas surpresas e muitas risadas.
- Você precisa provar o sabor Chunky Monkey. É o melhor! – Donna sorria e o puxou para a fila.
- Eu vou querer de baunilha. – Assim que Harvey fez seu pedido, Donna lhe lançou um olhar reprovador. – Que foi?
- Baunilha Harvey? Sério? Eu disse pra você pedir o Chunky Monkey.
- Se for pra levar sua pesquisa à sério, vai ser baunilha. Eu prefiro.
- Então pelo amor de Deus, coloca umas coisas aí. – Donna se virou para a atendente e continuou. – Moça, ele vai querer com granulado de Ovomaltine, uns pedaços de oreo e muito whipped cream.
- Whipped cream não, Donna. Urgh. – Harvey fez uma careta.
- Acredite em mim, depois que você experimentar o daqui, vai amar.
Como eles haviam concordado, Harvey pagou pelos sorvetes. Eles pegaram os potinhos e Donna não parava de lhe oferecer o seu.
- Haaarvey, experimenta. Por favoooor. É o melhor sabor do mundo. – Depois de tanto insistir, Harvey aceitou uma colher.
- MEU DEUS! Você tem razão. – Harvey ficou surpreso. – Agora me arrependi de ter pego esse.
- Eu sabia. Eu sou a Donna, sempre sei de tudo. Da próxima vez, acredite em mim. – Ela sorria, vitoriosa. – Imagina esse sabor, com esse whipped cream por cima. Paraíso.
Eles aproveitaram a última hora no boliche. Dessa vez, pegaram mais leve. Houve alguns strikes mas também algumas bolas para fora da pista. Aos poucos, os até então desconhecidos, ficavam amigos. Conversaram um pouco sobre o trabalho de Donna da revista e seu amor pelo teatro. Harvey contou sobre o mais fazia no escritório de se sua sociedade com Louis. Ele também tinha traços de arte em sua personalidade pois sua mãe era pintora. O assunto fluiu como se eles fossem velhos amigos.
Harvey levou Donna até seu apartamento e, quando Donna o convidou para subir, para sua surpresa, ele aceitou.
- Sabe, acho que seria mais prático se sorteássemos a próxima letra sempre depois do passeio. Assim você não tem o trabalho de vir até aqui 2 vezes na semana. – Donna chegou nessa conclusão tentando facilitar para Harvey. Eles tinham combinado de sortear na segunda-feira pois fora o dia em que ele apareceu lá de surpresa dando a ideia. Não precisava necessariamente ser assim.
- Se você prefere assim, podemos fazer isso agora. – Harvey estava um pouco desapontado. No fundo, ele estava feliz que teria a oportunidade de ver Donna 2 vezes. Agora, não mais.
Donna foi até seu quarto, pegou a touca e caminhou de volta para a sala onde Harvey estava. Ela balançou e as letrinhas balançaram na dentro. Quando ela abriu, Harvey mergulhou sua mão e pescou um papelzinho.
Sem dizer nada e sem abri-lo, guardou no bolso da calça.
- Ei, você não vai ver qual você pegou? – Donna arregalou os olhos e aparentava estar chateada.
- Não. Não com você aqui do meu lado e esses seus superpoderes. Depois eu vejo. – Harvey piscou para ela. – Até sábado, capitã.
Segurando a maçaneta da porta, Donna sorria carinhosamente para ele agora.
- Até sábado, Harvey.
