GIULIANA
Era início de mais um dia de trabalho. Como qualquer outro dia, fiz questão de acordar cedo. Levantei às seis horas, desci as escadas da casa para encontrar com minha enteada, Any. Nossa história é complicada, mas nós éramos bem unidas. Aquele neném fofo fez questão de fazer o café e por na mesa – normalmente ela acordava cedo também para ir ao colégio, só que eu que fazia o café da manhã. Fui ao banheiro para tomar banho e escovar meus dentes não sem antes pisar com o pé direito no banheiro e bater as mãos no rosto. Era um novo dia.
Somos sobreviventes e pensei em tudo isso justamente naquela manhã. Eu estava noiva de um escritor famoso quando a Lei do Índex foi instaurada. Ele tinha uma filha ainda criança que me aceitou como se eu fosse uma mãe. Vivíamos felizes, muito até por sinal. O problema foi essa maldita lei que veio para nos atazanar. Simplesmente tiraram meu futuro marido da cama enquanto a Any chorava aos prantos. Além de raptado, ele foi torturado vide que ele costumava participar de certa sociedade de livros. Não sei bem a história, o problema veio a seguir.
A ISIS, a polícia criada a fim de fazer cumprir a lei mundial, veio em minha casa e me entregou as roupas usadas pelo meu noivo e ainda me guiaram para o enterro dele. Ele não havia resistido à tortura na prisão. Ele não tinha um porte físico avantajado como a maioria de minhas amigas gostava. Ele não era como os outros homens que só pensavam em peito e bunda. Ele era lindo do jeito dele, estava sempre ali quando ele precisava, sempre me ajudava, sempre... Desandei a chorar enquanto o chuveiro caía. Sozinha. Any não precisava saber disso. Não necessitava saber que sua benfeitora estava chorando por algo que aconteceu há muito tempo...
Depois do banho demorado, eu comecei a me vestir. Uma calça jeans simples, uma blusa branca sobre um blazer azul marinho foram o que tinha escolhido e sorri. Tentei enxugar as lágrimas e ir à mesa, só que a loira de olhos azuis fundos me encarou e parecia que ela estava lendo o que aconteceu há instantes atrás... Ela então simplesmente parou o que fazia e se levantou indo até onde eu estava.
- Giuli... – disse com uma voz mansa e tranquila, porém não menos fofa – Eu estou aqui. Não precisa carregar o peso todo em suas costas.
- O que? – tento esboçar um sorriso – Deixar uma garota de quinze anos tentar ser responsável? O Robert levantaria do túmulo só para me dar um sermão!
Era assim que era todas as manhãs – exceto pela parte do choro no banheiro. Sempre tentando ser alegre, ainda que passemos pelas dificuldades que qualquer família passava. De não ter dinheiro para fazer determinada coisa no final do mês entre outras situações. Mas o que mais importava viria a ser a nossa união. Não deixamos nenhuma para baixo e quando vemos uma situação desse tipo se configurando procuramos dar conselhos. Não temos orgulho em reconhecer que precisamos de um ombro amigo, e de querer ajudar sempre que precisasse. E a pessoa que mais me colocava para cima era a Any e vice-versa.
Um dos únicos problemas da Any era ser fã do Kai. Normalmente ela gostava de músicas de maior qualidade é claro, mas o fenômeno da música brasileira a conquistou de uma forma que você nem imagina. Ele realmente tinha algumas músicas muito boas como Olimpianos – no qual ele aborda sobre os deuses do olimpo – ou Runner – Que abordava como a gente corria no dia a dia para conseguir o que queríamos. Essa Runner era a que eu mais gostava, parecia que ele estava me descrevendo, principalmente nos seguintes versos...
"I'm a runner! No one can stop me.
I'm a runner! Can anyone listen me?
Não me taxe de idiota, o mundo é juiz.
Por que eu corro. Eu corro para ser feliz.
Depois dessa parte, ele continuava falando com dois versos tratando do meu trabalho. Eu era professora de português em uma escola de ensino médio. Adorava meus alunos e poderia ensinar sobre várias vantagens. Ainda que a censura fosse fortíssima, e agentes da ISIS ficassem a porta das salas. Nada como mensagens subliminares para inibir ações e incitar pessoas como aqueles adolescentes a procurarem livros na internet para ler e crer em um mundo melhor. Leitura mudava o mundo, não causava guerras, não causava coisas ruins. Somente trazia o bem. Dava asas à imaginação e isso é uma coisa tão maravilhosa quanto sonhar acordado – coisa que eu fazia quando me pegava lendo em meu notebook.
Claro que lia escondido e no conforto de minha casa. A ISIS não iria procurar saber se uma professora de português estaria lendo livros proibidos pela internet, afinal eles tinham outras preocupações. Como as pessoas que sumiram com suas grandes coleções e que aparentemente formaram algumas sociedades literárias. Segundo os boatos dos alunos, todas se uniram ao redor de um líder que deu o nome singelo de Sociedade Anônima dos livros ou Sociedade Secreta dos Livros. Os boatos divergem quanto ao nome. Eu achava que isso era mentira, só que se fosse verdade eu entraria nessa sociedade com orgulho. Visto que adorava uma aventura.
Voltando ao Kai e a Any. Com os outros ela era um pouco quieta e tímida. Portanto ela ficou olhando o pôster do show dele e olhando para mim. Como se pedisse, mas ela entenderia se eu negasse. Procurei ver o preço e depois disso aceitei que ela fosse. Kai era uma pessoa única. Seus ingressos não custavam caro e todos sabiam que partia dele a iniciativa. Não barato para que todo mundo entrasse, daí viraria zona. Mas barato o suficiente para ter uma espécie de conforto e ainda curtir tranquilamente o que ele mais gostava e sabia fazer: Cantar e dançar.
Mas com tudo isso, já me encontrava na hora de sair para meu colégio. Dei um beijinho de despedida em minha enteada e peguei minha bicicleta. Começaria um novo dia de alma lavada. Meu local de trabalho ficava a trinta minutos de "pedaladas"... Era praticamente uma Academia estudantil dentro da grande cidade de São Paulo. Fora construída justamente para educar o grosso da população a respeito das novas leis e novos métodos de ensino. Para o Conselho dos Doze era necessário uma Academia dessas em cada uma das grandes cidades de seus respectivos países. E não podia ser diferente na maior cidade do país.
Logo na entrada podia-se ver toda a estrutura frontal da falada com um grande relógio na frente, no topo de um grande obelisco no meio do caminho para a entrada para os corredores que davam as salas. O imenso monumento formava uma praça entre a entrada principal – o portão principal – e o edifício das aulas e portaria. Essa área em especifico costumava ter bastante estudante em bicicletas ainda que houvesse aqueles que se dirigiam de carro com seus pais. A Academia tinha dormitórios próprios – como se fossem uma faculdade de tempo integral, nos moldes americanos – e metade dos estudantes eram bolsistas. Dos que entravam pelos métodos normais – uma prova para testar a racionalidade das pessoas, um teste aplicado pelos oficiais da ISIS.
Para mim, daí já se conhecia o porquê do conselho espalhar esse tipo de instituição ao redor dos países... Monitoramento. Com o dormitório eles poderiam ver e observar cada aluno e suas intenções para com a sociedade. Era complicado burlar alguma regra. A ditadura imposta por pessoas de ego mais alto que o espaço, as quais possuem medo de uma sociedade pensante, dava raiva. Mas estava sozinha... Se eu quisesse fazer algo, eu seria rapidamente exterminada.
- Professora Giuliana! – uma voz conhecida por mim chamara meu nome no meio da multidão que chegava para mais um dia de aula.
-Marcus! – exclamo no momento em que estaciono a bicicleta – Como você está?
Marcus Winsthael, dezessete anos, frequentador do último ano do ensino médio e que pretendia fazer algum concurso público. Ele era meio tímido, mas não menos inteligente. Ele se assustava com pessoas com certa facilidade para fazer amigos. Por ele vir do estrangeiro – dos Estados Unidos – ele começou sendo muito famoso, até por causa do seu nome. Mas ele gostava se de distanciar, de ser frio. Mas quem o via de verdade, sabia que ele poderia ser amigo. Ser uma pessoa a qual você poderia contar.
- Professora, você está sabendo que o conselho dos doze está no Brasil não é? Mas eles vão a um show e aparentemente se reunirão depois... O que a senhora pensa disso?
- Por que você está me perguntando isso Marcus?
- Por causa disso, professora.
E Então ele me entrega um bilhete que dizia que no momento em que o conselho dos doze se reunisse algo de grande iria acontecer. Será que seria alguma coisa relacionada ao Kai? Ao show que ele faria no Morumbi e depois na praia de Copacabana no Rio de Janeiro? Mas eu como toda pessoa lógica perguntei.
- Marcus, de onde tirou esse bilhete...
- Foi uma pessoa que estava com um livro proibido na mão. – ele levou sua mão esquerda ao queixo – Interessante que ela simplesmente me entregou o bilhete e saiu.
- Tem certeza que não foi uma stalker sua?
- Tenho. Até porque se eu tivesse alguém do tipo eu saberia e essa garota eu nunca vi na vida.
- Isso é algo que não deve chamar sua atenção. Deve ser alguma brincadeira boba de adolescente – depois eu desferi um sorriso sarcástico para um dos melhores alunos – Preparado para o teste hoje?
- Sim. Farei e irei para casa. Tenho muito que pensar.
- Sobre...
- Se eu vou para o show do Kai.
- Mas você não gosta do estilo de música dele então por que diabos está pensando em ir a um show dele?
- Ele é um cantor nacional e é sempre legal valorizar um artista do próprio país, pra honrar a pátria. Apesar de eu não ser um brasileiro nato, eu curto o Brasil. Com o governo dos Da Costa ele melhorou bastante apesar da ditadura fortíssima imposta pelo conselho dos doze.
- Tem certeza que esse é o verdadeiro motivo para ir ao show do Kai, meu querido?
- Sim professora... Por que outro motivo eu teria?
- Você gosta do conselho dos doze?
A pergunta fez com que Marcus engolisse em seco. Tinha certeza que ele era contra o conselho, só que não demonstrava. E com uma oportunidade dessas, era difícil que ele deixasse escapar. Afinal sua família tinha alguns contatos e era decerto que seu pai se encontraria com alguns dos lideres. E tão certo quanto seria esse encontro, seria que Marcus estaria nele.
- Mais ou menos. Eles são realmente necessários para a manutenção da paz mundial, porém...
- Continue – cruzei os braços.
- Eu não concordo com algumas ações deles. Como a ditadura através da Lei do Índex.
Foi quando o gongo para o inicio das aulas soou.
- Salvo pelo gongo, Marcus Winsthael.
- Não professora – ele sorriu antes de dar as costas e se dirigir a sala de aula – A senhora foi salva pelo gongo.
E o frio, distante e levemente calculista se distanciou. Eu dei uma leve risada. Mas não esperava. Realmente não imaginava o que ele viria a fazer e o que isso tinha a ver comigo e com a Any.
