Desentendimentos

Era outra manhã e Mami já estava no ponto de ônibus, devidamente arrumada. Entrou no veículo, dessa vez sem correria ou vexame.

No entanto, ela não tinha essa mesma esperança quando fosse sair dele.

O ônibus parou em um ponto e Sasa apareceu, como Mami havia previsto.

A garota sentou na frente dela, já dizendo. "Bom dia!"

"Bom dia." Mami viu que a outra estava com mesma aparência do dia anterior, incluindo suas luvas.

No caso de Sasa, era o oposto. "Ah! Então esses são os seus cachos."

Mami ficou surpresa. "Você sabia sobre o meu cabelo?"

Sasa abriu os braços. "Eu não disse que nos rumores havia uma descrição?"

A loira suspirou. "Hoje nós vamos correr também?"

"Claro!"

Ela balançou a cabeça. "O que aconteceu contigo em Shirome para ter tanto medo?"

"Nada," respondeu Sasa, "mas eu vi acontecer aqui e ali e fui esperta o bastante para não ser a próxima."

"O que você viu?"

Sasa estreitou o seu olhar. "Beleza, dinheiro, personalidade... Se elas encontrarem algum ponto fraco em você, elas vão usar a influência delas para botar você no chão. Isso pode levar até ao suicídio."

Mami parou de respirar por um instante. "Isso não é um exagero? Se não há outra solução, basta mudar de escola."

"Nem sempre é tão simples." Sasa fechou os olhos em uma expressão de cansaço. "Meus pais, por exemplo, gastaram suas economias para colocar eu nessa escola. Eles acreditam que eu estarei garantindo o meu futuro, mas o que eu aprendi sobre isso é que é um jogo de cartas marcadas."

Mami começou se sentir desconfortável com o assunto. "Você fala como se todas as pessoas acima de nós fossem más..."

"Como acha que elas chegaram lá?" Sasa abriu o sorriso malicioso. "Se todos em Shirome morressem, não estaríamos perdendo muito."

Mami arregalou os olhos, se controlando para não levantar a voz. "Yuuki-san?! O que você diz é..."

Sasa tampou sua própria boca.

A loira franziu a testa.

"...kukukuahahahaHAAA!" A garota ficou vermelha com a gargalhada. "Senpai, você é muito fácil de impressionar. Isso é só uma forma de desabafar, pura fantasia."

Mami se sentia tensa ainda. "Isso é uma... forma estranha de desabafar."

"Pense como uma forma mais criativa de xingar elas." Sasa apertou o botão de parada. "Hora de mover essas pernas."

Como dessa vez não houve uma discussão na calçada, as duas conseguiram chegar mais cedo na escola.

"Tchau Tomoe-senpai e desculpe pelo o que eu disse." Sasa acenou. "Você vê tantas coisas ruins por aqui que isso acaba te afetando. Sou apenas uma sobrevivente."

"Entendo..." Mami continuou andando. "Te vejo depois."

Subindo as escadas, a loira não conseguia parar de pensar sobre aquilo.

... Sou apenas uma sobrevivente...

"Para ela, parece que a vida em Shirome é tão dura quanto... a de uma garota mágica..." Mami disse para si mesma, depois sorriu. "Um exagero. Bebe, parece que encontramos outra pessoa dramática."

Quando chegou no corredor, ele estava vazio. Será que estava atrasada? Mami tinha certeza que tinha sido mais rápida dessa vez. Logo o medo daquele olhar da Oriko a assombrou.

Será que ela me culpa pelo o que aconteceu com Yuma?

Ela foi em direção a sua sala se esforçando para não pensar muito.

A porta da sala estava aberta e havia apenas um grupo de garotas na janela, nenhum sinal da professora. Mami foi até a sua carteira, tudo composto de madeira, sem nenhum apelo tecnológico como era na escola de Mitakihara.

Ela sentou e preparou o material que iria usar na aula.

"Me passa o binóculos!"

Porém a conversa das garotas chamou a sua atenção.

"Não! Deixa eu ver o Makoto-kun sem camisa!"

"Ei! Fui eu que disse que dava para ver daqui a aula de educação física dos garotos!"

O que elas estão fazendo? Não sabem que a professora virá logo? Mami evitou olhar para elas, mas não pode evitar de continuar a ouvir a conversação.

Outra garota falou, "Não vejo nada demais nesses rapazes, nem se comparam com o que se pode encontrar em Tóquio."

"Hmmm... Tem certeza de que não está falando sobre si mesma?" disse uma quarta garota, "ainda sonhando em se casar com o seu Ichiro?"

Elas riram.

"Por que não posso pelo menos sonhar? Eu sei que ele é mais velho e deve estar cheio de pretendentes."

"Por que não tenta a sorte com o irmão mais novo? Ele deve ter quase a mesma idade que a nossa."

"Udo? Ouvi dizer que ele é um galinha. BLEEH!"

Outra disse, "Eu morreria por uma noite com qualquer um deles..."

"Querendo dar o golpe da barriga, é?"

Novas risadas, acompanhadas pelo som do sinal. Mami ficou preocupada, não tanto pela conversa, mas pelo fato de a professora ainda não estar na sala, assim como outros alunos.

"Ei! Quem é aquela garota?"

Logo ela se viu rodeada por aquele grupo com expressões ameaçadoras. Mami então se deu conta que aquelas não eram colegas de classe, pareciam ser mais velhas.

"Não olha!"

Mami abaixou a cabeça de imediato, controlando sua respiração.

"Por que está aqui?"

Ela gaguejou, "E-Essa é... é minha sala... eu... eu acabei de entrar."

Outra garota perguntou, "Por que não está no evento de boas vindas junto com os outros calouros?"

"Evento?" Mami ficou confusa.

"Oh... Parece que nós temos uma pária."

Pária? Mami tentava se lembrar de qualquer anúncio dos professores, qualquer conversa entre os alunos, mas não havia. Será que ela precisava saber de antemão?

"Ela não deve ser de Shirome," uma comentou.

Mami sentiu uma de seus cachos ser puxado por uma das garotas, que o cheirou.

"Eu estou sentindo o fedor da escola de Mitakihara."

As outras riram.

Então Mami viu seu material sobre sua carteira ser derrubado violentamente por uma delas.

"Vocês nunca aprendem." Ela tinha uma voz fria. "Onde tu acha que está o valor em Shirome? Na tradição? Em sua história? Não. Está nas pessoas que estudam aqui e gente como você estraga isso."

Mami ousou dizer, "Eu não quero criar problemas..."

A mesma garota respondeu, "Esqueceu de dizer."

Mami respirou fundo, ela havia entendido. "Eu não quero criar problemas, senpai..." Contudo, a garota segurou sua face, pressionando as unhas compridas contra os seus pômulos. Havia apenas fúria no olhar dela.

"Não olhe!"

Mami desviou o olhar, sua respiração estava curta. A outra garota ficou virando seu rosto, examinando.

A voz estava menos tensa agora, "Você é bonita... Qual o seu nome?"

Com sua boca aberta devido o aperto, ela respondeu com dificuldade, "Maaa... mi Tomoe..."

"Certo..." A garota demorou em continuar a dizer, "se você quer manter essa face, eu não quero ver você com nenhum garoto e nunca mais quero ouvir esse nome. Entendeu?"

"Sim... senpai." Mami sentiu o alívio de seu rosto ser liberado.

"Pense pelo lado bom," disse outra garota, "você não vai precisar ir ao evento de boas vindas. Já teve um só para ti."

O grupo riu enquanto saía da sala, chutando e derrubando as cadeiras e carteiras no caminho.

Mami só teve coragem de se mover quando não ouviu mais nada. Ela passou a mão seu rosto, sentindo as marcas de unha. Depois ela se levantou para arrumar a bagunça em silêncio, silêncio que soava como um prenúncio de um começo, do qual ela já sabia que devia temer.

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Nagisa estava quase na sala de aula. Ela tinha chegado mais tarde que o usual, mas ainda faltavam alguns minutos para começar a aula. Os estudantes ainda estavam relaxando e conversando entre si, tanto nos corredores quanto atrás dos painéis de vidro. Sua sala não era diferente.

Até ela entrar.

Os colegas começaram a bater palmas, congratulando ela.

Nagisa parou, procurando saber o que estava acontecendo. Em sua busca por respostas, ele percebeu que nem todos estavam participando daquilo.

Aki estava com a cabeça deitada nos seus braços, sobre a carteira, escondendo sua face.

Ayako estava de braços cruzados, séria, enquanto Sanjuro estava rindo com alguns colegas, olhando para o quadro.

Seguindo aquela pista, Nagisa ficou abismada. No quadro havia o desenho de um coração vermelho e dentro dele havia dois nomes.

AKI

NAGISA

"O que vocês estão comemorando, hein?" Takuma entrou na sala e olhou para o quadro. "O quê?!"

Ainda sem chão, Nagisa trocou olhares com ele.

"Seus danadinhos." Takuma sorriu malandramente. "Aproveitaram enquanto estavam a sós," disse enquanto ficava jogando os seus quadris em direção a ela. "Oh! Oh! Ah! Ahhh..."

Nagisa ficou toda vermelha e escondeu o rosto diante daquela cena.

A sala caiu na gargalhada.

"Ei Aki!" Takuma se apressou em alcançá-lo. "Aki! Meu garoto..."

Porém, Aki não se moveu.

Takuma então socou a carteira dele. "ACORDA!"

Novas risadas.

O garoto loiro se levantou, mas continuou encolhido em sua cadeira.

"Eu sei que tá cansado, depois de toda ação que vocês dois tiveram," disse Takuma, "viu como andar com a gente dá resultado? Você deixou de ser virjão antes de muita gente aqui da sala. Aproveita e compartilha os detalhes com a galera."

De cabeça baixa e emburrado, Aki respondeu, "Não aconteceu nada."

"Qual é!" Takuma deu mais um soco na carteira. "Não é hora pra ser modesto."

Aki rangeu os dentes. "Não aconteceu nada!"

Takuma ergueu suas sobrancelhas. "Então tá admitindo pra toda sala que é uma marica?"

Com os olhos arregalados, Aki olhou para ele e depois para Nagisa.

Ela ainda estava na frente da sala, preocupada, olhando para os dois.

Voltando a olhar para Takuma, Aki disse, "Eu sou uma marica..."

"O quê?" Takuma pôs a mão na orelha. "Eu não ouvi."

Aki elevou a voz, "Eu sou uma marica."

Takuma se virou para sala. "Pessoal, vocês acham que isso foi uma admissão?"

Várias vozes responderam.

"Nããããoooo!" "Tem que falar mais alto!" "Eu tô no outro lado da sala, seu retardado!"

Com as risadas que se sucederam, Takuma consultou Aki.

O garoto sentando então exclamou, "Eu sou uma marica!"

Mas Takuma não estava satisfeito. "Você faz melhor que isso!"

Aki começou bater contra sua própria carteira e a gritar, "Eu sou uma marica! Eu sou uma marica! Eu sou uma MARICA!"

A sala riu ainda mais.

Takuma, sorridente, ficou espalhando vigorosamente o cabelo de Aki.

Aproveitando a distração da sala, Nagisa correu para remover o desenho no quadro usando um apagador.

Nessa hora, a professora apareceu. "O que é essa algazarra toda que ouvi do corredor? O que você está fazendo no quadro, Momoe-san?"

Nagisa ficou olhando para o apagador. "Bem... eu..."

Uma dos alunos falou. "Professora! Tinha uma coisa indecente no quadro!"

A mulher veio com um olhar inquisitivo para Nagisa.

"Não!" Ela protestou. "Não é verdade!"

"Então o que havia no quadro?" perguntou a professora.

Nagisa ficou em silêncio, ouvindo algumas risadinhas próximas.

A professora estendeu a mão. "Não brinque mais com isso."

Nagisa devolveu o apagador e se dirigiu para a sua carteira.

O sinal tocou e a professora anunciou. "Parem com as brincadeiras, estamos em aula agora."

Nagisa se sentou, olhando para Aki.

Ele estava novamente deitado sobre a sua carteira, escondendo a cabeça. Takuma tinha voltado para o seu lugar e estava conversando alegremente com alguns colegas, quando então ele olhou para a direção dela.

Nagisa evitou o contato. Ela pegou o material em sua mala, enquanto tentava aliviar a pressão da sua mandíbula.

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Voando e voando em um doce mundo, o desejável estava ao seu alcance. Bolachas? Uma melhor que a outra. Sobremesas? Uma infinidade de sabores. Bolos? De todos tamanhos, formas e cores. Só não podia confundir com os remédios, por mais que parecessem guloseimas, pois esses não eram para ela.

E nem precisava procurar! Fiéis ajudantes traziam todos os tipos de iguarias, algumas que ela nem imaginava que existiam. Uma pena que não traziam queijos, seria bom para contrabalancear toda aquela doçura.

Mas ficar parada e recebendo era chato. Voar tinha um significado especial, seguir o cheiro da comida até alcançar sua presa. O que ela iria encontrar?

Algo exótico. Uma comida que andava! Tão pequena, uma pena, coberta de chocolate branco, com um par de gotas de chocolate negro alinhadas. Seu topo tinha algodão doce azul, com formas pontiagudas. Uma decoração criativa.

A comida não apenas andava, ela reagia também. Ela caiu e um pequeno buraco surgiu próximo das gotas de chocolate. Dentro era vermelho e úmido, devia ser groselha, com pequenos suspiros posicionados um ao lado do outro. Era tão excitante, que sabor viria com toda aquela mistura?

Nagisa levantou da cama, sentindo o gosto de sorvete de pistache em sua boca. Ela não sabia quanto havia dormido, ainda era noite lá fora, mas ela ouvia sons através da parede. Havia uma fraca luminescência passando por baixo da porta.

Em silêncio, ela deixou o seu quarto e seguiu a luz até a sala de estar. Mami estava deitada no sofá com a TV ligada.

"Acordei você?" disse a loira.

Nagisa sentiu que não foi cautelosa o suficiente. "Não, eu tive um sonho."

"Um pesadelo?"

"Um sonho." Nagisa entrou na sala, ficando atrás do sofá. "Também teve um?"

"Não." Mami abaixou o volume do televisor. "Eu ainda não consegui cair no sono."

Curiosa, Nagisa se apoiou com a barriga no encosto do sofá. "Teve algum problema na escola?"

Mami franziu a testa. "Não, nada. Talvez... um pouco de ansiedade. É um ambiente novo."

"Hmmm..." Nagisa já estava equilibrando todo o peso do seu corpo sobre o sofá.

"Como você está indo?" perguntou a loira, "está conseguindo acompanhar as aulas?"

"Sim, graças a sua ajuda."

"Eu nem ajudei tanto assim." Mami fechou os olhos e sorriu. "Você é inteligente e aprende rápido. Acredite."

"Ah!"

"Bebe?!"

Nagisa havia caído, rolando sobre Mami até o chão. Ela se sentou, passando a mão em seu ombro e sorrindo. "Ai... Isso é mais divertido quando eu sou uma boneca."

"Hoje tivemos um acidente com duas vítimas fatais..."

"Hã?" O noticiário que passava na televisão chamou a atenção de Nagisa.

"Sabe..." Mami começou falar. "Antes, quando eu via isso, eu sempre achava que havia uma bruxa por trás do acontecimento. Agora, infelizmente, eu sei que não é verdade."

Apesar da voz triste, Nagisa notou um ar de nostalgia envolvendo Mami.

"Nessa hora eu estaria lá fora, caçando bruxas, protegendo a cidade." Ela ficou examinando o brilho da gema amarela em seu anel. "Agora eles não precisam mais de mim."

Nagisa se ajoelhou, deitando sua cabeça sobre o sofá. "Mas você ainda pode usar sua magia para ajudar pessoas, não? Isso não a deixaria feliz?"

Mami franziu o cenho novamente. "Mas eu estou feliz." Ela se sentou no sofá e passou mão no cabelo da menina. "E eu acho melhor nós não usarmos magia em demasia. Não sabemos o que pode acontecer."

"Uhum..." Os olhos de Nagisa lentamente fechavam com o carinho que recebia.

Contudo, Mami puxou uma das mechas brancas e o cheirou. "Está lavando esse cabelo?"

Nagisa levantou cabeça e abriu bem os olhos. "Sim!"

"E tem secado bem?"

Ela rapidamente assentiu.

"Acho que você está suando mais," Mami afirmou, "seria melhor você deixá-lo mais curto. No verão será pior."

Nagisa se enleou em seu longo cabelo. "Mas eu gosto deles assim."

"Ah não..." Mami escondeu o rosto com a mão, dizendo para si mesma, "outra Kyouko em minha casa..."

"Oi?"

"Nada!" A loira revelou um sorriso e ficou de pé. "Pensei em preparar um chá para ajudar a dormir. Quer também?"

Nagisa se sentou no sofá. "Pode ser..."

"Perfeito!" Ela seguiu em direção a cozinha. "Pode ficar assistindo TV, deixa que eu cuido disso."

Enquanto ouvia o som dos armários sendo abertos e da água enchendo a chaleira, Nagisa pegou o controle do televisor, mas não sentia vontade de usá-lo. Seu interesse ainda estava em Mami.

Falta de sono, falando do passado, mudanças súbitas de assunto... Ela aprendia rápido, conforme Mami havia dito, mas Nagisa não precisava disso para notar que algo havia acontecido. Talvez ela nunca saberia a verdade, talvez não devesse, mas ela era única que estava ali, naquele momento.

Quando a televisão desligou, o reflexo de sua tela revelava uma garota indo até a cozinha.


Próximo capítulo: Diálogos e negociações