Alguns anos haviam se passado desde a luta contra Hades e Sophia havia se isolado na Sibéria, na cabana onde, anos antes, ela, seus colegas e seu mestre haviam morado.
Sua rotina era metódica: acordava todos os dias às cinco da manhã, comia algo leve, se aquecia, exercitava os músculos, praticava arco e flecha durante algumas horas, jantava e ia dormir. Raramente ia ao vilarejo, e era apenas para abastecer a casa de suprimentos.
Quando os maus pensamentos invadiam-na, virava a noite treinando.
De companhia, tinha apenas os animais da mata próxima ao local. Especialmente, uma pequena raposa ártica que aparecia por lá todos os dias. Ela atendia pelo nome de Diana, em homenagem à deusa.
Certa tarde, quando voltava do vilarejo com Diana em seu encalço tentando roubar uma lingüiça, avistou o contorno de um homem esperando por ela em sua cabana. Na defensiva abriu a porta e deu de cara com Hyoga.
Segurou firme as compras e o encarou, cheia de mágoa.
-O que você quer aqui? –Perguntou, com os olhos chispando de ódio.
Diana rosnou quando ele fez menção de se aproximar. Hyoga hesitou e voltou a se sentar na poltrona que Sophia deixava desocupada, era onde Kamus costumava relaxar no fim dos dias e lhe contar alguma história sobre seus pais.
-A senhorita Saori precisa de você para...
-Não. –Cortou-lhe, sem ouvir o fim da frase e, transferindo todas as sacolas para um só braço, abriu a porta. –Pode ir agora.
Hyoga tomou coragem e foi até ela dessa vez.
-Sophia, você nem ouviu o que eu tenho para te dizer. É importante. –Disse, segurando seu braço carregado de compras.
-Não me interessa! Não lhe dei permissão para tocar em mim, traidor! Vá embora daqui, já disse! –Gritou, se afastando, irritada.
Ela colocou as coisas em cima da mesa da sala e cruzou os braços, contrariada. Ele bufou de irritação.
-Não tem haver comigo, caraca Sophia, é sua família! Eles precisam de você!
Sophia apelara para Saori, pedindo que os Cavaleiros de Bronze fossem julgados por alta traição ao matar Cavaleiros de Ouro que não tinham conhecimento do plano de Saga de Gêmeos. Saori alegara que fizeram o que fizeram em prol de sua vida, em prol do dever e que era egoísmo de sua parte querer condená-los por isso. Cavaleiros inocentes permitiram a passagem dos rapazes e não morreram. Kamus escolhera aquele fim. Sophia começou a gritar com ela e acusar-lhe de favoritismo, de não ter compromisso com a família e com aqueles que acreditavam em sua morte e não em tolas crianças que surgiram do nada. Saori, por sua vez, retrucara que ela não dava a mínima para Saga, Máscara, Shura e Afrodite, estava agindo de forma imprudente, prepotente e nepotista. Sophia, então fora falar com a mãe, que dera meia-razão à Saori. Desesperançada, se isolou na Sibéria e cortava qualquer tentativa de contato que o Santuário ou qualquer outra pessoa fizesse.
Naquele momento, ela jogou cabelos ruivos para trás, em um gesto de impaciência e deu uma risada sarcástica e cruel.
-E mandaram você, um traidor como todos os seus amiguinhos, para falar comigo? O que ela tem na cabeça? Ah é, lembrei! Nada! Vá embora! Não dou a mínima para os seus problemas nem para os dela! Saia da minha casa!
Hyoga parou de massagear as têmporas e contra-atacou.
-Essa casa é tão minha quanto sua! O mestre era meu também!
Profundamente irritada, Sophia empurrou-o com tanta força para longe da porta que ele caiu estatelado no chão, abriu-a com violência e saiu, jogando o capuz sobre a cabeça e pisando fundo, congelando a neve ao seu redor com Diana em seus calcanhares.
Hyoga se levantou rapidamente e correu até o portal.
-Onde você pensa que vai?! –Ele gritou, da porta da casa.
-Para bem longe de você, certamente! –Ela respondeu, sem se virar.
Hyoga inspirou fundo.
-Estão todos mortos, Sophia! –A voz ressoou em seus ouvidos, cruel, cortante.
Ela estacou e, com os olhos tão frios quanto as nuvens naquele céu, encarou-o. O desespero era evidente no rosto. Os lábios vermelhos pelo frio rezavam uma prece muda e os braços caíram ao longo do corpo. Após um tempo de silêncio, ela ousou perguntar.
-Todos...Todos quem, Hyoga? –Era a primeira vez que ela pronunciava seu nome desde a morte de Kamus.
Hyoga balançou a cabeça em desalento. Sophia rumava a passos mortos até ele.
-Todos quem, Hyoga?! –Perguntou, com a voz esganiçada pelo pânico. –Não, não o Milo... Ele me prometeu que viveria para me ver vencer você e conseguir a armadura de Aquário... Ele prometeu! Nãão! Nãão! –Sophia caiu na neve, se sacudindo pelos soluços.
Hyoga se aproximou, cauteloso.
-Todos os Cavaleiros de Ouro estão mortos, Sophia. –Murmurou, se ajoelhando também e pondo a mão em seu ombro.
Com um grito de ódio, ela começou a socá-lo.
-E VOCÊ NÃO FEZ NADA DE NOVO, NÃO É?! NÃO É, SEU INÚTIL?! SEU MERD! VOCÊ NÃO MERECE VIVER! NÃO MERECE SER UM CAVALEIRO! EU TE ODEIO! EU TE ODEIOOOOOOOO!
Ele segurou seus punhos e ela passou a desferir joelhadas loucamente. Hyoga jogou-a de costas na neve, caindo por cima de seu corpo, para imobilizá-la.
-Ser cavaleiro é correr riscos em nome de um bem maior! Kamus sabia disso! Milo sabia disso! Todos sabemos disso! Devemos proteger Athena! É por isso que são escolhidas crianças sem família! Para que não se apeguem a nada! Todos entendem isso! Você é a única que parece não entender! Tem idéia do estado que Saori ficou quando você gritou com ela daquele jeito?! Quando você acusou-a daquele jeito?! E sua mãe?! Que esperou trancada em uma cela durante anos, se fingindo de louca para sobreviver, só para ver as filhas de novo?! Mas você não pensou nisso, não é?! Não pensou em ninguém! Só em você! Como sempre! Você só pensa em você, Sophia! Eu tenho nojo de você! Você não liga para os Cavaleiros mortos, só para você! Fica me acusando, jogando na minha cara que eu matei nosso mestre, nosso mestre, Sophia, porque ele era meu mestre também, caso tenha esquecido disso! –Hyoga se levantou, deixando-a caída na neve e, antes de partir, falou com nojo: Saori tinha razão a seu respeito. Você é só uma garotinha mimada e egoísta.
Ele ia se afastando, quando ouviu a vozinha fraca dela murmurar, choramingando:
-O que...o que eu posso fazer para ajudar...?
Hyoga voltou e estendeu a mão para que ela se levantasse.
-Pode voltar comigo para o Santuário. Eu não sei o que Saori pretende, sou apenas um mensageiro, neste caso.
Já de pé, Sophia desabou em lágrimas e o abraçou com força.
-Como isso foi acontecer?! Como?! –Ela gritava, soluçando.
Delicadamente, Hyoga guiou-a até a cabana e deitou-lhe na cama onde antes Kamus repousava. Reparou que ela pouco mudara o local, apenas acrescentando algumas fotografias. No cesto de lixo, muitos papéis amassados e, em cima da mesa, folhas em branco, cotocos de lápis e de borrachas.
Preso com fita crepe, estava um desenho infantil, o papel já amarelava pelo tempo e as cores, que um dia devem ter sido vivas, desbotavam. Hyoga se aproximou para olhar melhor. Um homem ruivo, uma garotinha de cabelos de intensidade semelhante, um garoto loiro e um terceiro [1 estavam retratados. Em letra infantil se liam sobre as pessoas ali, respectivamente: Tio Kamyu, Sophye, Hyogye e Isaackie; e, no pé da folha, "Te amo Tio Kamyu, nunca me deixe."
Um sorriso triste trespassou o rosto do jovem rapaz e ele acariciou a folha, sentindo falta daquele tempo onde sua maior preocupação era se tornar o Cavaleiro de Cisne para alcançar o túmulo aquático de sua mãe.
Desprevenido, Hyoga teve um sobressalto ao ouvir um leve suspiro vindo da cama onde Sophia repousava. Depositando o desenho sobre a escrivaninha, ele se aproximou do corpo alvo pela ausência de sol.
Os olhos azuis esquadrinhavam, sob a fraca luz da lua, o corpo que assumira formas que, da última vez que se viram, ele não tivera oportunidade de reparar. Os cabelos acaju se espalhavam sobre o travesseiro e reluziam como fios de magma. O rosto, em geral, tão severo e fechado, estava relaxado, sereno, quase angelical. Hyoga podia contar suas sardas, se quisesse.
Sorriu, contrafeito, ao reparar que o sono da raposa ártica que repousava sobre seu ventre era leve e ela o observava, com a luz lunar brilhando em seus olhos claros. Sophia se mexeu, virando de lado, fazendo Diana cair de seu colo para o colchão macio e ficando de frente para Hyoga. Sua respiração suave resvalava no rosto do rapaz.
Hyoga se afastou, com um semblante indecifrável. Não dormiu direito a noite toda, tendo sonos rápidos, interrompidos com qualquer ruído.
Sophia acordou antes do sol, encontrando Hyoga sentado em uma cadeira de frente para a cama, ao lado da porta, vigilante. Ela se aproximou, marota, e balançou a mão em frente ao seu rosto, com uma risadinha. De supetão, os olhos azuis se abriram, gélidos, uma das fortes mãos agarrou seu pulso branco e a outra foi na garganta delicada e pálida. Cinza no azul, feminino no masculino, delicado no bruto. Hyoga piscou algumas vezes e, ao se dar conta que a apertava cada vez mais, sufocando-a, soltou-lhe o pescoço. Sophia tossiu e massageou a garganta dolorida. Um clima de tensão pairava no ar, ela olhava-o com medo.
-Nunca mais faça isso. –Ele ralhou.
-Eu?! Você quase me mata e eu estou errada?! –Porém, sacudiu a cabeleira ruiva e, quando olhou-o novamente, já estava com o rosto desanuviado. –Mas não vamos brigar novamente, não é?
Levantou-se e foi arrumar-se e seus alforjes de viagem.
Não falaram nada o trajeto inteiro, ambos tinham medo.
Ao chegar ao Santuário, Penélope veio recebê-la de luto. Ver todo aquele clima de tristeza, ver o Santuário vazio e silencioso doía fundo na alma. Abraçaram-se com força, eram mãe e filha separadas por muito tempo.
Na casa de Aquário, Sophia vestiu o traje cerimonial verde, as jóias cerimoniais, empunhou o arco e a aljava de flechas e colocou a tradicional coroa de flores sobre seus cabelos rubros.
A passos largos, seus pés descalços rumavam para a 13ª casa, Penélope acompanhou-lhe até o Salão Principal onde, às portas deste, abraçou-lhe forte, se despedindo.
Entrou, imponente.
Olhar para as 13 cadeiras sem seus ocupantes de direito aumentava a dor ainda mais.
Na cabeceira estava Saori, com sua pose altiva de legítima governante local e seus trajes de Athena. À sua esquerda estava um belíssimo homem [1 que Sophia nunca havia visto antes, porém reconhecera pela armadura. Era Julian Solo, a reencarnação de Poseidon. E à sua direita, estava sentada uma mulher [1 alva e com ar superior, Hilda, governante de Asgaard.
Sophia sentou-se na outra extremidade da mesa, olhando diretamente nos olhos negros da irmã. Saori pigarreou e deu início à reunião.
-Eu chamei vocês aqui porque o Santuário de Athena está com problemas. Com a morte de todos os 12 Cavaleiros de Ouro e o Mestre, este está no delicado estado de quase integral desproteção. É necessário lembrar que poucos foram os Cavaleiros que deixaram herdeiros para suas armaduras, levando, assim, seus segredos para o túmulo e tornando impossível eleger novos Cavaleiros. Por isso, eu os trouxe aqui para pedir que juntemos nossos cosmos para ressuscitar meus valorosos Cavaleiros.
-E está tão desesperada que juntou três de seus valorosos inimigos para ajudá-la? E diga, irmã, pretende ressuscitar seus valorosos traidores também? Não considera isso um ato egoísta, nepotista? Afinal, eles morreram para honrar o dever, seria cruel com eles trazê-los de volta a vida? Não seria melhor pedir, apenas, que instruíssem pupilos escolhidos sob a forma de espectros até estes estarem prontos para receber as sapuris? –Perguntou Sophia, com um sorriso sarcasticamente angelical no rosto e apoiando o queixo em seus dedos delicadamente entrelaçados.
Ninguém falou nada, os outros três se mexeram em suas cadeiras, incomodados com a situação.
-Bem, já que ninguém se manifesta, é porque ninguém tem nada contra o que eu disse, certo? Eu tenho uma proposta para você, irmãzinha.
Saori fechou os olhos e massageou as têmporas.
-Diga, estou ouvindo.
Os olhos cinzentos da ruiva se estreitaram felinamente.
-Eu proponho de nós lhe ajudarmos a resolver seu problema, porém este mesmo ritual servirá para ressuscitar nossos cavaleiros mortos também, de acordo?
Ao ouvir a proposta Hilda e Julian se ajeitaram em suas cadeiras, positivamente interessados e Saori fez uma cara de ultraje e espanto.
-O que você ganha com isso, Sophia?! Não tem cavaleiros mortos para ressuscitar! Não entendo...
Ainda sorrindo de forma irritante, Sophia retrucou:
-Não precisa entender, irmãzinha. É só concordar.
Com um gesto de mão, Saori aceitou.
-Considerando que eu e o Titio aqui –falou, apontando para Julian [2 –somos deuses elementais, o ritual terá de ser feito na lua cheia [3 e perto do mar. –Prosseguiu.
Com os olhos negros pregados na irmã e faiscando de desejo assassino, Saori concordou mais uma vez.
-Então, até quarta-feira que vem, dia da justiça –comentou, com deboche –à meia-noite, porque é o horário em que o mundo dos vivos e o mundo dos mortos ficam mais próximos, na Pedra do Homem Morto [4 pessoal. –Concluiu Sophia, se levantando.
Saori, desgovernada, se ergueu também e correu atrás da irmã. Alcançou-a ainda dentro da 13ª casa, no corredor que ligava à porta principal. Puxou-lhe o braço, forçando-a a parar e olhar em seus olhos.
-Qual o seu problema, Sophia?! Me desautorizar desse jeito no meio de uma reunião?! Conduzir uma reunião que eu convoquei?! Fazer exigências que não te beneficiam de modo algum?! Marcar a hora do ritual?! Esse Santuário é MEU não seu! –Gritava a moça de cabelos lilases.
Sophia, delicadamente se desvencilhou de Saori.
-O meu problema? Você é um problema ambulante, Saori. –E começou a contar nos dedos o que ia dizendo. –Falar mal de mim para os seus cavaleiros, creio que isso é me desautorizar, não é? Conduzir a minha vida, quando eu sou tão deusa quanto você? Fazer esse tipo de exigências se chama conquistar aliados, que é uma coisa que você é perita em não fazer. Sem o mar, o Tiozinho Poseidon lá não ia ter o poder total, nem eu em relação à Lua e a gente podia acabar morrendo no processo, somos deuses elementais, precisamos dos nossos elementos, quarta-feira é o primeiro dia da Lua Cheia, quanto antes melhor, não? Você sabe que meia-noite é a única hora possível para isso, pois, além de ser, efetivamente, a hora em que os mundos se aproximam, é uma hora sem curiosos, sem riscos. Onde poderemos sair enfraquecidos depois. Se você quer que eu respeite o Santuário como seu, aprenda a governar, pelo menos, uma reunião.
E saiu, deixando a irmã mais velha espumando de raiva.
//o//
Nota da autora:
Eu detesto os cabelos originais do Masami Kurumada. Fala sério! Quem tem o cabelo azul? Então, quero que vocês me ajudem a escolher as cores para os cabelos dos personagens \o/. (Só deixei o cabelo da Kido como lilás mesmo porque não vou com a cara dela) Aqui neste capítulo teremos o cabelo do Isaac (originalmente verde), do Julian (originalmente azul) e da Hilda (originalmente branco). Pensei em loiro arruivado para o Kraken, castanho bem claro para o Tio Peixinho e loiro pálido para a Moça do Anel. De acordo?
Sophia faz referência ao parentesco entre Ártemis e Poseidon (ele era irmão do pai dela, para os desinformados). Sim, ela permanecerá chamando-o de Tio (essa garota gosta de adotar tios por aí, tsc u.u)
Considerando a versão que a Ártemis é a deusa da Lua, da caça, da fertilidade feminina, dos partos, protetora dos animais selvagens e das crianças (deusa contraditória essa, protetora dos animais, porém, rege a caça u.ú Nii só gosta de gente maluca). Pobre Hécate (deusa da lua nova e da magia), foi ignorada por essa autora cruel.
Hmmm... Eu mesma inventei esse lugar. Considerem que há uma praia, mas mais adiante, há uma subida que dá em um despenhadeiro rochoso no mar. A pedra mais avançada na direção do mar é a mencionada no texto. Dei esse nome porque despenhadeiros são locais pelos quais suicidas em potencial (e os próprios) tem atração.
Hey \o
Mandem reviews, opinem, me xinguem, digam se gostam (ou não) da idéia de Sophia e Hyoga formarem um par \o
Nem eu sei direito se ela vai ter par, afinal, Ártemis é imune ao amor. (mas ela não é Ártemis, é a reencarnação u.u A Athena não é chata e a Saori é, reencarnações não precisam ter a ver com o original \o)
