Capítulo 7 – Poupe as crianças, Cornelius

Uns minutos antes, Harry estava na sua sala de aula, com os poucos alunos que compartilhavam sua classe. Ele prestava muita atenção porque matemática não era seu forte, e ele tinha que aprender a tabuada de somar todinha. Ainda bem que ele tinha seu amigo Neville para ajudá-lo.

Sua professora, a Sra. Taylor, pareceu intrigada quando ouviu a batida à porta. As crianças viram os dois homens estranhos entrarem e perguntarem algo à professora. Um dos alunos disse:

– Nossa, são dois Aurores!

– Aurores? – repetiu Neville, de olhos arregalados. – Do Ministério?

– Isso mesmo.

– O que será que eles querem?

Fosse lá o que fosse, a Sra. Taylor não estava disposta a entregar. Ela protestou, e todos puderam ouvir:

– Não posso permitir! Vou chamar os pais aqui agora mesmo!

– Senhora, é melhor não interferir em assuntos oficiais! – disse um deles, muito alto e forte. Ele se virou para a turma e chamou: – Harry Potter!

– Não! – fez a professora, tentando bloquear o caminho dele. – Vou chamar o diretor!

De repente, o outro puxou uma varinha e petrificou a professora. A cena fez as crianças começarem a gritar, e o outro tentou acalmá-los:

– Está tudo bem! Viemos aqui só buscar Harry Potter!

Todos olharam para ele, e Harry sentiu algo no ar. Aqueles homens não eram bons.

– Não! Eu não vou!

– Harry! – gritou Neville, tremendo.

Os dois homens o cercaram, e Harry tentou escapar. As crianças gritavam, apavoradas, e outros professores estavam chegando. Havia o caos instalado na sala de aula, e os Aurores truculentos conseguiram encurralar Harry. Um deles o agarrou:

– Peguei você!

– Não!! – O menino se debatia. – Me solta! Vou chamar meu papai e ele vai te bater!

– Tá legal, garoto, agora quieto! Vamos pegar seu pai também depois.

Aquilo assustou Harry e ele gritou:

– Papai Remus!!

De algum modo, Harry sentiu que seu papai ouviu seu grito, e agora ele tinha que fazer como tinha sido combinado. Então ele usou toda a sua força e mordeu o braço do Auror, que o largou:

– AAI!

Assim que sentiu estar livre, Harry se lembrou que tinha que ficar o mais longe possível deles. Como era pequeno, ele rapidamente fugiu para bem longe dos dois homens maus e foi para o cantinho da sala.

– Lá está ele!

Então Harry pegou o colar secreto que usava sob a roupa, e fez que nem Papai Severus tinha instruído: agarrou o colar com força.

PAPAI REMUS!!

– Agora você não escapa, menino!

Harry estava assustado, porque o homem estava chegando perto, e o colar não estava fazendo a mágica que ele tinha que fazer. Ele agarrou com muita força, pensou no seu Papai Remus e então sentiu um puxão debaixo do umbigo. O mundo girou, e Harry ficou tonto.

Sem saber direito o que tinha acontecido, Harry olhou em volta e viu que estava no seu quarto. É, no seu quarto, em Hogwarts! Ele estava salvo!

Mas ele tinha prometido ao Papai Severus que ia fazer o que tinha sido combinado. Então ele procurou se esconder. Ele deveria ficar escondido até seu pai dizer que era seguro sair do esconderijo. Então ele obedeceu, encolhidinho, apertando o colar mágico que o tinha salvado dos homens maus. Ficou ali esperando, tremendo, desejando que o homem mau fosse embora e que seus papais viessem logo buscá-lo.

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– Então vocês não o pegaram?

Os dois Aurores tiveram a decência de parecerem envergonhados. O Ministro estava intrigado e espantado:

– Mas onde ele está? Para onde ele foi?

– Para um lugar seguro, aqui mesmo em Hogwarts – garantiu Severus. – Harry está seguro agora.

– Bom, eu preciso verificar isso por mim mesmo! – garantiu Fudge. – Caso contrário, vou pensar que estão mantendo o garoto em cárcere privado!

Remus rosnou, Severus mais uma vez pulou, mas Dumbledore interferiu:

– Severus, por que não tranqüilizamos o Ministro, mostrando onde Harry está? Assim todos ficaremos tranqüilos, e ninguém mais vai ameaçar ninguém. Que tal?

Severus não queria mais ver aquelas pessoas, mas ele estava preocupado com Harry sozinho. Então concordou.

– Muito bem, Diretor. Mas eu protesto. Harry não deveria ser exposto à presença de quem tentou seqüestrá-lo.

Remus também não se opôs, mesmo que estivesse claro que ele estava tão irritado quanto Severus. O grupo todo desceu às masmorras, e Severus desfez as proteções dos aposentos para todos entrarem. Lá, assim que entrou, ele chamou:

– Harry? Harry, onde você está?

Remus ajudou:

– Filho, pode sair agora. Está seguro aqui.

De repente, do quarto ao lado, o garoto de cabelos pretos saiu voando a toda velocidade e se agarrou à cintura do lobisomem:

– Papai Remus! Papai Remus!

Remus o tomou entre os braços e abraçou-o com força, sentindo o coraçãozinho disparado:

– Está tudo bem, Harry. Você está aqui agora.

– Homens m-maus, Papai Remus! – Ele soluçava. – Dois homens maus! Queriam me l-levar! Iam me roub-bar!

– Oh, meu garoto...

– Mas eu corri, e fiz que nem o P-Papai Sev-Severus me disse! Fiz que nem o combinado!

– Fez muito bem, filho. Você é um garoto muito corajoso, Harry – Remus o beijou. – Tenho muito orgulho de você.

– Tive medo, Papai! – Harry chorava muito, assustado. – Muito medo!

– Está tudo bem agora. Olhe, Papai Severus também está aqui.

Harry finalmente olhou em volta. Só que, com o movimento, ele viu os demais – incluindo os dois Aurores. Ele gritou:

– Homens maus! Maus! Não deixa eles me levarem, Papai!

– Ninguém vai levar você, Harry, está tudo bem. Eles não vão mais fazer mal.

Mas Harry estava muito assustado, e encolheu-se todo no colo de Remus, chorando. Severus rosnou:

– Acho que vocês devem sair agora.

– Sim, sim... – Cornelius Fudge ao menos parecia envergonhado. – Er... Um bom dia a todos.

Dumbledore disse:

– Vou acompanhar Cornelius, Severus. Mas vou mandar um amigo ajudá-los com Harry. Hoje vocês estarão dispensados das aulas.

Eles saíram, e Remus e Severus se abraçaram a Harry, que ainda chorava. Os três foram para o quarto do casal, tentar acalmar o menino. O Mestre de Poções pegou uma poção calmante e fez Harry beber o frasco todo. O menino obedeceu e aninhou-se todo no colo do pai, choramingando. Então Severus chamou, suavemente:

– Olhe só, Harry. Olhe quem veio visitar você.

Harry virou para o lado e viu o grande pássaro cor de fogo pousado na beira da cama. Ele arregalou os olhos verdes, espantado.

– Lembra-se de Fawkes? Ele é o amigo do Prof. Dumbledore.

A fênix abriu o bico e pôs-se a emitir uma melodia suave, uma que pareceu lavar a alma dos três. Eles ficaram na cama, embalados pela canção reparadora da fênix.

Fawkes se aproximou dos três, e Harry perguntou ao Papai Severus:

– Será que ele vai me deixar passar a mão nele?

– Acho que foi para isso que ele veio para cá, Harry. Ele gosta de você. Pode ir. Mas faça carinho com cuidado.

Harry se aproximou do pássaro, que baixou a cabeça para facilitar o acesso do garoto. Harry o acariciou, sorrindo. Fawkes soltou um trinado de prazer.

– Ele gostou! – Harry estava maravilhado e sorriu.

– Sim, ele gosta de você – garantiu Severus. – E nós também.

Num impulso, Harry se abraçou a ele:

– Eu também gosto muito de você, Papai Severus! Desculpe eu ter chorado feito um bebezinho.

Severus o ajeitou no seu colo, acariciando-lhe o cabelo:

– Não tem problema nenhum. Você foi um garoto muito corajoso, Harry. Sabia disso? Aqueles homens ficaram perdidos quando você sumiu bem diante do nariz deles.

– Eles eram maus!

– Sabe quem eram aqueles homens? Aurores do Ministério.

– Neville me disse, mas eu não sei o que isso quer dizer.

– Isso quer dizer que eles são treinados para derrotar os bruxos maus. Mas eles não eram páreo para você. Você os enganou direitinho, Harry. Sabe o que eles disseram?

– O que?

– Que você era rápido demais! Eles acharam que você tinha Aparatado! Sozinho!

– Mas eu não sei Paparatar! – Era como ele chamava Aparatar.

– Eles acharam que você sabia, porque você foi rápido demais. – Severus sorriu. – Estamos muito orgulhosos de você. É nosso filho, e nós dois temos o garoto mais inteligente e corajoso do mundo. Você conseguiu se defender sozinho.

– É. Que nem você me disse.

– E você foi muito corajoso, filho. Venceu aqueles dois e deixou os dois com cara de bobos!

Harry sorriu e soltou uma risada alta. O som trouxe um grande alívio a Remus. Fawkes soltou um gorjeio suave, e ganhou uma carícia do lobisomem:

– Obrigado, Fawkes.

A fênix voltou a cantar, e os três se abraçaram, ouvindo o canto harmonioso que enchia seus corações de esperança e tranqüilidade. Suavemente, Fawkes parou de cantar, mas os três continuaram na cama, abraçados, num ninho de amor. Harry percebeu que estava quase dormindo, e se indignou:

– Eu não vou tirar sonequinha! Não sou bebezinho.

– Mas quem vai tirar sonequinha aqui? – Remus fez cara de desentendido. – Nós só estamos descansando um pouco. Sabe, como os adultos e as crianças mais velhas fazem.

Severus reforçou:

– Afinal, não tem nenhuma criança pequena aqui.

Harry concordou com seu papai, e terminou se abraçando aos dois, para tirar um "descanso".

Capítulo 8 – Um verdadeiro lobinho

A visita de Cornelius Fudge e seus Aurores rendeu a semana inteira. Aquele dia inteiro, Remus e Severus ficaram com Harry, garantindo que ele tinha feito uma boa coisa e que os "homens maus" não iriam voltar. Mas, no dia seguinte, Severus queria entrar com uma queixa-crime contra o Ministério da Magia por abuso de autoridade. Albus Dumbledore chamou os dois para uma conversa, via lareira, na qual o pior foi evitado graças a uma uma promessa solene do Ministro de que jamais voltaria a importunar a família de Severus de novo.

Ainda assim, a escola primária de Hogsmeade registrou uma queixa formal por ter sido invadida. O caso foi parar no Profeta Diário, e houve uma grande repercussão naquela semana. Remus e Severus levaram Harry para escola juntos, e instruíram o menino a responder a todas as perguntas de seus colegas com naturalidade, mas não as perguntas de estranhos. Eles podiam ser repórteres, e Harry aprendeu que repórteres podiam ser muito maus.

Os colegas o olharam com novos olhos. Neville Longbottom, que era um dos melhores amigos de Harry, contou que a escola tinha fechado aquele dia, e que todo mundo tinha ido embora também, então ele não perdera aulas. Mas todo mundo queria saber o que tinha acontecido, e Harry teve que repetir a história muitas vezes.

Madame Pomfrey o examinou e declarou-o perfeitamente saudável, inclusive alegre. Ele eventualmente tinha pesadelos, mas isso ele sempre tivera, mesmo antes do incidente. Harry comia o chocolate regularmente, e aos poucos o incidente foi esquecido. Seus pais o estimulavam a falar sobre o assunto se ele quisesse, sempre destacando que ele tinha sido corajoso contra os homens do Ministério.

O menino estava desenhando no chão da sala de estar. Remus incentivou:

– Se quiser desenhar sobre o que aconteceu, pode desenhar.

– Não, eu estou fazendo um retrato da gente.

– Você podia fazer um desenho do local onde se escondeu.

– Foi dentro do meu armário, Papai!

Remus ficou surpreso. Depois de viver praticamente dentro de um armário na casa dos Dursleys, ele jamais imaginaria que o garoto optasse por justamente ir para um armário.

– E você teve medo lá dentro?

– Não. Porque eu sentia o cheiro do meu papai Severus, e o cheiro de você. Fiquei com o colar secreto na mão, e aí eu sabia que era só esperar que vocês iam vir me pegar.

– Isso mesmo. Você é muito esperto, Harry.

Ele ficou de joelhos e mostrou a folha de papel colorida:

– Papai, pode pendurar esse desenho?

– Já está pronto? – perguntou Remus. – Onde devemos pendurar?

– Pode ser na porta do meu armário. Assim toda vez que você entrar no meu quarto, você vai ver. O Papai Severus também!

– Então vamos ver isso direito. – Remus pôs Harry no colo e o desenho junto, apontando. – Hum, esse aqui sou eu?

– É! E aqui é o Neville, e a Sra. Taylor! O Papai Severus é esse aqui. – Apontou para uma figura toda pintada de preto.

– Mas, Harry, aqui todos estão rindo, menos o Papai Severus. Por que ele está triste?

– Ele não está triste, Papai Remus! – Harry riu. – É que o Papai Severus não ri na boca. Ele ri no coração. Aqui, ó.

Harry apontou para um borrão vermelho no peito do Severus do desenho, no local onde deveria estar o coração. Aquilo tocou tanto o lobisomem que ele beijou a testa do filho:

– Você tem toda razão, Harry. Nem todo mundo percebe isso. Sabe que é por isso que eu amo você mais do que tudo no mundo? Então você vai pagar o preço! Vou fazer cosquinha até você gritar.

Ele apertou Harry de maneira divertida, e o garoto gargalhou muito alto. Remus o abraçou, os sons de Harry feliz parecendo música a seus ouvidos.

– Sabe que a gente não deveria estar fazendo tanto barulho, né? Papai Severus está trabalhando numa poção muito delicada.

– Ele falou para a gente não atrapalhar.

– Então prometa não incomodá-lo amanhã. Você sabe que eu não estarei aqui.

– Você vai pro hospital?

– Sim. Quero que você seja um bom menino e não aborreça seu pai, está bem?

– Tá. Mas você volta logo, né, Papai?

– Volto assim que puder, meu filho. Eu sempre sinto muitas saudades quando fico fora. Depois, no fim de semana, prometo que vamos até o campo de Quidditch e vamos andar numa vassoura.

– Uma vassoura voadora? – Os olhos de Harry brilharam. – Voadora de verdade?

– De verdade! – Remus o apertou de novo e Harry soltou um grito, feliz. – Agora vamos dar boa-noite ao Papai Severus e você vai para a cama.

– Conta uma historinha?

– Claro que conto! Olha, tem uma história nova: "A menina e o porquinho".

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Remus jogou a cabeça para trás, prendendo um urro, e esvaziou-se dentro de Severus, sentindo seu corpo retesado quase suspenso no ar por alguns intermináveis segundos. Embaixo dele, o Mestre de Poções de Hogwarts o seguiu no orgasmo segundos mais tarde, despejando sua essência entre os dois. O lobisomem desabou sobre o marido, cujo pescoço encheu de beijos.

– Vou sentir tanta falta de vocês – disse Remus, ofegante, abraçando-se a Severus, os dois nus. – Eu fico tão possessivo na lua cheia.

Severus não respondeu imediatamente, recuperando o fôlego.

– Estarei trabalhando o tempo todo. Dâmocles tem me ajudado bastante, a pedido de Slughorn. Ele não queria fazer isso por causa do meu... passado. Mas parece que o antigo Mestre de Poções usou sua influência a pedido de Dumbledore, e agora ele está ajudando. É uma poção experimental, mas vejo que tem grandes chances de sucesso, à base de acônito.

– Isso não é venenoso? – perguntou Remus, enroscando-se no corpo do marido.

– A diferença entre remédio e veneno está na dose, diz um velho ditado. Dificilmente, porém, isso pode se constituir em cura. É apenas um paliativo. Mas acredito que possa deixar você mais confortável, se der certo. Isso pode levar anos até acontecer.

– Agradeço seu esforço.

– Até porque o reconhecimento eu nunca terei, com certeza. Quanto você quer apostar que, se a poção der certo, ela será atribuída a Dâmocles?

– Eu sei que isso não o desanimará. Esse Dâmocles não tem um sobrinho da idade do Harry?

– Sim, acho que o nome do menino é Marcus Belby.

– Quem sabe os dois se dariam bem?

– Dâmocles e eu?

– Não, Marcus e o nosso Lobinho!

– Esqueça. Eu odeio crianças, você sabe disso.

– Um dia vamos ter que receber os amiguinhos de Harry.

– Pretendo procrastinar esse dia o quanto puder.

– Mas não se esqueça de que prometemos levar nosso Lobinho para passear de vassoura no final de semana, quando a lua cheia estiver menos ativa.

– Está bem. Explicou a ele que eu estarei trabalhando e não vou poder dar atenção?

– Falei. Ele é um garotinho muito inteligente.

– Puxou à mãe, obviamente – disse Severus.

– Severus? – Remus falou, emocionado. – Alguma vez você se arrependeu...?

– De ter adotado Harry? Ou de ter me casado com você?

– Os dois.

– Claro que não. Agora que Fudge se acalmou, as coisas parecem boas.

– Até a lua aparecer – lembrou Remus, amargo.

– Vamos dar um jeito nisso – prometeu Severus, abraçando-o. – Logo você poderá ter mais conforto durante a lua.

– Obrigado por isso.

Os dois se abraçaram ainda mais perto, e a lua que crescia no céu era presságio de tempos muito emocionais.

Continua...