Capítulo IV - Superação
Gabriele saiu do seu quarto e foi para o banheiro, agradecendo pelas gêmeas ainda estarem dormindo. Tomou um banho rápido, e em pouco tempo já estava arrumada. Se dirigiu a sala, onde encontrou Isa sentada no sofá.
-Bom dia, Isa. Cadê a Amanda?
Isa nem precisou responder, pois Amanda as chamou da cozinha. Ambas foram até lá e tomaram o café da manhã. Pouco depois, alguém bateu na porta, que Gabriele logo foi atender. Ficou surpresa ao ver Kid, Lizz e Patty.
-Bom dia. - disse a keyblader – Algum problema?
-Não, nada. - respondeu Lizz – Simplesmente Kid fez questão de te acompanhar no caminho pra Shibusen.
Patty estava rindo ao final da frase, e era possível ver que Kid estava levemente corado.
-E por que não? - falou Gabriele, fazendo ele sorrir
Ela entrou para chamar suas parceiras, enquanto Patty cantarolava 'Kid tá apaixonado!' as gargalhadas, deixando ele ainda mais vermelho. Ela parou quando a outra equipe chegou a porta. O grupo seguiu seu caminho, os shokunins mais atrás, conversando descontraidamente.
O caminho não era muito longo, em pouco tempo chegaram a escola e se separaram, Kid alegando que tinha que falar com o pai. As três continuaram seguindo tranquilamente, até que Black Star e Tsubaki sairam de um corredor lateral.
Todos pararam, e o rapaz deu um olhar ressentido, com uma ponta de raiva. Tsubaki se perguntava o que fazer, ou o que ele iria fazer. Ele ainda ficou mais um segundo parado, depois recomeçou a andar na direção da classe.
-Hey, Black Star... - chamou Gabriele
Ele parou quando ouviu seu nome. Ela abaixou a cabeça e respirou fundo antes de continuar.
-Desculpa por ontem.
Os quatro se viraram para ela.
-Eu não devia ter dito aquilo... Sei que te machucou, então, desculpa... - ela deu um sorriso fraco ao continuar – Aquilo foi mais pra mim do que pra você.
Black Star a encarava surpreso. Ele a desafiara, ela ganhara, e agora ela lhe pedia desculpas, e admitindo um sentimento que até na sua própria mente ele negava ter. Por mais que não quisesse, tinha que concordar que ela era a mais forte. Tanto na luta quanto na emoção.
-Gabriele. - ele falou, no fim de alguns segundos, fazendo todos olharem para ele – Você não me deve desculpas. Eu devo.
A shokunin levantou o rosto, olhando diretamente nos olhos dele. Estavam distantes, demonstrando uma reflexão profunda. Logo depois ele se virou, continuando seu caminho.
-Só não se esqueça. Eu sou quem vai superar Deus. - concluiu ele, com as mãos por trás da cabeça
Tsubaki sorriu, e lançou um olhar agradecido para Gabriele. Deu algumas passadas rápidas para conseguir ficar ao lado de seu parceiro. A equipe ainda ficou um tempo parada, até que elas se lembraram da aula.
A aula seguiu normalmente, e o tempo foi fechando. Quando sairam da sala, uma chuva fraca caia. Gabriele conseguiu se afastar das gêmeas e caminhar livremente pela Shibusen. Saiu do prédio e continuou andando, até chegar num bonito pátio, todo gramado e cheio de árvores. Sentou apoiada em uma que possuia galhos espaçados e sem muitas folhas, sendo possível sentir a chuva caindo em sua pele. Fechou os olhos, a respiração calma e profunda.
Permaneceu assim um longo tempo, deixando os pensamentos correrem livres, e tentando fazer com que as gotas de chuva não atingissem somente o seu corpo, mas também seu coração e, de algum jeito, lavassem-o.
-Posso me sentar ao seu lado?
Gabriele abriu os olhos, encontrando Maka a sua frente, esperando uma resposta.
-Claro, Maka.
A loira se sentou, apoiando os braços nos joelhos.
-Sabia que já faz uma hora que você sumiu? - perguntou Maka
Gabriele fez uma expressão de total surpresa. Achava que estava ali no máximo a vinte minutos.
-Vou entender como um não. - Maka sorriu ao responder por ela – Então, pode dizer o porquê disso? As gêmeas estão desesperadas atrás de você.
-Eu não queria preocupá-las. - defendeu-se Gabriele – Eu... só queria pensar um pouco...
-Bom, acho que se nem com elas você queria por perto, acho que eu nem devia estar aqui. - comentou
-Que isso, Maka... Você já é minha amiga. - Gabriele suspirou antes de continuar – Acho que aquele sonho realmente estava certo...
-Que sonho? - indagou Maka
Gabriele contou sobre ambos os sonhos, tentando não perder nenhum detalhe. A companheira permaneceu calada.
-Era nisso que eu estava pensando. - concluiu
-No que ela queria dizer quando falou das emoções que precisavam ser superadas? - perguntou Maka
-Eu quero saber é como fazer isso. - rebateu a primeira
-E o que você sente?
Gabriele baixou o olhar. Maka ainda teve que esperar alguns segundos até que ela respirasse fundo e começasse.
-Sabe, Maka... Eu sempre tive muita raiva dos meus pais. Por mais que me dissessem que eles deviam ter uma boa razão pra me deixarem naquele orfanato, eu nunca consegui aceitar isso muito bem...
-Mas por que?
-Pelo simples fato de eu ter medo de que eu fosse tão inútil a ponto de nem meus pais me quererem... - confessou, a voz embargada, e a visão embaçando com as lágrimas – Todas as noites eu pensava nisso, e dormia com o travesseiro molhado de tanto chorar. Quando eu tinha 9 anos, comecei a ficar mais tempo na rua do que no orfanato. Era um jeito de ignorar tudo o que eu sntia. Com o tempo, fui me acostumando a fazer isso. Comecei a tomar conta das gêmeas, e continuava me fingindo de forte. - as lágrimas corriam por seu rosto, se juntando a água da chuva – Só fingir, porque... - ela deu um sorriso nervoso, com um tom revoltado na voz – Olha pra mim, mal consigo falar disso sem começar a chorar... Eu sou uma fraca mesmo...
Maka se levantou, o que fez Gabriele se levantar também. Assim que ela se pos de pé, Maka colocou as mãos em seu ombro, sacudindo-a um pouco, e fazendo-a olhar diretamente em seus olhos.
-Presta atenção, Gabriele! Você não é fraca, nem inútil, em nada! Eu vi como você derrotou Black Star, como você derrota os heartless, e eu vejo como você cuida de Isa e Amanda, quase como se fossem suas próprias irmãs! Se isso é ser fraca, se isso é ser inútil... Não sei mais o significado dessas palavras.
Gabriele ainda estava surpreendida pela ação da amiga. O verde de seus olhos faiscava, demonstrando uma revolta superficial, que fazia notar a determinação por trás de tudo o que falou.
E ela tinha razão.
Os soluços contidos foram cessando pouco a pouco, assim como as lágrimas. Por fim, ela sorriu.
-Obrigada, Maka. Não sei nem como eu estaria sem o que você me disse.
A amiga sorriu de volta, e logo ambas estavam fazendo o caminho de volta.
Isa e Amanda estavam no pátio frontal da Shibusen. Maka garantira que acharia Gabriele e a levaria pra lá.
-Isa... Será que a Maka-chan conseguiu achar a Gabi?
A irmã ainda ia responder, mas se calou quando viu Gabriele e Maka chegando. Ela e Amanda correram até elas e praticamente se jogaram em Gabriele.
-Gabiiiiiiii! - exclaram ambas, em unissono
-Onde você estava? - perguntou Amanda
-Por que fez isso? - completou Isa
-Pode deixar que eu respondo tudo. - disse Gabriele, antes que continuassem – Mas lá em casa, porque acho que precisamos de um banho depois de tanto pegar chuva, não é?
As duas riram, assentindo. Soltaram-se e começaram a andar, Gabriele ainda parada.
-Mais uma vez, obrigada, Maka. - falou
-Me agradeça não pensando mais que é fraca, ok? - pediu Maka
Ela se limitou a assentir com um sorriso. Foi até as gêmeas e seguiram pra casa.
Ela sentia a chuva, igual a da tarde anterior. Estava de olhos fechados, mas intuia que estava naquele mesmo pátio. Era um daqueles sonhos de novo. Só que agora era diferente. Não havia aquela tensão inicial de sempre. Sentia-se leve, simplesmente sentindo o sonho.
'Parece que alguém está bem melhor.'
-Realmente estou. - respondeu, ainda de olhos fechados, e sem a frieza original
'Talvez agora... Você consiga me ver.'
Gabriele abriu os olhos, se levantando. A sua frente, estava uma mulher de cabelos negros presos numa trança, e que chegavam até um pouco acima da cintura, e uma expressão meiga, a doçura refletindo em seus olhos de um cinza escuro. Ela trajava um casaco, uma blusa, uma calça e sapatilhas, todos brancos.
-Quem é você? - perguntou novamente, mas sem o tom de comando e medo anterior
Eu já disse, não importa. Ela se aproximou, e colocou a mão no rosto de Gabriele, o seu olhar demonstrando pura emoção O que importa... É que estamos juntas novamente.
-Novamente?... - murmurou, fazendo uma expressão de dúvida
Ela sorriu e tirou alguns fios que grudavam no rosto de Gabriele devido a chuva.
Você sabe disso. Bem no fundo, você sabe.
Foi a vez de Gabriele sorrir. Realmente. No fundo, sabia que a conhecia de algum lugar, só a julgar pela calma e a paz que transmitia. Só se perguntava de onde.
-Por favor... - insistiu Gabriele – Eu sei que te conheço, mas não consigo lembrar...
Ainda não, Gabi...
-Um nome? - tentou
A mulher sorriu antes de responder
Melissa.
