-Segurança. –As bailarinas chamavam assustadas. –Segurança.
-Tudo bem, eu conheço ele. –Se soltou. –Você não pode sair entrando aqui assim.
-Vamos pra outro lugar, quero esclarecimentos.
-Sobre o quê?-Tentava entender. Respirando fundo. –Tudo bem, pode esperar até o final da apresentação?-Perguntou a morena. –É o último ato.
-Como vou saber se você não vai tentar fugir?
-Nesses dias que você me conheceu, eu fugi de alguma coisa?-Levantou a sobrancelha. –Quando acabar, você me espera no salão perto da árvore de natal. –Explicou. –Também quero esclarecimentos sobre a sua atitude agora.
-Tsc, fazer o quê?-Saiu de lá puto, com as mãos nos bolsos.
As bailarinas não entenderam, mas achou melhor não se meterem, pois ainda estavam assustadas com aquele homem ruivo, no chão do corredor os dois seguranças caíram para trás, nocauteados, a marca vermelha no pulso de Reverend havia sumido por conta da regeneração.
A apresentação do segundo ato começou, a dança das fadas da neve. As luzes do palco agora estavam azul e o fundo decorado com um desenho de um castelo de cristal. As fadas da neve dançavam em volta da bailarina principal. Iori tentava entender o que havia de bom naquilo, mas por algum motivo não deixava de encarar Reverend ao longe, ela estava tão diferente, brilhante. A graça que ela tinha no palco sob a ponta dos pés enquanto rodopiava, aquelas asas transparentes pareciam de verdade. Como podia uma pessoa ter um lado sombrio, mas ao mesmo tempo encantador? Disfarçou, mas sem deixar de assistir.
Duas horas de apresentação se passaram, as pessoas aplaudiram o fim do espetáculo, saindo aos poucos enquanto comentavam sobre ela.
-Obrigado Kyo. –Yuki estava animada.
-Foi lindo demais. –Athena falou.
-Você não tinha falado que ballet era coisa de mariquinha?-O oriental de cabelos castanhos encarava o rival que esperava perto da árvore de natal.
-Tsc. –Iori apenas virou a cara, não estava afim de ouvir provocações naquele momento. –Porque não vão conversar sobre maquiagem.
-Você é muito engraçado, pelo menos nós estamos com duas garotas lindas. –Kensou se vangloriou. –E você aí sozinho com cara de paisagem.
-Demorei?-Reverend surgiu ali usando suas roupas pretas casuais, delineador básico e um batom uva. –Podemos conversar agora, aonde você quer ir?
-Só quero beber alguma coisa. –Iori falou saindo de lá junto com a bailarina.
Os dois saíram do teatro, adentrando uma lanchonete ali perto. Um lugar simples, mas limpo, eles se sentaram no banco acolchoado vermelho, uma música de Rock'n' roll era ouvida na jukebox.
-O que vão querer?-A garçonete perguntou enquanto mascava um chiclete.
-Só cerveja. –O ruivo respondeu secamente.
-Também. –Respondeu Reverend, a garçonete tinha ido buscar os pedidos. –Agora vamos aos fatos... O que você levou a você entrar no camarim das bailarinas daquele jeito?
-Você mentiu pra mim. –Respondeu ele.
-Sobre...?
-Seu nome. Eu vi o cartaz. –Falou.
-Ah, isso. –Coçava a cabeça. –É que eu detesto esse nome, Reverend fica mais legal. –Respondeu tranquilamente, a cerveja havia chegado logo não tardou pra bebericar um pouco do líquido espumante. –Infelizmente não consegui trocar esse nome ainda. É só isso que você queria saber?
-Não só isso, Odille McCreedy...
-Reverend. –Cortou ele. –Me chame de Reverend.
-A regeneração, não me respondeu nada. –Iori bebeu a sua cerveja. –Eu quero que me ensine. –Foi direto ao ponto. –Me mostra como faz.
-Não é tão simples. –A morena suspirou. –Iori, eu nasci com esse poder. Porque eu não sou humana. –Tocou o ombro dele. –Eu sou um... –Respirou fundo, pensando se devia falar. –Tem coisas que é melhor não saber –Colocou o dinheiro sobre a bandeja, tentou se levantar, mas Iori segurou a mão dela e dessa vez não com força, havia um pouco de delicadeza ali. –Ah não, já começou. –Arregalou os olhos.
-O quê?-O ruivo tentava entender sem soltar a mão dela. –O que você está escondendo?
-Me promete que se eu te contar, você vai embora de vez e nunca mais me procurar?-Perguntou ela, respirando fundo.
-Por quê?
-Prometa.
-Reverend. –Iori respirou fundo, pensando no que fazer. –Não vou prometer isso, não dá.
-Eu sabia. –Ela soltou da mão dele, se levantando.
-Reverend. –Segurou o pulso dela se levantando a encarando de perto olhando em seus olhos.
-Iori... –Sussurrou, com o rosto próximo ao dele sentindo o hálito quente do ruivo próximo a si, fechou os olhos por instinto sentindo os lábios de Iori tocar os seus num beijo calmo e ao tempo cheio de carinho e ternura. Acabou se entregando ao ruivo que a abraçou trazendo o corpo dela pra mais perto prensando contra o seu. Reverend levou as mãos até o pescoço do ruivo o enlaçando enquanto acariciava os cabelos avermelhados, aproveitava as pequenas brechas para explorar a boca de ambos sem a menor pressa, as línguas massageavam uma sobre a outra lentamente dentro e fora da boca. O beijo durou algum tempo começando a faltar fôlego, separaram os lábios, ligados por um fino fio de saliva que se desfez. –Isso não está certo...
-Shhh... –Colocou o indicador sobre os lábios da moça. Novamente beijando os lábios num selinho demorado. –Olha o que você faz comigo...
-Sim, eu faço isso com todo mundo. –Baixou a cabeça. –Sinto muito, mas isso não pode continuar. Não é justo com você... Não me procure mais. –Pegou a mochila, saindo de lá rapidamente sem olhar pra trás. Quanto Iori resolveu ir atrás dela, era tarde demais. A moça já tinha sumido na multidão que passava na rua.
Kyo, Athena e Kensou haviam acompanhado Yuki até em casa, se despedindo do namorado e dos amigos, agora andavam pelas ruas tranquilamente enquanto conversavam, por mais que disfarçasse Kyo não parava de pensar em Iori, se perguntando quem era aquela garota. E qual o interesse do ruivo nela, já que ele nunca ligara pra ninguém e nem se importava de matar quem lhe enchesse, nem estava obsessivo em matar Kusanagi. Falando no diabo, encontrou o ruivo andando pela rua que apenas passou por ele sem querer conversa, Athena que podia sentir o coração das pessoas percebeu tristeza no coração de Yagami, uma imagem de um vidro despedaçando veio em sua mente, era como o ruivo se sentia, todo despedaçado por dentro.
-Deve ter tomado um fora. –Kensou falou.
-Para com isso. –Athena deu um tapa na cabeça dele. –Isso é horrível.
-Eu não tenho nenhuma pena dele, acho bem feito.
-Sério Kensou, para. –Kyo falou encarando o ruivo se afastar mais. –Por mais que o Yagami seja irritante, ele não merece passar por uma coisa dessas. E a gente nem sabe se foi isso mesmo que aconteceu, a gente sabe é de porra nenhuma. –Continuava a encarar Iori que já estava bem longe até o ruivo sumir no horizonte.
Kyo passou o resto da noite quieto até chegar em casa, não quis jantar nem nada. Apenas tirou a calça e a jaqueta ficando só de camisa e cueca se deitando na cama. Olhava para o teto, pensativo.
Iori tinha chegado em seu apartamento fechando a porta, tirando apenas os sapatos ele se jogou na cama, com a cabeça enfiada no travesseiro fechando os olhos, adormecendo.
