Capítulo 3

Jon acordou com o som de alguma coisa quebrando. Abriu os olhos de supetão e levou uma das mãos ao peito. Sentia o coração bater com tanto desespero que realmente acreditou que ele poderia arrebentar-lhe o peito ou até sair pela a boca, e não era devido ao susto.

Sonhara que estava acordado, pior, sonhara que Robb também estava acordado e que deixava o irmão partir-lhe os lábios com a língua para aprofundar o beijo. Sonhara que Robb fincava as unhas nas suas costas, colado seus peitos enquanto ele corria as mãos por qualquer parte do ruivo que conseguia alcançar. Sonhara que o beijara de forma faminta, voraz e ele não parava para respirar, não, parava por um segundo apenas, só para começar a beijá-lo de novo em outros lugares, em todos os lugares, enquanto Robb enroscava os dedos no seu cabelo e falava sem parar sobre tudo e sobre nada e Jon não estava mesmo ouvindo de verdade, estava apenas escutando; amava a voz do irmão, amava tudo nele, não tinha como negar mais. O moreno não precisava negar, mas ele também não precisava ter confessado,mas sonhara que seus lábios moveram-se inconscientemente e que ouvira a própria voz traí-lo. Sonhara então que havia erguido a cabeça, buscando-lhe o azul dos olhos, mas não o encontrou; Robb se recusara a olhar para ele. Não encontrou nada fora esse silêncio maldito que começava a sufocá-lo até que alguma coisa se quebrou, e não tinha sido seu coração porque ele continuava batendo; batia rápido demais.

- Desculpe, não quis acordá-lo. – Bran subitamente entrou em seu campo de visão. – Deixei cair meu copo de leite, mas já vou limpar... Tudo bem? Você teve um pesadelo?

- Sim, é. – Jon nem pestanejou antes de responder. – Merda, por que vocês não me acordaram, eu... Vou preparar as suas merendas. – Pressionou os punhos cerrados contra os olhos, querendo realmente despertar e jogou o edredom, que um dos irmãos trouxera para lhe cobrir durante a noite, para o lado, levantando-se. Bran estendeu-lhe a mão para ajudá-lo, mas Jon aproveitou e puxou-o para um abraço apertado e plantou um pequeno beijo nos cabelos ruivos.

- Eu já fiz.

Jon ergueu os olhos para encontrar Sansa olhando fixamente para os próprios sapatos.

- Fiz a merenda deles, não queria te acordar. Ou o Robb... – A garota mordeu o lábio inferior, suas sobrancelhas franzindo-se em dúvida. – Ele está bem? Quero dizer, ele não vai trabalhar hoje?

Jon abriu a boca para responder, mas fechou-a quase que instantaneamente. Sabia que Robb não iria querer preocupar a irmã.

- Ele está doente, não está? – Sansa nem lhe deu tempo para pensar no que deveria responder, interpretando seu silêncio a seu bel prazer. – Eu sabia que tinha alguma coisa errada, tinha alguma coisa errada e ele não me disse! – Balançou negavitamente a cabeça, exasperando-se. – Ele me mandou mensagens ontem mandando eu me desculpar com você, mas o babaca não me disse o que estava errado! E você... – Apontou-lhe o indicador, sua voz aumentando a cada palavra. – Você poderia ter me dito também, mas...

- Bom, aqui está a sua chance de se desculpar com ele. – Arya os interrompeu de repente e Jon piscou, sem entender de onde a irmã menor sugira. – Estamos esperando. – Cruzou os braços, demonstrando toda sua impaciência.

A ruiva abriu a boca para responder, mas fechou-a em seguida. Fora pega completamente de surpresa. Jon se compadeceu da meia irmã e caminhou até se colocar entre as duas, já prevendo o pior para a situação.

- Ela já pediu desculpas ontem mesmo, não tem problema.

- É? E a minha merenda? – Arya revirou os olhos, não se deixando abalar. – Você fez a merenda para sua amada irmã aqui também?

Sansa virou-se para encará-la, agora toda a raiva que sentia estava condicionada inteiramente na direção da morena; e abrindo a lata de lixo com o pé, deixou cair um sanduíche que ela mesma embrulhara em papel alumínio minutos atrás.

- Não, gente, não agora de manhã. – Jon odiou o quão cansada sua voz soou, mas estava cansado demais para fazer alguma coisa a respeito. – Eu faço outro para você, Arya.

- E eu já vou, não posso me atrasar que hoje é apresentação de trabalho. – Sansa revirou os olhos e jogando sua mochila por cima de um ombro só, saltou os dois degraus para alcançar a rua.

- Vou checar Rickon. – Bran quebrou o silêncio que se instalou, enquanto Jon fechava a porta que Sansa escancarara antes de sair. – Ele subiu para buscar Cão Felpudo já faz um tempo, será que ele fugiu pela janela?

- Por favor, deus, não. – Jon pediu em um suspiro demorado, mas logo se recompôs. – Sim, boa ideia. E você, o que quer comer? – Sorriu para a irmã e abriu a geladeira. – Gelatina ou gelatina?
Arya riu e deu de ombros.

- Não quero nada para comer, não sinto fome esse horário, falei só para irritar Sansa.

- Sim, faz sentido, Sansa estava brigando comigo e você aparece, minha salvadora, para fazê-la brigar com você, ao invés...

- Cale a boca. Não se sinta lisonjeado, eu só gosto de brigar com ela.

- Tenho motivos para ficar com ciúmes então? –Jon pegou-se sorrindo e Arya riu ainda mais alto, jogando-se nos braços dele.

- Você sabe que não, seu idiota!

Jon devolveu-a ao chão depois de um abraço apertado.

- Vamos, vocês todos estão atrasados para a escola. – Viu de relance Bran trazer Rickon pela mão para a sala, já com as mochilas nas costas. – Bran, você pode me fazer um favor?

- Claro. – O ruivinho respondeu, enquanto Arya tentava se lembrar de onde jogara a sua mochila e por fim encontrou-a debaixo da mesa.

- Se você passar pela loja, diga ao Sam que eu vou me atrasar um pouco. – O mais velho virou-se para a pia e abriu a torneira, querendo molhar o primeiro pano de chão que viu pela frente. Precisava limpar o leite que Bran derramara mais cedo.

- Droga, esqueci! – Bran levou uma das mãos a cabeça, recriminando-se pelo esquecimento, mas Jon sorriu para ele.

- Traga-me a vassoura e faça aquele favor pra mim. Estaremos quites, certo? – Pediu e se ajoelhou em frente a bagunça. – Por uma semana ninguém vai andar por aqui descalço. – Recolheria todos os cacos de vidro que conseguiria encontrar, mas mesmo assim não iria arriscar. Antes que pudesse começar a arrumação, sentiu Rickon agarrar-lhe o braço.

- Robb vai ficar bem, Jon? – O mais novo choramingou, esfregando o rosto na manga do irmão e pegando-o completamente de surpresa.

- Claro que ele vai! – Jon puxou-o para seu colo e o colocou sentado em seu joelho, seus braços o envolvendo de forma protetora. – Que pergunta é essa?

- Nós apenas... – Foi Bran quem quebrou o silêncio que seguiu suas palavras e isso o surpreendeu. – Nós ficamos preocupados.

- Não fiquem. - Jon estendeu uma das mãos para ele, já que Rickon segurava com força a sua outra. – Robb é forte, é preciso muito mais do que os malditos selvagens para acabar com ele, certo? Agora parem com isso, ou vocês vão ficar horríveis, cheios com rugas de preocupação e nunca vão conseguir transar. – Sua risada forçada transformou-se em uma verdadeira ao ver a careta de nojo de Arya.

- Ew, eu não preciso disso! – A morena balançou a cabeça negativamente. – Eu não preciso de garotos, não sou a Sansa.

- Claro que você não precisa. – Jon convidou-a para se unir ao abraço em grupo com um aceno de cabeça e quase caiu para trás porque Arya não mediu suas forças antes se atirar contra eles. - Eu mataria qualquer garoto que ousasse se aproximar de você, ouviu bem? Agora, vão, vão, vão, não quero que vocês recebam uma advertência por se atrasarem. – Assim que conseguiu se levantar, empurrou-os para a porta, não sem antes abraçá-los uma última vez para se despedir.

Acompanhou-os com o olhar até a esquina e só então fechou a porta, voltando ao trabalho. Abaixou-se para varrer os cacos de vidro e passou o pano molhado no chão, limpando completamente todo e qualquer resquício de leite. Porém antes que pudesse se levantar, conseguiu captar com o canto de seus olhos o bastão de beisebol embaixo do sofá. Rickon provavelmente esquecera de guardar noite passada depois de toda a confusão e alguém acabara chutando-o lá para baixo. Xingando mentalmente, o moreno praticamente teve que deitar no chão para conseguir alcançá-lo e fazê-lo rolar para fora.

Experimentou o bastão em sua mão, sem conseguir se lembrar de quando fora a última vez que tentara jogar beisebol com Robb e com o pai, antes de dá-lo de presente para o irmão menor, – embora Rickon o usasse para tudo, menos para jogar beisebol. Fazia muito tempo, fazia tempo demais e por um momento Jon deixou-se perder em memórias que eram tão antigas que mais pareciam sonhos de uma outra vida. O toque de seu celular o trouxe de volta para a realidade e Jon tateou todos os bolsos a sua procura.

- Oi, Sam, desculpe, é, ah, Bran já passou aí? Sim, sim, eu não sei, mas já estou indo e... quê? Não, eu vou com certeza, não preciso do dia de folga. Robb está bem, de verdade, e eu... – Seu olhar caiu sobre o bastão que ainda segurava e uma ideia começou a se formar em sua cabeça. – Quer saber? Vou tirar o dia mesmo, sim, obrigado, Sam. Tudo de bom para você, tchau!

Apenas estendeu o braço para pegar a jaqueta que pertencia tanto a ele quanto a Robb e, ainda com o bastão de beisebol na mão, saiu de casa.

xxx

Jon escondeu-se atrás de uma lata de lixo, arriscando olhares furtivos para a casa do outro lado da rua. Estava na pior parte do pior bairro daquela cidade, - que já não era uma das melhores, - esperando simplesmente a pior gangue sair da república onde moravam. O bastão de beisebol formigava em sua mão com a possibilidade de ser usado com uma arma, mas o moreno não sentia-se culpado, ou nem mesmo com medo, sentia, sim, seu sangue ferver com a expectativa de por um ponto final nisso. Sabia que os selvagens não desistiriam dele tão facilmente e Jon não arriscaria que eles fizessem mal a Robb de novo.

Toda a espera foi terrivelmente anticlimática e seus músculos começavam a ficar dormente por ficarem tanto tempo parados na mesma posição. Depois de quase uma hora e meia, ele cogitou voltar para casa e pegar o expediente da tarde na loja, calculando o prejuízo dessa manhã de folga. Perdera a hora que os selvagens saíam para a escola e agora não adiantaria em nada continuar ali. Estava quase se levantando, quando ouviu a porta bater atrás de si.

Com um olhar discreto, Jon conseguiu discernir a figura solitária de Ygritte descer os degraus e começar a caminhar na direção oposta da escola. Típico. Antes de largar o bastão para seguí-la, ele olhou para o lado oposto, querendo se certificar de que a rua estava deserta.

- Ygritte! – Gritou por ela ao vê-la apressar o passo e dobrar a esquina. – Merda! – Começou a correr. Não podia perdê-la de nenhum jeito.

- Para de me seguir, seu tarado! – A ruiva retrucou com a sua cara mais lavada, sem nem se dignar a virar para encará-lo e a exclamação da garota o retardou um pouco já que Jon deu uma volta completa para checar que não havia ninguém ao seu redor para acreditar nas palavras da ruiva. Se alguém tivesse ouvido, certamente poderia culpá-lo e ele não acharia nem tempo para se defender. Seu punho se fechou no próprio ar e ele sentiu falta do bastão de beisebol. Apressou ainda mais o passo para alcançá-la, sabia que precisava resolver isso o mais rápido possível.

- Precisamos conversar, por favor.

- Não me toque! – Ela puxou a mão assim que sentiu Jon agarrá-la, numa tentativa de fazê-la parar de andar. – Se você não me deixar em paz, eu vou gritar. E eu sou muito boa em gritar. – Sorriu de forma sacana e piscou para ele antes de jogar o cabelo ruivo armado para trás do ombro e continuar seu caminho como se nada acontecera.

- Eu posso explicar tudo que aconteceu entre a gente! – Jon exclamou, na esperança que ela fosse se virar. – Eu posso explicar por que eu não...

- Você não me fodeu, então essa sou eu, fodendo você. – Ygritte simplesmente riu do nervosismo dele. – Mas vamos lá, explique, entretenha-me com suas mentiras. - Ela finalmente se virou para encará-lo e cruzou os braços embaixo do peito, esperando.

Ela estava esperando uma resposta, uma explicação, a explicação que ele mesmo disse que estava pronto para fornecer segundos atrás. Abriu a boca para falar alguma coisa, qualquer coisa, mas sentia um nó apertar-lhe a garganta e prender não só suas palavras, mas também o ar de seus pulmões.

Não é como se ele não tivesse uma explicação para seu comportamento. Sabia muito bem por que, – e por quem, - ele fugira da garota aquela noite, sabia muito bem que gostava de outra pessoa e que esses sentimentos malditos não o deixariam esquecer nem por um segundo. Sabia que tinha uma excelente explicação para tudo isso, mas também que nunca poderia contá-la para ninguém. Não teria coragem.

- O quê? – Ygritte revirou os olhos, já sem paciência nenhuma. – Cadê a sua explicação? – Riu do silêncio que recebeu, mas caminhou para onde ele estava e apontou-lhe o dedo tão perto do rosto dele que quase furou-lhe o olho. – Vá se fuder, Jon Snow. – Falou lentamente, como se apreciasse cada palavra que deixava sua boca.

- Eu só, eu não... – As palavras de Jon tropeçavam uma nas outras e ele sentia o rosto ferver, adquirindo a mesma cor rubra dos cabelos dela. – Eu gosto de outra pessoa.

- E desde quando isso é um empecilho? – A ruiva balançou a cabeça negativamente, com ambas as mãos na cintura.

- Não, você não entende. – Nem ele mesmo entendia. – Eu realmente gosto dessa pessoa e...

- E o quê? Você é gay por acaso? – Ela explodiu. Era para ser uma piada e Jon tentou rir, ele tentou de verdade. Acabou com um ataque de tosse. – Oh, meu deus. Você. É. Gay. – Pelo menos ela tampouco estava rindo.

- Eu não...

- Não, você é gay! – Ela apontou-lhe novamente o dedo, mas Jon agarrou-lhe a mão, forçando-a para baixo, antes de olhar rapidamente para os lados para se certificar de que ninguém a ouviu.- É a única explicação, é óbvio! – Ygritte levantou as mãos, procurando passar por meio de gestos o que não conseguia colocar em palavras; sua expressão de surpresa se desfazendo a medida que a sombra de um sorriso dançava por seu rosto.

- Não é óbvio. – Seu primeiro intuito foi de negar. Não era óbvio. Foda-se o que Loras dizia, foda-se o que Ygritte estava dizendo agora. – E você poderia...? Eu nunca contei isso pra ninguém e...

- Então eu sou a sua primeira? – Ygritte abriu então, o maior sorriso, satisfeita com o duplo sentido de suas palavras e agora Jon simplesmente teve que rir. Ele riu porque se não ele ia começar a chorar.

- Oh, deus. – Jon teve que se recostar na parede para se apoiar e se deixou deslizar até cair sentado no chão. – Sim, você é a primeira. – Ainda estava rindo e não fazia ideia do porquê. Talvez fosse porque nunca admitira tal coisa para ninguém. Nem mesmo para si próprio. Sentia as bochechas doerem de tanto rir, sentia seu sangue ferver, seus olhos arderem e seu coração disparar. Nunca sequer trocara meia dúzia de palavras com essa garota antes e agora ela sabia a verdade sobre ele.

- Você quer um cigarro? – Depois de um longo período de silêncio desconfortável, Ygritte se ajoelhou de frente a ele, sentando-se sobre as próprias pernas e começou a tatear sua bolsa pelo que sugerira. – É de maconha. – Deu de ombros e o acendeu com o isqueiro.

Jon olhou para ela. De todas as pessoas que podiam descobrir sobre ele, fora Ygritte. Sentia-se estúpido, culpado, desesperado, confuso e terrivelmente aliviado. Aceitou o cigarro com um aceno de cabeça e tragou profundamente, fechando os olhos. Só os reabriu quando teve que soltar a fumaça pela boca e o fez de maneira bem lenta, como se apreciasse as formas que surgiam no ar. Estendeu o cigarro de volta para ela.

- Eu tenho o meu. – A ruiva acendeu mais um, negando o gracejo com a cabeça. – E eu já to alta pra caralho. – Riu.

Eles dois riram.

Continua...
N/A:Ai, como eu amo essa família Stark sendo linda ok beijos E a minha Ygritte é diva demais, sério ! Espero que gostem desse capítulo porque sério, amo demais essa fic !