Algo duro e pontiagudo estava machucando minhas costas. Aliás, a dor não era apenas nas costas, mas em todo o meu corpo. Era como pequenas agulhas me perfurando. Aquilo me incomodou, e muito, já que por tanto tempo não sofri dores algumas. O som da água ia aumentando conforme o tempo passava, e o som leve foi se transformando em algo quase violento. A dor em minhas costas já estava seriamente me incomodando, então em rolei para o lado, quando bati em algo frio e molhado. Meus pés encontraram a água, e meu corpo sentiu o leve e macio toque da areia. Resolvi abrir meus olhos. Estava noite, e pela luz da lua, soube que estava ao ar livre. Não apenas por isso, pois o que pensava que eram agulhas, era o frio congelante que estava fazendo. Eu tentei me mexer, mas meu corpo reclamou, então apenas ergui minha cabeça. O lugar, apesar de escuro, foi facilmente reconhecido por mim. Era o lago Alkali. Eu estava em algum canto, bem próximo á margem, já que meus pés encostavam-se à água. O barulho violento da água era o resultado da correnteza contra as pedras que lá tinha. Eu tentei me levantar novamente, me apoiando na pedra escorregadia, é claro, tentando não fazer minha mão escorregar, se não eu poderia me machucar. Um vento forte e frio, típico do inverno, bateu novamente fazendo meu corpo achocalhar ao invés de tremer. Apalpando meu corpo, notei que estava sem roupa alguma. E agora, neste frio, nesta escuridão, sozinha, eu não podia pensar em absolutamente nada. Nada, a não ser voltar para minha casa.
Eu, com muito esforço, me pus de pé. Minhas pernas estavam dormentes, então tive que usar meu poder para fazê-las funcionar. Fazia tanto tempo que eu não os usava que pensei que tinha esquecido como os usar, ou talvez que eles tivessem desaparecido. Mas não, estavam lá, prontos para eu usá-los na hora em que eu precisasse, como agora. Eu andei – okay, mais flutuei do que andei – até alguns arbustos altos que separavam a rodovia do lago e suas rochas. Nunca fui boa em calcular as horas apenas olhando ao céu – Tempestade com certeza saberia –, mas imaginei que fosse umas 3 da manhã. Intuição, talvez. Não havia nada ali. Meus ouvidos até zumbiam de não ouvir barulho algum. Uh, talvez esteja realmente tarde. Então pensei em como chegar até o instituto. Bom, o lago Alkali era bem longe do instituto, pelo o que eu me lembrava. De qualquer forma, pulei os arbustos, atravessei a rodovia que estava úmida, talvez por possíveis flocos de gelo, e comecei a andar pra direção leste, que era pra onde ficava o instituto. Não me importei se por acaso algum carro aparecesse, pois se não era só eu entrar floresta adentro.
Após um longo período andando, eu resolvi usar meus poderes. Eu nunca havia tentado voar, então não fui muito para o alto. Também tentei não ir muito rápido, pois o vento era insuportável. Fiquei no ar por uma distância que equivalia o dobro do que eu andei a pé.
E quando sentia que meus poderes começavam a falhar, eu voltava a andar.
Durante o caminho, eu me encostava nas árvores a fim de descansar.
Até que, depois de muitas horas andando, voando, tremendo, cheguei ao pequeno e afastado bairro de Salem. Lá, havia mais luzes, havia habitantes, então procurei chegar até o Instituto pela sombra, por entre as árvores. Alguns flocos de neve começavam a cair. E finalmente, a grande e antiga arquitetura da escola já era visível. Sobrevoei mais um pouco ao derredor, então resolvi entrar. Me certificando que não havia ninguém no campus (tipo um Logan depressivo e sem sono), andei. Tentei ir por lugares aonde a luz da lua não chegasse, pois havia câmeras por lá. Mas nada adiantou. As câmeras tinham sensor. E um som estridente horrível começou do nada, me fazendo pular. O alarme. Rapidamente, voei até meu quarto que eu dividia com Scott. A janela estava fechava. Usei minha telecinésia para abri-la por dentro. O som do alarme ficou mais alto do lado de dentro. Eu tentei ignorar ele, e procurar uma roupa. Mas antes, não deixei de olhar para nossa cama. Ele não estava lá, para minha tristeza. Eu abaixei a cabeça rapidamente, então corri para o closet. Estava meio trêmula, já que, na verdade, eu era quem combatia os invasores, e nunca imaginei que um dia eu seria a invasora. Agarrei uma calcinha, que vesti, tipo, muito rápido. Agarrei a primeira coisa de manga comprida que vi em minha frente, que era um vestido preto de manga comprida. Eu o usei no primeiro aniversário de Charles. Bons tempos... Espantei as lembranças, e voltei para as roupas. Scott tinha um sobretudo preto enorme, que tinha uma touca. Fui até as roupas de Scott, e procurei freneticamente. Quando achei, o vesti. Dei uma rápida vasculhada no Instituto com minha telepatia. Quase todo o instituto estava acordado, por conta do barulho irritante. Tempestade, Logan, Bobby, Colossus, e Kitty já estavam no hall, prontos para atacar o invasor, que era eu. Ororo procurava informações sobre qual câmera/sensor que me pegou, para checar a área próxima. Eu peguei uma bota minha, e a coloquei, com um pouco de dificuldade, por causa do frio. O painel de controle dos alarmes entregou a câmera, que ficava a poucos metros de meu quarto. E eles já estavam indo para o campus. Coloquei a touca, me assegurando de que meu cabelo não aparecesse, e corri para a janela, adrenalina correndo por meu sangue. Com um impulso, pisei no corrimão da área que tinha em meu quarto, e, com ajuda da minha telecinésia, consegui chegar ao telhado, que não ficava muito longe, já que meu quarto ficava no 5º andar, e o instituto tinha 6.
- Hey! É ele! – Kitty gritou.
- Picolé, bora. – Logan falou. Corri pelo telhado, mas Tempestade apareceu em minha frente. Atrás de mim, o som familiar das garras de Logan. Eu abaixei minha cabeça.
- Estava indo para algum lugar? – Ororo falou, com sarcasmo. Momento convivência com Logan, uh. Atrás de mim, os passos pesados de Logan se aproximando. A única saída estava atrás de mim. Os X-mens já haviam me cercado, mas havia Kitty. Não por ela não saber me barrar – era para isso que as aulas de Combate que Logan dava serviam -, mas pelo seu poder. Força Jean. Seja o que Deus quiser.
Me virei, ao mesmo tempo que entrei na mente de Kitty. Ativei seu poder, e a atravessei. Correndo, pulei do telhado. Então, voei novamente. Okay, okay; depois que eu voltar para o instituto como uma estudante normal e não como uma estranha, eu precisaria começar a usar esse meu dom de usar meus poderes para poder voar. Muito, muito dez!
Me concentrei em voar o mais rápido e longe possível. Atrás de mim, a última coisa que eu ouvi foi todo mundo gritando, como loucos. Coitada da Kitty. Eu ri internamente, imaginando a situação.
Fiquei um bom tempo voando. Meus poderes ficavam mais úteis quando eu passava por apuros. Claro, levar um raio de Ororo e uma facada de Logan não me parece ser muito legal e confortante.
Meu poderes foram gentis até eu chegar a Manhattan. Escolhi um prédio qualquer, e pousei. Eu tirei o capus, e olhei para a cidade iluminada. Era linda. Os prédios enormes que a faziam ser destaque entre as cidades. A cidade que nunca dorme. Eu olhei para baixo, me lembrando do que eu havia acabado de ter feito. O que diabos eu fui fazer lá?
Scott, uma voz sussurrou dentro de mim. Eu comecei a lembrar de seu rosto, de nossos beijos, de nossas noites juntos. Me lembrei da vez que o conheci, da raiva que ele sentia pelo Anjo. Anjo foi embora, e estavamos felizes, até que apareceu Logan. Não que eu o odeie. Scott o odeia. E aí lembrei das várias e ridículas brigas que os dois tinham constantemente. Até por coisas insanas. E, com o tempo, eu passei a achar tudo aquilo hilário. A forma como se encaravam nas reuniões, a disputa para ver quem batia no vilão das missões primeiro. Eu comecei a rir. Okay, pensando desse modo, a realidade dos dois se parecia com novela mexicana gay. Eu ri novamente, e parei. Olhei para os arranhas-céus, e aquela voz que havia respondido minha pergunta anterior soou: e por que você diabos você simplesmente não ficou lá?
- Não... Ainda não! – Foi minha vez de responder, e o fiz em voz alta. Ótimo, agora eu sou uma invasora louca, e falo sozinha. Joguei minha cabeça pra um lado e para o outro, espantando esse pensamento. Agora, reformulando a pergunta: Porque diabos eu simplesmente não entrei pelo portão principal?
Depois de ficar um tempo em cima do prédio conversando comigo mesma, meus corpo reclamou de cansaço. Isso me fez começar a pensar em onde passar a noite. Quero dizer, eu não iria dormir na rua, e também não iria procurar um hotel, já que, além de tudo, não tinha dinheiro. Então sobrava eu dormir com os mendigos mesmo. Ou não. Eu lembrei de Warren. Tá certo, ele poderia não abrir a porta de seu apartamento de luxo para mim, o que ele faria alguns anos atrás. Mas não era preciso: a sacada dele era tão chique quanto o próprio apartamento dele. Lá, havia algumas almofadas, uns puffs, e mais algumas coisas finas. Resolvi tentar. Voei novamente, ainda morrendo de medo de meus poderes falharem, até sua casa. Eu sabia exatamente onde ficava. Tinha ido na casa dele algumas vezes, na época em que ele estudava no instituto. Bons tempos, novamente...
O prédio onde morava era um dos mais altos e chiques da cidade – não era de se esperar menos, já que seu pai era dono da Worthington Labs, a empresa farmacêutica mais lucrativa dos últimos anos. Dei uma parada no prédio da frente, olhando para baixo, ou para o andar de baixo do que Warren morava, procurando alguém. Havia algumas pessoas lá em baixo, então eu tratei de ir até a sacada dele um tanto rápido para ninguém me ver. Pousei lá, e dei uma breve olhada na sacada; as almofadas continuavam lá, mas haviam sido mudadas de posição. Tinha a piscina também – poxa, aquela água deve estar congelada. Eu estremeci de frio, e resolvi ocupar minha cabeça com outra coisa. Eu por ali, até o apartamento virar, mostrando a piscina coberta. Ali, a área era realmente grande – impossivelmente grande. Seu apartamento era de dois andares, então tinha mais um andar pra cima, que era onde ficava seu quarto. Eu fui até onde seu quarto era. Ali também tinha uma pequena área, com uma cadeira. Era onde ele gostava de ir ver o sol nascer. A janela estava fechada, a luz apagada. Com cuidado, abri a cortina por dentro usando meus poderes, e o vi, deitado, dormindo. Sua cama era enorme, mas não tão quanto suas asas. Estava apenas de calça. Ele havia crescido. Vi que seus músculos estavam mais definidos. Deixou seu cabelo castanho-claro, bem cuidado, crescer. Ele caia lisamente sobre seus ombros, fazendo sua feição mais madura. Não deixou de ser bonito. Sua pele continuava naquele tom dourado-bronzeado que eu tanto adorava, sua boca fina, sexy, e seus olhos, em harmonia com o formato do rosto. E eu senti um aperto no coração. Eu não sabia dizer se era saudade, de ouvir piadas saindo de sua voz grossa, ou se era de tristeza por tê-lo rejeitado, de fazer eu ser o principal motivo dele ter saído do instituto, do grupo. Sim, talvez fosse os dois.
Warren se moveu lentamente na cama, fazendo eu rapidamente largar a cortina. Me afastei lentamente, olhando para a cortina de algum tecido caro, até que o corrimão me impediu. Com um suspiro, me joguei da pequena sacada, e fui até a mesma que eu havia estado alguns minutos antes. Me joguei em um puff enorme, vermelho, e fechei os olhos. Comecei a pensar em o que faria amanhã. Eu teria que procurar Scott. Nosso elo de ligação dizia que ele estava vivo, sozinho, e me esperando.
Eu estava meio zonza. Minha cabeça latejava um pouco, e eu não sabia em que pensar. Eu estava acordando. Um pequeno peso em meus ombros, que me apertava levemente. Jean... Jean... Uma voz abafada me chamava. Alguns segundos se passaram, e notei que estava claro, mesmo eu estando com os olhos fechados. As coisas começaram a ficar mais claras. Um som de buzina, o eco de carro que era normal na cidade grande, e um helicóptero. Novamente chamaram por meu nome, com uma leve chacoalhada no meu ombro. E isso me fez realmente acordar, e eu lembrei: a invasão ao instituto, a perseguição, a fuga, Warren... Hey, Warren!
Eu me mexi levemente, afirmando que eu estava acordada. A familiar voz, mais firme e madura, era de Warren.
A mão que estava em meu ombro se moveu até meu rosto, tirando uma mecha que fazia cócegas em minhas bochechas. Eu abri meus olhos, e vi brevemente ele parado em minha frente. Outras coisas foram ficando mais claras, como o frio, a dor em minhas costas, a respiração próxima e quente dele em meu queixo. Eu abri novamente meus olhos, os apertando com força por causa da claridade. Levei minhas mãos até meus olhos, erguendo meu pescoço para olhar melhor Warren. Estava realmente mais bonito e maduro. Seus olhos continuavam naquele tom incrível de verde, que reluzia como uma esmeralda. Ele parecia sério, preocupado, surpreso.
- Jean? O qu- O que você... – Ele tentou formular uma frase, mas não conseguiu. Eu me levantei, e fiquei sentada no puff macio.
- Oh, Warren, uh, me desculpe, eu- eu... – Foi minha vez de gaguejar. Ele se afastou, olhando para baixo, como se apenas agora se lembrasse do que eu fiz a ele. A última vez em que o vi, era no instituto, quando havia dito a ele que amava Scott. Nós discutimos, e eu disse a ele que não era só porque ele era bonito e rico que eu deveria amá-lo, e escolher ele. Warren simplesmente arrumou as malas, e foi embora, é claro, não antes de jogar na minha cara que eu um dia precisaria dele, e que ele não estaria mais ali. Minhas costas doeram novamente.
- O que, resolveu vir aqui se desculpar? Você acha que eu ainda não sofro por tudo aquilo que você fez para mim? – Ele cuspiu.
- Warren... Eu nã-
- E estão resolve virar a vilã da história, pondo em risco a vida de meu pai, pondo em risco a vida de várias pessoas? – Ele me cortou.
- O quê? Do que você está falando? – Eu enruguei minha testa, duvidosa.
- Ah, okay, vai se fazer de desentendida, ótimo, mas saiba que o governo voltou com aquela bosta de preconceito contra nós, – Ele disse apontando para mim e para ele. – ainda mais com a entrada do Fera como embaixador das Nações Unidas.
- O Fera? – Eu sorri brevemente. Nossa, o que foi que eu perdi! Então meu sorriso desapareceu quando notei o olhar de ódio de Warren, que foi diminuindo quando viu meu sorriso.
- É, ele mesmo. – Ele falou.
Eu engoli seco, e falei. – Okay, desculpe se eu te deixei irritadinho e carregado de testosterona, mas isso não vai mais acontecer, - disse apontando para os puffs, - já que você não vai mais me oferecer ajuda, não é mesmo? Adeus. – Me levantei rapidamente, mas minhas pernas protestaram, começando a formigar. Eu perdi o equilíbrio, e estava caindo pra frente, quando a asa de Warren me impediu, empurrando-me para seu lado. Ele rapidamente me segurou em seus braços, e me fez olhar para ele. Eu o encarei, séria. Seu olhar jovial foi de meus olhos para meu vestido. Ele sorriu distante. – Esse vestido cai tão bem em você. Eu lembro como se fosse hoje do dia em que eu o dei para você. – Acompanhei seu olhar. Era o vestido que eu havia usado no primeiro aniversário que passei com Xavier. E eu o havia ganhado, de Warren. Eu lembro exatamente daquele dia: Warren praticamente me forçou a ir com ele naquelas lojas de grifes. Foi um dia bacana. Eu provava os vestidos, e ele falava se estava bom ou não. Okay, na verdade ele dizia que todos ficavam bons em mim. Para isso ele não foi muito útil não.
Eu sorri. Eu pisquei, e voltei para o presente. Ao olhar para ele, me surpreendeu quando um sorriso estava estampado em seu belo rosto. Ele olhava pra mim, e sorria junto, mostrando seus belos e bem cuidados dentes brancos que estavam escondidos atrás de sua boca fina sexy quando ela estava fechada. Eu fiquei séria novamente, e olhei para baixo. Sua mão descia de minhas costas para minha cintura. Eu me afastei.
- Olha, eu não queria... mesmo te incomodar, uh, eu vou indo. – Eu me virei, mas ele agarrou meu braço fortemente.
- Não, Jean, por favor, fica. – Eu me virei, e o encarei. Seus olhos reviraram, - Tá, me desculpa, okay, eu tava com a cabeça quente, é que é tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, e... – Warren continuava como antes. Nunca foi de gostar de pedir perdão. Eu pus meu dedo indicador em seus lábios macios, fazendo-o calar.
- Tudo bem. E seu pai? – Eu falei com as sobrancelhas arqueadas.
- Oh, ele está na empresa. Vamos? – Ele estendeu uma mão pra mim. Eu a segurei, e ele me guiou para dentro de seu luxuoso apartamento.
Expliquei a ele o que havia acontecido comigo, desde o Lago Alkali até minha rápida visitinha ao Instituto. Ele gargalhou desse último fato.
- Jean, pra que isso, uh? Você é dada como morta, o povo se embriagando por você, quando na verdade você tá dando um rolê por aí. – Ele gargalhou. Eu revirei os olhos.
- Warren! Eu já te expliquei, eu estou atrás do Scott. E é só o Logan que anda bebendo um pouco, mas é só isso. Poxa, eu esperando que você me ajude, e você brincando. – Eu o repreendi. Ele riu, então fez beicinho.
- Ai que menina mais chata. – Ele falou. Então riu brevemente. – Okay. Mas não seria mais fácil você voltar pro instituto primeiro? Você via seus amigos, e depois sairiam atrás do Scott.
- Eles acham que Scott está morto. – Eu disse e ele arqueou as sobrancelhas.
- Uai, credo, porque que?
- Eu não sei. Não tive tempo de saber, e nem quero. Só quero encontrar Scott, e pronto. – Ele ficou mudo. – Além do mais, você disse que eu enlouqueci e estava matando todo mundo lá naquela tal ilha, correto? – Ele concordou com a cabeça. – Viu. Se eu simplesmente chegar lá, é capaz de eles me matarem. Sem falar que o professor sumiu também. Ai que droga! Eu queria tanto sab-
- O professor? – Ele enrugou mais ainda, e eu ri da cara dele. – Cara, será que você matou ele? Digo, quando você tava loucona?
Eu arregalei os olhos. – Bate na madeira, Warren! – Eu explodi, e minha cabeça doeu. Eu levei minha mão até o local dolorido.
- Cara, minha cabeça tá doendo, tipo, muito.
- Tudo bem?
- Tudo sim. Cê num tem um remedinho ai?
Warren se levantou do sofá em que estava sentado em minha frente, e se aproximou de mim, sentando-se ao meu lado. Ele pôs uma mão em meu ombro. – Claro, claro. Será que você tá bem mesmo? As vezes você levou um raio da Tempestade enquanto fugia do instituto e nem percebeu. – Eu fiz uma cara de tédio.
- Warren, eu teria percebido se eu tivesse levado um raio? – Eu bati na cabeça dele. – Ah, claro, é loiro, né. – Eu gargalhei. Ele mostrou a língua pra mim.
- Uh, porque não faz o seguinte: Vai tomar um banho, pra ver se relaxa, e tal, e eu vou preparando um chá, com um comprimido, okay?
- Beleza. – Falei.
Ele me guiou até o quarto de hóspedes, e me mostrou o banheiro que tinha lá. Apontou onde ficavam as toalhas, e disse que iria arranjar algumas roupas pra mim. Warren me deixou sozinha, e após ficar um tempo encarando o prédio vizinho, eu entrei no banho. Primeiro, tirei o sobretudo, e eu comecei a tremer de frio. Quero dizer, eu já estava com muito frio só com o sobretudo de Scott, mas ainda assim, ele era quentinho. Eu tirei meu vestido, tremendo impossivelmente mais ainda. Então eu vi algo que me fez arregalar os olhos. Em toda minha barriga e coxas, havia sangue seco. O sangue já estava escurecido, e vinha de trás. Fui até o espelho, não tremendo tanto já que minha mente estava processando outra coisa. Me virei de costas, e lá estava, horrível. Um profundo corte nas minhas costas, de uns 30 centímetros, que estava começando a sangrar novamente. Minhas costas estavam totalmente cobertas de sangue. Era como se as garras de um animal tivessem rasgado minha pele. Eu me lembrei de Logan, mas minha mente negou qualquer possibilidade dele o ter feito. Não, ele não seria capaz.
Olhei para meu vestido jogado no chão. Sim, ele talvez estive encharcado, mas como era preto, foi impossível de eu ver qualquer rastro de sangue. Eu voltei a olhar o machucado. Eu pus as mãos em minha boca, e a dor apareceu, pela primeira vez. A carne era visível. Eu apertei meus olhos, e corri para o chuveiro. Liguei-o, e quando a água tocou meu machucado, eu gritei, mas com a mão pressionada em meus lábios, evitando barulho. Após alguns segundos com a água no machucado, me torturando, eu me virei de frente, fazendo com que a água caísse em minha barriga. Eu passei a mão livre por ali, fazendo com que o sangue seco escorresse para o ralo. Meu machucado começou a arder como se tivessem jogado álcool puro ali. Eu pus minha mão livre em cima da outra que estava em minha boca, rompendo o grito que estava rasgando meus pulmões. Eu passei a não sentir meus pés, e eu cai para frente, batendo minha cabeça na parede, fazendo ela doer. Eu procurei por Scott. Nosso elo confirmava sua presença. Ela estava fraca, mas o suficiente para dizer o que estava acontecendo. Scott estava agitado, como se sentisse minha dor. Lágrimas escorreram por meu rosto, e notei que não estava mais gritando. Eu o procurei. Minha mente vagou, vagou, achou várias mentes, menos a de Scott. Rapidamente desliguei o chuveiro, não agüentando mais ficar ali. Sai do box meio me arrastando, e peguei uma toalha qualquer, meio entorpecida. Eu só queria fazer a dor que libertei de minhas costas pararem. Nem lembrei de como usar meus poderes naquela hora. Me enxuguei, com exceção das costas, e depois de estar seca, enrolei a toalha nas costas. Apertei-a, na esperança da dor passar. Ela amenizou por um instante, mas logo começou a doer 2 vezes mais. Eu escancarei a porta, e me arrastei até a cama. Lá Warren, possivelmente, pôs umas roupas pra mim. Havia uma regata dourada, algumas blusas, um suéter largo. Uma caça, meias, tênis. Tinha também uma peça intima. Pus uma calcinha, que era preta, fio dental, o que parecia meio óbvio vindo da parte de Warren pra mim, e agarrei o suéter que parecia ter sido de alguém muito grande. Ela caia até metade de minha coxa, e a manga sobrava. Na hora em que o pus, a toalha afrouxou e escorregou para baixo, passando por meu corte. Eu gritei. Então gritei o nome de Warren. Eu cai de joelhos, e fiquei de quatro, me apoiando no chão, respirando pesadamente. Um som próximo, e Warren vindo em minha direção.
- Jean! Jean, o que houve? – Ele pôs a mão em meu rosto, que foi pra meu ombro, e pra minhas costas.
- Não! Ai não! – Gritei, me afastando dele. Ele pôs sua mão em meu rosto rapidamente, fazendo eu o olhar.
- Calma. O que tá acontecendo, Jean? – Seu semblante estava preocupado, seus olhos arregalados, sua respiração rápida. Eu falei, mais calma. A dor estava insuportável.
- M-Minhas costas...- Eu falei rapidamente. Ele puxou com calma o suéter tamanho +GGGGG, e sua respiração vacilou. Ele tirou a toalha quente de minhas costas, que só tapava metade do machucado, e o machucado ardeu. Ele pôs a toalha no lugar novamente, e voltou para me olhar.
- Por favor, o que eu tenho que fazer? – Eu olhei pra baixo, e fechei meus olhos. – Jean, você é a médica, o que eu preciso fazer?
Eu procurava algo em minha mente para falar a ele, a dor piorava cada vez mais, quando um calor me preencheu. Era como se algo estivesse fechado dentro de mim, e então vazado. Como uma bexiga cheia de água, que havia estourado, e estava me preenchendo. A dor continuava lá, e por um instante achei que estava morrendo. Mas não. Pelo contrário, me sentia mais viva, e a dor começou a passar. Minhas forças derrepente voltaram, e era como se tudo aquilo fosse um sonho. Eu abri meus olhos. Tudo estava mais claro. As cores estavam mais vivas. O frio havia se dissipado. Eu olhei para Warren, e vi o quão ele era bonito. Ele estava mais bonito do que antes. Seus olhos brilhavam mais. Algo dentro dele brilhava. Era uma luz que o iluminava, o deixava mais bonito.
Warren caiu para trás, engatinhando na direção oposta a mim. Então ele parou, olhando pra mim com uma cara meio confusa, assustada.
- Nada. – Eu me vi falando. Então eu pisquei. – O que foi, Warren? – Eu estranhei sua mudança repentina. Estreitei os olhos, e entortei o rosto para o lado. O homem em minha frente se levantou, e suas asas se abriram. Soube na hora que ele se sentia ameaçado.
- Deixa ela! – Ele falou. Algo dentro de mim gargalhou.
- Deixar o que? – Perguntei em dúvida.
- Deixe-a, se não eu vou ser obrigado a-
- Você é fraco de mais, garoto. – Eu falei, rindo, abaixando a cabeça, o olhando como se isso fosse um desafio.
- Não duvide da minha capacidade, monstro. – Ele disse com um olhar de revolta.
- Monstro, Warren? Monstro? – Disse, engatinhando até ele. Ele foi para trás, e eu fechei a porta com minha telecinésia. E derrepente, tudo o que eu queria era ele. Possuí-lo.
- Se afaste! – Ele falou. Tudo continuava vivo, e brilhante. Eu entrei na mente dele, o fazendo se acalmar. Imediatamente, seu corpo relaxou, e suas asas foram para atrás dele. Ele continuava indo para trás. Eu fiz ele ter mais uma onda de calma, com um pouco de prazer. Seu corpo novamente respondeu, o fazendo praticamente se apoiar na parede atrás dele. Eu cheguei até ele, e comecei a passar minhas mãos por suas pernas.
- P-Pare, eu n-nã... nã-o-o poss- – Ele vacilou quando joguei mais uma onda de prazer a ele. Eu comecei a se levantar, e enquanto minha mão direita percorria seu peitoral, minha outra parou em seu membro, que já estava duro. Eu cheirei seu pescoço, e meus lábios tocaram os seus. E eu comecei a beijá-lo. Ele correspondeu ao beijo, levando sua mão direita até meu rosto. Eu o pressionei mais, e nosso beijo esquentou. Tudo era fogo, fogo... Ele levou uma de suas mãos por baixo de meu suéter mega-grande, alcançando meus seios nus. Ele os massageava, beliscava levemente, e eu interrompi o beijo para soltar um pequeno gemido. Então me jogou para trás, fazendo eu cair na cama, e subiu em cima de mim. Voltou a me beijar, um beijo quente, um beijo que ele queria ter tido há muito tempo. Sua mão foi de meus seios pra minha barriga, e por onde sua mão passava, deixava rastros de calor. Então algo gritou dentro mim. Algo gritou para ele parar. A imagem de Scott Summers apareceu em minha mente, e eu interrompi o beijo. Warren não ligou, e foi para meu pescoço. Eu abri meus olhos, e olhei para o teto. O brilho, a claridade das coisas estava se dissipando. Warren subiu minha blusa, e começou a beijar meus seios. Sua língua explorava-o, fazendo movimentos circulares, dava algumas mordiscadas, sugava. Uma onda de prazer passou por mim, ao mesmo tempo em que senti uma tristeza.
- Warren... – Eu falei baixo, quase como um gemido. Ele olhou pra mim, mas não parou. Eu olhei pra ele, e ele beijou um ponto fraco, e eu abri minha boca, revirando meus olhos. Segurei seu rosto, fazendo-o parar. – Warren, não! – Ele me olhou, sério, mas ainda com semblante safado.
- Não o quê? Você pediu por isso... – Ele disse, beijando minha barriga, e descendo. Eu recuei, e ergui sua cabeça.
- Warren, por favor. Não! – Eu disse, com a voz mais firme. Ele suspirou, e seu rosto se tornou sério. Ele engatinhou até que seu rosto ficasse em cima do meu. Ele me olhava sério, pensativo. Eu pensei que ele fosse estourar comigo, e sair batendo a porta, me expulsar de sua casa, qualquer coisa, mas tudo o que fez foi segurar meu queixo, e aproximar seu rosto ao meu. E me beijou. Dessa vez, seu beijo foi calmo e doce, como o primeiro que ele me deu, há anos. Não foi muito longo. Terminou com um selinho. Sua mão, que estava em meu queixo, foi até a borda de meu suéter, que estava logo em cima de meus seios, e ele abaixou-o, o fazendo cair suavemente em minha coxa.
- Uh, seu... chá está pronto. Não sei se vai precisar tomá-lo agora, mas... – Ele disse com a voz baixa, um pouco rouca. Eu apenas concordei com a cabeça, e ele se afastou de mim. Ele pegou a toalha encharcada de sangue que havia estado em minhas costas, e saiu do quarto. E eu fiquei lá, olhando para a porta, processando o que havia acabado de acontecer. Sim, nós nos beijamos. Sim, eu quase havia feito sexo com ele. Mas, eu, que amava Scott, havia acabado de fazer essa loucura. Será que essa era realmente eu?
Não. Essa era eu. – Uma voz soou dentro de mim. Minha voz.
Meus olhos se encheram de lágrimas. E eu comecei a chorar, jogando um travesseiro em cima de meu rosto para abafá-lo. Após ficar um tempo lá, me levantei, e me vesti. Pus a calça, o tênis... Tirei o suéter, e coloquei então o sutiã, a regata, as blusas, e então o suéter. Meus cabelos estavam embaraçados. Fui até o banheiro, e catei um pente, e comecei a penteá-lo. Meu vestido estava caído no chão, e eu me lembrei do machucado. Eu passei minha mão em minhas costas, que estavam lisas, mas que agora a pouco estavam com um corte horrível de 30 centímetros. Eu me olhei no espelho. Meus olhos estavam um pouco inchados pelas lágrimas que derramei há alguns minutos. O rosto de Scott voltou a minha mente. Eu não o sentia direito, mas sabia que ele estava tranqüilo. Estava dormindo. E eu sabia que deveria resgatá-lo, onde quer que fosse, imediatamente.
Durante o dia, eu lavei meu vestido, que realmente estava ensangüentado. Minha relação com Warren foi normal, era como se nada tivesse acontecido. Eu assisti a um filme com ele, um filme policial. Após o filme, Warren foi se deitar, e a noite começava a cair. Eu me deitei no sofá, e pensei em uma forma de achar Scott. Eu tinha que vê-lo, e hoje. Nosso elo não estava forte como normalmente. Eu podia comunicar com ele se nosso elo estivesse forte, mas era como se tivesse uma barreira. Era como se ele estivesse tão distante, que eu não o sentia. Eu pensei em Charles, que também não estava no instituto, e todos achavam que ele estava morto. Eu tinha telepatia forte o suficiente para procurá-lo, é claro, se ele não estivesse muito distante. Foi o que eu fiz com Scott. Eu não consegui. E então eu tentei com Charles. Mas isso foi uma coisa muito estranha. Eu sentia o telepático mais poderoso do mundo, mas não Charles. Era como se o poder dele vagasse por ai, mas o próprio professor estivesse morto. Isso mandou arrepios por meu corpo.
Mas, então, eu não poderia encontrar Scott, mas Charles tinha a telepatia mais avançada, era possível que ele conseguisse achá-lo. Ou não.
E então uma idéia me ocorreu. E era uma brilhante idéia. Mas eu precisaria voltar ao instituto, o que não era legal, mas não era péssimo. Eu já havia tentado antes, e conseguido, então eu posso tentar novamente, já que estou mais forte: cérebro. É claro: Eu descobriria a localização de Scott, e já tomaria o X-Jato. Perfeito!
- Olá, bela moça. – Warren apareceu na sala.
- Warren, tive uma idéia. – Eu disse, pulando do sofá.
- Olha, está brilhante, bela moça. Me diga sua magnífica idéia. – Ele falou, se aproximando e se jogando no sofá.
- A gente chega no instituto, com um carro, normal, como se fossemos estudantes. Então eu uso o cérebro, e acho Scott. E logo a gente rouba o X-Jato e manda bala. Viu, tava na ponta do meu nariz.
- Isso é maravilhoso, bela moça.
- Para de me chamar disso. – Eu reclamei. Ele riu.
- Mas, você, usando o cérebro? Acha que consegue?
- Eu tenho certeza. Já tentei uma vez, não vai ser um problema.
- Jean, será que dá pra parar de andar de um lado para o outro? Está me deixando meio tonto. – Eu estava animada, e elétrica. Eu parei, mas não consegui conter meus pés e minhas mãos.
- Okay.
- Olha, o Pássaro Negro faz um barulho horrendo lá no instituto. Vão ouvir.
- Que se dane, a gente vai estar fugindo mesmo. A Ororo não é louca de mandar um raio mega poderoso com a gente dentro, e ninguém vai seguir a gente com o outro jatinho. A gente pode até avisar eles pelo radio. – Eu sorri. – E então?
- Okay, vai ter tempo pra pensar ainda...
- É pra hoje.
- Quê? Já? Que apressada. Você acha que eles não estão alertas quanto a ontem? Eles vão catar a gente, e aí vai ser meio que a hora do pau.
- Tá dando de falar igual ao Coisa do Quarteto Fantástico? – Eu ri alto. – Tá na hora do pau! – Eu falei imitando o Coisa. Ele riu junto. Depois de rir, eu disse a ele: - Olha, nós somos um dos melhores X-Mens. Nós somos a equipe original, nós podemos.
- Quem dera... X-mens originais versus Novos X-mens. – Ele disse como se estivesse narrando uma luta. Eu chutei ele.
- Para, faz eu me sentir mal. – E era verdade.
Ele parou, e então um silêncio pesado se seguiu. Warren encarava o chão em sua frente. Ele olhou pra mim: - Então, que horas é que nós vamos mandar ver?
- Jean, pare de se mexer tanto. – Warren disse. – Até parece que você prestes a assassinar alguém. Eu revirei os olhos e fiquei quieta. Coloquei minhas mãos entre as pernas.
- Será que alguém está acordado? – Perguntei, com o coração na mão. Estávamos virando a curva que dava para a rua do instituto.
- Espero que não. – Ele falou indiferente. Eu o olhei.
- Espero que não? É claro que não vai ter ninguém. Já é tarde. – Falei com a voz meio trêmula. Cruzei os braços.
- Ouch, então porque perguntou? – Warren riu. Eu comecei a bater o pé impacientemente. Warren falou novamente: - Pare de se remexer, guria.
- Eu to nervosa. – Disse olhando para o começo do grande muro coberto por folhas da escola.
- Se percebe. Eu já disse, não vamos assassinar ninguém. Nós, pelo menos não. – Eu o olhei, fuzilando-o pela ajuda. Então chegamos ao portão.
- Okay. – Eu fechei os olhos, respirei fundo, e repeti umas 10 vezes que era pelo Scott. E depois mais 10 que eu não estava fazendo nada de mais. Eu estava começando a repetir a mim mesma que iria dar tudo certo, quando Warren me interrompeu.
- Hey! Cê vai ir ou não? – Ele me olhava com um olhar divertido. Eu fiquei mais brava por isso.
- Calma, to indo. – Falei, pondo meu capuz.
- Uhun. – Warren murmurou.
- Me dê boa sorte. – Disse com a mão na porta. Ele riu.
- Boa sorte, J- – Eu não ouvi a frase completa porque eu já estava indo em direção do grande portão. Ao lado direito, uma pequena máquina, que funcionava como uma chave para abrir o portão. Isso quando era á noite e o alarme já estava acionado, pois de dia o portão abria automaticamente. Era só eu por minha digital, e os alarmes destravavam, o portão abria. Fui até a máquina, tirei minha luva, e pus meu dedo ali. A máquina deu como Digital não reconhecida. Tente novamente. Imediatamente soube que era por causa do suor que se acumulou em minhas mão, não porque estava quente demais – pelo contrário, eu tinha até dificuldade em mexer meus dedos –, mas sim por causa do nervosismo. Eu passei minha mão com raiva na roupa.
- Essas máquinas são uma bosta. – Murmurei a mim mesma, e esfreguei mais forte. – Quando eu voltar, eu preciso falar pro Charles atualizar essas máquinas podres. – Fiz bico e pus meu dedo novamente, agora com força. A máquina mostrou letras na tela que fez meu mal-humor desaparecer, e a ansiedade voltar. Acesso autorizado – Jean Grey. Uma voz robótica de mulher falou: Seja bem-vinda, Jean Grey. E o portão se abriu. Eu corri até o carro novamente, e entrei. Warren pôs o carro para andar. Ele estava rindo, talvez da minha birra. Coloquei a luva novamente.
Como combinado, eu vi se tinha alguém acordado no instituto. Ter até tinha, mas eles estavam sonolentos, logo dormiriam.
Warren guiou o carro até o estacionamento. O portão abriu, e nós entramos. Ele não procurou uma vaga pra estacionar. Apenas parou o carro perto do elevador que levava para o andar que precisávamos ir, que era o andar do cérebro, das salas de treinamento, do lab, do Pássaro Negro.
Nós saímos imediatamente. Eu bocejei. Deveria ter dormido antes de vir. Eram 2:30 AM, mais ou menos. Nós entramos no elevador.
- Cara, isso aqui tá muito bizarro. – Warren disse enquanto apertava um botão do elevador, com um pequeno sorriso no rosto.
- Não vai me dizer que isso aqui parece aqueles filme de policial, tipo o que a gente assistiu hoje porque-
- Porque ele é bem parecido. – Ele terminou a frase por mim, mas do modo dele. Eu revirei os olhos. O silêncio voltou.
- E você não vai me dizer que é melhor a gente ficar quieto, porque ninguém-
- Porque alguém pode ouvir sim. – Foi minha vez de contrariá-lo. Ele riu brevemente. O elevador parou, e abriu. Não havia absolutamente ninguém no grande corredor branco em nossa frente.
- Nossa, isso é verdade. – Ele disse. Eu dei um soco no ombro dele, e fui andando na frente. Atrás de mim, ele murmurou algum tipo de ai.
Eu andava em passos largos, em direção do cérebro. Eu me certifiquei de que ninguém estava acordado. E alguns únicos que estavam, resolvi por algo na mente deles do tipo, uh, acho que vou dormir.
Logo, eu já estava no corredor em que o cérebro se encontrava. Eu olhei para trás, e Warren me seguia, com certa distância. Eu olhei novamente para frente, e comecei a diminuir meu passo. Warren jogou sua mão em meus ombros, e me guiou até eu estar a 2 metros da porta principal. Ele me fez olhar pra ele. Encarava-me sério.
- Tem certeza que quer fazer isso?
Eu engoli seco. – Tenho. – Eu olhei para a porta, e me agachei, de um modo em que a luz azul de identificação e chave do cérebro tocasse meus olhos. Um som de algo se destravando, e então novamente: Seja bem-vinda, Jean Grey.
Eu sorri brevemente. Mesmo eu estando morta, eles não retiraram meu registro. Então voltei a ficar série. Me endireitei, e andei para frente, observando a grande sala redonda. Warren me seguiu, e a porta se fechou. Ele não havia desencostado de mim em nenhum momento. Então, eu cheguei a poucos metros do capacete prateado. Eu olhei para Warren. Ele continuava a me olhar de um modo preocupado.
- Eu vou fazer isso. – Falei, confiante. E pus o capacete em minha cabeça. Warren se desencostou de mim, e eu fechei meus olhos. Então botei meus poderes para funcionar. Um som se fez presente, o som típico do cérebro. E ai, minha cabeça começou profundamente doer. Eu prossegui. E, num impulso, várias luzes vermelhas e brancas nos cobriram. Eu olhei, maravilhada. A dor em minha cabeça aumentava em uma velocidade incrível. Procurei por Scott. Scott Summers... Meu amor, onde é você está? Então eu o vi. Ele estava lá, a imagem se formou em minha frente. Minha respiração logo ficou desigual, meu coração pulou uma batida, e eu sorri. Estava deitado em um sofá, estava triste, muito solitário. Alguém havia o levado para lá... Para Paris. Era uma mulher... Seu nome era Emma. Emma Frost. Rainha Branca. E minha mente pareceu estar a um tanto para explodir. Uma lágrima escorreu por meu rosto. Scott usava um pano amarrado em seus olhos. Estava sem o óculos. Não podia enxergar. Ele se moveu. E eu rompi minha telepatia. Eu perdi o equilíbrio, e dois pares de mãos me seguraram. A porta do cérebro se abriu.
- Jean! Jean, você está bem? – Warren me chacoalhava freneticamente. Eu estava esgotada, mas sorri.
- Que tal irmos a Paris, mon amour? – Eu me movi, e consegui ficar em pé. Ele respondeu com um sorriso.
Nós corremos do cérebro, e fomos em direção do X-Jato. Estávamos na porta na sala escura, quando me lembrei de algo.
- Não, espere, eu tenho que subir. – Eu parei subitamente.
- Por quê? – Ele falou com a testa enrugada.
- Eu tenho que pegar umas roupas, e o óculos dele, como você mesmo viu.
- Jean... Por favor, cuidado. Estou te esperando aqui.
- Não! Vai tirando o Pássaro Negro, eu te alcanço. – Eu me virei, e corri, deixando Warren para trás. Minha cabeça doía, mas eu podia usar meus poderes. Eu ativei minha telepatia, e levei um susto quando descobri que Fera corria para o elevador em que eu estava correndo para pegar. A única diferença era que eu estava subindo, e ele descendo. Eu corri para outro lado, atrás de outro elevador. Eu entrei nele, e subi. Ainda estava com a touca. Eu respirei fundo enquanto o elevador subia até 5º andar. O elevador. A porta abriu. Eu sai do elevador, indo para o corredor. As luzes do instituto estavam todas apagadas, inclusive essa do corredor. Talvez ao eu usar o cérebro, minha telepatia causou interferência na energia daqui. Olhei para a direita, e alguém estava parado no fim do corredor. Uma cauda surgiu atrás daquela pessoa. Noturno! Eu corri na direção contrária, sabendo que ele poderia me pegar facilmente. Um som abafado, e outro som, mais próximo de mim. Eu me esquivei de um ataque, e chegou até mim seu familiar cheiro de enxofre. Eu não estava apta para anular seus poderes, então eu criei algo como se fosse uma bolha em volta de mim, um barreira para evitar ataques. Eu cheguei ao meu quarto, e lá estava Logan, sentado na cama, fumando um charuto. Ele olhou para mim, e suas garras saíram para fora.
- Procurando alguma coisa, amiga? – Ele pulou para cima de mim. Eu voei para cima, usando meus poderes, me desviando de seu ataque. Do lado de fora, Tempestade pousou na sacada. Sem saída, eu ergui minhas mãos para cima, em sinal de rendição, é claro, tomando cuidado para não mostrar meu rosto. Eu continuava a usar meu escudo, mas tinha medo de que ele falhasse bem na hora do ataque. Eu peguei algumas roupas pela minha telecinésia, e o óculos e visor que Scott guardava de reserva, que ficava dentro de uma caixa, no fundo do armário. Eu deixei tudo escondido num canto. Logan se aproximou de mim, mas meu escudo não o deixou se aproximar, e como um imã, ele foi puxado para trás. Ele tentou novamente, dessa vez com mais velocidade, e ele foi puxado para trás novamente, com mais força.
- O que diabos? – Logan se irritou. Noturno apareceu na sala, ao lado de um homem.
- Acalmassem. Está tudo bem. – O homem disse. Incrivelmente sua voz lembrava a de Charles.
- Quem é você? – Ororo disse, com um tom de ameaça. Mas eu não liguei. Estava entrando na mente do homem desconhecido, e tudo parou. Era... Charles? O qu- o quê... Eu estava com os olhos arregalados, minha boca aberta. O som da turbina do Pássaro Negro no lado de fora. Chegou a hora. Não sabia que Fera também estava ali até que ele falou que estavam pegando o Pássaro Negro. E a luz no local vacilou, antes de acender por total. E então o clima ficou tenso. Logan gaguejava. Ororo soltou um 'pelos deuses'. Noturno começou a rezar. Fera murmurava algo. Mas o único que ficou com a expressão branda foi aquele homem que eu nunca tinha visto em minha vida, mas que era Charlie. Uma lágrima escorreu por meu rosto. Logan deu um passo para frente.
- Me desculpe... – Sussurrei. E corri para o lado de fora, me jogando da sacada, voando até o Pássaro Negro que já estava subindo da quadra de esportes. Sua porta de emergência estava aberta, e eu adentrei no jato, antes de não sentir mais minhas pernas, e cair de joelhos no chão, com lágrimas nos olhos, e dor no coração por saber que quem havia matado Charles... Fui eu.
