Capítulo 03 – 1° Ano – Parte 3 de 3
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Dezembro, 2017. Natal
Albus se remexeu na cama na medida em que era trazido dos sonhos para o despertar. Estava tendo pensamentos desconexos, como muffins, vassouras com defeito e presentes de Natal. Aquilo o trouxe desperto no mesmo instante e ele fez uma prece silenciosa para que já fosse de manhã.
Abriu os olhos. Alguns fios disformes de claridade entravam pelos vãos da janela. Albus se pôs de pé num piscar de olhos e teve que voltar a se sentar por causa de uma vertigem. Rápido demais!
Assim que se recuperou, Albus foi até a porta, abriu uma fresta e espiou os dois lados do corredor. A porta do quarto de James estava fechada. Com sorte, Albus chegaria antes que o irmão. O moreno saiu correndo em direção às escadas e mal teve tempo de registrar pelo canto do olho a porta do quarto de James se abrindo.
"Hey!"
Numa reação rápida, James esticou o pé em sua frente e Albus tropeçou, caindo mais a diante.
"Não tão depressa, maninho".
"Cai fora, James. Eu vou chegar primeiro dessa vez".
"Nos seus sonhos, pivete".
Os dois correram desenfreados pela escada, se acotovelando, se empurrando e brigando. Nem passou pela cabeça de ambos que o barulho que faziam era suficiente para acordar a casa toda. James obteve vantagem nos últimos degraus e Albus correu logo atrás, parando para admirar a árvore enfeitada.
Enquanto isso, James vasculhava os presentes sem nenhum cuidado, chacoalhando os embrulhos, procurando as identificações, até encontrar dois embrulhos finos e retangulares.
"Oh, espero que não sejam livros..." disse James, pegando o primeiro e atirando o segundo para Albus, que quase o deixou cair. "Tome, esse é seu. O cartão diz que é do papai".
Albus se acomodou numa poltrona, procurando um meio de abrir o embrulho. James foi mais direto, rasgando o papel de presente e fazendo uma careta.
"Um espelho? Que tipo de piada é essa? Será que foi o Fred?" James voltou a chafurdar nos papeis, provavelmente procurando outro cartão com um 'Há, peguei você, otário' de seu primo Fred.
Enquanto isso, Albus abriu cuidadosamente seu presente e encarou o próprio reflexo no espelho. A borda era de bronze com entalhes ornamentais e reluzia, mas não parecia novo. Apenas polido recentemente.
"Será que vocês não poderiam fazer um pouco mais de barulho? Acho que os vizinhos do final da quadra ainda não ouviram" Albus ergueu os olhos para o pai, que estava de pijamas encostado ao batente da porta sala.
"Papai! Feliz Natal!" Albus correu até ele e o abraçou, o espelho ainda firme em uma das mãos.
"Feliz Natal, meninos". Harry respondeu girando Albus e bagunçando seus cabelos.
"Feliz" respondeu James, enfiado até a cintura nos presentes, desembrulhando mais alguns.
"Hey, você está mais pesado, Albus. O que estão servindo naquela escola? Ração para hipogrifos?" Harry o colocou no chão novamente.
"Devem ser as plumas. Eu poderia jurar que Albus está prestes a aprender a voar sem precisar de uma vassoura" provocou James.
"Cala a boca, Jimmy" Albus emburrou.
"Não ligue para ele, Al. Eu era magro como você quando tinha a sua idade" assegurou Harry.
"E tinha joelhos ossudos também?" James voltou a provocar e Albus resmungou algo sobre o irmão ser um idiota.
"Temo que sim" Harry se virou para o filho mais velho. "Jimmy, não vai me dar um abraço?"
James se pôs de pé, espanou alguns pedaços de papel de presente rasgados do pijama e deu um meio abraço no pai.
"Pai, eu já sei que sou bonito, não preciso de mais um espelho" ele argumentou, ao que Harry sorriu.
"Bem, não é um espelho comum, bonitão".
"Não?" James cutucou a própria imagem. "Parece bem comum para mim".
Harry se sentou na poltrona que Albus tinha ocupado antes e bateu nas próprias pernas.
"Venha cá, Albus. James vá para a cozinha. E leve seu espelho".
"Por quê eu tenho que sair? Por que não Albus?"
"Vá, James. Pegue alguns muffins para nós e eu conto para que servem os espelhos".
"Muffins? Está bem, contanto que eu tenha direito a comer pelo menos cinco a mais que esse folgado do Albus, então".
James saiu e Albus se acomodou no colo do pai se achando um pouquinho grande demais para aquilo. Mas, afinal, era Natal.
"Preste atenção, Albus" Harry inclinou o espelho de modo que ambos pudessem se ver refletidos nele. Albus não pôde deixar de comparar sua imagem à de seu pai. A cor dos olhos definitivamente era a mesma. "James Potter" ele chamou.
Por um momento nada aconteceu. Mas antes que Albus pudesse ficar desconfiado, a imagem do espelho mudou para um borrão de cores. Parecia que ele estava olhando a paisagem mudando rápida pela janela do Expresso de Hogwarts. Então ele reconheceu a cozinha e viu um relance de um cesto de muffins.
"Hmmm!" ele ouviu o irmão dizer. "Ninguém vai perceber se eu pegar só um..."
Então viu uma mão do irmão congelar quando seu pai voltou a falar.
"Ninguém vai perceber o quê?"
"AAHRG!"
Albus enfim se deu conta do que estava acontecendo e caiu na risada quando a imagem trepidou. No instante seguinte, a face assombrada de James preencheu o espelho.
"Um espelho de duas faces! Igual o do seu padrinho, papai?"
"Não igual. É o do meu padrinho".
"Mas..."
"Venha, Jimmy. E traga os muffins. Todos eles. Tchau".
"Wow!" Albus exclamou maravilhado quando o espelho voltou a ser... bem, um espelho.
"Papai!" James veio correndo, o espelho em uma mão e o cesto na outra. "Papai, como é que funciona? Não estava quebrado? Eu posso ficar com os dois?"
"Calma, uma pergunta de cada vez. Deixe esses muffins na mesa. E não, você não pode ficar com os dois, James".
"Ahhh..."
Harry o ignorou.
"Para ativar é só chamar o nome do dono do outro espelho. Se mudar de dono, ele deve ser reprogramado. Para desligar, é só dizer 'Tchau'".
"Ah, podia ser alguma coisa mais legal, do tipo 'Câmbio desligo' ou qualquer coisa do tipo. Como é que reprograma?" James parecia quase angelical, mas Harry pareceu perceber suas intenções.
"Você não vai precisar reprogramar, Jimmy".
"Ahhh..."
"Como eu ia dizendo, são os mesmos espelhos que pertenceram a Sirius e ao avô de vocês. Eu teria comprado um novo, mas a tia Mione se ofereceu para tentar novamente consertar o meu e... bem, estamos falando da tia Mione, afinal. E eu pedi o outro a Aberforth Dumbledore. Eu imaginei que, já que vocês dois ficaram em casas separadas, iam gostar de ter um meio fácil de se comunicar".
"Hmpf!" James cruzou os braços. "Albus não parece precisar disso. É Scorpius para lá, Scorpius para cá..."
"Olha só quem fala! Você queria o meu presente para dar ao Wilbur!" retrucou Albus.
"Se vocês não quiserem, eu posso guardar para dar para a Lily..." começou Harry, mas Albus e James pareceram entrar em um acordo rapidamente.
"Não!" os dois disseram ao mesmo tempo.
"Ótimo. Fico feliz que gostaram. E cuidem muito bem deles, pois não sei se sobreviveriam a outro acidente. Agora voltem para os outros presentes. E passe um muffin para mim".
"Obrigado, papai" Albus agradeceu assim que desceu do colo de Harry, que bagunçou seus cabelos novamente.
No momento seguinte Lily apareceu, seguida de Ginny e todos se puseram a abrir presentes.
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Harry observou do canto da sala enquanto seus três filhos interagiam normalmente.
"Eu também quero um espelho de duas cabeças, papai!" dizia Lily, fazendo bico.
"É 'duas faces', Lily! E para isso ele precisaria ter três. Vá brincar com seu ursinho!" James provocou.
"Mamãe, o James me bateu!"
"Que mentira...!"
"James, pare de importunar a sua irmã" Ginny nem se deu ao trabalho de ir para a sala ver o que acontecera.
"Mas eu não fiz nada...! Por que tudo é minha culpa?"
"Papai!" Albus veio até ele. "Onde estão aqueles chocolates que eu pedi? Tenho que mandar para Scorpius!"
"Eu não sei. Pergunte para sua mãe. Ela ficou de fazer um embrulho bem bonito".
"Bonito não" Albus torceu o nariz. "Tem que ser um embrulho legal".
"Chá?" Ginny apareceu com uma xícara de chá, que Harry aceitou, agradecido.
"Mamãe!" Albus mudou rapidamente de alvo. "Cadê os chocolates do Scorpius? A senhora não fez um embrulho de menininha, né?"
Ginny riu.
"Eu vou pegar, daí você diz se ficou bom. Ok?"
"Ok. E eu vou pegar o cartão que eu fiz" ele saiu correndo para o andar de cima.
"Não se esqueça de vestir o casaco quando voltar. Está nevando lá fora" Ginny recomendou.
Harry meneou a cabeça. Lembrou-se das primeiras cartas de James a respeito da amizade suspeita de Albus com o filho de Draco Malfoy. Tinha se divertido particularmente com uma das primeiras, que dizia:
"Mas voltando àquele assunto que vocês me pediram para esquecer – desculpe, mas é como pedir para ignorar uma unha encravada cheia de pus e latejante –, eu estou realmente preocupado com Al. Ele está sob a ilusão que um dos colegas da Sonserina, ninguém menos que o filho do Draco Malfoy, é seu amigo! Eu disse 'amigo', porque foi essa a palavra que ele usou para descrevê-lo. Eu OUVI! Se quiser extrair a memória diretamente da minha cabeça e examiná-la, sinta-se a vontade, papai. Além disso, perguntei para Rose e ela disse que Albus parece se dar bem com aqueles garotos de índole duvidosa da classe dele. Rose não compartilha das minhas suspeitas, mas eu acredito que Albus esteja sob efeito de feitiços para confundir ou – eu não duvidaria – a maldição Imperius. Vocês sabem do que eles são capazes, esses sonserinos..."
Harry tinha se surpreendido, não havia dúvidas. Não tanto pelo filho ter sido sorteado para a Sonserina, Albus se parecia tanto com ele mesmo que Harry já tinha convencido a si mesmo que o Chapéu Seletor iria ao menos fazer a proposta. Só não havia se dado conta de que isso significava uma inevitável proximidade com o filho de Malfoy. E nem tinha imaginado que ambos se dariam tão bem.
"Você acha que o menino pode ser má influência para Albus?" perguntara Ginny quando da primeira carta de James. Mas Harry achava mais provável o contrário. Quem sabe Albus não seria uma boa influência para o garoto? De qualquer forma, Ginny tinha concordado que ele devia ter uma conversa com o filho a esse respeito.
Enquanto esperava que Albus retornasse, Harry se serviu de mais um muffin. James examinava com desconfiança seu último pacote. A julgar pela maneira como ele sacudia, cheirava e encostava o ouvido no pacote, Harry podia dizer com certeza que era de Fred.
O que se provou correto quando a caixa explodiu em uma fumaça amarela e a sala foi impregnada pelo cheiro de enxofre.
"Ugh! Nojento!" Lily tapou o nariz e se afastou do irmão mais velho.
Harry perdeu o gosto pelo muffin e enfiou metade no bolso do pijama.
"Vamos sair daqui, vocês dois" chamou. "Sua mãe vai saber cuidar disso. Ginny?"
Ginny apareceu da cozinha e deu um passo para trás, com ânsia.
"Oh, de novo não... Subam para seus quartos vocês dois. Harry, leve o presente de Albus. Depressa!" ela disse, sacando a varinha. Ela não precisou falar de novo. Num segundo todos já tinham se retirado.
Harry transfigurou as pantufas em botas, vestiu um casaco por cima do pijama e um cachecol ao sair e assistiu do lado de fora quando um Albus desavisado desceu as escadas. Felizmente ele tinha se lembrado de se agasalhar também. Harry acenou para que ele também saísse.
"Fred?" Albus perguntou, aspirando um pouco do ar gelado. Seu nariz ficou instantaneamente vermelho de frio.
"Sim. Fred. Tome o meu cachecol. Quer que eu segure o cartão?" Harry apontou para o cartão de Natal que Albus trazia, mas Albus negou prontamente. "Vamos para o corujal? Eu ajudo você com Atena. Gostou do embrulho?"
"É. Parece legal" Albus concluiu depois de um rápido exame.
Eles caminharam em silêncio. Harry se lembrou de quando fazia o trajeto de poucos passos segurando na mão do filho. Aparentemente Albus já estava grande demais para isso. Atrás da casa, Harry construíra um cômodo semi-aberto onde quatro corujas dormitavam. Assim que avistou Albus, a menor de penas cinzentas agitou as asas.
"Olá, Atena!" Albus deixou o presente e o cartão em cima de uma mesa e foi pegar a coruja.
Harry aproveitou para dar uma espiada discreta no cartão.
Era simples. Os votos de Boas Festas vieram impresso no cartão. Abaixo, na letra de Albus havia umas poucas palavras: 'Feliz Natal, Scorpie. Espero que goste dos chocolates. P.S.: não se esqueça de dar biscoitos para Atena'.
O que fez Harry se lembrar do muffin que trazia no bolso, ao ouvir o bater de bicos exigente da coruja. Passou o petisco rapidamente para Albus.
Por alguns minutos, eles se empenharam em amarrar o cartão e o presente à perna da coruja. Albus deu breves instruções para a coruja, que saiu voando no mesmo instante.
"Então" Harry puxou conversa, sentando-se na mesa e levantando o filho, para que o acompanhasse. Albus balançou alegremente os pés suspensos. "Quer me contar sobre o seu amigo?"
"Scorpius?" ele pareceu hesitante.
"Sim. Vocês se dão bem?"
"Sim... ele é legal. Apesar do que James possa ter dito. Quero dizer" ele se remexeu, desconfortável. "Ele não parecia muito legal no começo e... não se dá muito bem com mais ninguém. Mas ele é legal, depois que você o conhece".
"Sei..." Harry tentou encorajá-lo a continuar. Ele parecia mesmo ter muito a dizer.
"Sabe, ele só é sozinho, eu acho. Quero dizer, ele não tem irmãos. Nem primos da idade dele. Papai, ele disse joga quadribol com o pai dele!" ele disse como se fosse o maior absurdo do mundo.
"Bem, você também joga quadribol com o seu pai. O que há de errado nisso?"
Albus rolou os olhos.
"Ele joga só com o pai dele. Com mais ninguém. E vive numa mansão só com adultos!"
"Ah... entendo..."
"E... bom, ele é um pouco mimado. E parece não se importar com ninguém. Mas... é só o jeito dele, sabe?"
"Sei..."
A cada frase, Albus ia se soltando mais, como se não pudesse ser contido depois de ter começado.
"Ele não sabe muito sobre trouxas também".
"É mesmo?"
"É. Ele achava que os trouxas não eram muito inteligentes. Mas então eu disse que nem todos os bruxos são muito inteligentes e que isso acontecia com os trouxas também. Certo?"
"Certo. E ele acreditou em você?"
"Sim. Bem, talvez não muito. Até porque ele não conhece nenhum trouxa. Então eu disse que o senhor já morou com alguns e que, por mais que eles não tenham sido muito legais, que tem muitos trouxas legais. E contei sobre electri..."
"Eletricidade".
"Isso. E ele achou isso interessante. Ele disse que não acredita que os trouxas façam o sangue dos bruxos ficar menos mágico".
Nesse ponto Harry ergueu as sobrancelhas, admirado.
"Ele disse isso?"
"Disse. E disse que o pai dele não quer que ele fique chamando os outros de sangue-r... bem, de coisas feias".
"Hm..."
Isso sim era interessante. Parecia que Malfoy tinha mesmo amadurecido. O que era bom. E estranho.
"Mas o avô dele parece não gostar de trouxas".
"Imagino que não".
Albus esfregou as mãos uma na outra e enfiou-as no bolso do casaco. Harry também sentia os dedos dormentes de frio.
"Papai?"
Harry olhou para o filho e se viu sob o olhar atento dele.
"Sim, Al?"
"Por que o senhor nunca mencionou nada sobre Draco Malfoy?"
Harry suspirou. Certamente não tinha se iludido de que escaparia disso para sempre. Analisou o quanto deveria dizer. O quanto Albus estaria pronto para entender. Então subitamente viu a si mesmo no olhar do filho. Um garoto tentando descobrir porque todo mundo escondia as coisas dele, contando meias-verdades e esperando que ele se contentasse com aquilo por agora.
"O que você sabe sobre Draco Malfoy?" ele perguntou, tentando saber de onde deveria partir.
"Hmm... eu conheci o quadro de Albus Dumbledore e ele disse..."
Uma luz vermelha se acendeu na mente de Harry.
"Você esteve na diretoria?"
"Ah... erm... eu estive..." Albus admitiu, pesaroso.
"Quer me contar a respeito?" Harry continuou com seu tom ameno. Não queria repreender o filho. Tinha certeza que McGonagall já fizera essa parte. Então teve um palpite: "E não precisa acobertar seu irmão".
"Promete que não vai brigar com ele?"
Harry pensou por um momento.
"Ele já se redimiu?" perguntou ao filho.
"Sim. Pediu desculpas e tudo".
"Então eu prometo" Harry sorriu, tranqüilizador.
Albus contou tudo sobre o incidente depois da partida de quadribol. Harry escutou com atenção e analisou que teria agido exatamente como James, que também teria desconfiado de Malfoy. Por outro lado, teria defendido um amigo exatamente como Albus fizera. Ter James e Albus como filhos era quase como sofrer de dupla personalidade.
"É verdade, papai? Que o senhor quase matou o pai de Scorpius?"
Harry abaixou a cabeça. Tentou conter a imagem de Draco caído no chão do banheiro, os cortes, o sangue se espalhando rapidamente, mas falhou. Harry sentiu outra onda de remorso ao descobrir que deixara cicatrizes em Draco.
"É verdade. E não me orgulho disso, pode ter certeza. Por mais que nós não nos entendêssemos, eu nunca tive intenção de matá-lo".
'Talvez socá-lo até o deixar inconsciente' pensou. Draco Malfoy sabia ser idiota como ninguém. Harry sacudiu tais pensamentos. Aquilo era passado. Talvez, se tivesse a oportunidade de Albus, quem sabe não teria feito diferente. Quem sabe não teria poupado tantos infortúnios a Malfoy...
Ora, quem ele queria enganar? Ele tivera sua oportunidade. E achara que Draco não valia o esforço.
"Então vocês se odiavam mesmo?" Albus continuou.
"É... nós nos odiávamos".
"Mas já não se odeiam mais?"
"Não. Pelo menos não de minha parte. Não posso dizer nada por ele".
"Por quê?"
Harry explicou, da melhor maneira que pôde, como os Malfoy, como tantas outras famílias, tinham feito escolhas equivocadas e como muitas delas se arrependeram e já não podiam mais voltar atrás. Contou como Draco foi ameaçado e usado para uma vingança de Voldemort contra Lucius Malfoy. E como Draco tinha abaixado a varinha no último momento, tentado pela proteção de Dumbledore.
"E o senhor o salvou?"
"Nós estávamos numa guerra. Eu fiz por ele o que faria por qualquer outro no lugar dele".
Foi a vez de Albus ficar pensativo.
"E por que o senhor nunca nos contou isso, papai?"
"Porque eu não queria que vocês julgassem Scorpius a partir das decisões erradas que o pai dele tomou. Como eu julguei Draco por causa do pai dele" Harry pensou que devia ter imaginado que Ron e George não teriam o mesmo cuidado em relação a isso. "Mas eu admito que não imaginava que vocês fossem se tornar amigos".
"E... o senhor está bravo...?"
"Claro que não" Harry bagunçou os cabelos do filho. "Pelo que você disse, Scorpius é um bom garoto. Eu confio no seu julgamento".
"E... acha que o pai de Scorpius vai ficar bravo?"
"Não. Creio que não".
Albus respirou aliviado.
"Obrigado papai".
"Não se preocupe com isso. E tente não se meter em mais encrencas, está bem? Você não vai querer ter a diretora no seu pé, acredite".
"Eu acredito" Albus admitiu em tom sombrio e Harry sorriu.
"Vamos?" Harry se pôs de pé e ajudou o filho a descer. "Acho que mamãe já deu um jeito na bomba de pum de Fred".
Eles se puseram a caminhar de volta para casa, conversando casualmente.
"O Teddy vem hoje, papai?"
"Vem sim. É provável que ele traga Victorie também".
"É verdade que eles estão namorando?" Albus tinha dito aquilo como se fosse algo nojento e Harry riu.
"Sim".
"Argh! Eu nunca vou namorar".
"Certo... Fiquei sabendo que você já foi convidado a fazer parte do Clube do Slug. E que não compareceu a nenhuma reunião. O Prof. Slughorn ficou muito magoado, sabe..."
"Ah, me desculpe, papai. Mas ele se enganou ao meu respeito. Eu não sou tão bom assim com Poções".
'Ah, se você soubesse...' pensou Harry, meneando a cabeça divertido.
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Draco olhava pela janela da sala a neve caindo sobre a propriedade tentando não participar da conversa mansa de seu pai com o neto. Scorpius já tinha terminado de abrir os presentes de Natal e Lucius já tinha falado sobre a árvore genealógica de quase todos os colegas de Scorpius.
"Buckingham?" dizia Lucius, pensativo. "Creio que conheço, mas não consigo me lembrar exatamente. Draco, esse sobrenome lhe lembra algo?"
Draco suspirou.
"Primos de segundo ou terceiro grau dos Zabini" recitou, contrariado.
"Ah, sim, agora me lembro. Ouvi falar de um casamento com uma trouxa alguns anos atrás, mas ninguém é perfeito... Mais algum, Scorpius?"
"Além de Potter? Não" Scorpius soou apático. Mas ele sempre falava com fria polidez com seu avô. Como se falasse de adulto para adulto. E isso fazia os olhos de Lucius brilharem.
"Potter, claro... Draco, você sabia que eles tinham um filho da idade de Scorpius?"
"Não" Draco mentiu, sem olhar para o pai.
"Bem, quem poderia saber? Essas famílias de hoje em dia têm filhos como coelhos. Como já era de se esperar, vendo com quem Potter se casou. Aparentemente não se pode mais confiar naquele Chapéu. A Sonserina já foi uma Casa de respeito".
Lucius se referia a um incidente de alguns anos atrás quando um garoto de pais trouxas foi sorteado para a Sonserina. Ele tinha algum sangue bruxo na descendência dos avós maternos, mas aquilo tinha bastado para fazer da vida do menino um inferno, segundo o que ouvira falar. O garoto acabou sendo transferido para outra escola.
"E como se mostrou o menino, afinal?" Lucius perguntou, calmamente.
Scorpius hesitou antes de responder e Draco não resistiu ao impulso de olhar para trás. Aparentemente Scorpius continuava não se importando. Ele deu de ombros.
"Normal" Scorpius concluiu.
Lucius o estudou por um momento.
"E como foi recebido pela casa?"
"Mal. Fizeram algumas brincadeiras de mau-gosto com ele" nesse ponto Draco notou que ele não tinha se incluído no 'fizeram'. "Mas ele se saiu bem, no final. Ameaçou um dos líderes e foi deixado em paz".
"Interessante" Lucius bebericou seu chá sem nunca desviar os olhos do neto. "E você? Fez alguma aproximação dele?"
Scorpius deu de ombros novamente.
"Nós estamos no mesmo ano. Fizemos alguns trabalhos juntos" Ele não desviava os olhos do avô, mas piscava lentamente. Draco se perguntou se era sua imaginação ou se o filho estava abreviando a conversa propositalmente.
"Ouviu isso, Draco?" Lucius provocou com naturalidade. Scorpius pousou os olhos no pai sem demonstrar nenhuma mudança em suas expressões infantis.
Draco se absteve de responder. Voltou a olhar para fora. Sabia o que Lucius queria dizer com aquilo. Scorpius obtivera êxito no que ele falhara.
"Eles não são um exemplo de família, mas são influentes" continuou Lucius. "Você fez bem em se aproximar, Scorpius".
"Bem, vou deixá-los a sós" disse Lucius após uma pausa. "Creio que monopolizei a atenção do seu filho, Draco. Ele é todo seu agora".
Draco inclinou a cabeça para o pai em despedida e buscou o olhar do filho.
"O que acha de darmos uma volta?" Draco sugeriu assim que Lucius deixou o aposento.
Scorpius olhou para a paisagem fria do lado de fora e acenou positivamente.
"Ok".
"Agasalhe-se bem, então. E traga sua vassoura".
Os olhos de Scorpius brilharam finalmente e ele não conseguiu esconder o entusiasmo.
"Ok, já volto" ele já se afastava quando Draco chamou novamente.
"Scorpius, aproveite e avise sua mãe que vamos sair".
"Ela vai perguntar quando nós vamos voltar".
"Diga que antes do almoço".
"Certo".
"Agora vá".
Scorpius saiu a passos apressados e Draco sorriu consigo mesmo.
Não gostava da idéia de seu pai ficar fazendo com o seu filho o tipo de pressão que fizera com ele. Draco queria que Scorpius aproveitasse sua infância. Que não tivesse outras preocupações senão tirar boas notas na escola. Que fosse apenas uma criança.
Mas Scorpius era diferente de Draco em muitas coisas. Ele era sério e introvertido. Não gostava de crianças da sua idade, preferia ficar em meio aos adultos, para deleite de Lucius. E Draco temia a influência de seu pai. Não queria que seu filho crescesse com as mesmas concepções que haviam iniciado uma guerra no passado, ele queria que Scorpius deixasse para formar as próprias opiniões quando tivesse idade para tanto. Mas não tivera coragem de iniciar sua família em outro lugar que não a mansão, não desejando passar por cima de uma tradição familiar. Felizmente Lucius e Narcissa passavam a maior parte do ano viajando. Infelizmente, eles só estavam em casa quando Scorpius também estava.
A mentalidade das pessoas estava mudando depois da guerra e o fato de a Sonserina ter cada vez menos alunos e se tornar cada vez menos exigente com a descendência deles era apenas uma das evidências disso. Por isso Draco aconselhava o filho a não tomar partido em perseguições do tipo, até porque ainda era arriscado. Não fora fácil para Draco conseguir um cargo de confiança no Ministério e ele não queria que o filho tivesse as mesmas dificuldades.
Enquanto refletia, Draco seguiu um ponto no céu que parecia se aproximar em direção à mansão. Uma coruja, ao que parecia. Observou até a ave chegar bem perto, procurando uma janela aberta para entrar. Não conhecia aquela coruja, mas abriu a janela e deu passagem para ela.
A coruja pousou na estante ao lado da janela, um embrulho em papel de presente e um cartão firmemente preso numa das patas. Draco ergueu a mão para retirá-los, mas a coruja abriu as asas e bateu o bico, ameaçadora.
"Mas o que..." Draco pegou a varinha, mas antes que fizesse qualquer outra coisa, Scorpius voltou devidamente agasalhado com a vassoura na mão.
"Pronto, pai. Vamos... Atena!" ele gritou ao ver a coruja, então pareceu alarmado. "Não, pai. Espere".
"Esperar o quê? De quem é essa coruja?" Draco perguntou enquanto observava o filho vasculhar os bolsos em busca do que parecia ser um... "Biscoito?"
"Sim. Ela é um pouco temperamental" ele fez menção de se aproximar, mas Draco o impediu.
"Não se aproxime, eu dou um jeito..."
"Não. Eu sei o que estou fazendo".
Scorpius agiu como se tivesse tudo sob controle. Aproximou-se da coruja tranquilamente, deixando que ela visse o petisco. A ave inclinou a cabeça, piou e retraiu as asas novamente, aceitando o biscoito e deixando que o garoto desatasse o nó de sua pata como se nada tivesse acontecido.
"Espere. Tenho uma coisa para você levar" Scorpius falou e retirou outro embrulho do bolso. "Hmm pai? Eu me esqueci de fazer um cartão. O senhor poderia...?"
Draco coçou o queixo, intrigado.
"Amigo? Ou amiga?"
"Amigo. Pode ser simples".
Draco conjurou um cartão e estendeu para o filho, que puxou a gaveta da escrivaninha e retirou uma pena e um tinteiro, escrevendo rapidamente. A coruja piou, próximo à janela.
"Já estou acabando" respondeu Scorpius.
Draco esticou o pescoço tentando espiar o cartão, mas a coruja pareceu perceber suas intenções e fez um estalido com o bico.
"Pronto" Scorpius se aproximou novamente, oferecendo outro biscoito antes de amarrar o cartão e o embrulho. "Pode ir agora".
A coruja levantou vôo obedientemente. Draco aproveitou para surrupiar o cartão.
"Pai!" Scorpius tentou tomar, mas já era tarde.
"Albus Potter?"
Scorpius levantou o queixo, levemente magoado.
"Sim".
"É impressão minha ou você acabou de presenteá-lo com os chocolates que você me pediu".
"Sim" dessa vez Scorpius pareceu envergonhado.
Draco analisou o filho por mais alguns segundos, mas achou melhor deixar para perguntar mais tarde. Não queria dar a entender que estivesse zangado com ele.
"Vamos".
Draco convocou a própria vassoura, vestiu casaco, gorro e luvas como o filho e ambos saíram para o vento cortante do lado de fora. Ainda não sabia como Astoria não havia impedido o passeio com receio do filho se resfriar.
Voaram até partirem os lábios no ar seco e congelante. Mas a sensação de liberdade era boa e a paisagem nevada nos arredores da mansão era gratificante. Eles pararam numa colina encimada por alguns pinheiros de onde dava para ver a mansão ao longe e os campos de cultivo agrícola que rodeavam a propriedade. Havia um banco rústico de madeira na orla dos pinheiros e eles se sentaram ali. Draco conjurou um fogo mágico aos pés deles e eles se esquentaram um pouco em silêncio por alguns minutos.
"Então" Draco começou. "Você e Potter fizeram alguns trabalhos juntos, é isso?"
Scorpius cutucou uma manchinha na capa.
"É. Bem, nós ficamos amigos. Algum problema?"
"Absolutamente. Você quer falar a respeito?"
"Oh, agora o senhor quer falar a respeito?" Scorpius torceu o nariz. "O senhor não pareceu querer falar a respeito de Harry Potter nas vezes que eu perguntei, nem de Albus nas minhas cartas".
Draco suspirou. Ele desejaria não precisar falar nunca. Mas não imaginava que o menino pudesse ir parar na Sonserina, de todas as Casas. Nem que eles chegariam a ser amigos.
"Eu quero falar agora".
"Ótimo" Scorpius cruzou os braços encarando-o. Por um momento nenhum dos dois disse nada até que Draco cedeu.
"O que você quer saber, Scorpius?"
"Quero saber porque o senhor nunca me disse que foi Harry Potter quem fez suas cicatrizes. Foi mamãe quem me contou".
"Que diferença faria?" disse Draco já se arrependendo de ter tocado no assunto.
"Toda! O senhor vive falando para eu não esconder as coisas de vocês. Mas isso só se aplica a mim?"
Draco encarou a paisagem novamente. Tentou imaginar o quanto Scorpius tinha sabido por meio dos outros ou, pior ainda, pelo seu novo amiguinho.
"Ouça, Scorpius, eu simplesmente não gosto de falar sobre isso. Mas também não quero que você vá perguntar para o seu avô nem que fique sabendo das coisas por outro meio, então..."
Draco contou tudo o que julgou que Scorpius entenderia. Contou sobre como falhara em tentar se aproximar de Harry, sobre seu desafeto, sobre como menosprezava suas companhias, as disputas no quadribol... Até a coisa ficar séria de verdade. Até Draco ser forçado a tomar parte na guerra.
Draco se lembrou de sua ingenuidade. De como acreditara ser uma honra carregar a marca do Lord das Trevas e ter uma missão. Demorara a perceber as verdadeiras intenções do mestre de seu pai de punir e humilhar seus pais. Foi com amargura que Draco contou sobre como fora usado e como falhara em sua missão.
"O senhor teria aceitado a ajuda de Dumbledore se Snape não tivesse... sabe..." Scorpius perguntara e Draco percebeu que tinha mergulhado em seus pensamentos novamente, esquecendo do filho.
"Talvez. Quem sabe".
"Então... Potter sabia de tudo isso?"
"Eu tenho impressão que sim. Ou sentia remorso por ter quase me matado".
"Acidentalmente".
"Sim, acidentalmente. Snape disse que ele não conhecia o feitiço que lançou em mim".
"Então ele salvou você".
Draco olhou nos olhos do filho se perguntando quem havia contado aquela parte.
"Sim".
Draco contou sobre o Fogo Maldito, quando Potter voltara para pegá-lo e sobre sua suspeita de ter sido ele a estuporar seu inimigo em um duelo.
"Espere..." interrompeu Scorpius. "Potter tem uma Capa da Invisibilidade?"
"Sim. Por quê?"
O garoto refletiu por um momento.
"Então isso explica o fato de James ter aparecido do nada! E Albus sabia, mas não quis me contar. Foi assim..."
Scorpius contou o incidente em que o irmão de Potter o defendera dos colegas deles da Sonserina. O que levou a represália. O que deixou Draco curioso.
"Então Albus o chantageou?" perguntou.
"Ou ameaçou. Depende da maneira em que se vê".
"Certo. De qualquer forma, é espantoso".
"Mas então" Scorpius continuou. "Quer dizer que o senhor tem um débito de vida com o pai de Al?"
"Não. Mas sempre vou ser grato a ele".
"Qual é a diferença?"
"A diferença é que eu não tenho que ficar seguindo ele para impedir que o teto desabe em sua cabeça ou que tropece e quebre o pescoço só para ficar quite com ele. Só tenho que ser eternamente agradecido. Só isso".
"Ah... entendo. Papai?"
"Sim?" Draco não pode deixar de se sentir surpreendido pela maneira carinhosa como seu filho lhe chamava às vezes. Fazia com que ele experimentasse um sentimento quente e confortável. Se tivessem lhe contado o quanto era bom ser pai, Draco poderia até ter acreditado, mas nunca teria imaginado essa intensidade.
"Se eu contar uma coisa o senhor promete não contar para o vovô?"
"Você não precisa me pedir isso, você sabe. Eu sou seu amigo, além de seu pai".
Scorpius não gostava de desapontar o avô, por isso tentava parecer o neto perfeito. Draco se aborrecera com aquilo no começo, mas então seus medos caiam por terra ao ver como seu filho era desprendido longe do avô. Outra característica de Scorpius que diferia tanto do pai quando tinha sua idade era a paixão. Scorpius era emotivo, sincero e amoroso, embora Draco visse como ele passava a maior parte do tempo escondendo tudo isso como forma de proteção. Ele não era sarcástico nem rancoroso como Draco um dia fora.
"Certo. Eu fui mandado para a diretoria" ele admitiu, envergonhado e Draco sorriu do constrangimento do filho.
"E por que motivo?"
"Uma tremenda injustiça, se quer saber" Scorpius contou sobre a partida de quadribol, a acusação de James Potter, o furúnculo causado por Albus e a conversa com os quadros na diretoria.
"Dumbledore e Snape me defenderam, então?" Draco se admirou.
"Sim! Mas defenderam o pai de Al também. Então acho que foi ponto para todo mundo".
"Claro. Tudo muito justo, pelo que vejo".
"Papai, você sabia que o nome do meio de Albus é Severus? Em homenagem ao seu padrinho?"
"Não. Sério?"
"Sério! E o pai dele disse que Snape foi... como foi que ele disse? Uma das pessoas mais corajosas que já conheceu".
"Pois é. Snape surpreendeu a todos".
"Papai, o senhor não se importa mesmo? Sobre eu ser amigo do filho de Harry Potter?"
Draco suspirou.
"De maneira nenhuma, filho. Você já é grandinho o bastante para fazer suas próprias escolhas".
"E... acha que o pai dele não vai gostar? Porque o irmão dele certamente não gosta".
Draco refletiu por alguns instantes.
"Creio que não" concluiu. "Nós nos vemos quase que diariamente no Ministério. Ele já teria dito se fizesse alguma objeção. Ou pelo menos teria me lançado algum olhar torto. Coisa que não fez".
'Isso simplesmente não combinaria com Harry Potter', Draco pensou.
"Apenas tente se lembrar de nunca insultar um Weasley perto dele" Draco aconselhou, ao que Scorpius rolou os olhos.
"Eu não seria estúpido a ponto de fazer isso, pai" então ele pareceu perceber que tinha acabado de chamar o próprio pai de estúpido. "Quero dizer... eles são família e tudo..."
"Está tudo bem, Scorpius. Eu não me ofendi. Reconheço que fui bastante sem tato para alguém que queria conquistar um aliado. Mas me diga, o que mais há de tão interessante nesse seu amigo 'Al'?" perguntou, então se lembrou de outra coisa. "Se não me engano, parece que eu li 'Scorpie' no seu cartão. Vocês se tratam por apelidos?"
Scorpius corou. "É. Ele meio que faz isso com todo mundo. E tem uma família enorme. Tem uma irmã mais nova também. E uma porção de primos. A maioria é ruiva e tem até alguns que são parte veela! Eu não sabia nem que isso era possível! Mas dá para formar quase dois times de quadribol com todos eles. E por falar em quadribol, sabia que o pai dele comprou os terrenos de trás da casa deles para fazer um campo de quadribol do tamanho do de Hogwarts?"
"Verdade?"
"Sim! E ele disse que tem uma 'Piscina TNT' também".
"E o que é uma 'Piscina TNT'?"
"É uma invenção do tio dele. Um que tem uma loja no Beco Diagonal. Disse que você explode um buraco na terra sempre que quer usar e a piscina simplesmente aparece ali no meio do campo de quadribol e..."
Draco escutou atentamente enquanto Scorpius se desmanchava em descrições detalhadas e acaloradas, os olhos brilhando de excitação. Se Lucius sonhasse com aquele lado de seu neto certamente enfartaria.
De sua parte, Draco se admirou em constatar que estava feliz pelo filho. Afinal, Hogwarts tinha realmente feito bem para ele, apesar da insistência de seu pai de enviá-lo para Durmstrang. Draco jamais seria capaz de enviá-lo para tão longe numa escola onde provavelmente distorceriam toda a maneira como Draco tentara educá-lo.
Scorpius havia feito amigos, enfim. Bem, talvez um só, mas já era um começo. Não estava preocupado com a árvore genealógica desse amigo, só desejava que seu filho nunca se decepcionasse com ele.
"Quem está chegando?" Scorpius apontou para um grupo de pessoas que havia acabado de aparatar na entrada da mansão ao longe.
"Deve ser a tia Daphne".
"Oh, não..." Scorpius se lamentou. Ele não se dava muito bem com o priminho.
"Ora, vamos, Scorpius. Ethan não é tão mal assim".
"O senhor diz isso porque não é obrigado a brincar com ele" Scorpius respondeu de modo sombrio. "Além disso, ele tem sete anos!"
Draco achou melhor não tentar defender o sobrinho de Astoria. Também não ia com a cara do moleque.
"Bem, de qualquer forma temos que voltar. Já são quase meio-dia" Draco sugeriu já se levantando, apagando o fogo e sumindo com os vestígios.
"Tudo isso? Então, vamos. Meu traseiro está congelando".
xXxXxXx
Junho, 2018. 3ª semana.
"Al?"
Scorpius deu um pulo na cama. Tinha quase adormecido enquanto estudava Astronomia. Limpou a saliva do canto da boca e olhou ao redor. Aparentemente o loiro estava sozinho no dormitório. Devia ter sonhado.
"Al? Cadê você?"
Scorpius ouviu novamente e levou um segundo para pensar 'Como é possível eu estar escutando a voz abafada do irmão de Albus dentro do dormitório da Sonserina?' e outro segundo para ele lembrar 'Claro, o espelho'.
"Albus Potter! Por que eu só consigo ver suas cuecas?" resmungou a voz de James de dentro do malão de Albus.
Scorpius deu outra olhada ao redor imaginando onde o amigo estaria, se demoraria muito a voltar e por quanto tempo suportaria aquela voz irritante antes de quebrar aquele espelho.
"Hey, loirinho esnobe, você está aí?"
Scorpius fez um muxoxo e se levantou, abrindo o malão de Albus e retirando algumas peças de roupa sem nenhum pudor.
"Ah, aí está você" disse James de dentro do espelho, torcendo o nariz sardento. "Eu preciso falar com meu irmão".
"Bom para você. Não sei onde Albus está. Agora dá para calar a boca? Estou tentando estudar".
"Há! É isso que perdedores sonserinos fazem numa noite de sábado após uma partida de quadribol?"
Scorpius rolou os olhos e deixou o espelho escorregar novamente para o malão, fechando-o em seguida.
"Hey! Seu mal educado! Não sabe nem perder uma Taça das Casas com dignidade?" James continuou resmungando e Scorpius se jogou na cama novamente. A Grifinória tinha vencido o último jogo contra a Lufa-Lufa naquele dia e, por conseguinte, tinha conquistado a Taça das Casas. Se James já era insuportável antes, Scorpius não conseguia encontrar uma palavra para descrevê-lo naquele momento.
Mal se acomodara na cama para voltar a estudar quando Albus apareceu no dormitório tranquilamente, coçando os olhos por trás dos óculos.
"Onde você esteve?" Scorpius questionou, sem se preocupar em parecer enxerido.
"Fui ao banheiro. Você estava dormindo, então nem avisei".
"Albus? É você?" perguntou a voz abafada de James.
Albus ficou tão perdido quanto Scorpius alguns minutos atrás.
"É seu irmão. No espelho" explicou, contrariado.
"Ah! Jimmy!" Albus se adiantou para o malão e pescou o espelho. "Oi. O que foi?"
"Por que você não carrega esse espelho com você, cabeçudo?"
"Hmm, você não iria gostar se eu levasse você para o banheiro, acredite. O que você quer?"
"Bem, eu queria convidar você para conhecer a torre da Grifinória, o que me diz?"
Scorpius olhou por cima do livro que tinha aberto e viu os olhos de Albus brilharem.
"Você está falando sério?"
"Claro! Fred e eu fomos fazer umas comprinhas e vamos dar uma festa em comemoração pela vitória da Grifinória. Você sabe onde é, não sabe?"
"Sétimo andar, em frente ao retrato da Mu..."
"Shh! Morda essa sua língua comprida, Al!" ralhou James. "Você está em território inimigo, lembra?"
"Não é como se eu não soubesse" Scorpius falou alto o bastante para ser ouvido.
"Eu espero você em frente ao quadro" James continuou, fingindo não tê-lo escutado. "Eu lhe daria a senha, mas sabe como é..."
"Jimmy, posso... posso levar Scorpius?" Albus perguntou timidamente, porém James e Scorpius responderam ao mesmo tempo.
"De jeito nenhum!"
"Mas, Scorpie..." Albus tentou, porém ele estava irredutível.
"Não conte comigo".
"Isso, não conte com ele. Até porque eu não acho que meus colegas de Casa ficariam felizes ao vê-lo".
"Posso levar Myrtes e Karen, então? Não quero ir sozinho" Albus pediu e Scorpius se arrependeu imediatamente de ter recusado o convite. Com sorte James não concordaria e...
"Certo, traga apenas uma delas, então. E tenha certeza de que ela não vai aprontar nada".
"Ok. Obrigado, Jimmy".
"Até mais. Câmbio desligo. Tchau".
Albus abaixou o espelho e Scorpius imediatamente fingiu estar concentrado na leitura.
"Sabe, eu preferia que você fosse, Scorpie..." Albus desabafou. "Vamos, vai ser legal!"
Scorpius quis ser direto, dizer que não lhe encantava a perspectiva de festejar a vitória de outra Casa, mas um olhar na direção do amigo bastou para que desistisse. Além disso, não gostava da idéia de ter que dividir a atenção de Albus com seus familiares. Afinal, ao que parecia, metade da Grifinória era ruiva e possuía algum grau de parentesco com Albus. Suspirou.
"Seu irmão está certo. Não serei bem-vindo. Talvez seja melhor você levar outra pessoa".
"Ah..." Albus baixou os olhos, desanimado.
"Mas eu bem que gostaria se você trouxesse uma garrafa de cerveja amanteigada para mim" Scorpius tentou animá-lo. "Vamos, eu acompanho você até a saída".
"Ok" Albus vestiu a capa e já ia saindo quando Scorpius o deteve.
"Al".
"O quê?"
"Os óculos".
"Ah!" Albus voltou, tirou os óculos e os guardou.
Ambos seguiram pelos corredores das masmorras até a sala comunal, que ainda estava barulhenta. Afinal, ainda era cedo. Eles avistaram Myrtes Buckingham quando ela já ia saindo em direção aos dormitórios femininos.
"Myrtes!"
"Al? Scorpius? Eu estou encrencada?" a garota estranhou.
"Não" disse Albus. "Mas há uma boa chance de não sairmos impunes se você aceitar o meu convite".
"Convite?" a garota umedeceu os lábios avidamente e lançou um olhar desconfiado para Scorpius enquanto colocava os cabelos para trás das orelhas. "Que convite?"
Albus explicou. Scorpius colocou as mãos nos bolsos da capa, tentando parecer descontraído, quando na verdade estava fervilhando de dúvida e remorso por dentro. Uma parte de si mesmo tentava convencê-lo a voltar atrás. Outra dizia que não seria uma decisão muito inteligente. Mas, antes mesmo de Myrtes aceitar entusiasmadamente, Scorpius já sabia que ela aceitaria. E o loiro teve vontade de fazer sua carinha de boneca de cera se encher de espinhas.
"Claro que eu aceito! Não ligo muito para essas disputas de Casas mesmo. Nem para quadribol, se quer saber. Mas... vamos só nós três?"
"Não. Scorpius não quer ir".
Os olhos da garota se encheram de espanto e, novamente, de desconfiança.
"Scorpius não vai? Só nós dois, então?"
"Err..." Albus coçou a cabeça, parecendo só então entender a implicação daquilo e o que aquele convite poderia parecer. Ele rapidamente tentou concertar. "Bem, eu não queria ir sozinho e... Scorpie não quis ir, então eu pensei em chamar você ou Karen e só poderia levar mais uma pessoa, sabe como é..."
Myrtes rolou os olhos.
"Certo. Não é como se isso fosse um encontro, de qualquer forma".
"Exatamente" Albus pareceu aliviado. Scorpius também relaxou um pouquinho o aperto na varinha por dentro das vestes. Mas só um pouquinho.
"Tudo bem. Vamos".
"Você não vai avisar a Karen?" perguntou Albus, ao que Myrtes deu de ombros.
"Não. Não vou poder convidá-la mesmo. Além disso, ela tem muito que estudar".
"E você não?" Scorpius falou, não conseguindo disfarçar seu desdém.
Myrtes o mirou demoradamente.
"Já estudei por hoje. E você?"
"Também".
"Ótimo".
Os dois trocaram farpas pelos olhos. Albus pareceu perceber a tensão, pois tratou de encurtar o assunto.
"Hmmm... então acho melhor nós irmos... Até mais, Scorpie".
"Até".
"Divirta-se" Myrtes provocou e Scorpius lhe lançou outro olhar cortante.
"Myrtes, acho que devo avisar você. Não aceite nada que oferecerem diretamente para você. Principalmente se for o meu primo, Fred..." Scorpius ainda pôde ouvir algumas das recomendações de Albus enquanto eles se afastavam e se sentiu triste e ressentido.
Tirando as visitas que Albus fazia com o irmão ao professor de Trato das Criaturas Mágicas, o meio-gigante de quem Scorpius ainda não superara completamente o medo, essa era a primeira vez que eles não faziam alguma coisa juntos. Eles faziam todos os trabalhos juntos, jogavam Snap Explosivo e xadrez, iam juntos à biblioteca, faziam as refeições juntos... era como se Scorpius tivesse descoberto o quão era bom ter um irmão e já não soubesse mais ser filho único.
O loiro voltou para o dormitório e lançou um olhar melancólico para o livro de Astronomia. Então pensou em procurar as anotações de Albus para ver se batiam com as suas. Scorpius abriu a mochila do amigo e vasculhou seu interior, porém o que chamou sua atenção foi um pergaminho em branco envelhecido.
"Albus, seu cabeçudo" Scorpius retirou o Mapa do Maroto da mochila de Albus e já se preparava para correr até ele para devolver quando pensou melhor. Sentou-se na própria cama e disse as palavras mágicas que ativaram o mapa.
Scorpius suspirou quando os conhecidos aposentos de Hogwarts tomaram forma. Quando enfim localizou Albus e Myrtes, eles já estavam chegando ao sétimo andar. Seu irmão os aguardava. Colocou o mapa dentro do livro de modo a não despertar suspeitas dos colegas de quarto quando estes retornassem e ficou assistindo a movimentação, tentando não perder os dois em meio à aglomeração de pessoas na torre.
Scorpius ficou espantando com a quantidade de Weasleys que as legendas mostravam e, em parte, ficou aliviado por não ter ido. Mas então reparou, enciumado, como Myrtes e Albus nunca ficavam muito longe um do outro e pensou que poderia ser ele. Rose Weasley, a prima de Albus do primeiro ano, também não saiu de perto deles. James Potter e Friederich Weasley iam e vinham várias vezes. Havia ainda mais três garotas do clã: Lucy, Dominique e Molly Weasley. Albus já tinha lhe mostrado seus familiares no Grande Salão, mas Scorpius achava difícil ligar o nome à pessoa. Para ele eram todos ruivos e parecidos. Exceto as duas que tinham sangue veela, que eram loiras e metidas. Mas uma delas era da Corvinal.
Os olhos de Scorpius também vagaram pelos detalhes do mapa, analisando as fronteiras do castelo, xeretando nas outras salas comunais. Ele precisou ler três vezes o cabeçalho para se certificar de que não estava enganado. Quem eram 'Os senhores Aluado, Rabicho, Almofadinhas e Pontas'? Eles podiam ter nomes estranhos, mas sem dúvida eram gênios!
Foi só quando seus colegas de dormitório foram se preparar para dormir que Scorpius se deu conta que já passava do toque de recolher. A festa na Grifinória parecia longe de acabar, embora algumas pessoas já tivessem se recolhido para seus dormitórios. Scorpius esperou um momento em que seus colegas estivessem distraídos, guardou o Mapa no bolso e saiu. Passou pela sala comunal quase deserta e saiu para o corredor, sem dar atenção para um dos garotos mais velhos que dissera algo sobre já ter passado da hora.
Assim que deixou as masmorras, Scorpius retirou o mapa do bolso e localizou Filch. Ele estava no quarto andar. Estudou a localização dos professores e de alguns alunos, provavelmente monitores e seguiu pegando alguns atalhos. Quando já estava no quinto andar, Scorpius percebeu que Albus e Myrtes estavam no corredor do sétimo andar, provavelmente já se despedindo.
"Droga. Espere aí, Al" Scorpius desejou, não pela primeira vez, ter um espelho de duas faces.
Essa pequena distração quase fez com que o loiro fosse pego pela gata de Filch, mas ele escapou por pouco. Subiu mais um lance de escadas assim que achou seguro e foi de encontro com Albus, sentindo o coração bater acelerado quando viu que a gata estava seguindo para a mesma direção. E estava muito mais adiantada que ele.
"Pense, Scorpius. Pense".
Scorpius analisou as passagens secretas e descobriu uma que poderia ser útil. Seguiu depressa para um quadro na direção oposta à que os dois se dirigiam e se viu em um túnel escuro e comprido. Correu até o outro lado e levantou uma fresta da tapeçaria, vendo as costas dos dois colegas de Casa.
"... você não ouviu?" dizia Myrtes.
"Não" respondeu Albus. "Ah, como eu pude ser tão idiota. Pode ser Filch!"
"Não se culpe. Eu aceitei vir, não aceitei?"
"É, mas se eu tivesse trazido..." Albus se interrompeu.
"Trazido o quê? O seu amiguinho Scorpius?" Myrtes falou num tom debochado. "Não entendo como ele seria de alguma utilidade".
"Hey!" Scorpius chamou num sussurro, fazendo com que os dois se sobressaltassem.
Myrtes gritou. Albus praguejou e tapou a boca dela com a mão.
"Scorpius! O que...?"
"Não há tempo! Corram! A gata!"
Não foi preciso dizer mais nada. Albus agarrou o braço de Myrtes e puxou-a para dentro da tapeçaria no exato instante em que a gata de Filch virou o corredor, conforme Scorpius constatou olhando no mapa.
"Você trouxe!" exclamou Albus num sussurro, finalmente soltando o braço e a boca de Myrtes. "Como você descobriu que eu tinha esquecido?"
"Tive um palpite" Scorpius mentiu. "Achei que você precisaria de ajuda".
"Obrigado cara".
"O que está acontecendo aqui?" perguntou Myrtes confusa, mas também num sussurro. "Como você nos achou, Scorpius? O que você esqueceu, Albus? E o que é isso?"
A garota tinha esticado o pescoço para espiar o mapa, porém Scorpius afastou o pergaminho.
"Não é da sua conta. Quer assumir, Al?" Scorpius ofereceu o mapa, ao que Albus negou.
"Não. Continue. Você está mais inteirado".
"Ótimo" Scorpius assumiu um tom profissional. "Vamos voltar por esse túnel e descer as escadas em silêncio. A gata está bem aqui. Ela ouviu seu grito, Buckingham. Aliás, o castelo inteiro ouviu".
"Ora, você me assustou!" a garota cruzou os braços, desafiadora. "Onde nós estamos?"
Eles se puseram a caminhar depressa.
"Numa passagem secreta" respondeu Albus e, antes que Myrtes pudesse perguntar mais alguma coisa, virou-se para Scorpius. "Onde está Filch?"
"Terceiro andar, mas provavelmente está vindo para cá. Essa gata o chamou de alguma forma".
Albus conteve um arrepio.
"Como você sabe onde Filch..." Myrtes começou novamente, mas Scorpius a interrompeu quando eles chegaram ao quadro.
"Shh! Vamos depressa para a escada. Sem fazer barulho".
Os três fizeram um trajeto longo e ziguezaguearam pelo castelo, fugindo dos corredores movimentados. Toparam com o Barão Sangrento no terceiro andar, mas este fingiu não vê-los. O fantasma da Sonserina estava resmungando algo sobre já terem perdido a Taça das Casas. Cada vez que Scorpius espiava no mapa, Myrtes tentava espiar por trás de seus ombros.
"Como você sabe dessas passagens, Scorpius?" Myrtes perguntou quando eles pegaram outro atalho. "O que há nesse pergaminho, Albus? Por que vocês estão me ignorando?"
"Rápido, corram para a esquerda assim que sairmos. Em silêncio" Scorpius ordenou, ao invés de responder.
Alguns lances de escadas depois eles finalmente entraram nas masmorras, disseram a senha para a parede de pedra e se largaram exaustos nas poltronas da luxuosa sala comunal vazia.
"Wow! Essa foi por pouco" disse Albus, afrouxando o nó da gravata. "Vamos fazer de novo?" brincou, levando uma almofadada de Scorpius em resposta. "Obrigado, Scorpie. Se não fosse por você, nós teríamos pegado detenção com Filch, no mínimo".
"Você trouxe alguma coisa para mim?" Scorpius cobrou ao invés de responder, apesar de estar feliz pelo reconhecimento do amigo.
"Sim! Aqui está!" Albus retirou uma garrafa do bolso da capa e alguns doces. "Eu me certifiquei de pegar só o que estivesse em pacotes fechados, não se preocupe. E Myrtes e eu estamos saudáveis, como você pode ver. Então pode comer sossegado".
"Certo. Obrigado" Scorpius abriu a garrafa depois de dar outra espiada no mapa. Todos os sonserinos já haviam se recolhido.
"Então" Myrtes pareceu ter se recuperado da corrida e se postou em frente aos dois com as mãos na cintura. "Vocês vão me contar ou não?"
"Não" Scorpius respondeu, dando um gole na cerveja amanteigada sem desviar os olhos da expressão ameaçadora da garota.
Albus, no entanto, suspirou.
"Isso é um mapa de Hogwarts, Myrtes. Mas eu prometi guardar segredo sobre ele. Me desculpe".
Myrtes mudou de vítima, pousando seu olhar ameaçador em Albus.
"Bem, você já quebrou sua promessa, então, pois Scorpius obviamente sabe sobre o seu precioso mapa. Achei que nós éramos amigos e tudo, depois dessa noite".
Scorpius olhou de relance para Albus, esperando encontrar uma expressão culpada no amigo. Mas Albus só parecia cansado. Havia receado que 'depois dessa noite' se referisse a algo além da festa, mas aparentemente tinha se enganado. Felizmente.
"Sinto muito, Myrtes, mas não posso contar. Quem sabe outro dia. Mas... obrigado pela companhia".
Myrtes fez um muxoxo e saiu pisando duro. Albus ficou olhando a garota se afastar, confuso.
"O que foi que eu fiz?"
"Esqueça ela" Scorpius deu outro gole na garrafa e deu uma dentada num bolo de caldeirão. Achou que não poderia se sentir melhor. "Então, como foi a festa?"
"Foi legal... Fred estava animando todo mundo. Ele fez alguns desavisados tomarem vomitilha e creme de canário, você tinha que ver! E James colocava sal na bebida dos distraídos. E você tinha que ver Molly dando bronca neles. E Wilbur imitando a diretora McGonagall, então? Foi tão engraçado..." o semblante de Albus passou de animação para melancolia. "Ah, você tinha que estar lá, Scorpie... Quero dizer, Myrtes é legal, mas não é a mesma coisa. Ela não entende tudo o que eu falo como você. Pelo menos ela e Rose se deram bem, assim ela não ficou muito deslocada no meio de todo mundo..."
"Tudo bem" Scorpius o tranqüilizou, feliz por não ser o único a ter lamentado a separação. "Eu não teria me divertido tanto, eu acho. Além do mais, só essa 'missão de salvamento' já valeu a minha noite. E eu tive alguma companhia inesperada também".
"Quem?" Albus franziu as sobrancelhas, intrigado.
"Hmm... Aluado, Pontas e não-sei-mais-quem" Scorpius gesticulou para o mapa, fazendo os olhos de Albus se arregalarem como pires.
"Ah, é verdade! Quer saber quem são eles?"
"Você os conhece?"
"Não cheguei a conhecê-los. Na verdade estão todos mortos..."
Albus lhe explicou a identidade dos verdadeiros Marotos do Mapa do Maroto.
"Lupin?" Scorpius coçou o queixo. "Parece que meu pai já disse algo sobre eu ter um primo distante chamado Lupin..."
Scorpius omitiu parte da informação de seu pai: que seu avô não poderia nem sonhar que Draco tocara no nome do primo. Quando questionado sobre o motivo, Draco dissera algo sobre trouxas, lobisomens e metamorfomagos que Scorpius não tinha certeza que havia entendido direito.
"É o Teddy! Ele me disse que é seu primo! Mas disse também que vocês não se conhecem. Eu e James o consideramos nosso irmão mais velho..."
Albus deu uma olhada ao redor.
"Sabe, nossa sala comunal é muito melhor do que a deles. Sem contar que as cores são menos chocantes..." Albus descreveu a sala comunal da Grifinória e contou mais sobre a festa.
Naquela noite, Scorpius foi dormir satisfeito. E isso não se devia somente ao fato de ter se empanturrado de doces e cerveja amanteigada. Albus compartilhara segredos com ele que não se arriscava a contar para Myrtes ou qualquer outra pessoa. Aquilo era uma prova de confiança e de que a amizade de ambos significava muito. Para ambos.
xXxXxXx
N.A.: J.K. Rowling declarou em resposta a uma pergunta após a leitura no Carnegie Hall em Nova York em 19 de outubro de 2007, que "Draco não tem um débito de vida com Harry, e deixou claro que não havia ataduras entre eles, mas que Malfoy teve que ser eternamente agradecido a Harry por salvar a sua vida, o que fica evidente no último capítulo do livro sete, quando eles se encontram na Plataforma Nove e Meia." Fonte: Ojesed(.)org
Trechos da entrevista da J.K. Rowling para Bloomsbury, em 30 de Julho de 2007.
"Scorpius é tão equivocada quanto seu pai, ou Draco tem melhorado e ensinou seu filho melhor?
J.K. Rowling: Scorpius tem muita coisa contra ele, não apenas o nome. No entanto, eu acho que Scorpius seria uma melhoria em seu pai, a quem o infortúnio tem deixado mais sóbrio!"
"Será que Lúcio Malfoy, e todos os outros Comensais da Morte que escaparam voltaram para Azkaban?
J.K. Rowling: Não, os Malfoys conseguiram escapar do problema (novamente), devido ao fato de terem colaborado (embora puramente por interesse próprio) com Harry no fim da batalha."
"Será que Draco e Harry perderam a sua animosidade um contra o outro quando Voldemort morreu?
J.K. Rowling: Na verdade não. Haveria uma espécie de aproximação, na medida em que Harry descobre que Draco odiava ser um Comensal da Morte, e não teria matado Dumbledore, similarmente, Draco sentia certa gratidão por Harry ter salvado sua vida. A verdadeira amizade estaria fora de questão, apesar de tudo. Muito havia acontecido antes da batalha final."
Na próxima sexta-feira começa o segundo ano! Até lá!
Anjo: seu e-mail foi comido pelo site! Por isso não pude responder... Me mande uma mensagem em amy(.)lupin(arroba)yahoo(.)com(.)br
