IV

INDIFERENÇA E PAIXÃO

As famílias mais importantes do mundo bruxo eram muito diferentes. Porém, uma característica era comum a todas elas: por representarem a verdadeira realeza bruxa, todos os seus membros deveriam agir com a mais absoluta altivez – o que era geralmente confundido com frieza por aqueles que não entendiam a importância do sangue.

Dentre essas famílias, a Casa dos Lestrange era, provavelmente, a que mais prezava pela altivez. Então, ao ver o seu grande amigo Rodolphus falar sobre alguém com um fanatismo assustador, Bellatrix Black foi levada ao limiar de sua curiosidade.

Lorde Voldemort – aquele era o nome que há dias povoava cada um dos seus pensamentos.

Ao voltar do seu encontro com Rodolphus, dias atrás, Bellatrix correra ao escritório do seu pai, querendo lhe perguntar quem era o misterioso homem que conseguira despertar a idolatria de um Lestrange. Cygnus não estava em casa; segundo os elfos, ele fora visitar Orion e Walburga, pois alguma espécie de tragédia ocorrera em Hogwarts. Mais tarde, Bellatrix descobriu que o seu primo, Sirius, fora selecionado para a Grifinória.

A desgraça do sobrinho havia deixado Cygnus tão irritado, que Bellatrix teve de adiar as suas perguntas. Mas, com o passar dos dias, os ânimos foram se acalmando. E, Bellatrix supunha, se os pais já estavam com humor para tentar lhe encontrar mais um noivo, talvez fosse a hora de tirar as suas dúvidas.

Ela suspirou, bebericando o seu chá que há muito estava frio.

- Bellatrix, querida?

Ela ouviu a voz esganiçada da Sra. Goyle lhe trazer de volta à realidade.

Estavam no jardim da sua mansão, numa pequena mesa sob o suntuoso gazebo de madeira que Cygnus e Druella haviam ganhado dos Malfoy como presente de casamento, anos atrás. As companhias de Bellatrix eram a Sra. Goyle, a Sra. Mulciber e a Sra. Travers – todas tinham filhos solteiros na faixa etária de Bellatrix e, como esperado, adorariam ter uma Black em suas famílias.

Bellatrix sabia que deveria estar conversando com elas; que deveria começar a perguntar sobre os seus filhos. Mas a imagem sem rosto do Lorde Voldemort não a deixava.

Ela não queria estar ali, procurando um casamento.

Pensou novamente em Rodolphus. Perguntou-se se algum dia ela sentiria algo parecido com a paixão que ele demonstrara.

- Bellatrix – Disse a Sra. Travers. – Bella, querida, estávamos perguntando se você ainda se interessa por quadribol. Sabe, o meu Jacques é um exímio batedor!... Essa era a sua posição, quando você jogava em Hogwarts, não?

Ela assentiu – apesar de Andromeda ser a única batedora da família. Bellatrix estava mais ocupada em imaginar o seu sangue fervendo por uma ideologia. Imaginando como era... sentir.

Não podia mais esperar.

- Com licença.

Sem nenhuma explicação, Bellatrix derrubou rudemente a sua xícara de chá sobre a mesa e apressou-se para dentro da sua casa. Correu escada à cima, e pelos corredores largos da sua mansão. Depois do que pareceu uma eternidade, chegou à porta do escritório do pai.

Bateu duas vezes, antes de entreabrir a porta.

- Pai? Posso entrar?

- Entre, Bella – Quem respondeu foi a sua mãe.

Bellatrix entrou lentamente, e corou quando percebeu que acabara de interromper um momento íntimo dos pais – eles estavam sentados no sofá, perante a lareira, bebendo vinho. Druella tinha os cabelos loiros soltos e um pouco bagunçados, o seu rosto estava enrubescido e os seus lábios inchados.

Quando Cygnus olhou para a filha, ele trazia um raro sorriso em seu rosto.

- Por favor, Bellatrix, não diga que você deixou as nossas convidadas sozinhas.

Ela deu de ombros.

- Elas sobreviverão, pai.

- Mas você gostou de algum dos rapazes? Creio que elas tenham mostrado fotos, certo?

- Eu não prestei atenção, na verdade. Pai, eu gostaria de conversar com o senhor... – Olhou para a mãe. – em particular.

Cygnus levantou-se, perdendo de imediato a sua postura relaxada.

- A sua mãe pode saber o assunto, pelo menos?

- Eu... – Bellatrix olhou para a mãe; os olhos azuis dela miravam-na com um misto de curiosidade e mágoa. Ela não teve coragem de pedir novamente que Druella se retirasse. – Tudo bem. Pode ficar, mãe. Não é importante, na verdade... É que... Bem, Rodolphus me falou que estava estudando para se tornar seguidor de um tal de Lorde Voldemort, e eu queria saber quem é esse homem.

O rosto de Druella se contorceu em medo. Antes de Cygnus pudesse reagir, ela falou – sua voz surpreendentemente calma, em contraste com a sua expressão.

- Ele é um homem perigoso, Bella; não quero você fazendo perguntas sobre ele.

- Bobagem, Druella – Cygnus disse, com um meio-sorriso. – O Lorde Voldemort é um bruxo genial, Bellatrix. Ele é um dos indicados para substituir o Ministro da Magia, e eu adoraria que ele conseguisse o cargo. Sabe, ele compartilha das nossas idéias sobre os trouxas.

- Ora, meu bem, nós dois sabemos que ele não quer o cargo!

- E nós dois sabemos que, quando a guerra vier, as nossas filhas estarão seguras!

Bellatrix prendeu a respiração – os seus pais também sabiam da eventual guerra.

- Não estou preocupada com as nossas filhas, Cygnus – Druella disse gentilmente, se levantando. – Estou preocupada com você.

- O senhor pretende lutar, pai?

Cygnus riu-se.

- Não sei, ainda. Mas, se lutar, fico feliz que terei jovens como Rodolphus ao meu lado. – ele se voltou para a esposa. – Dru, você não confia em minhas habilidades mágicas?

- Confio; mas preferiria que elas não fossem postas à prova!

- Druella, você sabe que, quando o Lorde ascender, qualquer um que fique contra ele será considerado um traidor do sangue, não?

Druella suspirou, resignada.

- Eu sei, meu bem. E eu nunca disse que eu sou contra as idéias do Lorde Voldemort. Eu apenas me preocupo quando você se mostra interessado na guerra que ele vai deflagrar. O campo de batalha não é o nosso lugar; nós temos uma família e um legado. Não gosto quando você esquece tudo isso e passa a falar como um jovem idealista! – Ela olhou para Bellatrix, fúria aparecendo em seus olhos. – Você quer saber quem é o Lorde Voldemort, Bella? Bem, ele é o homem que será responsável por milhares de mortes! Não apenas de trouxas e de sangues-ruins! Mas do nosso povo! Dos nossos jovens tolos que se jogarão numa guerra que não precisa acontecer!

"Eu nunca fui tão feliz por ter apenas filhas mulheres quanto nos últimos anos! Porque eu sei que as minhas meninas estarão salvas! Mas e o meu querido sobrinho, o Evan? E o meu irmão, que já carrega aquela Marca horrenda no braço? E Sirius e Rabastan? E o seu marido, Bella? E os maridos de Andy e Cissa?

"Você quer saber quem é o Lorde Voldemort, Bella? Ele é quem vai trazer sofrimento para todos nós!"

Bellatrix estremeceu – ela ainda não sabia quem era aquele homem, mas ele também conseguira fazer com que a distante Druella Rosier-Black reagisse apaixonadamente. A curiosidade da jovem apenas cresceu, e, apesar de pouco saber sobre o Lorde Voldemort, já o respeitava. Muito.

Um logo minuto passou-se, e ninguém disse nada no escritório de Cygnus. Druella voltou ao sofá e pegou a sua taça de vinho, entornando todo o seu conteúdo num só gole. Cygnus, por sua vez, foi até o seu gabinete e pegou, numa das gavetas, uma foto.

- Lorde Voldemort será o nosso futuro líder, independente da opinião da sua mãe sobre ele. Eu quero que você o respeite e, Bellatrix, considere uma honra se um dia você se casar com um homem marcado por ele.

Dizendo isso, Cygnus entregou a foto a Bellatrix. No verso, a pequena mensagem dizia:

"De L. Voldemort, com a esperança que a nossa amizade seja duradoura e produtiva."

Na imagem, Cygnus sorria, apertando a mão de um homem alto, imponente e incrivelmente bonito. Aquele era o Lorde Voldemort, e Bellatrix começava a entender porque todos reagiam tão fortemente a ele.

Um aperto em seu baixo-ventre deixou claro a Bellatrix que ela também não seria indiferente àquele homem.

XxXxXxX

Nem todos os Black se davam bem em Hogwarts – alguns tinham notas péssimas; alguns não tinham nenhum talento para o quadribol; alguns se tornavam impopulares. Porém uma coisa era comum a todos os membros da família, desde 1724: eles sempre se tornavam Monitores. A primeira a quebrar aquela corrente fora Narcissa.

Claro que aquilo fora o assunto dos Black durante boa parte do verão, e apenas foi esquecido pelos familiares com a chegada da notícia de que Sirius não entrou para a Sonserina. Mas Narcissa não esquecera. E, mais que a vergonha por desonrar a sua família, a jovem sentia-se injustiçada.

Agora, pela primeira vez perante o diretor da Sonserina, Narcissa Black também sentia raiva.

- Calma, Cissa – Anabella Nott sussurrou, ao lado dela. – Você vai acabar rasgando o pergaminho!

Narcissa apenas então percebeu que a sua pena raspava furiosamente o pergaminho à sua frente, no qual ela terminava a tarefa que Slughorn passara no início da sua primeira aula aos quintanistas. Ela respirou fundo – uma Black não deveria demonstrar a sua exasperação daquela maneira.

- Obrigada, Anabella.

Olhou para o relógio fixado à parede da sala, por trás do gabinete de Slughorn. Faltavam apenas três minutos para o fim da aula.

Rapidamente, Narcissa terminou a tarefa e esperou o alarme soar.

Os alunos se apressaram em deixar a sala de Slughorn assim que a aula terminou. Narcissa, no entanto, arrumou os seus livros tão lentamente quanto possível, sabendo que assim que estivesse sozinha com o professor poderia lhe perguntar o motivo de não ter sido a quintanista eleita.

- Srta. Black – ele disse alegremente. – Espero que o seu verão tenha sido interessante.

Ela ergueu o rosto e, vendo que era a última aluna a ficar na sala, levantou-se, pegou os seus livros e se aproximou de Slughorn.

- Não exatamente. O meu verão estava perfeito, até o dia em que Andromeda recebeu o distintivo de Monitora-Chefe, e eu não recebi nada. Sabe, professor, eu sou a primeira Black em séculos a não ser escolhida para a Monitoria!

Slughorn deu um sorriso sem-graça, pigarreando e ajeitando o colarinho quase inconscientemente.

- Bem, Srta. Black, eu só podia escolher uma garota para a Monitoria, e a Srta. Flint merecia o posto.

- Mais que eu?

- Talvez não, Narcissa. Mas... Bem, eu fui o professor das suas irmãs, certo? E eu dei o posto às duas; mesmo que a sua irmã mais velha não tivesse merecido tanto! Se eu desse o cargo a você, também, algumas pessoas poderiam achar que era favoritismo.

Narcissa fechou os olhos e respirou fundo. Ela preferiria que o professor a dissesse que Flint tinha mais méritos que ela; que aquilo fora uma escolha justa. Saber que toda a sua família lhe via como um fracasso por algo que não era sua culpa a deixou ainda mais irritada com a situação.

Aborrecida, ela pôs fortemente o pergaminho sobre o gabinete de Slughorn e, com os dentes cerrados, disparou:

- Pois bem, professor. Eu estou fora do seu clubinho... antes que alguém ache que eu apenas o freqüento por causa do seu favoritismo!

- Isso não é necessário, Srta. Black.

- Ah, isso é necessário, sim. O desnecessário é eu levar essa situação ao conhecimento do meu pai; mas eu o farei, mesmo assim! E você terá feito um ótimo negócio: trocar o afeto dos Black pela amizade sem valor dos Flint!

E ela deu meia-volta, deixando a sala o mais rápido possível. O corredor das masmorras já estava lotado com os alunos do sexto ano da Sonserina, que assistiriam à próxima aula de Poções. Narcissa tentou manter o seu passo e desviar dos colegas de casa, mas, eventualmente, esbarrou num deles – seus livros foram jogados ao chão.

- AI! Mas que m-

- Desculpe-me, Narcissa.

O garoto em quem Narcissa esbarrara logo se ajoelhou ao chão e começou a pegar os livros dela. Apenas então Narcissa o olhou: era Lucius Malfoy.

- Eu peço desculpas. Não estou tendo um bom dia.

- Não... Não. Eu deveria ter desviado.

Lucius logo se levantou e os olhos acinzentados analisaram Narcissa de uma forma tão milimétrica que a garota sentiu-se corar.

- Lucius... meus livros.

- Oh. Claro. – Ele entregou os livros a Narcissa. – Você se machucou?

- Não.

- Que bom! Posso saber por que você estava andando tão apressada?

Ele estava tentando conversa com ela. Narcissa franziu o cenho – ainda não tinha se acostumado com a nova cordialidade de Lucius Malfoy. Durante toda a semana ele tentou se aproximar dela, sempre lhe cumprimentando e fazendo milhões de perguntas. Narcissa não entendia por que ele insistia tanto, se ela, nenhuma das vezes, dera sinais de que queria a amizade do garoto.

- Eu estava tentando não me atrasar para a aula de McGonagall – Ela respondeu sem sorrir. – Agora, eu acho, será um esforço em vão.

Lucius sorriu e a mão dele foi ao braço de Narcissa. A jovem esquivou-se imediatamente, esperando ter deixado claro que eles não eram amigos, nem tampouco tinham intimidade suficiente para que ela o deixasse tocar-lhe.

- Sabe – Lucius começou, seu sorriso tornando-se maquiavélico. –, é melhor não ir à aula de McGonagall. Ela vai certamente massacrar os pontos da Sonserina, se você chegar lá atrasada. Porque não vamos para o salão comunal? Eu te faço companhia.

Narcissa bufou, impacientemente.

- Nós não somos amigos, Lucius.

O sorriso dele cresceu.

- Mas deveríamos ser.

Narcissa fechou os olhos e deu um longo suspiro. Queria dizer a Lucius que não tinha interesse na amizade dele; que preferiria perder todos os pontos da Sonserina a ter que passar a tarde com ele; que não tinha paciência ou disposição para se tornar o novo caso do famoso conquistador. Mas, ao abrir a boca, a única coisa que escapou dos seus lábios foi:

- Você vai se atrasar, Lucius.

E deixou-o só.

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Reviews, por favor.

Bjus e mias bjus para a minha maninha querida, a Sheyla Snape, que betou mais esse cap. E, claro, para as lindas que deixaram review: DevilAir (Sim, Rodolphus terá um grande papel no fascínio de Bella pelo Lorde das Trevas. Logo ela o encontrará pela primeira vez) e Lia Croft (Ahh, espero que vc goste dos caps que vem a seguir! Bjus!). E do Nyah!: Emilyn Cruz, Aphrodite_A e geb101.