Dezembro - 1787
A lua já vai alta, o som do violino dissemina-se por toda a casa, capatazes, escravos, cozinheiras, empregadas, tudo se aquieta para apreciar a música que a Senhorita Rachel toca na varanda do seu quarto.
Tocar no seu stradivarius é a forma como ela consegue expurgar as suas emoções, um dos poucos legados da sua mãe, a sua paixão pela música, pelo violino. Hoje cada nota que sai das cordas é uma lágrima que ela impede de cair, cada acorde é um chorrilho de dor não expressa, a luz do luar reflete na sua pela, o vento da noite de inverno dança em torno do seu cabelo, o mundo parou. Só existe ela e a música, ela e a sua dor.
Rachel olha mais uma vez para as estrelas que enfeitam o escuro, arruma o violino e volta para dentro do quarto. Lá dentro a sua leal governanta já a esperava.
- Anne, o papa ainda está no escritório?
- Não, menina Rachel, o seu pai retirou-se logo após a conversa com o Senhor Fabray ter terminado.
- Russel Fabray esteve aqui?
- Sim, menina.
- Porque será que não é difícil imaginar o que ele veio cá fazer – Anne continua de volta das tarefas e remete-se ao silêncio – Agora que a filha mais velha já está noiva, já está a preparar o terreno para caçar o próximo herdeiro.
- A menina não devia dizer essas coisas. O menino Sam é um ótimo partido, ele cuidaria muito bem da menina e seria um bom pai de família.
- O Russel Fabray está muito pouco preocupado com a minha felicidade, nem com a minha nem com as dos filhos – a morena enfia-se na cama e abre um livro dando a conversa por encerrada.
Pergunto-me o que acha o Sam de tudo isto. Ele precisa de trilhar o próprio caminho. Que pelo menos alguém naquela família o faça, ele sabe que eu não caso por conveniência, a minha mãe não casou e eu não irei fazer. Suspiro, o meu coração aperta, se fosse por minha vontade eu nunca iria casar, pois com a pessoa com quem eu gostaria de passar o resto da minha vida não me é permitido casar. O amor não devia ser suficiente para o casamento? Não seria isso que o casamento devia significar? União de duas almas… Não união de duas heranças!
Amanhã é outro dia, tudo é melhor depois de uma noite de sono, hoje desistir parece-me certo, pode ser que amanhã já não o seja.
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Dois dias depois (4 dias para a festa de noivado)
Mansão Fabray - jantar
Silêncio gélido que impera nesta mesa, ou melhor, muito se fala, mas nada se diz. Isso deve equivaler ao silêncio, a minha mãe não se cala com os preparativos da festa, tento fingir-me interessada e parece que estou a ter resultado porque ela não se cala. O que eu esperava? Que ela conseguisse ver para além do seu entusiamo, ver para além das aparências? Sam está concentrado no seu prato, não tem parado em casa, esconde-se atrás da aprendizagem dos negócios, quase que não me dirige a palavra desde da nossa última discussão, meu pai decidiu erguer o olhar do bife, eu conheço aquele olhar, vai anunciar algo, seu peito está inchado daquilo que eu suponho que seja orgulho… O que nunca é um bom sinal!
- Quero informar-vos que já falei com o Hiram Berry – sinto uma dor no peito, o ar falta-me – Ele mostrou-se disponível para o Sam cortejar a Rachel Berry, diz que irá falar com a filha. Mas considerando a boa relação de amizade entre as nossas famílias – respiro fundo, não sei o que me está a sufocar mais, a ideia dela ser cortejada pelo meu irmão ou a ideia estar constantemente atrás da aprovação de um hipócrita – Em todo o caso, meu filho, peço-te que a Senhorita Rachel durante o noivado da tua irmã. – Agarro o garfo com tanta força, admiro-me que ainda não o tenha dobrado – Ah, claro. Judy, considerando que a herdeira Berry é a melhor amiga da nossa filha, e que queremos casa-la com o nosso filho, é de toda a conveniência que ela seja convidada para dama de honor.
- Russel, o que as pessoas vão dizer? Sabes que os Berry não são frequentadores da igreja, as minhas amigas e as filhas das minhas amigas acham que ela é irritante…
CLASH!
Ela não sabe como o fez, só sabe que acabou de partir o pé do copo de cristal, três pares de olhos observam-na, afinal não foi o garfo que sofreu as consequências da sua raiva contida, foi o copo, mas como ela pode tolerar ouvir estas coisas? Queria ter coragem para gritar: Rachel não é irritante!
- Rachel não é irritante! – infelizmente não foi a sua voz, contrai a mandibula, reprime as lágrimas de frustração e de embaraço pela sua cobardia, mais uma vez estremece ao ouvir a voz do seu irmão – E se o pai pretende que me case com ela, convém que a comecem a respeitar!
Ele levanta-se e faz uma saída dramática, não consigo evitar um sorriso ao lembrar-me dela, o meu pai olha para mim, eu aceno, levanto-me e finjo seguir o caminho do meu irmão, em vez de ir atrás dele, escondo-me no quarto e choro…
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Mansão Berry
Uma ligeira corrente de ar, o barulho de uma porta a fechar-se, vem aí, a conversa que tenho estado a evitar, talvez a evitar há tempo demais.
- Estrelinha, há dois dias que estás praticamente trancada na biblioteca – papa aproxima-se de mim, senta-se ao meu lado, marco a página do livro e fecho-o, aconchego-me em seus braços – Filha, não me queres contar o que se passa? Porque esse desânimo todo? Porque o refúgio nos livros?
- O livro é um amigo que nunca me irá trair…
- Quem te traiu ma petit? – procuro mais ainda o calor do corpo dele, o calor paternal que dá segurança, pode ser a última vez.
- O meu coração papá, o meu coração todos os dias me traí!
- Estrelinha… Quando o seu avô me aceitou, eu tinha sido deserdado, tinha perdido o meu nome, a minha família, não tinha nada, a única coisa que sobrou foi o amor pela sua mãe. Ele não me julgou, eu apenas tinha que lhe provar que merecia a sua filha, a tua mãe. O teu avô era o melhor homem que conheci, ele permitiu a tua mãe escolher o homem que queria para casar e contrariou muitas crenças e muita gente, eu nunca iria desonrar essa memória. Até porque acima de tudo, és o meu maior tesouro, acredito no teu discernimento e quero que sejas feliz. Tens toda a permissão para casares com o homem que escolheres…
Chegou a hora, as lágrimas começam a escorrer pela face ligeiramente corada, o coração acelera, as mãos ficam frias…
- E se eu não quiser um homem? – Já está! Abri a caixa de pandora! Meu papá enruga a testa em confusão enquanto amadurece as minhas palavras e de repente, eu sei que ele percebeu, eu vejo o flash de reconhecimento no seu olhar.
- Quinn?!
- Sim! Quem mais poderia ser? – Começo a chorar perdidamente, o meu pai não me afasta em repulsa, aperta-me mais apertado em seus braços, e eu choro mais ainda num misto de tristeza e de felicidade.
- Eu não entendo, nem percebo. Acho que fingi até não ver, não quis ver, esta situação não é nada fácil para mim. – pausa – Mas é ainda mais difícil ver-te sofrer dessa forma ma chèrie. Eu posso não entender, mas terás sempre o meu apoio incondicional. Sei o que é sofrer por amor…
Choro durante mais uns minutos, horas, não sei. Olho-o nos olhos…
- Amavas muito a mamã?!
- Amo muito a tua mãe!
Amo?! Será que esta dor nunca vai passar?
