NOVEMBRO (parte)


1, Novembro, 2005

Querida Jenny,

Ando tão distraída que nem reparei que ontem foi o Dia das Bruxas. Bom, seja como for, nem apareci no Salão Principal, portanto pouco me importa. Nada sobrou das decorações de ontem à noite. Pobres elfos domésticos, têm tanto trabalho!

Hoje de manhã, Ron tentou falar comigo, enquanto comíamos. É claro que o Rapaz-Que-Não-Sobreviverá-Para-Contar-A-História já sabe de tudo, e como ambos têm a sensibilidade de um chifre de dragão, não entenderam nada.

Hoje de manhã, Harry tentou falar comigo, na aula de Poções. Nem lhe liguei.

À hora do almoço, ambos tentaram falar comigo, mas eu saí rapidamente da mesa.

À noite, Luna veio falar comigo. Eu disse-lhe que estava de TPM e fui deitar-me, aborrecida.

Não tenho mais nada a dizer, excepto que não consegui rever matéria nenhuma. Estou tão frustrada! Merlin…

Até depois, Jenny!


3, Novembro, 2005

Querida Jenny,

Ontem tive Cuidados com as Criaturas Mágicas, com o Hagrid. Como era de esperar, tive de ficar com Ron e Harry. Ron corou imenso quando me viu. Espero sinceramente que ele ultrapasse isso, porque assim as pessoas só cochicham mais.

Oh, e esqueci-me de contar. Como era segredo, já toda a escola sabe do que aconteceu entre mim e o Ron. Agora, em vez de lhe chamarem "Rei do Lixo", chamam-lhe "Namorado da Louca", que pode ser interpretado por meu namorado ou namorado da Luna. Mas, se nos conhecessem bem, saberiam que eu jamais andaria com o meu melhor amigo. Merlin, eu já ultrapassei a cena toda do beijo, mas ele parece daquelas pessoas que nunca esquecem, e põem a mão no sítio onde a única rapariga que seria capaz de o beijar por muito tempo, nem lavam essa parte da cara. Blargh, que nojo! Não, o Ron não deve ser assim.

Como estava a contar, Ron ficou numa ponta da mesa, e Harry ficou no meio, entre nós. Ele já se estava a passar, e explodiu, de vez.

- Ok, já chega! Vocês os dois, façam as pazes, por amor de Merlin! Foi um beijo, não teve significado nenhum, pois não?

Após ter dito isto, calou-se e fez um ar espantado. Eu olhei para Ron, de relance, que estava ainda mais vermelho e envergonhado. Fiz-lhe um ar interrogativo, mas ele nada disse. Foquei, por isso, a minha atenção nos explojentos.

Enquanto tentava desenhar a sua anatomia exterior, recebi um papel amachucado de Ron, com uma caligrafia bastante torta.

Falamos depois? Sala-comum Gryffindor.

Ron W.

Eu acenei-lhe com a cabeça, e conservei o pergaminho.

Ele teve de sair mais cedo, pois estava a ficar com dificuldade em respirar. Harry acompanhou-o à enfermaria, por isso, fiquei sozinha. Estava um pouco ansiosa, admito, mas não foi necessário, pois quando cheguei à ala hospitalar, disseram-me que Ron já se tinha ido embora. Fui a correr até à torre, e lá encontrei-os aos dois. Ron respirava fundo, parecia que tinha acabado de correr a maratona. Olhou para mim, e sorriu.

- Hermione! Ainda bem que nos encontraste!

- Sim, pois… era o que vinha no papel.

- Oh, pois.

- Então, o que é?

- Bom… ok, não consigo dizer. Harry, meu, diz tu.

- Eu? Porquê eu? O problema é teu, não meu!

- Sim, mas eu não quero… diz lá tu, pá!

- Pronto, está bem… Hermione, o Ron queria pedir-te os trabalhos de casa de Poções emprestados.

Fiquei parva. Sim, morri ali, logo.

- O quê? – disse, embasbacada.

- Oh, o Harry está só a brincar. – disse Ron.

- Não, não estou. Foi isso que tu me disseste, Ron. Só se me tiveres mentido… RON! Não acredito! Como é que vou poder voltar a confiar em ti? – disse Harry.

Eles pareciam um casal a discutir. Ron sussurrou-lhe algo ao ouvido, fez um ar constrangido, e depois Harry disse:

- O Ron inventou aquilo da Luna, ele só… ei, espera lá! Que história é essa? Eu não sabia que tu gostavas… eu… RON! A Luna?

- O que é que foi? Eu pensei que o Ron te tivesse contado! A culpa é dele, não minha.

- Sim, obrigadíssimo, Hermione… --'

- De nada, Ron.

- Ok, então expliquem lá o que se passou.

Como nós começámos a falar ao mesmo tempo, Harry suspirou e mandou-nos calar. Disse para eu falar. Eu corei, mas contei-lhe o que aconteceu.

- Bom, primeiro, eu perguntei ao Ron porque é que ele me tinha convidado para o baile, só que ele ficou muito vermelho, por isso eu esqueci. Depois, fomos para ao pé do Lago, e ele disse que tinha uma coisa importante para me dizer, e eu beijei-o, porque pensava que ele ia dizer… ia dizer que gostava de mim. Só que ele disse que queria ajuda para conquistar a Luna, e depois eu fui-me embora.

Após isto, Harry partiu-se a rir, até caiu no chão, e começou a rebolar-se. Eu fiquei estática, há espera que ele parasse, mas durante um bom bocado, não o fez. Comecei a chatear-me a sério.

- Oh, hahahahaha, hehehihihi meu deus… não posso crer… HAHAHAHA xD tu… Luna… e tu… huhuhuhu, hahahaha!!

- HARRY JAMES POTTER, PÁRA COM ISSO! – gritei, de uma vez.

Ele olhou para mim, e finalmente calou-se. Eu andava a dizer o seu nome todo demasiadas vezes. É o que dá, quando eu me chateio muito.

- Olha, o que se passa é o seguinte: – começou Ron – digamos que, e desculpa, mas eu menti-te, porque… acho que tive medo, sabes. Mas agora acho que mereces saber a verdade.

- Eu… espera. Deixa-me só… dá-me um tempo para pensar, sim? Deixa-me só… sim, tenho de ir. Dá-me um tempo.

E dito isto, fui-me embora. Eu não sabia no que pensar, pois ele tinha, de facto mentido, e eu ainda não sabia se os meus sentimentos em relação a ele seriam verdadeiros. E se, porventura, acabássemos, como seria tudo? Ele era o meu melhor amigo.

À noite, ao jantar, sentei-me à sua frente, e ele parecia o mesmo de… bem, desde o ano passado, convenhamos. Já não me fitava de maneira estranha ou ansiosa, como que a dar-me espaço para pensar. Apesar de ele ter a sensibilidade da tia Muriel, estava a ser mesmo querido. Sorri-lhe gentilmente e ele retribuiu. Depois, disse que tinha de me ir deitar.

Enfiei o pijama rapidamente (sem pormenores acerca da roupa, desculpa) e pus-me a pensar seriamente. Ri-me descaradamente, primeiro, pois quem no mundo inteiro, e razoavelmente são, se apaixonaria por Luna Lovegood? Ok, talvez esteja a exagerar, ela é uma óptima rapariga, mas não o expressa lá muito bem, apenas a quem a conhece muito bem. Sim, por exemplo, eu.

Só somos amigas desde este ano, mas eu afeiçoei-me imenso a ela. Talvez por ter sido ela (e Ginny) a minha única fonte de consolo durante alguns períodos anteriores, talvez até por ter sido ela a escolhida para prefeita e companheira de quarto aqui da je.

Mas continuando o assunto "Ronald Bilius Weasley", não sei mesmo o que fazer. Talvez já esteja a esquecer um pouco Draco, mas não tenho a certeza se gosto do Ron. Tipo, gostar mesmo a sério… oh, não sei porque hei de escrever num diário que não me responde ou compreende, nem é matéria viva! Pfff…

Deixei-me perder em sonhos.

Hoje acordei demasiado tarde, e por isso cheguei atrasada à primeira aula, Transfiguração. Meu Merlin, que vergonha! A profe McGonnagal deu-me um raspanete que vai daqui à ponta da Floresta Proibida… e nem tive tempo para comer nada!

Embora muito me tivesse custado, tive de ir à cozinha – pobres elfos domésticos, para além de limpar e cozinhar dentro das horas normais… – , na companhia de Harry. Pudemos ter um tempo para falar.

- Então, Mione, já sabes o que vais dizer ao Ron? – perguntou, ansioso.

- Eu… eu pensei muito nisso, mas ainda não cheguei a uma grande conclusão. Sabes, não sei se gosto mesmo dele, e as coisas ficariam muito estranhas entre nós os três, se nós começássemos a andar. Percebes o que quero dizer?

Acrescentei esta última frase, pois em termos de sentimentos os rapazes não têm lá muito tacto.

- É, percebo. Acho eu. Mas eu acho que devias tentar, sei lá, experimentar ir a um fim-de-semana de Hogsmeade com ele ou assim. A ver se te davas bem com ele assim nesse aspecto. Mas eu sei lá, tu é que tens jeito para estas coisas de raparigas, não eu, obviamente.

Ri-me, nervosamente.

- Pois, talvez. Talvez experimente isso, sim. – disse, mais para lá do que para cá.

Draco Malfoy estava agarrado a Pansy Parkinson, – a mesma vaca que estava com Jensen Fleming – e os dois estavam colados que nem desentupidores de retretes, pelos lábios. Ele parecia estar a divertir-se, pelo menos era isso que a sua expressão demonstrava.

Eu fingi que não dei por nada, mas senti um aperto repentino no meu coração. Sim, ele não tinha mudado em nada. Fiz um esgar, e pensei: quem melhor para o esquecer que Ronald Weasley? Apesar de desastrado, ele era bem melhor que Draco, disso não tinha dúvidas. O seu coração era puro e genuíno, ele era a cura perfeita.

Sorri mais abertamente que nunca, e Malfoy olhou para mim, descolando-se da boca da vaca pela primeira vez, e admirou-se com a expressão que o meu rosto ostentava. Ri-me com desprezo e dirigi-me para os campos, altivamente, com Harry a fazer um esforço por me acompanhar.

Até depois, Jenny!


4, Novembro, 2005

Querida Jenny,

Descobri que gosto mesmo do Ron. Ontem, fui ter com ele aos campos (Harry tinha evaporado misteriosamente) e disse-lhe que estava pronta para experimentar algo. Ele nem podia acreditar. Os seus olhos azuis brilharam e ele pegou-me ao colo, fazendo-me rir. Rodou-me no ar, e eu fiz com que caíssemos na relva fresca. Trocámos um olhar apaixonado e beijámo-nos suavemente.

Ai, ai! Nem sei o que dizer. O dia de ontem foi perfeito. Harry juntou-se-nos pouco depois (suspeito que tenha estado escondido debaixo do Manto da Invisibilidade) e passámos lá o dia. Por muito estranho que pareça, nós os três continuamos tão amigos como dantes.

Para já, só tenho a dizer que Draco ficou muito maldisposto, assim da noite para o dia, por isso ficou o dia todo no quarto. Oh, que pena temos!

Até depois, Jenny! :DD


6, Novembro, 2005

Querida Jenny,

Eu julgava saber o verdadeiro significado de felicidade, mas estava enganada. Buscava avidamente alguma resposta entre os livros, embora nada encontrasse. Julgava que aquilo do primeiro amor era fantasia, e escondia-me atrás da máscara de estudiosa, e fingia que não me importava, mas aquilo magoava-me mais do que gostaria, quando se riam de mim nas minhas costas, por ser como era.

Quando realmente me libertei das correntes que me prendiam, foi no primeiro ano de Hogwarts. Eu sentia-me extasiada por ter sido eu a escolhida por uma escola secreta e importante, e não as minhas amigas. Elas não eram realmente minhas amigas, eram apenas de conveniência, para copiar durante os testes ou para lhes fazer os trabalhos de casa. Antes de ter chegado à escola, já eu tinha decorado cada um dos difíceis livros, e pouco me importava se me chateassem, chamando-me Sabe-Tudo ou algo do género. Seja como for, já eu estava habituada, as escolas de Muggles são iguais a Hogwarts – pelo menos no que toca à coscuvilhice. Fiquei logo a saber tudo sobre o mundo mágico a que, em breve, participaria.

Depois, foi quando eu vi o troll, ainda no primeiro ano. Fiquei aterrorizada, mas quando vi Ron e Harry, sabia que tudo correria bem. Tinha, contudo, algum receio de que um deles se magoasse.

Mas agora sei que a resposta para a verdadeira felicidade não vem em nenhum livro, ela está no contacto com as pessoas, os melhores amigos, e Ron. Esta etapa da minha vida é algo inesquecível, e dificilmente me separarei dela, ou dele.

Ontem, estivemos a comer sapos de chocolate à chuva. É realmente romântico, sabes? Estava a chuviscar, e ele sorriu, como quem tem uma ideia fenomenal – e não digo que não foi – levou-me pelo braço, a correr, para ao pé dos portões, e lá ficámos. Oh, não sei porque não vi antes aquele por quem estou agora cega. Não sei mesmo!

Bom, em relação ao assunto "Harry James Potter e Ginevra Molly Weasley", nada podia correr pior… Jesus, o Harry começou a namorar a sério com a Cho Chang, e a Ginny ficou tão deprimida que agora anda com o Zacharias Smith, um idiota da equipa de Quidditch dos Ravenclaw – que, por acaso, é da mesma equipa de Cho… Ai Merlin, nem sei o que dizer (neste caso, escrever, não é?).

Houve um dia em que perguntei ao Harry se ele gostava mesmo dela.

- Eu sim, Hermione, é claro que sim! É mais ou menos como tu e o Ron, percebes? – respondeu ele, com os olhos a brilhar.

Eu revirei os olhos.

- Sim, exceptuando o facto que nós nos conhecemos há anos, e eu não sou uma idiota com a mania que tem todos os rapazes que quer, só porque pede. – disse eu, muito baixinho.

- Bom, eu gostava de saber o que é que tu tens contra ela, sinceramente. – disse ele, áspero. Sempre que falávamos sobre Cho, eu revirava os olhos e tentava mudar de assunto. Pelos vistos, esse comportamento não passou despercebido a Harry.

Eu estava ali, sem saber o que dizer, quando resolvi, mais uma vez, falar de outra coisa. Sim, ele estava mesmo feliz, dava para ver. E eu não me importava que ele fosse feliz, apenas com o facto de ele ser feliz com uma rapariga daquelas.

Digamos que ela passava a vida a chorar, pelas notas da escola, – em que tinha 99% e não 100% – pelo Cedric, que a abandonou depois do Torneio dos Três Feiticeiros, por ter molhado a sua roupa com lágrimas, etc. Cho Chang apoiava-se na sua amiguinha Marietta para chorar, eram ambas Marias Madalenas. E é claro que Harry fazia ouvidos de mercador às pessoas que lhe contavam isso. Ele dizia apenas que ela estava numa fase má, e que ele a estava a ajudar. Pobre rapaz incompreensível e iludido…

Houve uma vez ou outra, quando ia à biblioteca, em que vi Malfoy. Ele estava ainda pior que antes, Merlin. O seu cabelo encontrava-se completamente desmazelado e tinha olheiras enormes. Cheguei quase a confundi-lo com o vampiro que vive na Toca, no sótão, e embora Draco não tenha o cabelo escuro, os tons de pele estavam extremamente parecidos. Ele raramente desviava o olhar dos livros, ou do tampo da mesa, quando nos encontrávamos, e quando o fazia, arrependia-se. Isso era evidente na sua expressão.

E eu a julgar que o amava. Era uma miragem, um sonho distante. No entanto, não podia deixar de sentir pena dele. Draco Malfoy era alguém que, por momentos, pensei conhecer ou compreender. Ele era um puro-sangue ensinado desde novo a ser puro-sangue, e estava a tentar mudar, por muito que o negasse. Eu conseguia ver isso, mas impedia-me de tentar reconfortá-lo, sabendo que só iria piorar as coisas. De alguma forma, saía da biblioteca decepcionada comigo mesma.

Apesar de sentir pena dele, não podia deixar de contestar a verdade. Ele evitava-me, e eu tinha de arranjar alguma solução para o Baile de Natal, por isso resolvi pedir à professora McGonnagal para trocar Draco por Ron, e ela disse que provavelmente seria o melhor. Eu fiquei muito contente, pois assim eu e Ron passaríamos mais tempo juntos.

Até depois, Jenny!


12, Novembro, 2005

Querida Jenny,

Devo dizer, durante os ensaios para o Baile, Ron é tão desastrado quanto Luna Lovegood. O que lhe vale é o meu jeito, pois sem mim ele não era nada. Começo a ficar bastante frustrada, mas tento parecer paciente. Falta tão pouco tempo para o Natal, estou desesperadíssima!

Aconteceu que, há umas noites, estava eu a patrulhar os corredores, quando me deparei com Draco. Ele também os vigiava. Tentou fingir que não me via, mas foi inevitável. Trocámos um olhar. Os seus olhos cinzentos estavam dolorosamente escuros, como na noite em que o apanhei a chorar sobre um pedaço de pergaminho. Cerrou as sobrancelhas e preparou-se para me virar as costas, mas eu impedi-o, agarrando-o pelo braço. Não fui muito forte, mas ele não ripostou, e deixou-se cair pela parede. Eu pus-me de cócoras, à sua frente.

- O que tens, Draco? Isto é tudo por minha causa? Foste tu quem me fez sofrer em primeiro lugar, sabes disso perfeitamente. – disse suavemente, com um tom de acusação na voz.

- Eu, Granger? Eu? Eu apenas te disse a verdade, eu nunca tentei esconder aquilo que sentia, enquanto que tu nem ligaste, não me disseste nada quando começaste a andar com a doninha fedorenta. É realmente verdade que o amas? Sendo assim, mentiste-me durante este tempo todo.

- O QUÊ? – gritei, sem conseguir suprimir a raiva - Estás a brincar comigo? Primeiro, tu disseste-me que não querias nada, e só depois é que vi que estava melhor com o Ron. Segundo, não lhe chamas nada daquilo acabaste de dizer. Terceiro, tu nunca me disseste a verdade. Optaste apenas por não contar a mentira, não foi? Vi-te colado à Parkinson, aquela que me fez sofrer uma vez, e que dessa vez foste tu quem me defendeu depois de quatro longos anos de ódio. O que raio se passa dentro dessa cabeça? Bolas, Draco! Não consigo entender-te! O que queres de mim? O que é que tu viste em mim depois deste tempo todo, o que é que te levou a sentir alguma espécie de afecto?

Ele limitou-se a fitar-me, silenciosamente arrependido. Estava decidido a não me responder, por isso ficámos ali, por uma eternidade, com olhares zangados.

Após algum tempo, respirou fundo e os seus lábios formaram uma linha horizontal.

- Queres saber? Nem devia ter perdido tempo contigo, devia ter-me ido logo embora, enquanto tinha hipótese. Tens sempre de saber tudo, não é, Granger? Pfff, deixa-me em paz.

Draco estava já a tentar levantar-se, mas eu impedi-o, mais uma vez. Mais uma vez, aquelas palavras foram como veneno para mim, magoaram-me imenso.

- Draco, antes de começares a inventar, ouve só o que te tenho a dizer. Eu pensava mesmo que tivesses mudado; ou, pelo menos, que quisesses mudar. Pensei que te estavas a aproximar de mim porque querias a minha ajuda, e eu estaria de bom grado disposta a fazê-lo, mas depois pensei: e se tu não tivesses mesmo mudado? E se tu te tivesses apercebido da minha mudança física, e te quisesses apenas aproveitar disso? Durante um longo tempo pensei nisso, mas depois voltei a acreditar na parte boa de ti que eu conseguia ver. Por favor, diz-me apenas se estava a acreditar numa mentira ou não. É que, ao contrário de ti, apesar de não te ter contado tudo, quase sempre acreditei, e ainda hoje acredito que as pessoas merecem uma segunda oportunidade.

Ficou calado por um momento, mas depois os seus olhos ficaram mais leves, moles.

- Por favor, Granger, não faças isto. Hoje não.

- Mas porquê, Draco? Disseste o mesmo naquela noite, enquanto choravas, e até agora, nada. Eu só quero ajudar-te, porque não consegues confiar em mim?

- Só te estou a dizer, hoje não. Por favor.

E interrompeu-me, quando comecei a protestar.

- Eu conto-te, prometo. Apenas, não hoje. Espera um pouco, por favor, e eu prometo que te conto. Está bem?

- Oh, pronto. Mas… mais uma coisa: podemos... quer dizer, isto significa que somos amigos?

- Por agora, penso que sim. Já sabes demasiado sobre a minha vida do que o normal.

- Demasiado? Mas eu não sei absolutamente nada!

- Acredita, sabes mais do que a maioria. Mas agora devíamos ir deitar-nos, nem os prefeitos deviam andar por aí a estas horas. – concluiu, com uma risada nervosa.

E assim, eu e Draco Malfoy ficámos amigos, por agora. Não sei o que raio significa isto tudo, mas já nada sinto por ele, e isso começa a ficar cada vez mais óbvio.

Sorrio-lhe quando o vejo, mas isso deve-se apenas ao facto de sermos amigos por agora. Bom, por agora é tudo. Ah, e Ron ainda vai substituir Draco. Apesar de Draco ser muito bom dançarino, prefiro dançar com Ron. Derreto-me toda nos seus braços - mesmo que ele não dance nada bem.

Até depois, Jenny!


17, Novembro, 2005

Draco nunca mais veio falar comigo, pelo menos, sobre aquele assunto, mas temos conversado bastante, depois de os outros se irem deitar. Ficamos na nossa sala-comum, a falar, umas vezes sobre o tempo, outras vezes sobre os testes, mas lá no fundo, ele é bem simpático. Esta segunda oportunidade tem revelado muitos frutos.

Mas vejo agora, após folhear as páginas deste diário, que em todas as datas refiro pelo menos uma vez, aquele rapaz. Escrevo bem ou mal, mas sempre escrevo o seu nome. :s

Mudando de assunto, é melhor começar já a estudar – e a fazer planos para estudo para os dois rapazes –, pois os exames NPF (a realizarem-se já em Junho) são aqueles que nos vão marcar para o fim das nossas carreiras. Harry e Ron dizem que não vale a pena começar tão cedo (francamente!), mas depois, no fim, eles verão quem sempre teve razão. Sim, eu sempre tive razão. Sempre, sempre, sempre. Não é para me gabar, nem nada, mas é verdade. Quem teve razão no primeiro ano, na sala das Poções, quem? Bom, é verdade que foi o Ron quem teve a coragem de cair, no Jogo de Xadrez, e foi o Harry quem enfrentou o Lord… coiso, mas tu percebeste.

Resolvi preparar uma vingança contra a Pansy Parkinson. Eu sei, estou com a mania das vinganças este ano, mas é tão divertido! (quem ler isto, nem vai pensar que fui eu a escrever…nem eu me reconheço!) Mas adiante, não sei o que lhe vou fazer. Jamais pedirei ajuda a Ron, que, apesar de ser super amoroso, provavelmente não ficará muito contente com o motivo. Talvez o faça antes a Ginny, tenho a certeza que ela ficará contente em ajudar-me. Ela gosta tanto da Pansy quanto eu – aliás, Ginny, Luna, Lavender, as irmãs Patil… nenhuma rapariga gosta dela. Ela tem atormentado toda a alma que é homem, e ao que parece, eles não se sentem mal com isso. -.- Só mesmo eles.

Oh, tenho de ir, o Ron está a chamar-me. Tem um brilho estranho no olhar, não sei o que é que ele anda a preparar!

Bom, vemo-nos depois, Jenny! Talvez ainda hoje.


17, Novembro, 2005 (à noite)

Querida Jenny,

Ron certificou-se que ninguém estava no dormitório dos rapazes, e puxou-me lá para dentro e trancou-o. Eu fiquei chocada. Tanta desarrumação não era normal! Apenas o placard de cada um parecia estar em condições. O de Ron tinha vários posters em movimento dos Red Cannons, uma fotografia da sua família, uma comigo, com ele e com Harry, a sorrirmos num dia de Verão, e outra maior comigo e com ele, a olharmos um para o outro. Eu também tinha aquela fotografia no meu quarto, na mesa-de-cabeceira, mas tinha-a enfeitiçado, para que a expressão "Juntos Para Sempre" aparecesse de vez em quando. Era óbvio que ele não conseguia fazer isso. O baú de cada pessoa, ou abarrotava ou estava vazio, com roupas espalhadas à sua volta, por tudo o que era canto.

- Ron, o que estamos aqui a fazer? – perguntei quase num murmúrio, quando ele me tapou a boca com a mão.

- Shhh, não fales, tenho uma coisa para ti. – respondeu, com um sorriso calmo.

Tirou um embrulho – um pouco mal feito, mas eu não me queixo – do bolso, e entregou-mo.

Quando o abri, não entendi ao certo o que era. Era uma pequena garrafa, daquelas em que se coloca a poção, no final da aula de Poções. Continha um líquido dourado, pelo que dava para ver por fora, mas quando a abri, vi que havia um anel. Tirei-o de lá de dentro, e percebi que tinha espirais, que mudavam de cor momentaneamente. Naquela altura emanava uma aura dourada e vermelha.

- Fui eu que fiz… – começou ele – as cores mudam consoante os nossos estados de espírito. Agora, estamos os dois em sintonia, vês? Estamos ambos contentes, pois é isso que o vermelho e o dourado significam. Se estivessem em prateado e verde, por exemplo, estaríamos igualmente interligados, mas estaríamos tristes ou zangados.

Fiquei sem palavras. Os feitiços que ele deve ter feito – e bom, eu sei-os todos, mas deram-lhe muito trabalho, disso eu sei. O tempo que ele deve ter gasto naquilo fez-me perceber que ele gostava mesmo de mim. Entendi que passou bastante tempo, pois ele começou a olhar-me ansioso.

- Então… gostaste?

- Se gostei? Oh, Ron, eu…

Atirei-me para os seus braços. Ele, em vez de ficar num tom perigoso de vermelho, como costumava fazer muitas vezes, fincou-nos num abraço apertado, que depressa se moveu para a sua cama, onde o seu presente ficou esquecido, e lá começámos a curtir. Eu senti borboletas na barriga, pois se fôssemos apanhados, seria uma vergonha enorme. Mas tentei não pensar nisso. De facto, passados uns bons vinte minutos, Ron soltou um riso abafado, entre beijos, e disse que talvez devêssemos sair dali. Tentei dar um jeito ao meu cabelo, mas como estava indomável, acabei por deixá-lo assim. Estávamos ambos muito corados, e como a sala-comum dos Gryffindor estava bastante cheia, pudemos ouvir inúmeros assobios e risadas. Eu só queria esconder-me. Avistei a Ginny num dos sofás perto da lareira e resolvi ir ter com ela. Ela também se ria. Lancei-lhe um olhar que fez com que ela se calasse imediatamente.

- Então, tu e o meu irmãozinho ali dentro…

- Ora, está calada. – cortei.

- Pronto, como queiras.

Agora que via bem, Ginny parecia menos jovial, o seu olhar estava até um pouco vazio. Oh, era Harry.

- Ginny, está tudo bem? – perguntei, receosa.

- Sim, acho eu. Quer dizer, ele anda com a Chang, mas eu estou com o Zach, certo? – disse, talvez mais para si do que para mim – Mas talvez eu o faça ver que posso ser melhor no Quidditch do que ela. Para isso, tinha de acabar com o Smith mas… sim, acho que sim.

Comecei a ver um brilho no seu olhar, e ela finalmente ficou mais contente. Começámos a falar de coisas mais banais, pois eu não era bem uma dotada na área do Quidditch. Gozámos com a Parkinson, com o Crabbe e o Goyle, com o Montague e com o Nott. Aproximámo-nos perigosamente do assunto Draco, mas ela poupou-me a ter de fazê-lo. Ao divertir-me tanto assim, nem me apercebi das horas passarem. Mal dei por mim, eram onze da noite, e eu deveria ter feito a vigilância dos corredores! Bolas, conheço inúmeras pessoas que agora me matariam… incluindo Malfoy. Despedi-me apressadamente de todas as pessoas, demorando mais um minuto em Ron do que no resto, e parti a correr para a minha sala-comum. Lá estava ele, sentado num sofá, com ar enfadado.

- Draco, desculpa. A sério, nem dei pelo tempo passar…

- Oh, estás aí. – virou-se finalmente para mim. Estava de novo como quando não me conhecia, rabugento e egocêntrico.

- Draco… estás bem?

- Sim, acho que sim. Ah… tudo bem aquilo de te teres esquecido e tal, eu também apetecia-me ficar sozinho. – continuava sem olhar directamente para mim.

- Draco, ouve-me. O que é que tu tens?

Parecia constrangido.

- Nada, deixa-me.

- DRACO! Bolas, o que é que… OH!

Abafei um grito, enquanto tentava amparar a queda dele. Desmaiou, de um momento para o outro, e eu fiquei sem saber o que fazer. Olhei para trás, como se alguém, de alguma forma, fosse culpado por o que acontecera, e fiquei estupefacta. Ele… ele estava ali, à nossa frente. O… o… o… oh…