Capítulo 3 – Terceira Semana

» Domingo «

Rita Skeeter não poderia de forma alguma sentir-se mais deliciada essa manhã, ao ter sido ela a primeira pessoa a colocar as mãos em cima daquele maravilhoso e suculento achado.

Tinha chegado mais cedo para reclamar, com o estúpido do seu Editor-Chefe, por este não lhe ter dado a primeira página do jornal como lhe prometera no dia anterior, quando viu o envelope em cima da mesa do seu superior. Sem mais delongas, abriu-o e escutou a gravação, pouco se importando de que esta não fosse destinada a ela. Não era como se o velho Ian Schmidt pudesse escrever alguma coisa de jeito, só tinha conseguido aquele cargo porque mais ninguém o desejava. O tipo sabia de redação jornalística, tanto ou menos do que ela percebia de quidditch, ou seja, zero.

A loira inspirada pelas espetaculares novidades, correu até à sua secretária, começando a escrever o melhor artigo que os funcionários do Profeta Diário alguma vez teriam a honra de ler. Terminado o texto, só faltava a aprovação do Editor-Chefe, mas este era um ancião muito resmungão sem olho para as verdadeiras oportunidades que poderiam virar minas de ouro, apegado à sua estúpida ética laboral, que não serve para nada a não ser para a lixar, pelo que recusou a publicação sem chegar sequer a terminar de a ler. Furiosa por ver o seu talento ser desperdiçado, uma vez mais, entrou em contacto com todas as revistas que pudessem estar remotamente interessadas na sua notícia, apenas para descobrir que a magazine Coração de Bruxa, já tinha incumbido, a sem graça da sua auto-proclamada rival, Florinda Roosevelt, de um artigo semelhante, ao terem recebido a mesma gravação que ela escutara essa manhã.

Não é preciso dizer que o desafortunado "acidente" que a mulher sofrera, ao "cair" pelas escadas do prédio onde vivia, na segunda-feira seguinte, viera mesmo a calhar. A lua já brilhava no céu noturno, quando os aurores ainda correndo atarefadamente, tentavam encontrar testemunhas daquele estranho incidente.

Enquanto isso, uma feliz e sorridente loira encaminhava-se à sede da revista Coração de Bruxa, com o artigo fortemente pressionado contra o seu peito, após ter conseguido chegar a um acordo com um dos fotógrafos que a auxiliaria na publicação da sua história, tendo-se este oferecido para criar uma galeria de fotografias, que adquirira a pedido da anterior encarregada.

"Obrigada, Florinda! Darei bom uso às fotos que me conseguiste. Asseguro-te que terão muito mais utilidade nas minhas mãos do que teriam nas salsichas que tu chamas de dedos."

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» Terça-feira «

Severus despertou abruptamente, sentando-se na cama…

A sua testa empapada em suor, cujas gotas escorriam copiosamente pelas suas têmporas, o terror impresso nas suas feições,a respiração acelerada pelo medo. Havia voltado a sonhar com a maldita transmissão da rádio mágica.

Acabara de recuperar o fôlego, quando a marca no seu braço esquerdo começou a queimar furiosamente e sem descanso.

― Mas que dia de merda… Tenho de me preparar. Pior as coisas não podem ficar!

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Molly entrou na cozinha e dirigiu-se à despensa, reparando que tinha ficado sem ingredientes antes do esperado. A ruiva podia jurar a pés juntos que deixara a despensa atolada apenas três dias antes. Ao escutar a balburdia causada pelos residentes ao despertarem e descerem para tomar um pequeno-almoço inexistente, mentalizou-se que teria de lidar com um bando de abutres esfomeados e como tal, extremamente mal-humorados.

― Bom dia, Sra. Weasley! ― cumprimentou Draco com cortesia calculada ― Que delicioso banquete nos presenteará nesta bela manhã?

Sorriu bela e encantadoramente, presenteando a mulher com um sorriso que deixaria Gilderoy Lockhart em vergonha. Draco recordou como movera todos os alimentos da despensa, causando com que a sua face resplandecesse de pura alegria.

Estava cansado de estar enclausurado, pelo que planeara um modo infalível para abandonar aquela casa o mais rapidamente possível. Sentia que ia enlouquecer se permanecesse no interior daquelas mofadas paredes por mais tempo. Não conseguia respirar corretamente… era como se estivesse sob constante vigilância. Espera! E na verdade estava, o Trio de Ouro não deixara de o observar com desconfiança durante toda a sua estadia.

― Oh! Lamento, querido, mas o pequeno-almoço vai ter de esperar um pouquinho. Fiquei sem ingredientes, pelo que vou sair agora mesmo para ir às compras ao Mundo Muggle, não é seguro ir ao Mercado Mágico… Os seguidores de Tu-Sabes-Quem estão por todos os lados.

― Posso acompanhá-la? É pedir demasiado que traga as compras sozinha, quando vai cozinhar para um batalhão de guerra ― disse o jovem de olhos prata com um porte galante, adquirido após anos e anos de análise e estudo desse mesmo comportamento por parte do seu progenitor. Não havia ser neste mundo que pudesse negar o carisma possuído por Lucius Malfoy. Até mesmo os seus inimigos hesitavam perante o seu magnetismo aliado à sua aparência sedutora.

― Claro, Draco, mas vamos ter de usar feitiços para passar despercebidos. Vem aqui, por favor. ― O adolescente aproximou-se à mulher, confiante de que esta não apresentava uma ameaça contra a sua integridade e deixou-a lançar-lhe um feitiço glamour. ― Prontinho, querido!

― Obrigado, Sra. Weasley.

― Não foi nada, filho. Agora só precisamos esperar Sirius para que nos guie ao mercado dos muggles. É primeira vez que vou a um, confesso que estou um pouco nervosa.

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Draco ficou admirado ao ver a ruiva pegar num pacote e afirmar que aquilo era leite, ainda mais quando esta lhe explicou que o animal branco com manchas pretas, chamado vaca, dava leite. Uma tremenda estupidez se lhe perguntassem… Qualquer mago de boa casta sabe que o leite vem em jarras de porcelana chinesa. Em que dimensão tinha sido criada a ruiva para cometer tal erro de percepção?

Se acham que essa foi difícil, não podem nem sequer começar a imaginar como correu a visita à peixaria. O loiro demandara saber quem fora a pessoa desumana que matara aquelas pobres e inocentes criaturas. Toda a gente sabe que os peixes devem estar na água! Pelo que o jovem mago exigia saber quem fora o troglodita que os arrancara do seu habitat?

― Mas, querido, comeste peixe há dois dias ― murmurou a mulher com tom maternal.

― O quê? Aquilo e isto são a mesma coisa? Assassinos, depravados, como podem matar estas vulneráveis criaturas e cozinhá-las em deliciosos banquetes que visam nos enganar e fazer com que comamos as vítimas dos seus hediondos crimes, livrando-se assim das evidências dos seus pecados? Seus… Seus devassos e imorais pecadores!

Como já podem imaginar, as compras tiveram de ser apressadas e o grupo teve de fugir velozmente, após Draco pegar num par de peixes, querendo dar-lhes um enterro apropriado na secção de floricultura.

O platinado havia agarrado num saco de "terra", rasgado o plástico e enfiado os peixes no meio de um monte de adubo, perguntando aos seus cuidadores porque aquela terra cheirava tão mal.

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O grupo já estava quase à porta de sede da Ordem da Fénix, quando o dono da casa explodiu em furiosos gritos.

― Que merda te passou pela cabeça? Nunca mais poderemos regressar àquele supermercado! ― esbravejou Sirius, abanando os seus cabelos castanhos claros fruto de um feitiço glamour, que guardara todas as suas reclamações até esse momento.

Não gostando do modo que estava a ser tratado pelo primo, o adolescente acercou-se a uma velha, soltando frases sem sentido para ela, mas muito perigosas para todos eles.

― Minha cara senhora, não pude deixar de notar que vive na vizinhança… poderia esclarecer-me algo?

― Claro, meu jovem!

― Aquele edifício foi sempre assim? ― Apontou para Grimmauld Place.

― Não compreendi a pergunta.

― Salta um número em vã… Ah! ― Draco levou a mão à orelha, esfregando a zona vermelhecida, pelo puxão que Sirius lhe dera. ― Que raios pensas que fazes?

― Impedir que reveles a toda a fodida cidade onde vivemos.

― Não é como se a anciã entendesse alguma coisa, pulguento.

― O que é que me chamaste?

― Pulguento! Não penses que não vi quando te coçaste na semana passada…

― Ele tem razão, Sirius, deverias fazer um tratamento anti-pulgas. Tive desinfestar o sofá antes-de-ontem, porque estava repleto de pulgas ― disse a matriarca Weasley.

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» Quarta-feira «

A Ordem da Fénix em pleno preenchia todo o espaço da cozinha de Molly Weasley, esta havia-se apossado da divisão, expulsando o elfo doméstico sem reparo nenhum. Como tal, Kreacher seguia o jovem Malfoy com prazer, realizando alegremente todas as demandas parvas e sem nexo com que o rapaz de olhos prateados se saía.

― Para quando é o ataque? ― perguntou Remus com seriedade.

― No próximo mês, ainda não sei a data com exatidão. Ele só avisará no dia anterior e dará os dados necessários no próprio dia.

― Entendo. ― Dumbledore apoiou o queixo nas mãos com uma expressão pensativa. ― Dizes que todos os seguidores mais chegados participarão?

― Sim. Ele convocou todos os membros do Circulo Interno, incluindo os que estavam em missões no estrangeiro.

― Então será algo realmente problemático. Um ataque em grande escala, provavelmente ― concluiu Mad-Eye, cujo olho rolava loucamente na órbita até terminar a apontar para dentro do crânio do homem.

― Lucius conseguiu mais alguma informação que nos possa ser útil em relação ao que te falei? ― perguntou Dumbledore, decidindo focar-se num assunto cuja solução fosse mais tangível.

― Ah! Certo, Lucius crê que um dos objetos está na posse de Bellatrix. De momento isso é tudo o que ele pôde descobrir. Quando tiver uma potencial localização ele comunicar-me-á a informação com a maior brevidade possível.

― Compreendo. Bom trabalho, Severus, devias regressar antes que ele dê pela tua falta.

― Regressarei assim que terminar de preparar o stock de poções…

― Depois gostaria que me fizesses uma lista das poções que ele te pediu. Devemos estar preparados, caso ele decida utilizar alguma delas no próximo ataque, pelo que elabora uma boa quantidade dos antídotos de todos venenos que ele te encomendou.

― Hm! ― O Mestre de Poções fez um gesto positivo com a cabeça e rumou em direção à lareira.

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Severus caminhava pelo escuro corredor que dava acesso ao Laboratório de Poções. Abriu a porta, dando de caras com uma divertida Narcisa, cuja face brilhava de infantil curiosidade.

― Há algo que me queiras dizer, Severus? ― interrogou a loira com uma revista nas mãos.

― Não, nada! Porquê?

― Recebi agora há pouquinho o novo número do Coração de Bruxa. É muito… hm… Eu diria no mínimo… interessante!? É uma edição especial, com número limitado de publicações… muito difícil de lhe pôr as mãos em cima, mas como já sabes, eu sou assinante da magazine há já um bom par de anos e…

― Desembucha de uma vez ― ordenou o morcego, cortando a lenga-lenga da matriarca Malfoy a meio.

― Cof..cof. ― Limpou a garganta antes de declamar o artigo sensacionalista, como se de um poema de amor se tratasse. ― Hoje temos o prazer de vos trazer a bomba do ano. O nosso querido Salvador já não está solteiro. Nós, do Coração de Bruxa, damos os nossos pêsames às candidatas a Lady Potter, pois a vaga já foi tomada.

― Não estou a entender aonde queres chegar. O que é que isso tem a ver comigo?

― Não interrompas, Sev, ainda não cheguei à melhor parte. Ora, onde é que eu ia mesmo? Ah! Sim! Já foi tomada. Harry Potter está numa feliz relação com um membro do Corpo Docente de Hogwarts e não estamos a falar de uma das professoras.

O Mestre de Poções abriu os olhos de espanto. "Não pode ser. Nah! Era áudio e foi passado numa estação com pouca audiência. É impossível que alguém naquela revista tenha escutado aquilo."

― Sim, minhas caras leitoras, Harry Potter está num relacionamento sério com… Não, não vão adivinhar… O herói está com, nada mais, nada menos que, Severus Snape! Dizem os rumores que os pombinhos já ponderam dar o passo seguinte e não estou a falar de roubar a pureza do Menino-Que-Sobreviveu, que de casto não parece mais ter nada , que o diga o traseiro do nosso escuro professor, mas sim de terem um frutinho dessa união, sim… um bebé. Aguardamos as boas novas e desejamos muita sorte ao casal na sua busca pela conceção do herdeiro da família Potter e que o Professor de Poções tenha uma gestação tranquila e segura. Para mais informações sobre o florescimento deste épico romance, por favor consultar página sete. Para mais informações sobre as reações dos amigos e familiares, consultar página treze. Para teorias e sugestões para o nome do bebé, consultar página vinte e nove. Para…

― Por favor, para, Cissy ― disse o homem com uma mão erguida e a outra a massajar a testa, querendo afastar a emergente enxaqueca. ― Já escutei o suficiente.

― Tens a certeza, o artigo tem um total de oitenta e sete páginas, com direito a fotos e tudo. A revista lançou um número especial só para cobrir este evento. Embora tenham algumas coisas sem nexo, como que o meu primo Sirius está num relacionamento com um elfo doméstico. Parvoíces, isso sim!

― Fotos? ― perguntou horrorizado e travado naquela tenebrosa palavra, sem prestar atenção ao restante discurso da sua "boa" amiga.

― Yep, fotos! Tiveste sorte que ninguém aqui ainda leu este artigo, mas quanto tempo pretendes esconder o vosso romance. Se o Lord souber que estás envolvido com Potter vai usar-te para o atingir.

― Narcisa! ― exclamou chocado ― Como é que podes sequer pensar que essa merda é verdade?

― Não é? Mas as fotos são bastante credíveis! ― Abriu na secção de fotografias, mostrando-as ao Chefe da Casa Slytherin. ― De qualquer forma, é melhor fugires antes que ele descubra e não voltes aqui sob circunstância alguma. Não importa se o mundo está a acabar, se apareceres pela mansão, vais ser crucificado. Além disso o teu amorzinho deve estar muito preocupado, volta à sede, que nós vamos-te informando dos avanços dos planos do Lord e sobre a investigação que pediste.

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» Quinta-feira «

Os residentes e hóspedes de Grimmauld Place despertaram com um estrondo oriundo do andar inferior.

― Estás a dizer que perdemos o nosso único espião? ― gritou Sirius fora de si.

― Não! Estou a dizer, que se me enviarem lá outra vez, terão de ir raspar os meus restos mortais dos mosaicos do chão ou dos azulejos da parede! ― exclamou o educador com sarcasmo.

― Vá, vá ― disse o Diretor, querendo apaziguar os ânimos. ― Não pode ser assim tão mau, Severus. Explica tudo desde o início, tenho a certeza que podemos pensar numa solução.

― Solução? Solução? Que solução conseguem arranjar para isto?

O Mestre de Poções jogou a revista, que Narcisa muito generosamente lhe cedera no dia anterior, em cima da mesa da cozinha. Na capa era possível ver uma foto de Harry Potter e Severus Snape no átrio do castelo, encarando-se fixamente, com um olhar que Rita Skeeter afirmava ser paixão desbordante.

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Draco assistiu o nascer do sol sentado no sofá da sala, desfrutando tranquilamente da sua dose de leitura "informativa" diária.

Eram sete da manhã, quando dois ruivos idênticos desceram, conversando animadamente sobre a sua última espetacular criação, um artefacto de comunicação audiovisual, semelhante à televisão inventada pelos muggles.

Ambos estavam muito animados com a nova patente que lhes serviria como salto para o estrelato. Já conseguiam imaginar tudo… Venderiam os artefactos a uma companhia de media, que criaria noticiários, novelas e documentários como faziam no Mundo Muggle. Mas esse seria apenas o início do seu plano-mestre.

Para aceder a essas fontes de entretenimento, magos e bruxas de todo o mundo correriam desesperadamente até à sua porta, implorando pela oportunidade de adquirir um dos seus modelos, que eles muito generosamente venderiam por uma "módica" quantia.

Ah! Um futuro brilhante aguardava-os…

― O que é que estás a ler, maninho? ― perguntou um dos gémeos, ao ver o loiro extremamente envolvido na sua leitura diária.

― Hmm… Apenas a colher os frutos do meu árduo trabalho ― respondeu o loiro, passando-lhe a revista.

― Wow! Fred, vem aqui, rápido, não vais querer perder isto por nada deste mundo ― gritou o ruivo para o irmão, que descia as escadas morosamente e com sonolenta preguiça.

Em menos de duas horas, o trio de marotos já havia feito cópias da revista e distribuído-as por todos os habitantes, hóspedes e convidados da casa, que começavam a despertar minutos depois.

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No meio da Sala de Estar, encontrava-se o Trio Demoníaco, em volta do seu mais novo projeto. George afastou-se levemente, admirando a sua obra-prima.

― Meus caros senhores, penso que acabámos de realizar um reverendo milagre! ― exclamou Fred com voz cerimoniosa.

― O que é que vocês estão para aí a tramar…?

Os outros dois afastaram-se do sofá, deixando uma peculiar visão diante dos olhos de um espantado Dumbledore, que apenas pisava o solo da casa, saído diretamente da lareira da sala. O velho não sabia se rir pela ousadia do trio ou chorar pela futura reação da "vítima". O homem acordou, observando-o com confusão e sonolência.

― Passa-se algo, Albus?

― N-Nada, nada! Fica-te bem.

― Fica-me bem? O que é que me fica bem? ― O ancião apontou para a cabeça do homem, que levou rapidamente as mãos ao cabelo, sentindo-o mais suave e saudável do que nunca. ― Mas que…

― Não foi nada demais, professor. Não precisa de nos agradecer.

― Draco? O que é que fizeste?

― Queria dar-lhe um presente, mas primeiro tinha de testar a fórmula para ter a certeza que se adequava ao seu tipo de cabelo.

― O nosso maninho passou muito tempo à volta dessa poção de limpeza capilar ― explicou Fred com um sorriso de orgulho fraterno.

― Yep! É perfeito para tratar o cabelo seboso e nojen… Ups! Eu queria dizer o cabelo "ligeiramente" oleoso e distinto do professor, pois evidentemente eu nunca atentaria contra a moral de um docente ― concluiu George com um sorriso de divertimento.

― Exato, só desejávamos assegurar-nos que o bebé não herdará maus genes, pelo que precisávamos saber se o seu cabelo tinha solução, Professor Snape ― retorquiu Fred imediatamente.

― Bebé? Que bebé? ― questionou o Mestre de Poções com voz sepulcral.

― Acaso não é verdade, Professor Snape? O artigo que a mamã me enviou esta manhã, dizia claramente que estava a tentar ter um filho de Potter. Pensei que tinha melhor gosto, mas depois de ter escutado aquilo ― Referindo-se à gravação da semana anterior, esboçando uma expressão profundamente traumatizada. ― e lido isto ― Jogou a revista no colo de Severus. ―, já não sei o que esperar ― constatou com falsa mágoa.

Uma solitária lágrima reluziu no canto do seu olho direito.

"Tenho que pensar em coisas tristes… muito tristes… Preciso de chorar de forma credível, se desejo que ele não desconfie de mim", constatou o loiro na sua mente.

― Ao menos podias ter-me dito em pessoa! Sou o teu afilhado ― exclamou a serpente, esquecendo por um instante de manter o discurso na terceira pessoa, demonstrando respeito pelos maiores e preservando o segredo do seu parentesco. ―, por amor a Salazar, qualquer pessoa assumiria que me comunicarias este tipo de notícias cara a cara, em vez disso tive de descobrir pelo artigo da sonsa ― "maravilhosa, fantástica, magnífica, gloriosa…", elogiou o menor interiormente ― Rita Skeeter? ― exclamou com tom sofrido e choroso. Os gémeos aproximaram-se prontamente a ele, começando a consolá-lo.

"Narcisa, não podias ter ficado quietinha no teu canto para não arruinar a minha reputação?", pensou o morcego com o seu famoso tique a ressurgir no rosto, causando um tremor na sua negra e fina sobrancelha. "Agora como é que vou enfrentar o meu afilhado? Como é que me vou fazer respeitar? Pior como é que vou dar a cara em Hogwarts? A Srta. Parkinson já deve ter definitivamente lido o artigo e informado todos os Slytherins… A minha vida terminou!"

― Mereces um Óscar pela tua atuação, Draquinho ― murmurou George ao ouvido do mais jovem membro daquela em breve famosa Tropa Destruidora.

― O que é um Óscar? ― perguntou Draco baixinho, para que o seu padrinho não escutasse o diálogo que compartia com os gémeos e se continuasse a martirizar durante mais um tempito, ponderando como deveria encarar o loiro, que sempre o vira como um modelo a seguir… Ou assim assumira Severus, desde que segurara o pequeno rebento pálido de bochechas rosadas e olhinhos cinza nos seus braços e fora nomeado padrinho da inocente e vulnerável criatura.

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» Sexta-feira «

Draco acordou bem cedo, agarrando nuns quantos folhetos que vira num balcão da área de restauração e bar, do supermercado muggle e desceu até à cozinha. Colocou os panfletos em cima da mesa, ordenando-os corretamente, de seguida invocou uma pluma copiadora, procedendo a deixar um bilhete endereçado ao alvo da sua inocente partida e saiu, para que ninguém desconfiasse do seu envolvimento.

Os membros da Ordem da Fénix desceram com os estômagos a rugir, clamando alimento. Dirigiram-se à cozinha, deparando-se com um estranhamente ruborizado Mestre de Poções, que queimava uns papéis com fúria contida. Temendo ser apanhados no fogo cruzado, o Trio de Ouro retrocedeu e fugiu por amor à vida, deixando para trás um desavisado Sirius Black, que ignorante ao acontecimento entrou, tomando assento à mesa.

― Onde está o pequeno-almoço? Molly disse que deixaria tudo preparado e que seria só aquece…

Petrificus Totalus! ― rugiu o Chefe da Casa das Serpentes, desaparecendo rumo ao seu dormitório.

No meio das cinzas, o bilhete que Draco forjara clamava:

"Snivellus, tomei a liberdade de selecionar alguns meios para corrigir esse teu gigantesco nariz. Quem diria que os muggles teriam inventado algo tão útil… Chama-se cirurgia plástica, deverias tentar… " O resto da mensagem permanecia um mistério, consumida pelas chamas abrasadoras da cólera de Severus Snape.

Os residentes retornaram à cozinha, escutando seguidamente o grito raivoso do morcego.

― Que ninguém se atreva a desfazer o feitiço durante pelo menos doze horas. A pessoa que me desobedeça e tente armar-se em herói… ― Todos os presentes entreolharam-se com receio. ― Sofrerá dolorosos encontros com as minhas mais terroríficas criações. Estou a precisar de uma cobaia para as minhas novas poções… Aceito como voluntário qualquer pessoa que se aproxime a três metros de distância do pulgoso de Black.

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» Sábado «

Harry franziu a testa ao ver o seu rival da escola sentar-se à mesa com uma folha na mão, onde destacava um esboço da Dark Mark.

"O que é que ele está a tramar desta vez?", pensou o Menino-Que-Sobreviveu com desconfiança.

Draco pegou num marcador muggle, que tomara "emprestado" do estojo de Hermione Granger e começou a copiar a imagem, desenhando-a no próprio braço.

― Acaso estás assim tão desesperado para ser um Death Eater, Malfoy? ― perguntou Ron de mau-grado.

― Não! ― respondeu o loiro sem deixar de olhar para o que estava a fazer, não fosse ele errar o design da sua " belíssima tatuagem".

― Então… ― retorquiu o ruivo.

― Então o quê?

― O que ele quer saber é o que é que estás a fazer? Não me digas que pensas tomar o lugar de espia de Snape? ― interrogou o adolescente de orbes esmeralda com incredulidade e porque não uma ponta de admiração.

― Não sejas parvo, Potter. Achas que tenho cara de suicida?

Os adultos começaram a entrar na cozinha, onde teria início uma nova reunião da Ordem, visando discutir como proceder face à perda de posição do Mestre de Poções como espião e como entrar em contacto com a única fonte de informação, Lucius e Narcisa Malfoy.

Sorridente, Draco levantou-se, correu até ao homem de negro e levantou a manga da camisa dele, revelando a marca no braço esquerdo do seu padrinho.

― Cool, certo!? Agora estamos a combinar… ― O professor baixou rapidamente a manga e saiu do recinto com um humor ainda mais negro do que o normal.

― Jovem Malfoy, poderia explicar-me por favor o que…

― Porque é que não existe uma marca para a Ordem? ― perguntou Draco, cortando a fala de Dumbledore ― Afinal, se os Death Eaters tem uma, o mais é lógico é que vocês também tenham uma. Ora vejamos, os maus tem a Dark Mark, como vocês são os bonzinhos… Light Mark? Entenderam? Dark, maus. Light, bons? ― Ao ver todos começarem a sair, seguiu-os clamando uma e outra vez: ― Onde é que vão? Estão-me a ignorar? Ainda não me disseram se podemos ter uma Light Mark? Ei! Respondam-me…

Obviamente o jovem herdeiro não deixou o assunto morrer aí, passando o resto do dia, a chatear os habitantes de Grimmauld Place com diferentes propostas para o design da Light Mark.

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Sobre a secretária do quarto de Draco, descansava um caderno. Um vento forte soprou pela janela, movendo as folhas e parando na página onde constavam os pontos da lista alcançados no decorrer dessa semana.

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(…)

11) Dar pistas sobre a localização do quartel a pessoas aleatórias;

12) Oferecer champô a Snape;

13) Contar a Snape que os muggles inventaram a cirurgia plástica, pelo que já podem arranjar o nariz dele;

14) Desenhar a Dark Mark, colocar o braço ao lado do de Snape e dizer que agora fazem par;

15) Perguntar repetidamente porque não há uma Light Mark;

(…)