Cap. 3 – Encontro dos sonhos

Bella esperava um ônibus para ir a qualquer lugar. Não queria continuar ali, mas não sabia para onde Sirius tinha ido. Percebeu que o lugar fora ocupado por alguém e, ao prestar mais atenção, viu sua irmã Narcissa com uma marmita na mão.

– Cissy, você não foi com eles?

– Remus me enganou. – ela suspirou – Pediu para eu arranjar comida, mas quando voltei, só vi poeira da estrada.

– Sabe, Cissy, quando você entrou lá em casa, eu percebi que ele não queria nada com você.

– Você acha mesmo, Bella?

– Ele é um lobisomem. E lobisomens não têm bom gosto – disse Rodolphus, atrás delas. Ele se virou para Bella – Vai viajar, meu bem?

– Pensei que você fosse me colocar para fora de casa – Bella respondeu, sem pestanejar.

– Pra que? Você só precisa de um bom castigo, sua...

Caham. Como você tem tanta certeza de que o Remus é lobisomem? – interrompeu Narcissa.

– Porque ele tem roupas muito gastas, olheiras enormes, palidez excessiva e fede a um lobo. – ele respondeu rapidamente, claramente irritado por ter sido interrompido – Bella, quero saber uma coisa: havia três homens na minha casa, no meu quarto. Você me traiu com os três?

– Remus é meu. – disse Narcissa, ofendida – E se ele é ou não lobisomem, eu vou tirar essa história a limpo. E o outro só chegou depois.

– Qual deles, então? – Rodolphus perguntou, apertando a varinha na mão, quase a quebrando.

Bellatrix encarou a irmã, que deu de ombros. Sirius, apesar de ser praticamente perdido na vida, era da família e era seu amante nas horas de ócio. Ela não se importava exatamente com ele, apenas seus desejos foram de certo modo despertados por "algo diferente". Então, para "poupar" a família de mais escândalos e para convenientemente se sentir mais leve, ela resolveu mentir.

– Era o de óculos. James Potter.

– Já ouvi esse nome. – tornou Rodolphus – Ele e aquele seu primo irresponsável têm dívidas de jogo no Beco Diagonal. Sei o que fazer...

– O que pensa em fazer comigo, Rodolphus? – perguntou Bella, se levantando.

Ele a encarou. No fundo, ele a amava e isso o deixava com mais ódio dela.

– Vá para casa, meu bem. Tenho negócios pendentes e não volto até resolver.


Sirius anunciou a nova atração do Mambembe Marotos e Cia. As crianças nas ruas seguiram a caminhonete, que trazia um novo cartaz.

– NÃO PERCAM, SENHORAS E SENHORES! EM PRIMEIRÍSSIMA MÃO, UM LOBISOMEM QUE SE TRANSFORMA TODAS AS NOITES! QUEM VEM PRIMEIRO, O OVO OU A GALINHA? O LOBO QUE SE TRANSFORMA EM HOMEM, OU O HOMEM QUE SE TRANSFORMA EM LOBO? Venham todos e conheçam Lupin, o lobisomem!

Lupin dirigia a caminhonete, contrariado.

– Sabe, eu não concordo em expor o fato de que eu sou REALMENTE um lobisomem, mesmo que só me transforme nas noites de lua cheia.

– Relaxa, vamos embora antes da sua transformação. – disse James, olhando para a rua.

De repente, ele fixou o olhar em um ponto. Foi um relance apenas, mas ele pôde ver, saindo da delegacia, uma jovem ruiva acompanhada de alguém usando uma capa da ordem dos aurores. Uma patente inferior, mas isso não vem ao caso. A sua ruiva era real e estava ali, aquela que ele tanto sonhava. Podia até ouvir uma melodia, feita especialmente para aquele momento.

"A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua costuma se embriagar
Nos seus olhos, eu suponho
Que o sol, num dourado sonho, vai claridade buscar
Minha rua é sem graça
Mas quando por ela passa
Seu vulto que me seduz
A ruazinha modesta é uma paisagem de festa
É uma cascata de luz
Na rua uma poça d'água, espelho da minha mágoa
Transporta o céu para o chão
Tal qual o chão da minha vida
A minh'alma comovida
E o meu pobre coração
Espelho da minha mágoa
Meus olhos são poças d'água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu, ela é nobre
Não vale a pena sonhar"
¹

Lilysbela foi visitar seu amigo Peter Pettigrew, auror assistente, que sempre a mostrava pássaros silvestres diferentes que conseguia capturar para vender. A verdade é que Lily insistia para que ele soltasse todos os passarinhos, ao que ele resistia na maioria das vezes.

O barulho na rua chamou sua atenção e ela foi até lá. Peter a acompanhou logo em seguida.

– Que bom, uma novidade aqui na cidade de vez em quando faz bem. – disse Lily, animada.

– Só espero que não sejam arruaceiros – comentou Peter, covardemente.

Lily não respondeu à observação. Observou o homem fazendo o anúncio, todo desarrumado e parecendo sujo. Riu dele. Depois observou o cartaz que cobria praticamente toda a caminhonete, enfeitiçado para simular a transformação do lobisomem. Então, olhou para a direção. Não conseguiu ver quem dirigia, apenas um rapaz de óculos, no banco do carona.

Era um jovem de cabelos negros rebeldes e óculos, simplesmente. Mas ele a olhava com muita intensidade, o que chamou sua atenção. Percebendo que ela também o olhava, ele sorriu. Lily sentiu seu coração acelerar e seu rosto queimar, então desviou o olhar para as crianças. Não devia se sentir daquela forma, não sabia o que aconteceu. Despediu-se de Peter e foi para casa.

James viu que ela correspondeu o olhar e sorriu. Estava radiante como uma criança que acaba de ganhar seu presente de Natal.

– Ela está aqui! – disse ele, tirando o cinto de segurança.

– Ela quem? – Remus perguntou.

– A minha ruiva! Eu a vi! – ele abriu a porta, pronto para saltar.

Remus o encarou, incrédulo.

– Espera aí! Aonde você vai, Pontas?

– Vou atrás dela, claro! Tenho que saber o nome, finalmente. – disse, saltando do carro e fechando a porta rapidamente.

Correu sem prestar atenção aos protestos de Remus, que eram abafados pelo som da voz de Sirius, ainda anunciando o espetáculo. Passou pela delegacia, onde ela tinha dobrado à direita e seguiu pela cidade praça adentro.

Perdera a ruiva de vista. Havia algumas crianças brincando e alguns velhos jogando dominó, apenas. Nada de sua musa.

– Mas eu ainda te encontro, ruivinha – prometeu a si mesmo, dando meia volta.

Se ele tivesse olhado para a viela defronte, teria visto que Lily estava ali, escondida atrás de um poste. Ela riu ao ver que ele de fato a seguira e que ficou transtornado ao não encontrá-la. Sentiu-se estranha por estar feliz que um desconhecido a procurasse, parecia criar alguma expectativa.

Precisava parar de pensar bobagens e cuidar dos preparativos do seu casamento. Faltava apenas uma semana.

Saindo da viela e indo à mesma direção que o rapaz, qual não foi a surpresa ao encontrá-lo apoiando o braço na parede e um sorriso maroto nos lábios.

– Fugindo de mim?

– Você é que estava me seguindo – ela respondeu, seca.

– Só porque queria acompanhá-la, não é bom andar por aí sozinha. – James se aproximou, ao passo que Lily recuou.

– Porque pode aparecer algum estranho para puxar assunto, não é? – ela sorriu, irônica.

– Ainda bem que você tem senso de humor. ­– disse James, um pouco sem graça – Mas se for por isso, eu me apresento: James Potter, seu criado. – e estendeu a mão.

– Lilysbela Evans – ela respondeu, estendo a mão em resposta.

– Nome bonito. – James pegou a mão de Lily e a beijou.

– Não gosto. – Lily recolheu a mão abruptamente.

– Então posso chamar a senhorita de Lily? – James não deixava de sorrir.

– Me chame de Evans, por favor.

– Lily é muito mais bonito.

– Só que não dou essa intimidade a estranhos. – Lily deu as costas e começou a andar. James correu e se colocou diante dela.

– Não somos mais estranhos, acabamos de nos conhecer. É diferente.

– Acabamos de nos conhecer, mas não sei nada de você, além do seu nome – Lily retorquiu, torcendo agora para que ele desistisse e fosse embora.

– Não seja por isso – ele fez uma pequena reverência – Sou um artista mambembe que trabalha para alegrar a vida do povo, entre outros fatores. O que mais quer saber?

Lily riu. Aquele rapaz impertinente parecia ter o poder de fazê-la rir.

– Lily... – James se aproximou devagar, Lily recuou novamente. Ele percebeu que teria que ir com calma.

– Não dei intimidade para me chamar assim. Me chame de Evans, por favor.

– Mas Lily...

– Precisa de ajuda, dona Lilysbela? – era Peter – A dona Alice chamou pela lareira, disse que a senhora ainda não tinha chegado em casa, por isso vim saber.

– Já estou indo, Peter. Obrigada – disse Lily e se voltou para James – Tenho que ir. Desculpe se... Se eu fui rude.

– Não tem do que se desculpar, eu sei que fui impertinente – ele tomou a mão dela e a beijou. Lily achou o gesto muito atrevido, ao mesmo tempo lisonjeador.

– Bem, adeus.

– Evans? – James chamou, quando ela lhe deu as costas.

– Sim?

– Venha ver o espetáculo.

– Vou pensar – disse Lily, tomando seu caminho e andando um pouco mais rápido.

James a acompanhou com seu olhar. Seu coração batia acelerado e ele estava extasiado de tanta alegria.

– Escuta aqui, se que não quiser arrumar encrenca é melhor esquecer essa moça. – falou Peter – Ela é moça de família, prima do chefe dos aurores da região e está noiva.

– Noiva? – James voltou sua atenção para o auror assistente.

– Com casamento marcado e tudo – Peter confirmou.

James não respondeu, apenas tomou seu caminho de volta para onde havia deixado Remus e Sirius. Não foi difícil encontrar o novo local do acampamento. Chegando lá, foi abordado pelos amigos, quase imediatamente.

– Aleluia, James! – explodiu Sirius, atirando uma fantasia nele – Da próxima vez você vai montar o acampamento sozinho.

– Então, conseguiu encontrar a sua ruiva misteriosa? – Remus perguntou.

– Sim, consegui – James atirou a fantasia para o lado e sentou em cima de uma caixa – E ela é tudo o que eu esperava.

– Ganhou a moça? – perguntou Sirius e Remus lançou-lhe um olhar de censura.

– Não é assim tão simples. Ela é de família e já deu pra perceber que é brava.

– Isso nunca te impediu – retorquiu Sirius.

– Mas dessa vez eu quero fazer as coisas do jeito certo, Almofadinhas. – disse James – Ela é diferente, não é qualquer uma.

– Você já disse isso antes sobre outra garota, Pontas. – disse Remus, rindo. Sirius também riu.

– Só que dessa vez é de verdade – James se levantou e foi procurar o que fazer.

Os amigos perceberam que James se ofendeu. Afinal, era difícil ver um dos três apaixonados de verdade.


Naquela noite não havia cinema. Que ironia do destino para Lily, que ficou sem ter o que fazer de melhor com seu noivo. Decidiram então dar uma volta pela praça.

Não foi surpresa para Lily encontrar uma tenda com três rapazes: um deles vendendo os ingressos, o outro dentro de uma jaula, parecendo aborrecido e o terceiro, a quem Lily reconheceu ser James, anunciando o espetáculo.

– NÃO PERCAM! A TRANSFORMAÇÃO DO LOBISOMEM EM PLENA LUA MINGUANTE!

– Isso é uma grande tolice. – comentou Lucius – Quem é que ia acreditar em algo tão bizarro...

– Por que não vamos? – Lily perguntou de repente.

– Como é?

– É que eu lembrei daquele filme, "As metamorfoses da alma". – disse ela, inocentemente – Além do mais, não temos nada melhor pra fazer.

Lucius foi comprar os ingressos, enquanto Lily esperava na entrada. James se aproximou.

– Para moça bonita e desacompanhada, é de graça.

Lily sorriu e entrou. Lucius estava na fila do guichê, mas logo foi atendido.

– Quatro galeões – disse Sirius.

– Como é? Mas isso é um roubo! Ainda mais para assistir a uma fraude!

– Quatro galeões, camarada. – respondeu Sirius, sem pestanejar – E mais dois pela entrada da sua namorada.

– Mas ele acabou de dizer que ela entra de graça!

– Sim, moça desacompanhada entra de graça, mas ela está com você – disse James, se intrometendo – Logo, passa a ser moça acompanhada.

– Que absurdo! – bradou Lucius – Eu quero meu dinheiro de volta.

Sirius devolveu o dinheiro, piscando para James.

– Agora me dê licença, vou buscar a minha noiva.

– Para entrar são quatro galeões – disse James, impedindo a passagem.

– E mais dois pela namorada – Sirius falou, do caixa.

– Mas eu não vou assistir! – vociferou Lucius.

– Mas o valor não é para assistir, é para entrar. – James argumentou.

– Por acaso está me impedindo de buscar a minha noiva? Não sabe do que sou capaz! – Lucius sacou a varinha.

James olhou para a varinha apontada para si e não se moveu.

– Do quê? Sacar a varinha? Fala sério, meu amigo. Você não tem coragem de atirar com essa varinha na frente de todo mundo.

– É, já pensou que escândalo? – perguntou Sirius, que também sacou sua varinha – Eu, por outro lado, não me incomodo nem um pouco com falatórios.

Lucius não se moveu. Olhava para James com ódio, mas olhou ao redor e viu que algumas pessoas os observavam com curiosidade. Guardou sua varinha.

– Muito bem, por enquanto você venceu. Mas vai ter volta – disse, dando as costas para James, que deu de ombros.

Nos preparativos, Sirius entregou uma roupa para James.

– Pontas, quebra um galho pra mim. Não da sua testa, claro.

– Engraçadinho – James olhava para a platéia, procurando pela ruiva – O que quer?

– É que eu encontrei uma garota, sabe...

– De novo, Sirius? E a Bella?

– O efeito Bella passou. – Sirius respondeu, na maior cara de pau – Pelo menos até eu encontrá-la de novo.

James suspirou. Sirius continuou a falar.

– Então, conheci ontem... O nome dela é Marlene, uma tremenda gata!

– Essa não é casada, é? – Remus, que ia passando, perguntou.

– O que faz fora da jaula? – foi a vez de James perguntar.

– Tive que ir ao banheiro, oras. – retorquiu o lobisomem – Se apressem aí, temos que começar logo.

– E para a sua informação, Pontas, – tornou Sirius – ela é solteira. Quem sabe não é a mulher da minha vida?

James encarou o amigo, incrédulo. De todos os homens, Sirius é o último que diriam ser capaz de se apaixonar. Por outro lado, até descobrir que Lily era real, James pensava que não haveria mulher que o segurasse. As coisas mudam.

– Certo, vá lá.

– Fico te devendo. – Sirius bateu nas costas de James afetuosamente e saiu correndo.

Enquanto isso, na platéia, Lily aguardava com outros telespectadores. A platéia simples, todos de pé. As luzes se apagaram e as cortinas se abriram. Remus estava em pé, sem camisa e muito constrangido.

– Boa noite, senhoras e senhores! – narrou James – O espetáculo que verão esta noite deixará todos admirados, portanto, se tiver alguém da platéia que sofra de problemas cardíacos, é melhor se retirar. Prestem atenção neste homem, ele consegue se transformar todas as noites em lobisomem, é só ver o brilho da lua e a metamorfose começa.

De repente, Lupin é iluminado pela luz fraca vinda da lua minguante. Então ele começa a se transformar, se contorcendo. Começa a urrar de dor, as pessoas da platéia recuam assustadas, até que a transformação se completa e ele uiva para a lua.

Todos aplaudem, mas o lobisomem reage. Ele avança para as grades e se esforça para se soltar.

– Calma, Lupin, Calma! – novamente era a voz de James – Perigo! Saiam devagar, por favor!

As pessoas recuam, assustadas. O lobisomem se afasta das grades apenas para tomar um impulso e conseguir arrancá-las. As pessoas começam a fugir, Lily gritava, mas o lobisomem tapou sua boca com a mão peluda e de garras afiadas antes que ela pudesse correr.

Lily olhou nos olhos do lobisomem, lembrando do filme "As metamorfoses da alma", e reconheceu aqueles olhos. Sorriu da brincadeira.

O lobisomem tirou a máscara da fantasia, revelando James.

– E aí? Gostou? – ele sorria, radiante.

– Eu sabia que era um truque o tempo todo. – Lily sorriu de volta – Mas vocês não usaram magia, como fizeram?

- Eu te mostro. – James pegou sua mão e a conduziu até o local da jaula. Remus ainda estava lá, colocando uma blusa.

– Ah, você deve ser Evans. – cumprimentou ele – James me contou se encontraram.

– Ele me seguiu, na verdade. – disse Lily, sorriu – Por um momento pensei que você fosse lobisomem mesmo.

– Bem... Não em noites de lua minguante – ele respondeu, se jeito. Antes que Lily perguntasse mais, James empurrou o amigo.

– Remus, dá licença...

– Hein? AH, claro! – ele saiu da jaula – Com licença, vou me trocar na barraca.

James esperou Remus sair para continuar.

– Agora, a senhorita fique aí onde Remus estava, que eu vou para uma outra câmara. – Lily obedeceu – Agora, se você apagar a luz que está aqui do meu lado, as pessoas verão a senhorita.

– E como fez para a lua aparecer?

– Isso foi magia, não tivemos escolha. Mas normalmente preferimos enganar os bruxos com truques trouxas, é mais divertido. – respondeu, fazendo Lily rir – Presta atenção no efeito do lobisomem. Quando a luz da sua cabine se apaga e esta se acende, as pessoas só vêem a minha cabine. Então, se começa a apagar a sua e acender a minha aos poucos, parece uma transformação.

– Parece uma máquina do tempo, onde a gente viaja e se encontra com nossos antepassados, até encontrar o ser humano primitivo.

– É, pode ser. – James riu, divertido – Mas uma máquina do amor é muito mais interessante.

– Eu já ouvi falar de poção do amor, mas máquina do amor eu sei que não existe.

– Vou mostrar. – Ele ia diminuindo as duas luzes, de modo que as imagens dos dois se fundiam – É a máquina que une dois apaixonados em um só. Pois, como diz o poeta:

"Transforma-se o amador na coisa amada.
Por virtude do muito imaginar.
Não tenho, logo, mais que desejar.
Pois em mim tenho a parte desejada".²

– Gostei dessa máquina do amor. – disse Lily.

– Então talvez você goste mais ainda da máquina do desejo – disse James, jogando a máscara num canto e invadindo a cabine onde Lily estava.

Olhou em volta confuso, ela não estava lá. Sem ele perceber, Lily passou de uma cabine a outra.

– Cadê você?

– É que eu liguei a máquina da ilusão. – Lily respondeu, sorrindo e saindo correndo como se fosse uma criança depois de ver uma peça.

James riu da pequena travessura. Ela não parecia ter raiva dele, o que era um bom sinal. Só precisava pensar em uma forma de fazê-la desistir do noivado para ficar com ele, se é que ela gostava dele. Ouvia a música que vinha do rádio de Remus e era a mais apropriada para aquele momento.

"Agora, que faço eu da vida sem você?
Você não me ensinou a te esquecer
Você só me ensinou a te querer
E te querendo eu vou tentando te encontrar"
³

Olhou para o chão e encontrou uma fivela de cabelo que tinha a forma de um lírio.

– Tinha que ser um lírio... – ele sorriu ao pegar o pequeno objeto.

Um barulho do lado de fora chamou sua atenção. Saiu e encontrou Lucius Malfoy com um sorriso maldoso, acompanhado pelo chefe dos aurores, que ele identificou pelo distintivo se chamar Longbttom. Conversava com Lupin.

– Não sabemos de qualquer documento que fosse necessário.

– Precisam de um alvará de funcionamento, se não houver, eu fecho isso.

– Chegamos de manhã cedo e ninguém mencionou nada disso – James se intrometeu na conversa, olhando feio para Peter Pettigrew, que encontrara antes.

Frank não falou mais nada, apenas passou pelos dois marotos e entrou na barraca onde o palco fora montado, acompanhado por Peter e Lucius.

– Pelo visto, vocês não têm alvará nem de inspeção sanitária. – disse Lucius, olhando ao redor – Como as pessoas conseguiram respirar com esse cheiro fétido?

– Depende do ponto de vista. – retorquiu James – Como alguém consegue respirar com você fedendo a perfume e suor, parecendo um porco tratado?

Lucius ia avançar para James, mas Frank o segurou. Lucius sorriu desdenhoso e se dirigiu a Lupin quando falou.

– Você não é o tal lobisomem? Por acaso não devia estar transformado neste momento?

– Digamos que eu me transfiguro de volta rápido quando não é lua cheia – disse Remus, sério, mas sem perder a calma.

– Vocês podem continuar com seu show, mas precisam ir até a delegacia para liberarem o alvará. – disse Frank, depois de uma breve revista, se dirigindo à saída – E quanto a você, – apontou para James – respeite a minha prima, ou vai se ver comigo.

– Ou comigo, – disse Lucius – já que é a minha noiva.

Os três saíram, deixando Remus e James para trás.

– Bom, pelo menos rendeu uma grana...

– Vamos tirar o tal alvará amanhã. – James decidiu não se deixar intimidar – O Sirius já voltou, Aluado?

– Você espera que ele volte ainda hoje?

– Na verdade, não. Mas é bom sonhar – James suspirou, olhando a fivela em formato de lírio na mão.


Antes de entrar na cidade, aquele homem se abaixou e acendeu uma vela de libra, colocando-a no chão de uma esquina.

– Essa vela, meu Merlin, é de mais um infeliz desgraçado que mando lhe fazer companhia. Ele vai chegar bem machucado, porque o assunto é pessoal e estou com ódio mortal desse filho da mãe...

Rodolphus se levantou, conferindo as horas em seu relógio de bolso.

– E se duvidar, levo junto o amigo lobisomem e o outro sem vergonha da família da minha mulher. Mas esses dois eu posso entregar para outro.

Ouviu-se um estalo, indicando que alguém aparatara. Ele se virou rapidamente com a varinha em punho, vendo um vulto se aproximar.

– Rodolphus Lestrange. – o vulto não se intimidou com a varinha apontada para seu peito – Ainda com hábitos extravagantes antes de matar alguém.

– Severus Snape. – cumprimentou Rodolphus, quando Severus Snape tirou o capuz – Suponho que aceita os termos.

– Só estranhei o fato de me pedir ajuda.

– Não é ajuda. É uma troca de favores, sei que estou te devendo. Eu pego o quatro olhos, você pega os amigos deles que você jurou de morte por terem roubado no jogo.

– Tenho interesse em matar Potter, quero uma troca.

– Não barganho dessa forma, se pensa assim, é melhor dar meia volta.

Snape encarou o colega de profissão. Potter foi o mais sujo no jogo em que roubara mais de mil galeões de sua mãe e a fizera falir, além de humilhá-lo em público. Queria exclusividade na morte dele. Porém, imprevistos podem acontecer, tanto para Potter, quanto para Rodolphus.

– Que seja, Rodolphus. – disse ele – Desde que Potter morra, eu cedo a autoria a você.


¹ Música: A dona da minha rua, Orlando Silva (Geraldo Maia e Yamandú Costa).

² Soneto de Camões.

³ Música: Você não me ensinou a te esquecer, Caetano Veloso. Composição: Bruno Mattos / Odair José.