#Bakuten Shoot Beyblade não me pertence.
As músicas aqui usadas são: "Minuet in G minor, J.S. Bach"; "Menuet BMV Anh"; "André Rieu - The godfather"; "Mozart – Serenade".
Boa leitura.
...
Capítulo 3
Voltava para seu domicílio um tanto quanto desnorteado. Ainda sentia o cheiro de sua fragrância. Não havia captado muito bem o que havia acontecido, mas se sentiu estranho e ainda naquele momento sentia o mesmo: as borboletas no estômago fazendo-lhe cócegas, e o rosto quente como em brasas.
"Apenas ligue a TV hoje à noite, seu canal favorito...".
Abriu mecanicamente a porta e foi direto para o banheiro. A água fria tal qual gelo, quase deu um salto quando atingiu suas costas.
Deixou-se naquele frio apenas lembrando-se daqueles breves momentos e repetindo várias e várias vezes.
"Apenas ligue a TV...".
- A TV! – saiu apressado apenas com a toalha envolta da cintura.
As mãos ainda meio molhadas procuraram o controle da TV. Não estava debaixo do travesseiro. Nem atrás, nem debaixo dessa, nem da mesinha. Nem na prateleira, nem na estante, nem debaixo do tapete, nem encima da TV.
- Cadê?! – e o controle ali, encima do sofá.
Quase soltou um palavrão quando avistou a danada. Mas a TV não quis ligar de jeito nenhum.
- Liga, liga, liga, liga logo! – resmungava quase a ponto de afundar o botão. Pobre do controle, não tinha pilha.
- Merda! – saiu para a cozinha sem nem saber onde encontra-las. Voltou e com uma fúria desenfreada tirou as pilhas do controle do som. Não encaixavam. – Ah, qual é? – procurou outro e por sorte encontrou mais um que sequer sabia de onde era, importava-lhe apenas as malditas pilhas que finalmente encaixaram. Mas a desgraçada mais uma vez não quis ligar. Apertou o botão repetidas vezes, olhou mais para o lado, a tomada enrolada num cantinho.
Deu uma tapa na própria testa. Ligou na tomada e finalmente a desventurada ligou. Passou e passou de canais, deu por si e já tinha passado há muito. Voltou umas dezessete vezes até chegar ao canal desejado.
A programação mostrava apenas belas jovens numa apresentação de valsa.
- É isso? – coçou a cabeça, levemente confuso.
O programa logo chegou aos comerciais e ele se acostou mais no sofá.
Apenas os comerciais repetitivos de instrumentos, CDs, filmes...
- Ainda hoje, às 09h45min da noite, apresentação da renomada escola russa, Krasnyy val's. – dizia o anúncio com uma música de fundo conhecida.
Ficou estático por alguns segundos lembrando-se – ou tentando lembrar-se - da melodia.
Levantou-se e olhou para o relógio: 08h03min. Ainda era muito cedo.
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Vestiu-se com roupas pesadas, estava frio naquela noite. Procurou algo que comer, e ficou assistindo o restante das apresentações até que começasse o próximo espetáculo.
Foram danças de ballet, orquestras sinfônicas, apresentações de valsa a tango. Violino, harpa, violoncelo. Solos, duetos, trinetos, quartetos, quintetos. Coros e ainda faltava muito para o programa começar. Deitou de bruços no sofá e recostou uma almofada encima da cabeça. Acabou cochilando por alguns minutos.
De repente ouviu vozes melódicas em uma língua que ele não conhecia. As vozes eram doces e angelicais fazendo-o duvidar se não eram editadas ou ao menos se não havia mesmo um único instrumento de fundo. Abriu os olhos preguiçosamente e na tela da TV as donas das vozes angélicas. Eram moças esbeltas em roupas brancas. Algumas tinham vozes mais agudas que outras, mas pareciam calmas diante à melodia suave, que provavelmente, porém, havia demorado bastante tempo para ser aprendida.
Era apenas uma abertura curta de pouco menos de um minuto e meio.
No final elas retiraram-se lentamente arrastando o tecido sedoso pelo palco. Detrás delas, o resto palco se iluminou mostrando um sem número de músicos com os mais variados instrumentos musicais. O maestro logo se pronunciou e pôs-se a fazer breves agradecimentos e saudações em sua língua mãe. Foi ao seu respectivo espaço preparado para assumir seu papel.
A primeira melodia o pegou despreparado.
Minueto em G menor, J.S. Bach.
Rapidamente, num gesto ao instintivo, começou a observar todos os rostos que podia, uma vez ou outra se perdia quando a câmera mudava de ângulo. Procurou e procurou, mas não o achou. Continuou ouvindo aquela doce melodia chorosa com ar de alteza. Ouvi-la em grupo era como ouvir mil gaivotas chorando, mas era bonito, disso tinha certeza. Ficou hipnotizado pela música e mais ainda pelos movimentos frenéticos dos muitos arcos que se moviam quase da mesma forma e no mesmo tempo. Fechou os olhos sentindo a música e os acordes arranjados, as notas acidentando-se e voltando ao tom puro. A melodia, porém, não durou mais que uns poucos minutos para logo partir para outra.
Ali ele ficou apenas ouvindo as doces melodias que por pouco não o adormeciam. Umas mais alegres outras mais tristes, umas agitadas, outras dramáticas. Uma vez ou outra um espetáculo de fogos surgia adornando o palco e o céu.
Mal havia notado as três horas que passaram voando, já estavam na penúltima música: Serenade, de Mozart. Rápida e sútil, alegre e cheia de suspense. Havia movimentos frenéticos, quase robóticos, ou mesmo metódicos. Ia e vinham com notas ligeiras, feito raios e trovões enquanto chegava o auge da música: Um dramático fragmento que seguia em notas crescentes de decrescentes, repetindo-se em diferentes tons, porém, no mesmo compasso, terminando grave como um último relampejo de uma tempestade e voltava à sutileza como a chegada da primavera, mas dando ainda algumas palpitadas enquanto as notas se misturavam e quase se atrapalhavam chegando enfim ao seu ponto limite.
Os músicos ficaram algum tempo parados, uns e outros fechando os cadernos de partituras. A maioria deles havia saído do palco deixando apenas um punhado deles. O grupinho se posicionou à frente, e dentre eles, no centro, quem menos esperava, visto que tinha toda a atenção na orquestra. Os cabelos rebeldes agora penteados para trás, o brilho irredutível dos olhos vermelhos, a pele em meio à luz do palco, parecia reluzir. Não conseguiu olhar para ninguém mais, apenas àquele jovem que posicionava lentamente o violino entre os ombros.
...
Continua...
