Capitulo 04

Scott sentou-se na cama, esperando o amigo terminar de se arrumar. Seus olhos passearam pelo quarto, observando os detalhes. Notou um frasco de remédio na mesinha de cabeceira, pela metade.

Curioso do jeito que era, olhou o rótulo e viu que era Ritalina, o inseparável medicamento de Stiles, contudo, o frasco ainda estava lacrado. O moreno franziu as sobrancelhas, sabia o quão era importante esse medicamento para seu amigo. Pensou em perguntar algo sobre isso depois, guardou o remédio no mesmo lugar, ao ouvir passos no corredor.

-Ei cara, estou pronto! –Stiles apareceu no quarto, com as muletas.

-Finalmente... –Scott pegou sua mochila e a do amigo também.

-Tá reclamando do que?! Eu sei que Allison faz você esperar mais do que eu fiz hoje. –o humano sorriu. –E fala sério, eu tenho uma desculpa! Minha perna direita não funciona!

-Ela é mulher cara. –o lobisomem sorriu de volta, entrando no carro.

-Ah é, não dá pra lutar contra esse argumento. –o outro levantou as mãos, num sinal de rendição.

Assim que chegaram ao colégio, Scott ficou alguns minutos procurando uma vaga.

-Será que não podemos usar aquela? –Stiles apontou para uma embaixo da árvore, à esquerda.

-Cara, é uma vaga de deficiente.

-Perfeito! –pegou sua mochila e encarou o amigo. –Qual é, com essa perna eu sou quase um deficiente... E ainda ando de muleta!

Mesmo reclamando, o moreno parou na vaga e foram andando até a sala de aula, sob os olhares curiosos dos outros alunos. A manhã transcorreu normalmente, com aulas chatas e entediantes, pelo menos no ponto de vista de Stiles.

Ele passou grande parte do tempo frustrado. Seu olhar revezava entre o professor e o quadro cheio de matéria. Claro que tinha conseguido entender uma coisa ou outra, mas sua mente nos últimos meses estava lhe pegando peças.

Era totalmente incapaz de manter o foco em qualquer coisa por mais de vinte minutos. E isso não se restringia apenas em sala de aula. Estava começando a afetar sua vida social também. Perdia-se nas conversas com o pai, amigos e até mesmo quando Lydia falava. Nem o computador lhe prendia tanto quanto antes.

Na hora do almoço, encontrou com seu grupo e sentou-se na ponta da mesa, cansado. Deu algumas mordidas na comida e pra não acabar gerando problemas, fingiu estar inteirado da conversa que rolava e acenou com a cabeça nos momentos certos.

Contudo, algo o estava estressando. Era como se todo o barulho da lanchonete tivesse sido amplificado de uma vez só, seus ouvidos doíam. As cores das roupas pareciam saltar aos seus olhos, como se fossem mais vibrantes do que realmente eram.

Ele levantou-se e disse que precisava usar o banheiro. Com muita dificuldade de se concentrar em seus próprios pensamentos, Stiles deixou a lanchonete mancando, com o pé direito arrastando pelo chão. Conforme foi andando pelos corredores, sentiu o perfume das pessoas que passavam como nunca antes.

Aquilo o estava matando. Era uma experiência sensorial muito forte, parecia que o cérebro iria pifar de tantas informações que recebia ao mesmo tempo. Entrou no banheiro e percebeu que estava sozinho, menos mal.

Encostou-se à parede e ligou para seu pai.

-Pai, pode vir me buscar? –ele perguntou, cansado.

-Aconteceu alguma coisa? –a preocupação evidente na voz do xerife.

-Não... É só que... –Stiles respirou fundo e suas costelas deram sinal de vida. –Não estou me sentindo muito bem, queria ir pra casa.

-Tudo bem, estarei ai em dez minutos, pegue sua mochila.

Assim que chegou em casa, Stiles fechou as cortinas e deitou na cama, coberto pelas sombras e o silêncio. Ficou quieto durante alguns minutos, apreciando a paz daquele momento.

Será que os poderes que Peter lhe passou já estavam começando a despertar? Não tinha certeza, toda essa coisa de lobisomem era totalmente diferente e com certeza não poderia dar uma procurada no Google pra saber.

Quando seus pensamentos já não tinham mais nenhuma lógica, ele levantou-se e acendeu a luz do abajour. Percebeu que seus exames do hospital estavam jogados na lata do lixo. Depois de xingar em voz baixa, pegou-os e leu com atenção.

Pelo visto, o vergalhão de metal que transfixou sua perna não atingiu nenhum nervo especifico e nem alterou os nervos periféricos, uma vez que ainda conseguia manter a regulação de temperatura da perna e a contração dos músculos.

O impacto afetou alguns grupos de músculos, mas nada que não desse para reabilitar com algumas sessões de fisioterapia. Stiles bufou e continuou folheando a pasta, até que encontrou o laudo de sua neurologista.

Vinha tratando o Déficit de Atenção e a Hiperatividade com a Dra. Sullivan desde os quatro anos. Confiava naquela mulher de olhos fechados. De acordo com o laudo que ela fez, talvez a imobilidade da perna estivesse relacionada com algum processo psicológico e não físico.

"Stiles Stilinski provavelmente deve estar desenvolvendo alguma resposta frente ao trauma que sofreu durante o acidente e ver seu corpo, de certa forma, mutilado. Uma vez que não existe nenhuma impossibilidade física que o impeça de fazer uso da perna direita, peço que o paciente seja avaliado por um psicólogo qualificado."

Então era isso. Sua perna resolveu não colaborar porque tinha algum problema psicológico? Stiles fechou a pasta e jogou-a na bancada do computador. Estava cansado daquilo tudo.

Mancou de volta pra sua cama e lá ficou a tarde inteira. Acabou dormindo profundamente e acordou no meio da madrugada, depois de se virar. Sentiu algo fofo nos pés. Stiles levantou as cobertas e olhou os pés.

Percebeu que tinha uma camisa enroscada no pé direito e quase gritou. Afinal, conseguia sentir o tecido sobre a sua pele dos dedos. Ficou alguns segundos olhando para o pé, completamente maravilhado. Então estava mesmo funcionando, sua perna voltava a funcionar.

(...)

Na manhã seguinte, Stiles acordou com o melhor humor possível, como não acontecia em semanas. A sensibilidade da perna havia voltado, mesmo que de uma forma fraca, mas já era alguma coisa. Mesmo assim resolveu continuar usando muletas, depois de tentar andar sozinho e cair de cara no chão.

Claro que seus amigos ficaram felizes ao receberem a noticia, prometeram fazer alguma coisa para comemorar. Óbvio que a situação gerou perguntas, mas Stiles comentou o laudo de sua neurologista.

-Provavelmente meu subconsciente ficou chocado ao ver aquele ferro atravessando minha perna. –ele comentou, mesmo com a boca cheia de comida. –Daí eu "resolvi" que não iria sentir a perna.

-Nosso cérebro é realmente capaz das coisas mais loucas... –Allison comentou, encostando a cabeça no ombro do namorado.

-Ainda bem que está tudo se resolvendo... –Scott comentou, com um sorriso enorme no rosto. –Estava com saudades de treinar com você!

-Claro que a recuperação vai levar tempo! –Stiles engoliu a comida. –Não sinto completamente a perna ainda... É algo bem leve, lá no fundo.

-Ok, pode parar com essas descrições, Stilinski. –Jackson comentou.

O grupo continuou conversando sobre alguma outra coisa e Stiles acabou encarando Lydia rapidamente. Ela estava linda naquele dia, o modo como seu cabelo caia no pescoço, o vestido...

Por uma fração de segundos, seus olhares se cruzaram e ficaram imóveis. Ela deu um sorriso cúmplice e voltou a prestar atenção na conversa. Mais tarde, enquanto voltavam pra aula, Scott parou seu amigo no corredor.

-Hoje é noite de lua cheia. –ele comentou com voz baixa, olhando ao redor.

-E onde vai ficar dessa vez? –Stiles ficou sério, um arrepio percorreu suas costas.

-Com Derek, ele quer me ajudar a controlar os instintos. –o moreno fez um gesto com a mão. –Algo sobre criar uma âncora. Então não precisa se preocupar comigo.

-Se precisar de alguma coisa, me ligue.

Até queriam continuar conversando, mas o sinal tocou e foram para a sala. Sentaram-se nos seus lugares habituais e a aula começou. Apesar de estar conseguindo prestar atenção no que o professor dizia, Stiles não conseguia livrar-se daquela sensação estranha que crescia dentro dele.

Era como se pudesse sentir alguém olhando-o insistentemente. Ele olhou atrás por cima do ombro e percebeu que Lydia o encarava. Quando notou que seu alvo correspondeu, ela baixou o olhar e corou levemente. Stiles podia jurar que ouviu o coração dela batendo mais rápido.

Quando a aula já estava quase no final, ouviu claramente Allison e Lydia conversando, apesar delas falarem baixo.

-Como está a relação entre você e o Jackson? –a morena perguntou.

-Estamos conversando e... –havia hesitação em sua voz.

-E...?

-Só que eu fico me perguntando se estou fazendo certo em dar outra chance pra ele. –Lydia comentou, parecendo cansada. –Amanhã tem o baile de primavera e eu vou com ele...

-Dê tempo ao tempo e veja o acontece. –Allison tentou animar a amiga. –Às vezes você pode se surpreender.

Stiles balançou a cabeça e respirou fundo. Dessa vez suas costelas não doeram e ele arregalou os olhos. Estava voltando a sentir a perna e agora suas costelas não doíam mais? Juntando isso aos fatos estranhos que aconteceram na lanchonete no dia anterior, poderia jurar que está estava entrando em processo de transformação.

Claro que não iria ser um lobisomem completo, mas pelo menos parte do poder teria. E isso incluía alto poder de cura e os cinco sentidos mais apurados. Stiles quase berrou de felicidade.

Quando as aulas terminaram e ele andou na direção do seu armário, no corredor, percebeu cosias completamente novas. O modo como cada um tinha um cheiro especifico e que ele se alterava conforme a pessoa estava no momento. Scott possuía um cheiro amadeirado, que ficava mais apimentado quando se aproximava de Allison.

Talvez isso fosse um sinal para nenhum outro se aproximar dela, já que ela exalava o cheiro dele, mesmo sem saber.

Stiles sorriu para si mesmo, ao ir deduzindo as coisas. Infelizmente não podia dividir essas pequenas descobertas com seu melhor amigo, já tinha feito a escolha sozinho. Mas esse era o preço a pagar para manter todos a salvo.

Quando voltou pra casa, depois das aulas, ficou tentando andar em casa, para ver se a perna voltava mais rápido. Já que a parte de Peter do planto tinha funcionado, agora estava na hora dele cumprir sua parte e repassar as ordens de Peter ao grupo.

Após o jantar, Stiles trancou-se no quarto, com medo do efeito que a lua cheia poderia ter sobre ele. Ficou deitado na cama olhando para o teto, quando se lembrou da conversa de Lydia mais cedo, falando que amanhã iria ao baile com Jackson.

Ele passou as mãos pelo cabelo curto e bufou. Apesar dos sorrisos e as trocas de olhares, ela iria voltar para o co-capitão do time de Lacrosse. Era assim que as cosias funcionavam...

Ou pelo menos costumavam funcionar antes desse lance de se tornar meio-lobisomem. Ao olhar para a lua cheia da janela do seu quarto, Stiles sentiu-se poderoso, capaz de fazer qualquer coisa. A perna estava um pouco mais forte e conseguia andar, mesmo mancando bastante.

Tomou banho, trocou de roupa e saiu de casa. Seu pai estava trabalhando e provavelmente só voltaria pelas dez horas da manhã do dia seguinte, então não precisava se preocupar com ele.

O jipe ainda estava no concerto, então Stiles foi andando até a casa de Lydia, que não ficava muito longe. Antes de tocar a campainha, olhou mais uma vez pra lua e limpou a garganta. Algo dentro dele dizia que era capaz e ele apertou o botão. Lydia atendeu a porta, usando um vestido floral e o cabelo preso um rabo de cavalo.

-Ah, oi. –ela sorriu. –Não estava esperando por uma visita sua... Já está conseguindo andar?

-Mancando mais do que andando, na verdade. –ele brincou, sorrindo de volta. –Desculpa aparecer na sua casa tão tarde, mas eu precisava falar com você.

-Entre... –a garota abriu mais a porta.

Stiles a encarou e sabia que não poderia estar fazendo outra coisa.

-Eu sei que você vai sair com Jackson amanhã... E que provavelmente vão se beijar no baile e voltar a namorar... –ele se atropelava com as palavras. –Mas eu quero uma chance.

-Do que está falando?

-Antes de voltar pra sua vida normal e continuar com o Jackson... –aproximou-se dela, tocando-a de leve no braço. –Eu queria que me desse uma chance, como se fosse um sonho. Daí então amanhã tudo volta ao normal... Mas essa noite eu quero que seja nossa.

Stiles podia ouvir o coração de Lydia batendo forte no peito, seu rosto corou com as palavras que disse. Ela o encarou, franzindo as sobrancelhas, pensativa. Depois fechou os olhos e balançou negativamente a cabeça.

-E por que eu deveria ceder? –Lydia abriu os olhos.

-Porque sempre serei sua maior dúvida. Deixe-me esclarecê-la por você.