House e Kate saíram juntos do hospital e seguiram para um restaurante de frutos do mar no começo da praia, eles tinham adiado o encontro para a noite de segunda-feira, já que no domingo House teve que levar Wilson até o aeroporto.

Kate estava sempre radiante quando estava com ele, ela gostava de andar encaixada em seu braço. Formavam um belo casal.

Quando entraram no restaurante a recepcionista os levou até a mesa reservada e eles pediram alguma coisa para beber enquanto olhavam o menu para ver o que pediriam essa noite.

Em todas as vezes que saíram a conversa era sobre Kate. Era perfeito, ela gostava de falar e ele gostava de escutar, mas hoje não seria assim. Kate iria embora em algumas semanas e queria saber o que ele escondia por dentro do genial doutor House.

"Preparado pra me falar sobre você?"

House estranhou a pergunta e olhou pra ela com um sorriso no rosto.

"Quem disse que nós vamos falar de mim?"

"Ah, Greg, por favor! Você nunca me contou sobre a sua vida, eu vou embora logo, queria conhecer você."

"E o que eu ganho em troca?"

"Você sabe que pode ter o que você quiser. Agora, por favor, me conta."

"Tudo bem, comece com seu interrogatório enquanto eu penso no meu prêmio."

Kate ficou animada com a conversa e começou a pensar em tudo que queria saber sobre ele, ele era tão misterioso, tão instigante.

"O que fez você vir pra Oahu?"

"Uau, já começou bem. O bombardeio vai ser assim mesmo?"

"Com certeza, capitão."

House tomou um gole de champagne e se deu conta da enrrascada em que tinha se metido. Ia machucar. Ele ia se abrir e ia voltar a doer.

"Você quer que eu comece da parte em que eu quase me matei ou da parte em que eu quase matei minha namorada? Tem também a parte em que ela ia morrer antes de eu tentar me matar."

"Qual é extamente a ordem dos acontecimentos?"

"Bom..Ela ia morrer. Eu me droguei. Ela não morreu. Terminou comigo. Eu tentei machucar ela. Tentei me matar. Ela me salvou e eu fiz uma coisa por impulso e sem pensar."

"Então comece quando ela ia morrer... Digo, sem ser da última vez. Essa sua história é sombria demais."

"Você nem imagina o quanto…"

Ele respirou fundo e começou a contra sobre o dia em que Cuddy achou que estivesse doente.

"Eu não posso tirar a razão dela."

"Mulheres…"

"Sério. Deve ter sido difícil pra ela ver que você só apareceu porque estava chapado."

"Eu não apareci por isso."

"Eu sei, mas quando nós somos inseguras o medo toma conta."

"Se nós tivessemos vivido uma história assim, se você estivesse no lugar dela…"

"Eu não terminaria com você."

Ela disse, antes mesmo dele perguntar.

"Por quê?"

"Porque eu não desisto tão fácil da felicidade."

House deu um pequeno sorriso, como se ele pudesse ser a felicidade de alguém.

Kate perguntou o que aconteceu depois e House listou tudo que fez para machucar Cuddy.

"Se eu fosse ela agora eu não te perdoaria. Prostitutas tudo bem, mas casamento? Que prazer sádico é esse em fazê-la sofrer?"

"Eu só estava com raiva. Queria machucar ela tanto quanto ela me machucou e nada do que eu fazia era suficiente, eu queria mais.."

"Não imaginei que você fosse tão passional.."

"E aí eu percebi que nada machucava mais ela do que me ver machucado."

"Meu Deus, Greg, você é um gênio do mal."

"Eu sou um gênio miserável, isso sim."

"Você se machucou como?"

"Um remédio experimental pra minha perna. Não deu certo, nasceram alguns tumores e eu fiz uma cirurgia na minha banheira…"

"… Nesse momento da história eu já não queria mais machucá-la, mas infelizmente ela foi a única que apareceu pra me ajudar."

"Parece que ela te ama de verdade."

"Não sei, não vejo desse jeito. Eu nem tinha me recuperado totalmente e ela já estava em um encontro."

"Você tem certeza?"

"Não totalmente, mas era bem óbvio."

"E o que você fez?"

"Libertei meus sentimentos. Peguei meu carro e dirigi em direção à casa dela, mais precisamente na sala de jantar, onde ela tinha acabado de almoçar com ele e sair."

"Meu Deus… Eu já mencionei que você é muito passional? Sério. Eu já tive muita vontade de explodir casas de ex-namorados mas nunca tive impulso o suficiente."

"Pois é… E olha que sou manco."

Ele fez uma brincadeira para descontrair e Kate sorriu. Ela tinha gostado da história, por incrível que pareça, tinha muito sentimento ali.

Sentimento forte e avassalador.

"E aí você veio pra Oahu."

"E aí eu vim pra Oahu."

"Mudou alguma coisa em você nesses meses?"

"Sabe quando um viciado se recupera das drogas e tem que viver um dia de cada vez?"

"Hum.. Você tem medo de voltar a ser o que era?"

"Recaídas acontecem e pessoas, no fundo, não mudam. Mas eu estou numa fase boa. Quase pareço um medico normal, não pareço? Uso até jaleco."

"Parece, se você não me contasse tudo isso eu nunca ia imaginar."

Os dois continuaram a conversar por muito tempo, as noites com Kate eram sempre agradáveis, ela o fazia esquecer de seus problemas.

Nessa noite ele se abriu pra ela e quase não doeu.

Cuddy ficou o dia todo pensando em como foi idiota com Wilson, ele era a última pessoa que merecia um ataque desses. Não conseguiu ir embora sem antes passar em sua sala para se desculpar.

Wilson estava com uma paciente quando ela bateu na porta, eram quase 21h e ele disse que conversaria com ela depois.

Cuddy se sentou em um sofá no corredor e esperou a consulta acabar, entrando em suas sala assim que a paciente saiu.

"Wilson..Eu..Queria te pedir desculpas por hoje."

Wilson olhou para ela ainda um pouco chateado.

"O que aconteceu com você? Você não é assim."

"Me desculpa, por favor. Foi ridículo o jeito que eu te tratei, eu não devia…"

"Lisa.. O que está acontecendo com você?"

Cuddy se sentou em uma cadeira e lágrimas começaram a cair desesperadamente de seus olhos.

"Eu não sei.."

Wilson se aproximou dela com seu maior olhar de compreensão e esperou que ela dissesse alguma coisa.

"Eu estou aqui pra te ouvir, você sabe que pode se abrir comigo."

Ela tentou se acalmar.

"Eu não sei, eu já passei por todos os sentimentos possíveis nesses seis meses, hoje eu não consegui me segurar e explodi…"

Seis meses. Wilson entendia agora o que estava acontecendo.

"Eu achei que você não quisesse saber dele… Cuddy, você proibiu todo mundo aqui de mencionar o nome dele e até deu queixa na delegacia."

"Eu não consigo. Eu simplesmente não consigo ter raiva dele."

"Eu pensei que você tivesse seguido em frente.."

"Eu segui. Eu juro que…Eu estou tentando, eu vou conseguir, mas tem que ser devagar, sabe?"

"Você ainda pensa muito nele?"

Mais lágrimas caíram de seus olhos e ela respirou fundo.

"Penso. Eu penso e depois passa e aí acontece alguma coisa e eu lembro de novo. A dor é muito grande ainda, mas ela tem melhorado com o tempo."

"Você acha que pode viver assim?"

"Posso! Se eu resisti aos primeiros seis meses tudo vai ficar mais fácil agora. Amanhã eu já vou estar melhor, você vai ver, foi só um momento."

"Bom… Se você acha, eu espero que você fique bem logo."

"Obrigada e desculpa mais uma vez."

Cuddy deu um beijo na bochecha dele, limpou suas lágrimas e fez um pedido:

"Não comenta isso com ninguém, por favor. O assunto morre aqui e continuamos sem mencionar o nome dele, ok?"

"Se você quer assim, eu esqueço essa conversa."

Cuddy sorriu e foi embora, deixando Wilson um pouco perplexo, ela realmente o enganou durante seis meses.

Agora fazia mais sentido, um sentimento tão forte assim não se modificava tão rápido, ele devia ter pensado nisso antes.

House passou o dia seguinte irritado com um paciente. O antigo House aparecia de vez enquando pra liberar as energias.

Esse paciente era pior do que qualquer um que ele já teve ou talvez nem tanto, pois ele nunca tratou dos pacientes pessoalmente para saber.

James Sheppard era um ex-jogador de basquete e ex-fumante com problemas de coração. A doutora Kate Ford estava no caso junto com House, tentando extrair dele qualquer informação possível, mas ele insistia em não contar toda a verdade sobre o uso de drogas, dificultando o diagnóstico e os remédios que ele poderia tomar.

Foi um dia inteiro de irritação e nervoso, House odiava lidar com pessoas assim. James era bem parecido com ele, na verdade, sempre estava certo em suas convicções e agia como se fosse o dono do mundo.

House esteve diante de si mesmo por mais de 10 horas.

Era insuportável.

No final do dia, depois de finalmente diagnosticarem o paciente, a doutora Kate estava indo embora quando House a alcançou na porta do hospital com uma surpresa.

"Abre."

Ele lhe entregou um envelope e ela abriu, surpresa e ansiosa.

"Greg?"

"Gostou?"

"Eu amei, mas…"

"Mas nada. Você sempre disse que queria morar em Nova Jersey e eu estou te dando a oportunidade de trabalhar em um dos melhores hospitais de lá. Diga adeus à Seatle."

Kate sorriu para ele com um olhar apaixonado, ela tinha se apaixonado desde a primeira vez que conversaram.

"Obrigada."

"Disponha."

Ela se aproximou dele e lhe deu um beijo carinhoso.


Algumas horas antes, House ligou para Chase e cobrou um favor que ele lhe devia. Ele disse que estava trabalhando com uma cardiologista que estava de mudança para Nova Jersey e queria saber sobre as vagas no PPTH. Wilson havia comentado com ele que o hospital estava contratando médicos novos e ainda não tinham ninguém para chefiar a equipe de cardiologia.

"Ela tem um currículo perfeito, com certeza será contratada. Você só precisa conseguir uma data pra entrevista."

"Claro, eu estou ajudando a Cuddy com algumas entrevistas, posso encaixá-la sem problemas."

"Só mais uma coisa: Não comenta com ninguém, principalmente com a Cuddy, que foi indicação minha."

"Só se você me contar onde você está. Pelo amor de Deus, House, você desapareceu há seis meses e ninguém sabe de você."

House deixou claro que só contaria se ele lhe contasse algumas fofocas sobre a equipe de diagnósticos.

Eles ficaram um bom tempo conversando.