Abundancia de café e confissões
Bella Swan
Eu fiquei completamente atordoada com essa nova revelação sobre o Edward. Seu cheiro me deslumbrava completamente.
Como a pena cheirava exatamente como ele? Era provavelmente sua colônia, mas o que ele fez? Encharcou a pena com ela? Isso parecia um pouco exagerado. Mesmo que ele seja um cortês cavalheiro, eu não conseguia imaginá-lo indo tão fundo. Mas como o cheiro era o mesmo? E por que ele não mencionou aquela noite ou a pena? Eu sabia que ele me viu, ainda assim estava agindo como se a biblioteca tivesse sido nosso único encontro.
Chegamos rapidamente na cafeteria.
Eu me apaixonei por esse lugar desde a primeira vez que o visitei. Não vinha sempre, lattes (N.T.: aqueles cafés preparados com leite, chantily e alguma essência) caros não estavam dentro do meu orçamento.
Era um lugar confortável, com luzes baixas e móveis rústicos – mesas e cadeiras incompatíveis, cantos quietos onde você poderia ter uma conversa íntima com alguém que você gostaria de conhecer melhor. Eu estava esperando que não estivesse muito cheio. Queria a chance de sentar com ele e conversar.
Olhei em volta, tinham várias pessoas, mas pro meu alívio duas cadeiras vagas perto de uma mesa baixa num canto. Edward seguiu meus olhos e maneou afirmativamente a cabeça. Ele me entregou a bolsa com as roupas recentemente lavadas.
"Por que você não segura as cadeiras enquanto eu vou buscar as bebidas? O que vai querer?" Ele inclinou sua cabeça levemente pro lado, como se o que eu fosse dizer fosse algo extremamente importante – não simplesmente um pedido de café.
"Hum, vou querer só um descafeinado puro." Ele pode ter sido suficientemente fofo pra se oferecer a pagar, mas eu não iria tirar vantagem em cima da sua generosidade.
Ele franziu a testa pra mim.
"Bella, você só vai querer isso mesmo? Você já sequer jantou?" Suas palavras estavam repletas de preocupação.
"Estou bem. Eu vou querer só isso, mesmo."
Me virei e comecei a andar em direção às cadeiras. Eu não conseguiria me adaptar facilmente à toda essa atenção. Eu não estava acostumada a ter pessoas olhando por mim, e agora com Mike, Esme e Edward me sentia desorientada com os cuidados deles.
Sentei na cadeira encarando o canto. Coloquei a bolsa perto do meu pé e respirei o cheiro de café. Era um cheiro bom e confortante. Eu trocaria por estar lá fora onde eu podia sentir o cheiro do Edward, puro.
Eu realmente precisava dar um jeito em mim mesma.
Quando Edward chegou à mesa, eu me assustei. Ele estava carregando suas bandejas de bebida que continha um total de oito cafés. Ele também segurava duas sacolas de papel que estavam levemente estufadas com seu conteúdo. Cuidadosamente ele colocou tudo na mesa na nossa frente. Achei rapidamente meu café, era o único descafeinado.
"Você não foi muito clara com o que ia querer, então eu espero que tenha escolhido bem. Peguei alguns bolinhos e biscoitos. Fique a vontade. Odiaria pensar que você está pulando o jantar porque está aqui comigo." Disse enquanto retirava os itens das sacolas. Ok, isso explicaria a comida, mas pra que diabos tanto café?
"Você vai beber tudo isso?" meu tom era descrente. Espero que ele não tenha comprado-os pra mim, eu não me dava bem com cafeína, especialmente a noite.
"É, eu acho. Esperava que ficássemos conversando por algum tempo e eu sempre estou com muita sede. Parece mais fácil do que ficar levantando toda hora pra pegar mais." Disse normalmente, apesar de que o motivo dele ficar com tanta sede era uma pergunta que percorria minha mente.
"E toda essa cafeína não vai te fazer mal?"
"Não."
No interesse de ser educada não me aprofundei no assunto. Na minha mente eu o visualizava depois do sétimo copo de café falando rápido demais numa explosão de energia maníaca. Melhor ele do que eu, acho.
"Mmm, você deveria provar um desses. É realmente bom. Obrigada pela comida e pelo café. Eu gostei disso."
Ele sorriu. Parecia estar orgulhoso por ter me agradado tanto.
E ele não estava brincando sobre ter muita sede.
Sentamos silenciosamente enquanto eu mordia a comida e dava pequenos goles no café. Estava escaldante, e mesmo que eu gostasse do meu café quente, esse estava mais parecido com lava. O calor dele não parecia perturbá-lo nem um pouco. Ele tinha praticamente acabado com o seu segundo antes de eu chegar na metade do meu.
"Você gosta de pássaros, Edward?"
Eu não podia suportar mais. Estávamos em nosso cantinho privado. Era íntimo e o clima entre nós havia mudado.
Eu queria que ele se manifestasse sobre a pena e a maneira que ele pegou o pedaço de papel.
Eu queria que ele soubesse quão importantes eram aquelas palavras escritas no papel.
Queria saber o motivo dele estar nos degraus da escada da biblioteca.
Queria começar a encerrar com o mistério.
O olhar que vi em seu rosto na biblioteca retornou. Era um olhar cheio de dor, pesaroso e com profundas tristezas enraizadas.
"Ocasionalmente eu fico interessado em pássaros." O início de um sorriso presunçoso apareceu em seu rosto. Ele não elaborou.
Eu o encarei. Me questionei sobre a possibilidade de eu só ficar sentada ali olhando pra ele se ele iria admitir o que aconteceu. Edward apenas me encarou de volta.
Parecia que o ar ao meu redor tinha ficado mais denso só pelo seu olhar. Ele estava jogando o mesmo jogo que eu, mas ele parecia estar esperando que eu simplesmente desistisse e deixasse passar.
Isso não iria acontecer.
Mas eu desviei o olhar primeiro. Eu não podia encarar seu rosto e lembrar do que queria que ele respondesse. Quanto mais o olhasse, menos as respostas pareciam importar. Olhei pra longe. Sabia dentro de mim que as respostas eram importantes demais pra eu simplesmente desistir, então eu olhei pra qualquer outro lugar.
Dei mais um gole pequeno no meu café enquanto tentava arrumar meus pensamentos. ele também estava bebendo mais; seu terceiro copo de café estava seguro em suas mãos.
Eu encarei meu copo. Minutos passaram e nenhum de nós dois falou nada.
"Me desculpe."
Minha cabeça imediatamente levantou quando ele começou a falar.
A tristeza estava novamente em seu rosto, na verdade, em seu corpo inteiro. Ele aparentava estar com alguma dor física, seu corpo estava tenso e rígido.
"Sim, Bella. Eu te vi na sua varanda. Eu deixei a pena pra você. Eu sei que você queria uma resposta mais elaborada do que essa, mas isso é o melhor que eu posso te oferecer."
"O que você estava fazendo na rua? Como sabia onde eu morava? Como você fez pra pegar aquele papel rasgado no ar?" Eu queria continuar perguntando. Querida continuar bombardeando-o com perguntas até que ele me respondesse alguma coisa. Ao invés disso calei-me e esperei.
Ele se inclinou pra frente em sua cadeira - na minha direção. Percorreu uma mão pelo seu cabelo, despenteando e embaraçando ainda mais suas mechas cor de bronze.
"Tem tanta coisa que eu quero dizer. Eu simplesmente não posso... Eu não achava... que isso já tivesse acontecido antes."
Ele se atrapalhou com palavras. Olhei pra baixo e notei que ele se mexeu desconfortavelmente em sua cadeira. Estava prestes a falar quando ele recomeçou.
"Eu nunca me senti assim, Bella. Pela primeira vez na minha vida eu não sei o que fazer." Então ele encontrou meu olhar.
Eu não compreendia o que ele estava falando.
Ele sentou direito na cadeira e inclinou sua cabeça e pescoço pra trás. Sua mão foi novamente pro seu cabelo, puxando-o violentamente. Ele apertou o meio do seu nariz e respirou fundo diversas vezes. Eu não sabia o que fazer. O humor esteve tão leve mais cedo, nós estávamos envergonhados e amáveis, mas agora existia uma corrente entre nós que me assustava. Eu fiquei obcecada por ele durante dias e secretamente esperava que ele, de alguma forma, tivesse me notado; que ele sentisse um milionésimo da atração que eu estava sentindo.
Essas eram as coisas que eu desejava, e ainda assim, sentada em frente a ele enquanto Edward passava por um conflito interno que eu não conseguia decifrar, me lembrei de ser cuidadosa com o que desejava.
Eu não achava que ele estivesse obcecado por mim do jeito que eu esperava e percebi, com um arrepio, que não sabia o que ele era de fato.
Senti um pouco de pavor ao perceber que não me importava. Eu o queria, independentemente do que isso, que estava acontecendo entre nós, fosse. Eu queria a doçura que dividimos antes e queria essa criatura torturada que estava na minha frente agora.
Quando ele readquiriu controle, se inclinou pra frente e bebeu mais café.
Me olhou quando depositou o café de volta na mesa. Encarou-me diretamente nos olhos, as piscinas verdes brilhantes que estavam diretamente refletidas a mim eram convidativas. Podia sentir minha respiração acelerar e estava envergonhada pela maneira que meu corpo me traía.
Ele ainda parecia borrado pela tristeza, mas quando seu olhar desceu pros meus lábios e depois mais pra baixo, a tristeza se misturou a um olhar de desejo e necessidade. De repente ele pareceu muito menos inocente do que no momento que estava corando enquanto segurava minha calcinha.
"Você alguma vez já teve que fazer algo que não quis fazer, Bella? Você já teve alguma coisa planejada antes da sua própria existência que simplesmente não podia negar, mas ao mesmo tempo não podia imaginar a possibilidade de dizer 'sim' também?"
Eu estive naquela situação, na verdade; mais do que podia lembrar. Minha vida sempre foi cheia de coisas que eu preferia ter fugido, mas que não pude.
Tinha algo estranho em nossa conversa. Algo ficou perdido com a tradução, mas estávamos falando o mesmo idioma. Ele parecia estar tentando se convencer de algo e eu não fazia idéia do que poderia ser.
"Edward, eu não entendo." Pareceu que ele iria falar, então levantei meu dedo para silenciá-lo, pra me dar um momento para extravasar meus pensamentos. "Eu não compreendo nada disso. Não tenho muita experiência com esse tipo de coisa." Corei com a admissão da minha inocência. "Eu sei que isso simplesmente não acontece. Isso é vida real, não um conto de fadas. Pessoas não passam na rua e percebem que são almas gêmeas. Você realmente parece ser agradável, mas você precisa confiar um pouquinho mais em mim. Eu não consigo pensar no que deveríamos fazer se não consigo nem entender onde estamos."
Podia sentir minhas bochechas em chamas. Disse mais do que pretendia, mas de alguma forma as palavras continuaram saindo.
"Eu confio em você." Ele disse as palavras com convicção. Elas pareceram verdadeiras.
"Se você confia em mim então fale comigo. Me diz o que está te chateando."
Ele recomeçou a bebericar seu café, e minha confusão se transformou em raiva.
O homem era bonito de uma forma que não deveria ser permitida pela natureza, mas nesse momento ele estava me frustrando mais do que eu poderia acreditar.
Como uma pessoa poderia sentir tanta sede?
Como pode beber tanto e não sentir vontade de fazer xixi?
Como ele podia me seguir, invadir meus sonhos, me encher de esperanças e ainda assim não confiar suficientemente em mim pra responder a algumas perguntas?
Minha raiva deve ter ficado evidente porque Edward novamente me lançou aquele sorriso.
"Não é um problema de confiança, Bella. É um problema de crença. Existem coisas sobre mim que você não conseguiria entender, coisas que você nunca deveria ter conhecimento. Foi um erro me aproximar tanto. Você me fascina. Eu achei que se me aproximasse de você, eu poderia satisfazer a parte de mim que queria mais. Mas não está funcionando, só está piorando."
Erro? Como isso foi um erro? Nós estávamos conversando e tomando café. Ele me ajudou a dobrar algumas roupas. Onde estava o grande erro?
"Olha, existem muitas coisas sobre mim que você também não compreenderia. Mas estou disposta a ver até onde isso vai dar. Você está agindo como se ficar perto de mim te fizesse doente, e se esse é o caso, eu vou embora."
Ele não respondeu.
Parecia estar com raiva, mas não fez movimento algum pra me parar quando eu peguei meu casaco e a bolsa com as roupas. Já podia sentir lágrimas se acumulando em meus olhos. Eu precisava sair da cafeteria antes delas começarem a cair. Ele não me veria chorar.
O ar frio de fora era bom pra mim; me ajudou um pouco a limpar minha mente.
Andei o mais rápido que pude por dois quarteirões antes deixar as lágrimas ganharem a batalha. Encostei minhas costas no muro de pedra gelado de um prédio e as deixei vir. Eu estava congelando.
Me perguntei se caso eu ficasse assim por bastante tempo se iria congelar junto ao prédio. As lágrimas em meu rosto congelar-se-iam em pequenos cristais e eu viraria nada mais do que uma estátua. Eu não estava agora muito diferente mesmo.
Tentei compreender o motivo da minha chateação. Eu não conhecia realmente Edward. Ele era lindo a parecia realmente adorável e cuidadoso. Essas eram as coisas boas, mas e sobre as outras coisas? Eu não podia negar que existia um outro lado das coisas que era decididamente mais obscuro.
Eu sabia que ele e seus amigos não calçaram sapatos na primeira vez que os vi. Esse parecia um detalhe bobo de pouca importância, mas não era normal. Ele esteve do lado de fora do meu apartamento no meio da noite, na minha varanda enquanto eu dormia. Isso beirava a linha de maravilhas e esquisitices. E qual era o problema com todos os cafés? Ele deu todo um significado ao conceito de ter um problema com bebidas.
Eu deveria estar grata por ele simplesmente ter me deixado ir embora; eu não precisava me envolver demais com algo complicado. Se estava preocupada com minhas asas frágeis, então precisava de algo tranquilo. Eu certamente não precisaria lidar com alguém que dizia que passar um tempo comigo era um erro.
Limpei meu rosto na minha manga e me impulsionei pra longe do prédio gelado. Minhas juntas estavam duras pelo frio. Precisaria tomar um banho quente quando chegasse em casa, me prometendo tomar o mais quente que eu puder suportar e deixar os pensamentos sobre Edward escorrerem também pelo ralo.
Eu estava prestes a pegar minha bolsa quando uma mão alcançou-a e a pegou. Edward colocou a bolsa em seu ombro e depois de aproximou de mim. Ele invadiu meu espaço por completo, me fazendo ficar imprensada novamente contra a parede. Seu corpo estava tão próximo, mal existia uma respiração entre nós.
Eu não conseguia respirar nada que não fosse ele. Seu cheiro sedutor envolveu o ar ao meu redor e seus olhos eram intensos, quase luminosos na escuridão. Isso não podia ser um erro. Ele não podia me fazer acreditar que era.
A maneira que ele me fazia sentir era perigosa. Todas as coisas ruins que pensei a um momento atrás desaparecerem. Tudo o que eu queria era ficar perto dele. Queria sentir seu cheiro, ouvir sua voz aveludada e me perder em seus olhos.
Ele levantou sua mão e limpou uma lágrima da minha bochecha que eu esqueci. Suas mãos eram quentes. Mesmo que ele mal tenha roçado a ponta dos seus dedos na minha pele, eu podia sentir que o calor do seu toque me preenchia. Mesmo que uma corrente de vento particularmente forte tivesse me atingido, eu me sentia envolvida por um cobertor aquecido – um que fora aquecido perto do fogo.
Eu queria que ele me tocasse novamente.
Ele se afastou, me dando o espaço que eu não queria. O calor se afastou de mim, exatamente como ele.
"Posso te levar em casa?" Ele era novamente o cavalheiro tímido.
Eu não conseguia acompanhar suas mudanças de humor. Cauteloso e rabugento pra tão doce que derretia meu coração em dois segundos.
Eu ansiava por sua companhia demais pra declinar. Eu concordei e comecei a caminhar.
O que quer que isso seja, quaisquer que sejam suas intenções, qualquer demônio que ele esteja enfrentando – eu estava com ele. Me comprometi irrevogavelmente. Eu deveria estar assustada, ou com raiva. Eu deveria me perguntar porque sua presença me faz responder irracionalmente. Eu deveria fazer todas essas coisas, mas no fundo da minha mente, repetindo constantemente, me disse que não importava.
Ele andou ao meu lado, mantendo uma distância cautelosa.
Eu sabia que deveria estar irritada comigo mesma. Tudo o que bastou foi um momento em sua presença pra toda a determinação que estava construindo ruir. Infelizmente, nada me importava exceto o fato de que ele estava andando comigo, que ele veio até mim independente do que estivesse acontecendo.
Nós não falamos enquanto andamos. Estava ventando demais e muito frio pra fazermos algo além de simplesmente continuar andando. Eu queria pijamas e cama confortáveis, um banho quente e que Edward me tocasse novamente para aquela incrível corrente de calor do sol voltar a me atingir.
Chegamos no meu prédio e eu contemplei o que deveria fazer.
Eu queria que ele subisse comigo. Queria conversar com ele, pra tentar entender o que ele estava tentando dizer na cafeteria.
Estudei seu rosto. Suas testa estava vincada com seus pensamentos, e ele também parecia estar dividido – como se ele quisesse que eu o convidasse pra subir, mas que ao mesmo tempo esperasse que eu não fizesse. Aquela batalha interna que eu não conseguia compreender parecia estar recomeçando novamente.
"Estava me perguntando se você gostaria de subir? Eu acho que talvez devêssemos conversar sobre algumas coisas."
Ele me lançou aquele sorriso que eu já clamei como meu, segurou a porta pra mim e depois me seguiu na escada.
Uma vez dentro me senti incrivelmente nervosa. Não recebi ninguém exceto os homens da mudança neste apartamento. Nenhuma outra alma, e certamente nenhum outro rapaz que encarnava a minha idéia de perfeição masculina.
Ele pendurou sua jaqueta nas costas de uma cadeira e sentou à minha pequena mesa.
"Você gostaria de comer ou beber alguma coisa?" eu sabia que essa era uma pergunta educada a se fazer, mas eu não conseguia imaginar ele tendo espaço pra mais líquidos. Seus órgãos já estavam, provavelmente, nadando.
Eu me surpreendi quando ele pediu um copo de água.
"Eu me desidrato fácil. Ajuda se eu ficar bebendo." Eu enchi um copo com água da torneira e coloquei na sua frente.
Sentei na cadeira em frente a dele, liguei a lâmpada pequena e olhei as rajadas de vento lá de fora – meu apartamento estava confortável.
Eu conseguia sentir alguma tensão da noite se dissipando. Ainda estava um pouco congelada por causa da caminhada, mas era bem melhor ficar abrigada.
Ele pegou o copo e eu me foquei em suas mãos perfeitas. Me maravilhava o fato de que ele não parecia ter nenhuma falha em seu corpo. Não existia nenhuma unha quebrada ou cutícula fora do lugar naqueles longos dedos.
"Eu não quis te magoar antes. Eu quero ficar com você, Bella. Eu quero te conhecer e te fazer sorrir. Eu quero que você seja feliz. Quando estou perto de você, eu me sinto como se estivesse acordando, como se houvessem coisas antes de mim que eu sequer conhecia a existência. E me assusta porque eu não acho que posso ser o que você precisa que eu seja."
"O que você acha que eu preciso que você seja? Eu mal te conheço. Queria te conhecer melhor, mas não é como se eu estivesse esperando que você me salvasse."
Ele me deu uma olhada de soslaio, que me disse que ele sabia que eu esperava que alguém pudesse me salvar.
"A verdade é que eu nunca fui egoísta antes de você, Bella. Eu sempre fiz o que precisava ser feito. Mas eu te vi e tive que ficar perto de você, mesmo que isso provavelmente fosse fazer as coisas mais difíceis futuramente, tive que me aproximar. Sua força de atração é mais forte do que a gravidade."
Ele me olhou por baixo dos cílios. Aqueles olhos verdes fizeram todo o resto ficar embaçado.
"Talvez eu esteja contente pelo seu egoísmo. Eu quero ficar com você. Não tenho pensado em nada muito diferente nos últimos dias."
Novamente minhas bochechas ficaram vermelhas.
"Eu odiei ter feito você chorar."
"Por que você disse que as coisas entre nós não tem relação com confiança, e sim com crença? Não são a mesma coisa? Você escreveu no papel 'Apenas acredite', mas eu não sei dizer no que você quer que eu acredite."
"Bem, acho que em minha mente há uma distinção pequena. Você obviamente confia suficientemente em mim pra me convidar até a sua casa, mas acreditaria em mim se eu dissesse que sou um vampiro que tem como alvo mulheres jovens que moram sozinhas?"
Eu ri alto. Aquilo era ridículo.
"Não. Desculpa. Eu não acho que acreditaria nisso."
Era a sua vez de gargalhar então. Quando cruzou meus olhos eles pareciam mais leves.
"Você não é, é?" eu precisava perguntar.
"Não. Eu não sou. Entretanto acho que consegui comprovar meu ponto. Confiança e crença não são sempre as mesmas coisas."
Lembrei das suas palavras sobre ter que fazer coisas que não queria, sobre não ter escolhas.
Percebi que estava me mexendo na barata cadeira de metal ficando desconfortável. Olhei pro relógio e fiquei surpresa ao notar que já era quase meia-noite. Definitivamente existia algo neste rosto que nublava meus julgamentos. Provavelmente não deveria ter convidado-o pra subir tão tarde. Mas ele estava certo, eu confiava nele.
Rolei meu pescoço em meus ombros, tentando ficar mais confortável. Edward percebeu e gesticulou para o pequeno sofá.
"Você vai ficar mais confortável ali? Eu não percebi que já estava tão tarde."
"Eu também não. O sofá soa bem pra mim."
Sentamos no sofá. Ele pegou um cobertor de lã que estava no braço do sofá e prendeu em volta de mim.
Angulou seu corpo em minha direção, mas foi bastante cuidadoso pra não me tocar. Depois apoiou suas mãos em seu colo. Ele parecia completamente deslocado em meu pequeno sofá surrado. Era como se alguém estivesse pendurando a Monalisa num lavabo. Inaceitável.
"Adoraria saber o que você está pensando. Você tem estado bastante quieta desde a cafeteria. Me desculpe por ter te chateado. Eu sei que já me desculpei, mas eu sinto que precisava fazer novamente."
"Eu estava pensando sobre o que você disse antes. Eu tive que fazer muitas coisas que não quis. Algumas vezes penso que essa é a história da minha vida. Conhecer você meio que me trouxe de volta pros trilhos mais uma vez. É como se alguém tivesse me entregado esse presente, cheio de promessas e eu estou com medo de abrir porque não o mereço."
"Bella, você não pode olhar pras coisas dessa maneira. Talvez você precise acreditar que mereça um pouco de felicidade."
Apenas acredite.
"Você é um bom ouvinte. Jake também era."
O nome escapuliu tão rapidamente; não teve como parar. Eu não podia acreditar nisso. Depois de tudo o que aconteceu, seu nome saiu tão rapidamente de meus lábios. Estava certa em acreditar que não merecia tamanha felicidade.
"Jake?" seus olhos se estreitaram suavemente. Ele não parecia estar com ciúmes ou surpreso, apenas sinceramente interessado.
As únicas pessoas que conheciam os detalhes do acidente do Jacob era sua família, o policial e eu. Aquele acidente horrível fora a cereja no topo do sorvete que era a bosta da minha vida.
Algo dentro de mim urgia-me a contar ao Edward. Eu não estava certa se estávamos num primeiro encontro ou o que quer que isso fosse, mas estava certa que divagar sobre os detalhes do acidente do Jacob seria contra as regras de etiqueta.
Foi aí que meu coração tomou o controle e eu sussurrei pro meu cérebro pra ele apenas acreditar. Eu precisava acreditar que Edward entenderia o que aconteceu - o que me levou pra tão distante de casa.
Eu precisava acreditar nisso porque tinha mentido mais cedo.
Eu estava procurando por alguém pra me salvar e Edward sabia disso.
Engoli em seco e respirei fundo. Foquei toda a minha atenção num fiapo do carpete.
Não conseguiria passar por isso se estivesse olhando pra ele.
"Quando eu tinha doze anos meus pais morreram. Eu não tinha nenhum outro familiar então fui morar com os Black. Billy Black era o amigo mais antigo dos meus pais e como se fosse um tio pra mim. Ele criou suas filhas e filho sozinho. A casa deles era pequena e cheia de pessoas, mas era a coisa mais próxima de família que eu tinha e eu me sentia segura ali. Jacob Black era um ano mais novo do que eu. Nós éramos amigos e essa era uma das coisas que eu mais gostava sobre morar ali - ter meu melhor amigo. As coisas começaram a mudar conforme íamos crescendo. Ainda pensava em Jacob como um amigo, mas ele começou a me ver de maneira diferente. Ele continuava me chamando pra sair e eu continuava negando. Um dia tivemos a maior briga. Ele estava irritado e saiu rapidamente - e então morreu, exatamente como todos os outros que eu amei."
"Naquele dia ele me chamou pra dar uma volta. Jacob já tinha colocado as motos na caçamba da nossa antiga caminhonete. Eu não queria ir, ele usava qualquer tempo que tivéssemos juntos – sozinhos – como uma oportunidade pra falar sobre nós dois começarmos a ter um relacionamento. Eu não estava no humor de brigar naquele dia, mas ainda assim acabei concordando em ir. Ainda estávamos na nossa rua e ele já estava falando como sabia que eu estava apaixonada por ele, mas era teimosa demais pra admitir. Quando chegamos às trilhas perto da floresta já estávamos gritando um com o outro. Decidimos que ainda assim iríamos dirigir. Eu queria sentir o vento, deixar ele levar toda essa bagunça embora. E mais, eu sabia que ele não poderia discutir comigo enquanto eu estivesse na minha motocicleta."
Minha garganta queimou. Estava grossa e áspera, e eu estava cansada e bem próxima do meu limite de enlouquecer completamente. Eu não podia parar agora, entretanto.
Parecia que eu tinha uma cesta enorme na minha frente que tentava esvaziar, e eu podia quase ver o fundo. Eu precisava extravasar, precisava de alguém aqui que soubesse.
"Eu não tinha meu capacete. Estava irritada e queria dirigir, mas meu capacete tinha ficado na garagem. Jake me deixou usar o dele. Se inclinou pra colocá-lo em mim e esse foi o momento que tentou me beijar. Eu o empurrei e o estapeei depois. Sabia que não tinha machucado-o fisicamente, mas podia dizer que tinha ferido seu ego. Ele realmente acreditava que era só uma questão de tempo até ficarmos juntos. Foi quando o empurrei daquela forma que ele percebeu que eu estava falando sério e me senti como se estivesse observando seu coração se partir logo ali, na minha frente. Peguei seu capacete e coloquei firmemente na minha cabeça e então montei na moto."
Minha voz era praticamente um sussurro agora. Ainda tinham lágrimas. Edward dava cuidadosos afagos em minha perna por cima do cobertor, urgindo-me a continuar.
"Jacob me ultrapassou. Ele estava sendo completamente imprudente. Nunca tinha visto ele daquele jeito e percebi que tinha forçado-o demais. Todas as coisas entre nós dois existiram por tempo demais. Eu sabia que não conseguiria acompanhá-lo, mas fui mais rápido do que já tinha ido. Sentia como se precisasse mantê-lo em minhas vistas. A mais ou menos um quilômetro depois, a trilha ficou mais acidentada. Minha moto ficava balançando demais e eu sabia que teria que diminuir. Perdi o controle e caí forte numa área de pedras ao lado da trilha. Minha calça jeans estava rasgada e eu tinha vários cortes profundos na minha perna. Eu não estava sangrando tanto então sentei por um minuto pra tentar decidir o que fazer. Jake já tinha colocado distancia entre nós há algum tempo, então eu não esperava que ele fosse de muita ajuda. Estava tentando levantar quando o ouvi se aproximar. Ele deve ter decidido voltar pra que pudéssemos continuar dirigindo juntos. Jacob nunca me deixou pra trás antes e ele estava indo rápido demais. Justamente quando ele estava prestes a passar por mim eu o vi virar sua cabeça. E então ele me viu no chão."
"Eu não estou certa sobre o que aconteceu depois. Não sei dizer se ele só estava muito rápido, ou se tentou frear rápido demais ou se seus pneus atingiram alguma coisa. Num segundo ele estava ali e no outro ele estava jogada nas raízes de um grande enorme carvalho. Sua cabeça definitivamente tinha batido na árvore. Tinha sangue, tanto sangue – e seu braço estava estendido num ângulo esquisito."
Comecei a soluçar descontroladamente. Ele sabia das partes importantes.
Eu exigi demais do Jacob.
Eu tinha seu capacete.
Eu era desastrada e não conseguia acompanhá-lo, então Jacob voltou por mim.
Nunca fui capaz de dizer se foi por causa de uma daquelas coisas ou por todas elas; não que realmente importasse, porque Jacob ainda estará morto de qualquer forma.
Jacob morreu e foi culpa minha.
Edward me trouxe pros seus braços. Eu estava exausta demais pra resistir. Encostei minha cabeça em seu peito e ele percorreu suas mãos gentilmente pelo meu cabelo. Eu não poderia determinar com certeza, mas algo soava como se ele estivesse cantarolando suavemente pra mim – da maneira que você faria para um bebê inquieto. Era como se fosse uma canção de ninar.
Ele era tão quente. Seu cheiro me inundou como bálsamo. Com meu rosto pressionado em seu peito, seu cheiro ficava ainda mais concentrado. Eu podia me visualizar flutuando para um esquecimento pacífico.
Logo antes de me perder no sono, percebi que Edward me fazia sentir completa. Quando estava perto dele não me sentia sozinha ou assustada, me sentia bem. Ele percorreu sua mão pelo meu cabelo uma vez, e eu me senti completa. Não reparada ou consertada, mas como se nunca tivesse sequer sido quebrada.
Acordei pela manhã completamente desorientada.
Dormi como uma bêbada depois da noite mais movimentada da minha vida.
O cobertor de lã ainda estava em volta de mim e eu estava curvada no sofá. Os eventos da noite anterior começaram a voltar ao meu cérebro e eu sentei com pressa, me perguntando se Edward ainda estava no meu apartamento. Escaneei o local, mas não o vi em lugar algum. Eu ia levantar e começar a checar, mas quando sentei notei um prato e um bilhete perto do sofá. Os biscoitos emuffinsda cafeteria estavam no prato, cuidadosamente embrulhados pra que continuassem frescos.
Sorri enquanto lia o recado no papel.
Ele me desejava uma boa manhã e disse pra eu me certificar que comeria um muffin de café da manhã. Escreveu que eu era linda e serena enquanto dormia e que me veria mais tarde. Quando me recordei como me transformei numa cesta revestida no fim da noite, fiquei grata por ele ainda querer me ver.
Peguei um muffine andei até minha cozinha microscópica. O copo que Edward bebeu estava na pia. Eu o enchi com um pouco de leite e comi meu café da manhã.
Lembrei do Jacob e me perguntei o motivo da história ter escapulido ontem a noite.
Percebi, um pouco chocada, que pensar em Jacob não foi doloroso essa manhã. Pela primeira vez desde sempre, pensar nele só me fez lembrar o quando me importava com ele. Eu ainda sentia sua falta, ainda desejava que ele não estivesse morto, mas aquela montanha de culpa que me queimou por tanto tempo foi perdida, e eu me sentia mais leve por isso.
~*~
Edward
Estava sentado nos galhos perto do topo do maior pinheiro que ficava perto do lago. Eu vinha bastante aqui. Era sereno e normalmente desprovido de pessoas.
Uma águia voou pra baixo e pegou um peixe prateado. Trouxe o comentário da Bella sobre estar interessada em peixes para a frente da minha mente.
Ela me fascinava. As coisas que ela notava. As coisas que ela escolheu me confessar. A maneira que eu me sentia ao estar perto do seu corpo. Tudo era novo e eu estava aterrorizado pelos erros que estava cometendo em sua presença.
A sua tristeza quando me contou sobre o Jacob perfurou meu coração. Eu percebi que era algo que ela precisava me contar. Não compreendia quão difícil seria escutar.
Eu já sabia sobre Jacob. Eu sabia o que aconteceu desde o dia do acidente. Eu sabia tudo o que existia pra saber sobre Isabella Marie Swan.
Mesmo que eu já soubesse a história, ouvir aquilo dos seus lábios foi agonizante.
Pior ainda foi saber cada detalhe que ela deixou de contar. Que ela perdeu seu celular quando caiu e não conseguia achar pra pedir socorro. Que ela ajoelhou ao lado do Jacob, anormalmente calma pelo choque, e administrou primeiros socorros por muitos minutos até ela perceber que era uma causa perdida. Eu sabia que ela correu de volta pra pegar a caminhonete e que ela usou toda a sua força pra levantar seu peso morto para o veículo.
Eu a vi parada no abismo de um precipício uma semana depois, encarando o oceano tão abaixo. Ela se lançou pelo ar aberto em completo abandono, esperando pela morte, mas se agarrando à vida. Eu sabia que quando ela alcançou a margem ela jurou nunca mais voltar a agir de maneira tão estúpida.
O que eu não sabia sobre Bella era que conhecê-la alteraria completamente a minha existência. Minha realidade foi completamente rearranjada desde o momento em que a vi pela primeira vez na biblioteca.
Eu a observei enquanto ela trabalhava, cuidadosa demais pra evitar ser notada, tão cuidadosa pra se manter sozinha. Eu esperei nos degraus pela sua saída naquela noite.
Eu queria que ela me visse. Queria que ela me notasse, me quisesse. Eu queria que ela confiasse em mim e sorrisse pra mim.
Foi exatamente isso que aconteceu.
Eu recebi exatamente o que queria, mas era errado. Era horrivelmente errado.
Anjos algumas vezes se misturavam aos humanos. Essa não era a base da minha perversidade.
Era errado porque Bella precisava ser salva. Havia mentido a ela sobre confiança e sobre felicidade.
Eu queria aquelas coisas. Queria a sua confiança. Queria fazê-la feliz.
Existiam outros da minha espécie que conseguiam fazer isso. Se eu fosse um Guardião, talvez fosse possível. Eu não era. Eu era um Anjo da Justiça. Era meu trabalho me certificar que a balança estaria perto do equilíbrio. Era meu dever manter as coisas equilibradas, pela segurança da eternidade.
A tarefa posta a minha frente era tirar a vida de Isabella Swan.
Envolvi minhas asas ao redor de mim folgadamente, esperando por um momento de conforto. Seu rosto apareceu por trás dos meus olhos. A memória do luxurioso peso do seu corpo se inclinando ao meu me fez tremer.
Eu sabia com cada fibra do meu corpo que não seria capaz de fazer mal a essa garota. Eu sabia, com igual certeza, que não possuía uma escolha.
Minhas asas não fizeram som quando planei pra fora da árvore e toquei meu pé na borda do lago. Me ajoelhei em sua margem e baixei meus lábios até a água cintilante. Bebi profundamente e me deleitei com a sensação da água gelada enquanto ela chegava ao meu estômago. Precisava de mais líquidos a cada dia que ficava neste lado. Se eu não fizesse algo a respeito da Bella logo, ambos sofreríamos as conseqüências.
O conceito de justiça tem sido tão fácil pra mim desde sempre. Nunca existiu uma área cinza antes. Nunca houve uma razão pra questionar.
De repente, depois de ouvir Bella suspirar meu nome enquanto dormia, tudo o que eu tinha eram questionamentos. De repente, o preço do equilíbrio parecia algo impossível de ser pago.
N.t.: Twilight pertence à Stephanie Meyer e Price of Balance à averysubtlegift.
Iza é a minha beta espetacular!
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Ambos sem os parênteses.
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Beijocas, Lou!
