Título: Além do Espelho
Autora: DarkAngel
Sinopse – Dois lados de um mesmo espelho. Dois lados de uma mesma guerra. Dois lados de uma mesma história. Não há caminhos errados para quem não tem escolhas.
Shippers: Draco Malfoy\Hermione Granger (e mais alguns outros sem importância ao longo do caminho, como Remus\Tonks, Andromeda\Ted, Harry\Ginny, Harry\Snape e por aí vai)
Gênero: Romance\Songfic\Angst\Drama
Classificação: NC-17\M
Spoilers: até Enigma do Príncipe fielmente seguindo o canon e, depois disso, alguns pedaços de Deathly Hollows, mas não tudo e não necessariamente canon.
Disclaimer: Nem as músicas dos capítulos, nem os personagens do universo de Harry Potter me pertencem, e eu definitivamente não ganho dinheiro com isso.
Música do Capítulo: Kissing You, Desiree.
Capítulo Quatro
Tears and Guilt
Apenas o som da chuva. Era só o que ela estava ouvindo e era só o que queria ouvir. A garoa fina que caía e batia na janela, leve e insistente, um som delicado que lhe acalmava e dava vontade de manter os olhos fechados, nada além disso. Ela não queria abri-los, de qualquer forma. Sabia que algo muito ruim lhe esperava se os abrisse, então apenas se concentrou em mantê-los fechados.
Por mais de uma vez, pareceu escutar vozes à sua volta. Indagações sem sentido sobre como ela estava ou o que teria acontecido. Mantinha os olhos fechados e permanecia assim. Por vezes, sabia que poderia abri-los. Por outras, não sabia mais onde estava, ou o porquê de estar ali.
Foi o silêncio daquele momento, foi poder escutar apenas a batida leve da garoa, que a estimulou a, finalmente, abrir os olhos. Estava em seu quarto, em Grimmauld Place, e não ouvia nenhum outro som que não o cair da chuva. Sentou-se cuidadosamente, e olhou em volta. Diversos frascos de poção estavam à sua cabeceira, ela usava um pijama grosso e quente, e sua cabeça doía, mas nada mais a incomodava. Somente o silêncio.
Levantou-se devagar e procurou algo para vestir. Uma roupa confortável, que não exigisse muito esforço, pois ela sentia-se dolorida, uma vez que estava de pé. Demorou mais do que imaginou para pôr a roupa e sapatos, e decidiu sair do quarto.
Descendo cuidadosamente as escadas, ouviu sons vindos da cozinha, e dirigiu-se para lá.
Assim que chegou à porta, o olhar de Harry encontrou o seu e ele precipitou-se até ela e a abraçou, como jamais tinha feito. Ela era a que se jogava no pescoço dos amigos, nunca o contrário. Fechou os olhos e aproveitou o abraço, em silêncio. Começou a sentir-se em paz. Talvez não houvesse nada de ruim a aguardando, afinal.
- Eu sinto tanto, Hermione. – foi o que o moreno disse, baixinho em seu ouvido, e rapidamente o minúsculo sorriso que começara a surgir em seus lábios morreu, e ela afastou-se e olhou em volta. Ginny, Bill, Fred, George, todos os Weasley estavam ali, e Tonks, e Lupin, e McGonagall. Até mesmo Draco, apesar de afastado de todos os outros. Todos vestiam preto e pareciam recém-chegados de algum lugar. Ela procurou por uma resposta com o olhar, e a encontrou refletida nos olhos marejados da senhora Weasley, ao mesmo tempo em que constatou a ausência de um par de olhos castanhos e cabelos ruivos.
Encarando Harry novamente, com os olhos já marejados, ela sentiu-se enfraquecer e a dor em sua cabeça aumentar.
- Não... – disse, quase implorando, as lágrimas ainda em seus olhos, mas sem cair. Ela não deixaria que caíssem, - Me diz, Harry, não... não foi... Não Ron, Harry. Por favor. Não o Ron. – a dor nos olhos do amigo foi toda a confirmação de que ela precisava. A Sra. Weasley chorava a um canto, os soluços redobrados com a dor na voz da garota. Harry apenas fechou os olhos e lágrimas caíram, Ginny levantou-se e abraçou o moreno, afundando-se nos braços dele. Hermione olhou em volta e sentiu-se sufocada.
Pride can stand a thousand trials
Thus the wrong will never fall
But watching stars without you
my soul cried
Heaving heart is full of pain
Oh oh the aching
Foi um segundo que repentinamente deixou qualquer lugar apertado demais, pequeno demais. Ela precisava sair dali, não importava para onde.
Viu Harry consolar e ser consolado por Ginny, e percebeu que não encontraria nada para ela ali. Eles tinham um ao outro, como ela e Ron tinham um ao outro, e agora, ela já não tinha mais. Pois Ron estava morto. Deu apenas alguns passos para trás, e deu as costas à cozinha, saindo pela porta, em corrida escada acima. Ginny fez menção de se desvencilhar de Harry e ir atrás da amiga, mas ele a segurou e murmurou que ela precisava de um tempo sozinha.
Draco ouviu e cerrou os dentes. Não, ela não precisava de um tempo sozinha, ela precisava de alguém. Discretamente, deixou a cozinha e foi atrás da morena. Sabia muito bem onde ela estaria.
'Cuz I I'm kissing you, ooh
I, I'm kissing you ohh
Touch me deep pure and true
Gift to me forever
Ela fechou a porta da biblioteca atrás de si e caminhou até a janela, sem, na verdade, pensar sobre o que estava fazendo. Ron estava morto. E era sua culpa. Ela poderia ter ajudado, ter lutado contra o homem que o estava torturando, ter feito alguma coisa, mas não fez. Não havia feito nada para salvá-lo. E ele se fora. Nunca mais as risadas dele, ou mesmo os olhares de irritação que ela lhe lançava. Nunca mais o abraço contrariado, ou a presença ruiva reclamando enquanto ela estudava.
Ele havia partido para sempre, e ela não pudera nem ao menos se despedir. Deixou-se escorar contra a parede e escorregar lentamente dali até o chão. As lágrimas caíam, e ela não se preocupava em segurá-las. Caíam silenciosas. Dor por ela, pelo que tinha perdido, por Harry, que perdera o melhor amigo, pela Sra. Weasley, por todos eles, e pela culpa que sentia. Sentia-se mais solitária do que jamais havia se sentido. Era a última pessoa com quem tinha qualquer vínculo a mais que uma simples amizade que ela tinha. Não tinha família, não tinha namorado, tinha apenas a si mesma. Não era justo pôr qualquer peso adicional sobre Harry. Ela estava sozinha.
Ouviu a porta abrir e, levantando o olhar, viu Malfoy entrar na biblioteca, trancar a porta e pôr um feitiço de imperturbabilidade sobre ela. Ele a encarou e não se moveu, apenas a olhou, esperando que ela o expulsasse ou brigasse com ele, qualquer coisa.
Não queria admitir, mas vê-la tão desarmada, o deixava incomodado.
'Cuz I I'm kissing you, ooh
I, I'm kissing you oh
Ela o observou por um segundo e fixou os olhos castanhos nos cinza dele. As lágrimas turvavam-lhe a visão e, sem pensar, ela levantou-se e correu até ele, jogando os braços em volta do seu pescoço. Ele não a abraçou de volta, apenas colocou os braços em torno dela para que soubesse que poderia fica ali por quanto tempo precisasse, ou desejasse.
Ele não sentia a dor daquela morte e não tinha razões para fingir que o fazia. E, exatamente por isso, podia amparar a dor dela melhor do que qualquer dos outros. O loiro estava se sentido mal e triste, não pela perda do ruivo, mas pela dor que Hermione parecia sentir com isso. Ela suspirou, ainda abraçada a ele, e soluçou.
O primeiro de uma série de soluços doloridos e pesarosos, que pareciam mostrar que toda a dor que ela estava sentindo não cabia dentro dela, ela não tinha forças suficientes para agüentá-la sozinha. E Draco descobriu que queria ajudá-la. Não entendia o porquê daquela garota, que havia desprezado por tanto tempo, agora ter importância para ele. Queria fazê-la parar de chorar.
E o simples pensamento de se importar tanto, o perturbava.
Lentamente, conduziu a garota para um sofá e sentou-se ali com ela, que encolheu as pernas e afundou-se mais no pescoço dele. Ele ouvia os soluços, sentia as lágrimas caírem e, desajeitadamente, acariciou o topo da cabeça da morena. Não soube por quanto tempo ficaram ali, naquele sofá próximo à janela, enquanto ela chorava, e ele apenas olhava para a chuva, lá fora. Depois do que pareceram horas, Draco sentiu que a morena se acalmava e seu corpo parou de ser sacudido por soluços. Imaginou que ela tivesse adormecido, exausta pelo pranto. Apenas ficou ali, imóvel, não queria acordá-la. No entanto, foi surpreendido por uma voz rouca, que transparecia muito mais tristeza, e lhe causava muito mais preocupação, do que todo o choro que ela tivera antes.
- Foi minha culpa.
A voz saiu abafada, pois ela ainda estava envolvida pelos braços dele, e com a cabeça apoiada em seu ombro, mas Draco compreendeu tudo num instante. Não era culpa dela. Ele sabia, todos que haviam estado lá, e até quem não estivera, saberiam que não era culpa dela, mas como diria isso para a morena, de forma que entendesse? Quando ele mesmo passava por esse tipo de tormento sempre que lembrava da morte de Dumbledore ou seus pais? Que não era sua culpa, nada havia que pudesse ter feito que impediria o que tinha que acontecer, de acontecer. Mas para quem se sente culpado, nada é razoável ou óbvio. Nada faz sentido. Apenas o fato de que sentiam que poderiam ter feito alguma coisa, e não fizeram. Poderiam ter salvado alguém, e não salvaram. Poderiam ter morrido em seu lugar, mas não morreram. Continuavam ali, quando alguém que não devia ter partido, partira, e a culpa, querendo ou não, era deles. Compreendia a garota melhor do que ela jamais sonharia. Manteve-se em silêncio, no entanto. Sabia que a negação óbvia de "Não foi sua culpa" não a convenceria e serviria apenas para atormentá-la.
- Eu podia ter parado aquele homem. Por que eu pedi para nos separarmos? Eu não devia ter feito aquilo. – a voz dela saía embargada, e ela não soava coerente, mas Draco deixou que desabafasse, sem interrompê-la, - Foi tudo minha culpa. Tudo. Primeiro meus pais, agora Ron, tudo minha culpa. – a voz sumiu, como num fio, e Draco se surpreendeu. Os pais dela? Como os pais terem morrido poderia ter sido culpa dela?
- Você nem estava lá no dia em que seus pais morreram, Hermione. – ele declarou, suavemente, tentando acalmá-la. Ela levantou a cabeça do ombro dele, mas não fez menção de se afastar do abraço que o loiro, involuntariamente, ainda lhe dava.
- Exato. E é por isso que é minha culpa. Eles eram trouxas, Draco. Alvo fácil para qualquer Comensal. Foi por ter uma filha como eu, por eu ter me envolvido com Harry e na guerra, por ter tomado um partido tão óbvio, que eles foram assassinados. E eu, a única pessoa que poderia tê-los defendido, não estava lá. Eles atacaram a minha casa dois dias depois que a Ordem conseguiu capturar alguns Comensais. Foi pura retaliação. E eu não previ isso, não fiz nada para impedir. Pensei que se me afastasse deles, eles estariam seguros, mas não estavam. – ele olhou fundo nos olhos dela e viu ali tanta dor e tanto pesar, tanta culpa, como ele pensou que só ele mesmo fosse capaz de sentir.
- A morte dos meus pais também foi minha culpa. – ele se viu confessando, mesmo sem notar. Ela apenas o encarou, esperando que continuasse, enquanto ele desviava o olhar e fixava a chuva novamente. A noite já caía e longas sombras entravam pela janela, manchando o rosto de ambos e dando-lhes uma aparência irreal e triste, - Fui eu quem planejou a fuga do meu pai de Azkaban. Eu que o ajudei a sair de lá. Achei que depois que Snape... Bom, achei que depois de tudo, ele seria perdoado. Mas não foi. Salvei meu pai da prisão, para vê-lo morto menos de 24 horas depois. E minha mãe foi morta em combate, porque ele a enviou sem ajuda alguma. A enviou para que ela morresse, pelo erro que eu cometi. Minha culpa, Hermione. Não há como negar. Porque, por esse mesmo erro, Dumbledore também está morto. E isso também é minha culpa. – entreolharam-se, e sentiram que algo estranho, algo que nunca haviam imaginado, se passava entre eles. Uma compreensão e uma cumplicidade que esperariam encontrar em qualquer pessoa, menos um no outro.
- Eu sinto tanto a falta deles. - a morena declarou, com um suspiro, - Não poder contar mais com eles, não vê-los mais. E não ter ninguém que pudesse falar disso, porque ninguém entenderia.
- Potter é órfão também, Granger. Por que não falou com ele? Vocês não são tão amigos? – ele indagou, deixando transparecer um pouco de irritação na voz, nem ele sabendo o porquê.
- Harry não compreenderia isso, Draco. É diferente. – ela disse, afastando-se dele, e saindo do seu abraço. O loiro sentiu um lampejo de contrariedade por vê-la afastar-se, e apenas a encarou.
- Por que diferente? Por que ele é o menino-que-sobreviveu? – havia ironia na voz dele, e as lágrimas retornaram ao rosto dela. Arrependeu-se de ter sido tão frio.
- Não. Porque ele nunca soube o que era ter os pais por perto. Nunca sentiu saudade, apenas a falta deles. Nunca soube o que era ter realmente alguém ali, que sempre estaria ali. Não que ele não sofra, mas é uma dor diferente. Ele sofre a perda de algo que jamais teve. Eu senti tanto a perda, quanto a falta de cada gesto que eles tinham. É algo que dói mais, por saber que existiu, e que foi perdido.
- Eu entendo. – ele disse, sentindo-se cada vez mais perdido. Era exatamente como ele se sentia. Jamais havia imaginado que ele e Granger, a sangue-ruim de cabelo arrepiado, teriam tanto em comum. Partilhavam suas culpas, suas perdas. Ficaram em silêncio mais alguns minutos, e o loiro percebeu as lágrimas voltarem aos olhos dela. Hesitou alguns segundos, ma acabou levando a mão aos cabelos cacheados, e os afagando, levemente, a trazendo de volta à posição em que estavam antes.
Where are you now?
Where are you now?
'Cuz I oh I'm kissing you
I, I'm kissing you ohh
A noite já havia caído e a escuridão dominava a biblioteca. Não havia mais nenhum som na casa, todos deveriam ter ido dormir, e Draco não pôde deixar de sentir uma certa raiva por ninguém ter ido procurar Hermione. Mas, no fim, era melhor assim. Olhou para baixo e viu que ela dormia, os olhos inchados e a face marcada por lágrimas. Fechou os olhos também e decidiu não sair dali. Com a mão livre conjurou um cobertor e cobriu os dois, ajeitando-se melhor, para que ficassem confortáveis sobre o sofá antigo. Fechou os olhos e tentou adormecer, esforçando-se para ignorar os pensamentos que cruzavam sua mente. Como o fato de que jamais havia se aberto tanto, nem mesmo com Pansy, sua namorada por anos. Ou de que realmente gostava da companhia de Hermione, não apenas porque lhe era vantajoso. Encontrara alguém semelhante a ele, alguém que entenderia o que ele pensava, e isso, ao contrário de ser motivo de alegria, era perturbador. Porque a pessoa era alguém que ele julgava desprezar. E notava que havia poucas coisas mais distantes do que o que ele sentia agora pela garota que dormia ao seu lado do que desprezo.
Amizade, concluiu. Deveria ser isso a tão famosa amizade que os Grifinórios alegavam sentir. Essa cumplicidade imensa e essa vontade de ficar perto. Adormeceu tentando convencer-se disso e ignorando totalmente a parte de sua razão que lhe dizia que sentir vontade de beijar os lábios da morena, não era exatamente um sinal de amizade.
Bjs e
R E V I E W !
