4 - Amor revelado

Harry estava prestes a ver os Weasley pela primeira vez em quase uma semana. O seu coração não batia tão alto no seu peito desde a vez que entrou na Floresta, caminhando para o que ele esperava ser a sua morte. Eles tinham sido sempre tão bons para ele, em troca o que lhes deu? Um filho, Fred, morto e dois filhos, Bill e George, mutilados. Ron também tinha cicatrizes. Ginny, Ron e seu pai tinham todos escapado por um triz da morte. Tinha causado a Mrs. Weasley e à sua família tanto sofrimento. Ele não tinha certeza de que seria capaz de olhar para Molly, George, ou mesmo Ginny.

Kingsley estendeu o braço. Harry abanou a cabeça. "Eu vou lá ter sozinho, obrigado", disse ao ministro, "irei Aparecer no pomar".

Assentido com a cabeça em silêncio, Kingsley Desapareceu, Harry hesitou, apavorado. Por um momento considerou fugir, regressando a casa, em vez disso, respirou fundo e seguiu Kingsley.

Ao chegar à beira do pomar, Harry olhou para a casa, quase parecia que estava a cair aos pedaços, era a primeira vez que a via desde o dia do casamento de Bill e Fleur, que agora parecia ter sido há várias vidas atrás. Havia galinhas no quintal. A casa dos Weasley parecia desarrumada mas acolhedora, como sempre.

Parou por um momento para apreciar a vista. Mr. e Mrs. Weasley estavam de pé perto da porta da cozinha, Kingsley estava já a descer a colina em direcção a eles. Harry deu um passo em frente, mais uma vez com o medo, parou. Começou a puxar o relógio do bolso, na esperança de se atrasar por mais alguns segundos. Antes que tivesse a oportunidade de ver as horas, uma voz tensa, cuidadosamente neutra à sua direita disse:

"São duas horas. O ministro foi pontual".

Ginny!

Harry deixou cair o relógio de volta ao bolso e virou-se para Ginny. Ela estava sentada na raiz retorcida de uma velha macieira, com o rosto escondido nas sombras dos ramos cobertos de flores.

Kingsley, Harry reparou, parou ao ouvir a voz de Ginny.

"Er… Pode ir andando", Harry disse, virando-se para o ministro, tentando clarear a voz, "eu e a Ginny vamos lá ter".

Ele voltou o seu olhar para Ginny. Ela estava de pé, caminhando em direcção a ele. O sol da tarde estava atrás dela, ele não podia ver a expressão no seu rosto. O seu cabelo comprido estava balançando livremente, cobre vermelho e brilhante como a cor de uma madrugada de Outono. Ela parou de repente, a cerca de 3 metros dele, ele podia finalmente vê-la claramente. Vestia um liso e comprido vestido verde com um cinto na cintura. Os seus braços e pernas sardentas estavam nus. Ela estava deslumbrante.

Ginny olhou-o de cima a baixo, com o rosto impassível. Era como se estivesse a examinar uma criatura estranha que nunca tinha visto antes. Ele, por outro lado, simplesmente assistiu à dança da luz do sol brilhando no seu cabelo enquanto ela o examinava.

"Er… Olá", Harry gaguejou, maravilhado com a sua própria inépcia. Ele tinha imaginado muitos encontros emocionais e passionais diferentes com Ginny durante a semana passada, e tinha sofrido tantos pesadelos de rejeição enquanto dormia. Agora, confrontado com ela em carne e osso, as palavras fugiam-lhe. O que é que ele havia de dizer? Como poderia expressar a tristeza pela morte do seu irmão?

"Er…", faltando-lhe novamente a fala, diz alguma coisa, pensou desesperadamente.

Ginny estava com as pernas ligeiramente afastadas e com as mãos atrás das costas, seu rosto escondendo qualquer emoção, mas cada músculo estava tenso. Ela ficou em silêncio, olhando para Harry enquanto ele lutava para encontrar algo para dizer. Finalmente, falou.

"Não me parece que estejas muito bem, Harry", ela observou, "à primeira vista parece-me que não te andas a alimentar bem nem a dormir como deve ser. Por que não foste para a Austrália com o Ron e a Hermione? E já que não foste, porque é que não vieste para aqui em vez de ir para Grimmauld Place?"

Harry não disse nada. Era inevitável este dia acontecer mais cedo ou mais tarde, por que é que andou a adiar uma semana?

"Eu… Nós estávamos preocupados contigo", ela continuou.

Harry olhou-a em silêncio. Começou a entrar em pânico, enquanto tentava pensar em algo para dizer. Várias ideias passaram pela sua mente. Como estás? Não posso perguntar isso pois é demasiado banal a alguém a quem o irmão foi morto. Estás bem? Ainda pior.

Harry percebeu que estava provavelmente a mostrar pânico no rosto. Ginny observava-o com óbvia preocupação e curiosidade. Ela deu mais um passo na sua direcção. Estava agora tão perto que podia sentir o cheiro dela. Ela estava ao seu alcance.

Talvez, se simplesmente desse um passo à frente e a beija-se, isso já tinha funcionado antes. O irmão dela morreu! O demónio interior sussurrou-lhe.

Eles olharam um para o outro em silêncio por algum tempo. Harry encontrou-se cativado pelos seus olhos. Tentava decidir o que fazer, o que dizer.

"O que se passa, Harry?" Ginny perguntou.

"Fred…", respondeu-lhe, impotente.

"Ninguém te culpa, Harry", ela disse gentilmente, "todos nós estamos a sofrer, incluindo tu, eu sei disso, mas temos que seguir em frente".

Ginny fez uma pausa, dando a Harry uma oportunidade para falar. Ele encontrou-se incapaz de dizer qualquer outra coisa.

"Eu vou ajudar o George durante o verão", continuou, quando se tornou óbvio que Harry estava novamente bloqueado e permaneceu em silêncio, "na loja. Ele vai precisar de ajuda, muito mais do que o resto de nós. Temos que pensar na vida também, não é?"

Harry assentiu com a cabeça, mas manteve o silêncio.

"Tens andado a visitá-los a todos não é?" ela tentou novamente, "Os que perderam alguém na batalha?" Harry assentiu com a cabeça novamente, com medo de abrir a boca.

Ginny continuou a olhar para ele com cuidado. Seu silêncio foi convidativo, mas ainda assim, ele não conseguia dizer nada.

"Foste ouvi-los a todos, e não desabafaste com ninguém, não foi, Harry? " Ginny observou. "E como Grimmauld Place foi desligado da Rede Floo, eu não podia visitar-te".

"Se tivesse idade para Aparecer, já lá tinha ido ver de ti, ver se estavas bem", ela acrescentou.

"Quando o meu pai foi para o trabalho no seu primeiro dia, há três dias, ele descobriu que não tinhas ido para a Austrália com o Ron e a Hermione. Tentei convencer a minha mãe e o meu pai para te irem buscar, mas não… Ele precisa de tempo para si mesmo... Virá quando estiver pronto... Está ocupado com o ministro, é melhor não incomodá-lo". "Ela imitou a mãe.

"Assim, achaste melhor ficar encolhido a um canto, sozinho, fazendo-te sentir pior... por favor fala comigo Harry, diz-me o que se passa", ela disse suavemente. "Diz qualquer coisa, por favor".

Eles olharam um para o outro em silêncio, tornou-se óbvio para Harry que Ginny não se ia mover até que o que estava de errado fosse resolvido. Algo dentro dele estalou.

"Tens algum namorado?" perguntou arrependendo-se logo a seguir.

Chocado com a sua própria estupidez, Harry colocou a cabeça entre as mãos. Era na verdade a única pergunta que queria ver respondida, mas como ele pode ter sido tão idiota e perguntá-la assim. Estúpido.

Houve um silêncio. Harry não se mexeu, manteve os olhos fechados, a cabeça entre as mãos, e escutou ansiosamente. Ouvia o mexer das folhas na brisa, o canto dos pássaros. Não ouviu o riso de desprezo, ou o som dela se ir embora. Então, sentiu as mãos de Ginny cobrir as suas. Cautelosamente e suavemente, os dedos dela deslizaram em torno das palmas das suas e gentilmente agarraram-nas. Suas mãos tremiam, ele percebeu. Devagar e com cuidado, ela aliviou as mãos do seu rosto. Harry abriu os olhos. Ginny estava olhando para eles.

"Bem… isso foi inesperado", ela observou, a voz parecia estar presa na garganta. O coração de Harry estava a tentar saltar através das costelas. Que raio me deu na cabeça?

"Antes de eu responder à tua pergunta, eu tenho algumas perguntas que gostaria de te fazer, se estiver tudo bem contigo". Ela agora estava-lhe a segurar as mãos com tanta força que o magoava. As suas unhas estavam profundamente pressionadas nas suas mãos, ela estava a lutar para manter a voz firme, falou hesitante, a sua voz grave e rouca. Harry engoliu em seco, Ginny, ele percebeu, estava quase tão nervosa quanto ele.

Inspirou fundo.

"Pergunta", ele pediu, lutando para conter as lágrimas. O aperto nas mãos aliviou. Tentou concentrar-se na sensação das mãos dela nas dele, ao olhar nos seus olhos castanhos brilhantes.

"Conheceste alguma Veela na tua viagem?"

Harry estava atordoado. A esperança aumentou dentro dele. Talvez ia ficar tudo bem entre eles? Ele tentou algum humor.

"Nós ficámos algum tempo com o Bill e a Fleur, isso conta?

"Não"

"Então não, nenhuma Veela"

"Então… Hermione"

Harry estava confuso

"O que tem ela?"

"Quando chegámos a casa depois da batalha, no domingo, o Bill disse à minha mãe que o Ron vos deixou, pouco antes do Natal, a ti e à Hermione sozinhos por algumas semanas. O Bill pensou que vocês tinham...", Ginny hesitou, "juntos… e é por isso que o Ron se foi embora".

A surpresa de Harry devia estar presente na sua cara. Ele pensou… esperou… que Ginny tivesse reparado.

"A Hermione é a rapariga dos sonhos do Ron, já o é aos anos, julgo eu. Finalmente assumiram o namoro na semana passada".

"Hah!", por um segundo Ginny pareceu triunfante, "finalmente! Podes contar-me os pormenores mais tarde".

Harry olhou-a com apreensão, "não vais gozar com ele certo?", perguntou.

"Não mais do que merece", disse Ginny sorrindo. A esperança de Harry aumentou.

"Pois, disso é que tenho medo", tranquilizado Harry estava prestes a rir, mas não o fez, o sorriso da Ginny desapareceu e ficou novamente séria.

"Na semana passada, em Hogwarts, quando eu estava lá fora com alguns dos feridos", Ginny continuou, "eu podia jurar que alguém passou por mim. Foste tu, tapado com o manto?"

"Sim"

"Porque não disseste nada?"

"Porque se tivesse, acho que não teria forças para te deixar de novo... eu tinha que ir", suplicou, "para enfrentar Voldemort. Se eu não tivesse ido para a floresta o Voldemort ainda estaria vivo, e mais pessoas teriam morrido".

"Tu tinhas que ir?"

"Sim", ele disse-lhe honestamente, olhando nos seus olhos.

"Não havia alternativa?"

"Não", assegurou com tristeza.

Os olhos de Ginny estavam brilhando. Era a sua vez de respirar fundo.

"Pergunta-me outra vez", ela mandou.

"O quê?", Harry ficou por momentos confuso.

"A tua pergunta estúpida, pergunta-me outra vez!", ordenou a Ginny.

Com esperança e algum medo, Harry perguntou:

"Tens algum namorado?"

"Sim", disse a Ginny sorrindo de felicidade.

Harry ficou horrorizado! Ele tentou soltar as mãos, mas Ginny manteve um aperto firme e continuou a falar, com as lágrimas brotarem dos seus olhos.

"Já ando com ele há cerca de um ano, o parvo tentou acabar o namoro comigo…"

Ela não falou mais, Harry percebeu o que estava a dizer. No início de Maio do ano passado, após o jogo de Quidditch entre Gryffindor e Ravenclaw, eles deram o seu primeiro beijo.

Sem parar para pensar, ele deu um passo em frente. Colocou-lhe uma mão na parte inferior das costas e a outra nos seus cabelos, segurando-lhe a parte de trás da cabeça. Em seguida, puxou-a para ele e beijou-a. Foi um beijo que Harry não queria que acabasse. Saboreou o calor suave e doce dos seus lábios. O cheiro do seu cabelo foi misturado com o cheiro da flor das macieiras. Ele segurou-a com força e sentiu os braços dela envolve-lo, um entre as omoplatas, o outro nas costas. Ela estava segurando-o como se nunca o quisesse soltar. Harry perguntou-se se também ela queria que esse beijo durasse para sempre.

Ele sentiu lágrimas escorrendo pelo rosto, e não apenas as suas. Ambos estavam a chorar, mas Ginny não se afastou, então ele também não. Provou o sabor salgado das lágrimas nos seus lábios, mas permaneceu perdido no beijo.

Depois de algum tempo, Harry não tinha ideia de quanto, a mão dela nas suas costas deslizou para o traseiro e apalpou-o. Assustado, com o coração a tentar escapar do peito, pensou se havia de fazer o mesmo. Tinha então acabado de decidir em arriscar quando se tornou vagamente consciente de assobios e gritos ao longe. Imediatamente mudou de ideias e manteve a mão onde estava, ignorando os ruídos e concentrando-se em beijar Ginny.

Os assobios continuaram. Harry sentiu a mão entre os ombros soltá-lo por um segundo. O movimento do cotovelo de Ginny contra as costelas deixaram-no na dúvida se que ela estava a fazer um gesto para mandar calar os assobiadores.

"Ginevra Weasley, o que é que TU pensas que estás a fazer?", a voz de Molly soou alto.

Contrariados, separaram-se, ambos respirando com dificuldade. Harry olhou para Ginny, estava corada, mas feliz. Sorriram um para o outro através das lágrimas.

"Deixa isto comigo", Ginny sussurrou. Ela puxou-o para si e limpou-lhe as lágrimas com a manga da camisola, Harry tirou o lenço do bolso e seguiu-lhe o exemplo.

Viraram-se ao mesmo tempo e começaram a descer a colina para casa. Harry pegou na mão de Ginny e apertou-a delicadamente. Ela sorriu para ele e devolveu o aperto. Ele estava contentíssimo. Eu possolidarcom qualquer coisa, pensou, por que não vim cá mais cedo?"

De pé do lado de fora da porta estavam os três irmãos Weasley: Charlie, baixo, bronzeado e cheio de cicatrizes, Percy, magro, pálido e com óculos, e George, alto e sem uma orelha. Na frente deles, com as mãos nas ancas, estava Molly Weasley.

"Mãe", gritou Ginny, enquanto caminhavam em direcção à sua família, "não é óbvio o que estava a fazer?"

George começou-se a rir. Harry ficou intrigado com a aparente falta de familiaridade com o que deveria ter sido um som bem conhecido. A mãe virou-se para trás e o riso parou. Naquele momento, Harry percebeu por que o som parecia estranho, foi um dueto cantado a solo, um solitário, riso desacompanhado. Ele não se conseguia lembrar de alguma vez ouvir apenas o riso de George. Faltava o acompanhamento de Fred na melodia. Isso deixou-o de rastos. Involuntariamente, apertou firmemente a mão de Ginny.

"Estás bem?"perguntou preocupada.

"Senti agora a falta do riso do Fred", ele contou-lhe.

"É estranho não é?", ela murmurou triste, "Apenas ouvir o George? Mas pelo menos ele riu-se, foi apenas a terceira vez desde que…", ela não conseguiu acabar a frase, em vez disso, apertou-lhe a mão e entrelaçou mais os dedos nos dele.

De mãos dadas com Ginny, Harry desceu para ver os Weasley. Hoje era, ele percebeu, um dia espectacular. Quando se aproximaram da entrada, ele sorriu, estava em casa, por fim, mesmo que não tivesse a certeza da recepção que iria ter. Harry sentiu-se - estranho - estava eufórico, desesperadamente triste, sofrendo e apreensivo, tudo ao mesmo tempo. Ele não tinha a certeza do que ia acontecer a seguir, se iria rir ou chorar, mas estava a ir em direcção aos Weasley e a dar a mão à Ginny e, naquele momento, ele não se importava mais.

Molly continuava à espera deles com as mãos nas ancas.

Ginny gentilmente puxou Harry e pararam a alguns metros da mãe. Atrás de Molly, o rosto de Charlie era uma máscara de preocupação, Percy parecia atordoado, com as orelhas vermelhas. E George, directamente atrás da sua mãe, piscou e sorriu alegremente para os dois. Ginny apertou a mão de Harry novamente encorajando-o a falar.

"Sabe bem voltar a casa", disse ele.

Mrs. Weasley lançou-lhe um olhar, e, por um momento, a sua expressão severa vacilou. Com esforço, voltou o seu olhar para a filha e redefiniu o rosto para um olhar de desaprovação.

"Ginny", ela começou.

"Eu e o Harry namoramos há cerca de um ano", atalhou Ginny, interrompendo a mãe antes que pudesse começar. Atrás dela, ainda sorrindo, George levantou a mão, juntando o polegar com o indicador e piscou-lhe o olho. "Nós começámos em Maio do ano passado. Fingimos acabar no funeral do Professor Dumbledore. Eu sabia que não podia ir com eles durante a sua fuga. Se Voldemort soubesse que era a namorada do Harry Potter, isso teria sido muito mau para todos nós".

Molly foi surpreendida, e ficou sem palavras. A primeira vez que aconteceu, desde que Harry a conhece. George abriu a boca para falar, mas Ginny silenciou-o com um olhar de aviso. Ela continuou antes que a mãe tivesse a oportunidade de interromper.

"E, ao contrário dos meus irmãos, eu estava com atenção quando nos contaste sobre as tuas escapadelas com o pai na escola. Portanto, não me venhas com a conversa "que ainda são muito novos" sobre nós. Temos mais idade do que tu e o pai quando começaram a namorar.

Ginny fez uma pausa enquanto a sua mãe olhava para um e para outro, incrédula pela filha ter puxado este trunfo.

Harry tentava o seu melhor olhar contrito, mas ficou surpreso e impressionado com o desempenho de Ginny. Olhou para Mrs. Weasley e disse: "Ela é espectacular, não é?".

Isso foi demais para Mrs. Weasley, que explodiu em lágrimas e puxou Harry e a sua única filha num abraço apertado. Harry desajeitadamente devolveu o abraço, tentando expressar o agradecimento e compartilhou o sofrimento com a mulher, que era o mais próximo que tinha de uma mãe.

"Peço imensa desculpa pelo Fred", sussurro-lhe.

"O Percy contou-me o que fizeste por ele depois, obrigada"

Com essas palavras Harry sentiu o fluxo de lágrimas e não se conseguiu segurar em pé. A dor que sentia por todos aqueles que tinham morrido finalmente veio à tona. As duas mulheres mais importantes da sua vida seguraram-no e apoiaram-no, embora também estivessem a chorar. Depois de alguns minutos, ele puxou o lenço do bolso das calças e enxugou os olhos. Levou algum tempo até que conseguisse recuperar a compostura. Eventualmente, olhou por cima da cabeça de Mrs. Weasley para os irmãos de Ginny. Charlie e Percy olhavam solenes e sérios, mas controlados. George, no entanto, parecia que também esteve a chorar.

"George", ele começou, ambas o soltaram. Passou pelo meio delas e estendeu a mão a George, mas George puxou-o para um abraço apertado.

Separou-se do Harry e sorriu-lhe. "Precisas de ter cuidado com ela", apontando para a irmã, "ela troca de namorado como quem troca de camisa".

"Diz o Ron", ela bufou, "três em três anos! Vamos contar as tuas ex-namoradas, George?"

"George", repetiu o Harry, ignorando a tentativa de mudar de assunto, "tu e o Fred fizeram muito por mim".

"Não tanto quanto fizeste fez por nós, Harry. Eu não sei o que seria de nós sem ti". George olhou para os seus pés. O velho, brincalhão e animado George tinha ido embora.

"Como vai o negócio?", Harry perguntou, mudando de assunto antes que George tivesse uma recaída.

"Tem sido terrível, tivemos que fechar a loja. Avisaram-nos pouco antes que os Devoradores da Morte invadissem a loja. Ainda assim, as coisas podem agora começar a voltar ao normal. Nós… eu tenho algumas ideias para novos produtos. Nós… eu devo abrir a loja num par de semanas". Em cada referência corrigida de "nós" Harry sentiu um aperto fraco no seu coração. Ele estremeceu com a perca do George. Era impossível ter uma conversa com George, sem que a sombra de Fred aparece-se sobre ele. Por quase sete anos, desde que conhece os Weasley, nunca tinha havido um Fred, ou um George, era sempre "os gémeos", Fred-e-George, quase uma palavra, quase uma pessoa. Harry ficou novamente incapaz de falar, encontrou-se novamente a ser puxado para um abraço de partir as costelas.

Houve um silêncio constrangedor até que Mrs. Weasley interrompeu, "Vamos lá, para dentro, todos vocês. O Kingsley e o vosso pai estão na cozinha".

Para seu alívio, tudo indicava que Molly não iria olhar novamente com reprovação para ele e para Ginny.

Harry seguiu Ginny até aos degraus da cozinha acolhedora d'A Toca. Foi encaminhado a uma das cadeiras na grande mesa da cozinha por Mrs. Weasley. Ela olhou-o de cima a baixo, preocupada.

"Tu pareces cansado querido, tens andado a trabalhar muito, passaste por muito e devias descansar e alimentar-te melhor".

Ela olhou com olhar incriminatório para Kingsley, como se a culpa do cansaço de Harry fosse do ministro.

"O Harry faz o que quer, Molly", Kingsley retumbou, "ele já tem dezassete anos. Se precisares, Harry, tira os dias que quiseres".

"Tu vais ficar para o jantar", Molly ordenou, "aquele elfo não anda a tratar de ti como deve ser. E vais passar aqui a noite também".

"Sim Mrs. Weasley", assentiu obedientemente.

"Agora", ela continuou, "queres um chá e biscoitos?". O Harry sorriu. Não me livro de chá e biscoitos, pensou Harry, nem aqui.

Quando Mrs. Weasley fez a pergunta, Ginny prontificou-se a encher a chaleira. Harry sentou-se calmamente, com o prazer de assistir Ginny colocar a chaleira ao fogão e a andar pela cozinha a colocar as canecas, a caixa com biscoitos, o leite e o açúcar numa bandeja. Ele apenas apanhava pedaços da conversa entre Arthur Weasley e Kingsley. Após encher as canecas de chá a todos, Ginny pousou a chaleira na mesa, e, em seguida, sentou-se no colo de Harry.

Arthur Weasley perdeu completamente o fio à meada da sua conversa com Kingsley. Olhou para a sua esposa, que abanou a cabeça. Arthur não disse nada e continuou a conversa com o ministro, como se nada tivesse acontecido. No entanto, de vez enquanto lançava olhares de soslaio para Harry e Ginny.

Harry estava sentado e satisfeito, com um braço em volta da cintura de Ginny, saboreando a sua proximidade com ela. Ocasionalmente, olhava para George, silencioso e melancólico, e sentiu-se culpado por estar feliz.

Enquanto estava ali, Harry ouviu o que se havia tornado conversas familiares para ele, uma série de silêncios constrangedores e interrupções estranhas entre tristeza, reminiscências de alegria, e conversas sem sentido. Algo semelhante tinha acontecido em quase todas as casas que visitou nos últimos três dias. Ocasionalmente Harry juntava-se às conversas, mas na maior parte, ele simplesmente adorou a sensação de Ginny estar sentada no seu colo.

O tempo passou lentamente. Fred foi recordado, e uma e outra vez, todos asseguraram a Harry que não foi ele o culpado. Por volta das quatro horas Kingsley levantou-se e anunciou que tinha mesmo que se ir embora.

"Harry, por favor conta-lhes sobre o funeral de amanhã. Vemo-nos às 15h", ele acenou para Harry, Ginny e George, "no funeral. Vemo-nos também no domingo. Mas agora, tenho que ir lidar com a falha de segurança de Azkaban".

Ginny ainda estava sentada no colo de Harry, o seu braço direito descansava levemente no seu ombro, o braço esquerdo estava em torno da sua cintura. Nas palavras de despedida do Ministro, Harry deu um salto rapidamente, segurando uma Ginny surpreendida firmemente em volta da cintura. Como ela escorregou do seu colo, aproveitou o balanço e suavemente deslizou ao seu lado.

"Uau… suave", gargalhou George.

Harry ignorou-o, mas manteve o braço em volta os ombros de Ginny. A mão dela estava pousada sobre a sua.

"O que aconteceu em Azkaban desta vez?" perguntou nervoso.

"Calma, não é nada de muito grave, mas não sabemos como isto aconteceu", o ministro tirou de dentro da sua mala uma cópia do Profeta Diário e mostrou a Harry o cabeçalho. "Umbridge conta tudo – Exclusivo de Rita Skeeter".

"Ela é desagradável e vingativa, mas a maioria das coisas que disse não são verdade", observou Kingsley placidamente.

"Tal e qual a Rita", rosnou Harry, "foram feitas uma para a outra".

"Já tivemos dezenas de nascidos-muggle e as suas famílias a entrar em contacto com o Ministério sobre o artigo, todos querendo o sangue da Umbridge, a história é um absurdo! Assim como uma carrada de coisas que o Profeta imprimiu esta semana! Não tenho a certeza se o editor é um simpatizante do Riddle ou um idiota, mas estou inclinado a acreditar que seja o último". Kingsley parou. "Estou mais preocupado com a falha de segurança", continuou ele, "francamente, sem os Dementadores é bastante complicado guardar Azkaban. Em todo o lado temos pouco pessoal mas Azkaban é Azkaban, e não tenho nenhuma ideia de como a Skeeter obteve a entrevista, pensava que todos os guardas fossem de confiança".

"Provavelmente são", respondeu Harry, "a Rita é uma Animagus sem licença, ela transforma-se numa abelha".

Kingsley ficou surpreendido. "Tens a certeza?"

Harry assentiu. "A Hermione descobriu isso durante o Torneio. Na altura fizemos um acordo com ela e prometemos não contar a ninguém".

"Bom, pelo menos agora já sabemos", suspirou Kingsley, "vou ordenar a que seja presente para interrogatório. Obrigado pelo chá e os biscoitos, Ginny. Adeus Molly, Arthur, Charlie, Percy, cuide de si, George. Agora, preciso mesmo de me ir embora".

Kingsley chegou à porta e rodou a maçaneta.

"Goblins", disse Harry, deixando escapar uma ideia que de repente surgiu na sua mente.

Kingsley virou-se, "Goblins?"

"Substitua os Dementors por Goblins. Eles ficarão entusiasmados com a ideia", Harry sorriu pensando em Gringotts. "Talvez até paguem para fazer o serviço", acrescentou.

"Ridículo", disse Percy, "feiticeiros não querem ser guardados por Goblins".

"É mesmo essa a ideia, Percy", afirmou Ginny rapidamente, Harry deu-lhe um aperto no ombro como agradecimento.

"É certamente algo a considerar…", disse Kingsley coçando o queixo enquanto pensou, "bom, tenho mesmo que me ir embora, adeus a todos", e fechou a porta atrás de si.

Harry sentou-se e Ginny foi novamente para o seu colo. Houve um silêncio desconfortável quando Ginny lhe colocou o braço à volta do pescoço.

"Há muitas cadeiras vazias, Ginny", Mr. Weasley disse rapidamente.

"Estou confortável aqui e o Harry não se importa, pois não Harry?"

Harry não se importava, e abanou a cabeça para confirmar o facto. No entanto, agora que Kingsley tinha ido embora o ambiente mudou um pouco. Ele era a única pessoa de fora, começou-se a se sentir menos confortável sob o escrutínio de Mr. e Mrs. Weasley. Charlie e Percy pareciam um pouco hostis, George sorria. Talvez os Weasley estivessem apenas à espera do momento certo, para o confrontar e não fazerem uma cena na frente do Ministro, de certeza que estava em apuros agora.