3° Capítulo: A Rainha
As crianças ficaram se entreolhando por cima da coluna. O sino, mesmo sem som, ainda vibrava. De repente ouviram um ruído ligeiro no canto da sala ainda intacto. Viraram-se como dois relâmpagos. Uma das figuras, a mais distante, a mulher que Digory achava tão bela, estava levantando-se da cadeira de pedra. Quando se pôs em pé, verificaram que era ainda mais alta. Via-se logo, não apenas por causa da coroa e da roupagem, mas pelo fulgor de seus olhos e pela curva de seus lábios, que se tratava de uma grande rainha. Olhou em torno, viu os estragos da sala, viu as crianças; não era possível ler em seu rosto a menor reação. Avançou com passadas longas e ligeiras.
– Quem me acordou? Quem quebrou o encanto?
– Acho que fui eu! – respondeu Digory.
– Você! – disse a rainha, colocando no ombro do menino sua linda mão alva. Seus dedos, no entanto, eram mais fortes do que pinças de aço. – Você? Mas não passa de uma criança, uma criança comum! Qualquer pessoa vê logo que não tem nas veias uma só gotinha de sangue nobre. Como uma pessoa assim ousou penetrar nesta casa?
– Viemos de outro mundo, por meio de magia – disse Polly, achando que já era tempo de a rainha dar-lhe alguma atenção.
– Isso é verdade ou mentira? – perguntou a rainha olhando ainda para Digory, sem sequer espiar Polly com o canto do olho.
– É verdade. – disse ele.
A rainha, com a outra mão, levantou o queixo do menino, a fim de melhor observá-lo. Digory tentou encará-la também, mas não resistiu e baixou os olhos. Havia nos olhos dela alguma coisa que o sobrepujava. Depois que o examinou durante um minuto, soltou-lhe o queixo e disse:
– Não tem nada de feiticeiro. Não tem a marca. Só pode ser servo de um feiticeiro. Só por intermédio de feitiçaria alheia conseguiu viajar até aqui.
– Foi o tio André que me enviou para cá – disse Digory.
Nesse momento, não propriamente no salão, mas de algum lugar bem próximo, chegou um ribombar, depois um grande estalido e, em seguida, o estardalhaço de alvenaria desabando.
– Estamos correndo grande perigo. – disse a rainha. – O palácio todo está prestes a ruir. Temos de sair logo para não ficar enterrados nas ruínas.
Falou com a maior calma, como se estivesse apenas comentando o tempo. "Vamos", acrescentou, dando as mãos às crianças. Polly não estava gostando nem um pouquinho da rainha e não lhe teria dado a mão caso pudesse opor alguma resistência. Apesar da fala morosa, os movimentos da rainha eram mais ligeiros que o pensamento.
"Que mulher mais desagradável", pensou a menina. "Com uma torcidinha é capaz de quebrar o meu braço. E agora que ela me agarrou, não posso mais alcançar o anel amarelo. Se eu esticar o braço até o bolso, vai perguntar o que estou fazendo. Aconteça o que acontecer, não podemos revelar nada sobre os anéis. Espero que Digory tenha também o bom senso de manter o bico calado. Seria ótimo se eu pudesse falar com ele a sós durante um segundo".
A rainha os conduziu por um comprido corredor, passando depois por um labirinto de salas, escadarias e pátios. Com freqüência ainda ouviam pedaços do palácio desabando, às vezes pertinho deles. Um arco enorme despencou com estrépito logo depois que haviam passado por baixo dele. Tinham de apertar o passo para acompanhar a rainha, mas ela não mostrava o menor sinal de medo. Digory ia pensando: "Que mulher mais corajosa! E como é forte! É isso que eu chamo de uma rainha! Tomara que ela nos conte a história deste lugar".
Enquanto eles andavam (ou corriam), ela ia dando algumas informações: "Esta é a entrada do calabouço", "Esta passagem conduz à principal câmara de torturas", "Este é um antigo salão de banquetes, onde meu bisavô recebeu setecentos convidados e matou a todos, antes que terminassem de beber. Tinham idéias subversivas".
Chegaram por fim a um salão mais amplo e mais grandioso do que os demais. Pelas suas dimensões e portas enormes, Digory achou que finalmente haviam atingido a entrada principal – no que estava completamente certo. As portas eram negras de doer, de ébano ou de algum metal preto que não existe em nosso mundo. Estavam trancadas com barras enormes, muitas tão altas que não podiam ser alcançadas, e todas pesadas demais para ser erguidas. A rainha soltou a mão do menino e ergueu o braço. As portas altas e pesadíssimas tremeram por um instante, como se fossem de seda, e esboroaram-se no chão, onde só ficou um monte de pó.
– Fiu-fiu! – assobiou Digory.
– Terá o mestre feiticeiro, seu tio, poder igual ao meu? – perguntou a rainha, segurando outra vez com energia a mão de Digory. – Vou apurar isso mais tarde. Mas não se esqueçam do que viram. É o que acontece às pessoas que barram meu caminho.
Uma luz, muito intensa para aquele mundo, invadia o pórtico sem porta. Não se sentiram nada surpresos quando foram conduzidos para o ar livre. O vento era frio, mas, ainda assim, tinha algo de rançoso. Encontravam-se em um alto terraço, do qual se avistava uma vasta e extensa paisagem lá embaixo. Na linha do horizonte pousava um enorme sol vermelho, muito maior do que o nosso. Digory percebeu também que era bem mais velho que o nosso, um sol no fim da vida, já cansado de olhar para aquele mundo. À esquerda do sol, mais ao alto, havia uma única estrela, enorme e reluzente. Eram as duas coisas visíveis no céu escuro e desolado.
Na terra, em todas as direções, estendia-se uma grande cidade, onde não se via coisa viva. Os templos todos, as torres, os palácios, as pirâmides, as pontes projetavam sombras longas e lúgubres à luz daquele sol murcho. Um grande rio percorrera a cidade em tempos idos, mas a água desaparecera há muito, deixando no leito uma poeira cinzenta.
– Olhem bem, que jamais outros olhos verão este cenário – disse a rainha. – Aqui foi Charn, a metrópole, a cidade do Rei dos Reis, o assombro do mundo, de todos os mundos, talvez. Seu tio governa uma cidade grandiosa como esta, menino?
– Não – respondeu Digory. Já ia explicar que seu tio não governava coisa nenhuma, mas a rainha prosseguiu:
– Está em silêncio agora. Mas aqui estive quando o ar vibrava com o estrépito de Charn; o soar dos pés, o ranger das rodas, o estalido dos chicotes, os gemidos dos escravos, o fragor das carruagens, os tambores dos ritos de sacrifício ressoando nos templos... Aqui estive (mas já era o princípio do fim) quando o troar da batalha invadia as ruas e o rio de Charn corria vermelho.
Fez uma pausa e acrescentou:
– No lampejo de um instante, uma mulher fez a cidade desaparecer para sempre.
– Quem? – perguntou Digory, com a voz sumida, já imaginando a resposta.
– Eu! – respondeu a rainha. – Eu, Jadis, a última rainha, mas a rainha do mundo!
As duas crianças ficaram caladas, tiritando no vento frio.
– Foi culpa de minha irmã – prosseguiu a rainha. – Levou-me a isso. Que a maldição de todos os poderes repouse sobre ela eternamente! Eu estava decidida a fazer a paz a qualquer momento... Sim, e estava também decidida a poupar-lhe a vida, desde que me entregasse o trono. Mas ela não quis. Seu orgulho destruiu o mundo todo. Mesmo depois de ter começado a guerra, firmou-se o juramento solene de que ninguém se utilizaria de magia. Quando ela quebrou o juramento, que me restava fazer? Desvairada! Como se ignorasse que eu possuía mais poderes do que ela! E não ignorava também que eu possuía o segredo da Palavra Execrável! Teria pensado – sempre foi uma fraca de espírito – que eu não usaria o meu poder final?
– Qual era? – perguntou Digory.
– O segredo de todos os segredos. Sempre foi do conhecimento dos grandes reis da nossa raça que existia uma palavra, a qual, se pronunciada com as cerimônias adequadas, destruiria todas as coisas vivas, menos a pessoa que a pronunciasse. Os antigos reis, entretanto, eram débeis ou compassivos e comprometeram a si mesmos, e a todos que os sucederam, com grandes juramentos, de jamais nem mesmo buscarem a ciência dessa palavra. Mas eu tomei ciência dela num lugar secreto e paguei terrível preço por isso. Não a usei até que fui forçada a fazê-lo. Lutei desesperadamente para substituí-la por todos os outros meios. Derramei como água o sangue dos meus exércitos...
– Monstro! – resmungou Polly, baixinho.
– A última grande batalha, – continuou a rainha – raivou por três dias aqui, no coração de Charn. Durante três dias eu a contemplei deste mesmo local. Só me utilizei da solução final depois que tombaram meus últimos soldados, quando a mulher maldita, minha irmã, à testa dos rebeldes, já subia aquelas imensas escadarias que vão do centro da cidade ao terraço. Esperei que estivéssemos bem próximas e pudéssemos distinguir nossas fisionomias. Faiscando seus horríveis olhos perversos em cima de mim, disse-me ela: "Vitória!". "Sim", disse-lhe eu, "vitória, mas não sua." Então pronunciei a Palavra Execrável. Um momento depois era eu, sob o sol, a única criatura viva.
– E o povo? – perguntou Digory, sem ar.
– Que povo, garoto?
– O povo, ora, o povo que anda na rua, que nunca iria fazer-lhe mal. E as mulheres, as crianças, os bichos?
– Você não está entendendo. Escute, eu era a rainha; eles todos eram os meus súditos; logo, só viviam para fazer a minha vontade.
– Coitados! – disse Digory.
– Por um momento me esqueci de que você não passa de um menino plebeu. Como iria entender razões de Estado? Precisa aprender uma coisa, criança: o que talvez seja errado para você, ou para qualquer pessoa comum, não é errado para uma rainha como eu. A responsabilidade do mundo pesa sobre os nossos ombros. Precisamos estar livres de todas as normas. Nosso destino é grandioso e solitário.
Digory então lembrou-se de que tio André pronunciara aquelas mesmas palavras. Só que ditas pela rainha Jadis soavam muito mais imponentes, talvez porque seu tio não tivesse dois metros de altura e nem fosse estonteantemente belo.
– Que fez a senhora depois? – perguntou.
– Já havia lançado intensas magias na sala onde se assentam as imagens de meus antepassados. E a força desse encantamento era que eu deveria dormir entre eles, como uma estátua, sem precisar de alimento ou calor, ainda que passassem mil anos, até que chegasse alguém, tocasse o sino e me acordasse.
– Foi a Palavra Execrável que botou o sol desse jeito? – perguntou Digory.
– De que jeito?
– Tão grande, tão vermelho, tão frio.
– Sempre foi assim. Pelo menos, há algumas centenas de milhares de anos. Vocês acaso possuem um sol diferente?
– É, o nosso é menor e mais amarelado. E produz muito mais calor.
– A... a... ah! O... o... oh! – exclamou a rainha. Digory viu em sua face aquele olhar esfomeado e cobiçoso que reparara em tio André. – Ah, quer dizer que seu mundo é mais jovem!
Olhou por mais algum tempo para a cidade vazia (se estava arrependida pelo que fizera, não o demonstrou) e disse:
– Agora, vamos partir. Está fazendo frio aqui, no fim de todas as eras.
– Partir para onde? – perguntaram as duas crianças.
– Para onde? – repetiu Jadis, com real surpresa. – Para o mundo de vocês, é claro.
Polly e Digory se entreolharam, estupefatos.
Polly sentira antipatia pela Rainha à primeira vista; e o próprio Digory, que agora sabia de tudo, já estava farto dela. Não era, em absoluto, o tipo de pessoa que nos dê prazer convidar à nossa casa. E, mesmo que o quisessem, não tinham a menor idéia de como fazê-lo.
Queriam mesmo era partir dali, mas Polly não podia pegar seu anel e, naturalmente, Digory não iria sem ela. Muito corado, o menino gaguejou:
– Oh... oh... nosso mundo. Não... não sabia que a senhora desejava ir lá.
– Ora, vocês só podem ter sido despachados para cá a fim de levar-me para lá.
– Sou capaz de jurar que a senhora não vai gostar nem um pouco do nosso mundo! – replicou Digory. – Não é um lugar para ela, não acha, Polly? É monótono! Não tem nada para se ver, não tem mesmo!
– Terá muita coisa para se ver depois que eu assumir o governo! – foi o comentário da rainha.
– Oh, mas não dá! – disse Digory. – Também não é assim. Eles não vão deixar a senhora entrar, sabe? – A rainha sorriu, com desprezo.
– Grandes reis, inúmeros, pensaram que poderiam enfrentar a Casa de Charn. Caíram todos e até seus nomes foram esquecidos. Jovem insensato! Não percebe que, com a minha beleza e a minha magia, terei todo o seu mundo a meus pés antes de um ano? Prepare seu encantamento e leve-me imediatamente para lá.
– Essa é de lascar. – disse Digory a Polly.
– Talvez receie por seu tio. – disse Jadis. – Mas, caso ele me preste as honras devidas, poderá conservar a vida e o trono. Não vou para destruí-lo. Deve ser um grande feiticeiro, já que descobriu como enviá-lo até aqui. Ele é rei do mundo todo ou só de uma parte?
– Não é rei de coisa nenhuma! – respondeu Digory.
– Mentira sua! A magia e o sangue real andam sempre juntos. Alguém já ouviu falar de gente comum que conhecesse feitiçaria? Não adianta mentir para mim; eu posso ver a verdade. Seu tio é o grande rei e o grande mago de seu mundo. Graças à sua arte, viu a sombra de meu rosto em algum espelho mágico ou num lago encantado. E, por amor à minha beleza, manipulou um feitiço que abalou as bases do mundo e o levou através do abismo entre dois mundos, para que rogasse da minha graça a concessão de ir até ele. Responda: foi ou não foi assim?
– Não foi bem assim! – respondeu Digory.
– Não foi bem assim? – gritou Polly. – Isso é uma besteira do princípio ao fim.
– Porcariazinha! – gritou por sua vez a rainha, virando-se furiosa para Polly e agarrando-lhe os cabelos bem no alto da cabeça, onde dói mais. Mas, ao fazer isso, soltou as mãos de ambos.
– Agora! – gritou Digory.
– Já! – gritou Polly.
Enfiaram as mãos direitas nos bolsos. Nem precisaram colocar os anéis. Foi só tocá-los e o mundo aterrador desapareceu. Deslizaram para cima, e uma cálida luz verde foi-se tornando mais intensa.
– Me solte! Me solte! – berrava Polly.
– Não estou segurando você! – respondia Digory. Suas cabeças em seguida surgiram do poço e, mais uma vez, a luminosa quietude do Bosque entre Dois Mundos os envolveu. Parecia ainda mais cheio de vida, mais cálido e mais tranqüilo depois dos destroços deteriorados de Charn. Se lhes fosse dada a oportunidade, decerto teriam se esquecido de quem eram, de onde vieram, teriam se estendido no chão, deleitando-se, meio adormecidos, a escutar o crescimento das árvores. Dessa vez, porém, uma coisa os manteve mais acordados do que nunca: logo que pisaram a relva descobriram que não se achavam sós. A rainha, ou feiticeira, tinha viajado com eles, agarrada aos cabelos de Polly. Por isso esta gritava "me solte".
Isso vinha a provar uma outra coisa sobre os anéis; tio André nada informara a respeito para Digory porque também ignorava o fenômeno. Para mudar de um mundo para outro, trazido pelo anel, não era preciso usá-lo ou tocá-lo; bastava tocar a pessoa que estivesse em contato com ele. O anel funcionava como um imã; se você agarrar um alfinete com um ímã, pode puxar outros alfinetes em contato com o primeiro.
Mas no bosque a rainha Jadis não era a mesma. Para começar, estava muito mais pálida; tão pálida que mal lhe sobrava alguma beleza. Curvada, parecia ter a respiração opressa, como se o ar local a sufocasse. Já não dava medo às crianças.
– Solte o meu cabelo! Solte o meu cabelo! – esbravejou Polly.
– Solte logo o cabelo dela! – gritou Digory. Ambos caíram em cima da rainha e livraram os cabelos de Polly em poucos segundos. Estavam agora mais fortes do que ela, que tinha uma expressão de terror nos olhos.
– Depressa, Digory – disse Polly. – Vamos trocar os anéis e mergulhar no lago que nos leva para casa.
– Socorro! Socorro! Tenham pena de mim! – suplicou a feiticeira, com uma voz fraca, enquanto cambaleava, ofegante, na direção deles. – Levem-me também. Se me deixarem aqui será uma crueldade, um crime de morte.
– Trata-se de uma razão de Estado – falou Polly com menoscabo. – A mesma razão pela qual você assassinou aquela gente toda lá no seu mundo. Depressa, Digory.
Colocaram os anéis verdes, mas Digory disse:
– Que maçada! O que vamos fazer? – Mesmo sem querer, sentia uma certa pena da rainha.
– Não banque o idiota – disse Polly. – Aposto dez contra um que ela está fingindo. Venha logo. Os dois pularam no lago. Polly ainda pensou: "Que idéia genial ter marcado o lugar!" Mal tinha saltado, Digory sentiu que dois grandes e gélidos dedos haviam pinçado sua orelha. À medida que afundavam e as confusas formas do nosso mundo começavam a surgir, a garra dos dedos apertava mais. Pelo jeito, a feiticeira estava recuperando as forças. Deu tapas e chutes, mas não adiantou nada: já se achavam no estúdio de tio André, que lá estava, olhando boquiaberto a estranha criatura que Digory trouxera de além-mundo.
E era mesmo de abrir a boca. A feiticeira vencera a languidez do Bosque entre Dois Mundos. No nosso mundo, com as coisas de sempre ao redor, a rainha era impressionante. Em Charn já parecera alarmante; em Londres, era de meter medo. Só agora faziam uma idéia exata do tamanho da mulher. "Nem chega a ser humana" – pensou Digory, olhando para ela. E devia estar certo, pois se diz que há sangue de gigante na família real de Charn.
No entanto, a altura da rainha não era nada comparada à sua beleza, impetuosidade e selvageria. Parecia dez vezes mais cheia de vida do que a grande parte das pessoas que a gente encontra em Londres. Tio André, inclinando a cabeça, esfregando as mãos e abrindo os olhos, parecia um coelho acuado. Melhor: ao lado da feiticeira, mais parecia um camarão. Pois, apesar de tudo, como Polly observou mais tarde, havia qualquer semelhança entre ela e ele, qualquer coisa na expressão do rosto. Era o olhar dos bruxos, a marca que Jadis não encontrou na face de Digory.
Pelo menos uma vantagem havia em ver os dois reunidos: não se podia mais ter medo de tio André, assim como não se tem mais medo de minhoca depois de se topar com uma cascavel, ou medo de uma vaca depois de se topar com um touro bravo.
– Bah! – disse Digory para si mesmo. – Feiticeiro, ele! Não dá nem para enganar. Ela, sim, é pra valer!
Tio André continuava a esfregar as mãos e a curvar a cabeça. Procurava uma coisa bem delicada para dizer, mas a boca estava seca como o chafariz de Charn; não conseguia falar. Seu "experimento" com os anéis, como dizia ele, estava sendo um sucesso acima do desejável. Apesar de estar metido em magia há anos, sempre reservara as missões perigosas para outras pessoas. Nada parecido lhe acontecera até então.
Jadis falou. Não muito alto, mas alguma coisa na sua voz fez a sala estremecer.
– Onde está o feiticeiro que me convocou a este mundo?
– Ah... ah... minha senhora – arquejou tio André – É uma honra... excelsa... eu... um... encantador prazer... de acolher... se ao menos este seu humílimo servo fosse antes avisado de vossa real chegada... eu... eu...
– Onde está o feiticeiro, idiota? – perguntou Jadis.
– Ah... ah... minha senhora. Espero que a senhora tenha perdoado... hum... quaisquer liberdades que porventura estas crianças levadas tenham tomado diante de tão augusta presença. Posso assegurar-lhe...
– Você, ainda? – disse a rainha, numa voz ainda mais aterradora. Com uma passada, cruzou a sala, apanhou um punhado do cabelo cinzento de tio André e empurrou a cabeça dele para trás. Examinou-lhe o rosto demoradamente, enquanto o velho piscava os olhos e molhava os lábios o tempo todo. Por fim, soltou-o tão abruptamente que ele rodopiou de encontro à parede.
– Sei que tipo de feiticeiro é você – disse a rainha com desprezo. – Fique firme, animal, e pare de rebolar como se estivesse falando com gente de sua laia. Como aprendeu magia? Sangue real posso jurar que você não tem.
– Bem... realmente... real, no estrito senso da palavra, não tenho – voltou a gaguejar tio André. – Não precisamente real, senhora. Os Ketterley, contudo, pertencem a uma velha família... a uma tradicional família...
– Basta – disse a feiticeira. – Já sei o que você é. Não passa de um feiticeiro de meia-tigela, que só opera por meio de livros e fórmulas. Não há um pingo de magia verdadeira em seu sangue. Gente de seu tipo foi varrida do meu mundo há mais de mil anos. Aqui, entretanto, concedo que você seja o meu servo.
– Será uma honra... Uma grande ventura, senhora, poder prestar-lhe qualquer serviço, um de-de-deleite que...
– Já chega. Você fala demais. Preste atenção em sua primeira tarefa. Estamos numa grande cidade, estou vendo. Vá buscar-me uma carruagem triunfal ou um tapete voador ou um dragão em boa forma... Ou qualquer coisa habitualmente usada pelos nobres de sua terra. Leve-me depois a lugares onde eu possa obter vestidos, jóias e escravos dignos da minha alta posição. Amanhã começarei a conquistar o mundo.
– Eu... eu... Vou correndo buscar um cabriolé. – disse o ofegante tio André.
– Espere! – disse a feiticeira. – Que a sombra da traição nem passe pela sua cabeça. Meus olhos enxergam através das paredes e dentro do espírito dos homens, e estarão dentro de você em todos os lugares. Ao primeiro sinal de desobediência, rogo-lhe esta praga: onde se sentar, será como o ferro em brasa; quando se deitar, invisíveis blocos de gelo pousarão em cima de seus pés. Agora, vá!
O velho saiu como um cachorro com o rabo entre as pernas.
As crianças temiam agora que Jadis quisesse ajustar as contas pelo que ocorrera no bosque. No entanto, a rainha nunca mais mencionou o assunto. Eu acho (e Digory também) que a mente dela era de um tipo que jamais se lembraria daquele lugar calmo. Você poderia levá-la para lá várias vezes, e deixá-la por um longo tempo, que ela continuaria sem lembrança nenhuma.
Agora que ela estava sozinha com as crianças, nem notava a presença delas. Ela era assim mesmo. Em Charn, queria usar Digory e não deu a mínima atenção a Polly; agora, que tinha tio André nas mãos, pouco se importava com Digory. As bruxas em geral são assim. Não estão jamais interessadas nas coisas ou nas pessoas, mas na utilidade eventual destas. São de um espírito prático implacável.
Fez-se silêncio na sala por um ou dois minutos, mas, pelas pancadas do pé de Jadis no chão, via-se que sua impaciência crescia. Por fim falou como para si mesma:
– Que andará fazendo aquele velho maluco? Devia ter trazido um chicote. – e, sem olhar para as crianças, saiu, como um pavão, à procura de tio André.
– Opa! – exclamou Polly, respirando aliviada. – Tenho de ir já para casa. É tarde pra burro.
– Está bem, mas volte o mais cedo que puder! – disse Digory. – Não pode haver nada mais medonho do que ter esta mulher aqui em casa. Temos de combinar um plano.
– O problema é de seu tio. Foi ele quem começou a confusão toda.
– Está certo... mas você volta? Não vá me deixar sozinho numa enrascada destas.
– Vou para casa pelo túnel – disse Polly, com bastante frieza. – É o caminho mais rápido. Se quer mesmo que eu volte, não acha que está na hora de pedir desculpa?
– Desculpa? Mulher é fogo! Que é que eu fiz?
– Oh, nada, é claro! – respondeu Polly, com sarcasmo. – Só torceu o meu pulso como um saca-rolha! Só deu uma martelada no sino como um imbecil de fivela! Só bancou o bestalhão, deixando que ela agarrasse em você lá no bosque! Só isso!
– Oh! – exclamou Digory, muito surpreso. – Muito bem, muito bem, desculpe, desculpe. Reconheço a culpa de tudo. Já disse: desculpe! Mas, por favor, volte. Estarei frito se não voltar.
– Não vejo o que poderá acontecer com você... Acho que é o seu tio André quem vai sentar-se nas cadeiras quentes.
– Não é isso, Polly. Estou preocupado com mamãe. Imagine só se aquela coisa aparece no quarto dela; a mamãe morre na certa.
– Ah, agora estou entendendo – disse Polly, em outro tom de voz. – Perfeito. Pazes feitas! Volto... se puder. Só que tenho mesmo de ir.
E esgueirou-se pelo túnel. O lugar escuro, que fora uma aventura poucas horas antes, parecia agora um lugar manso e doméstico.
Voltemos ao tio André. Seu velho coração ia tuque-tuque-tuque quando ele desceu os degraus do sótão, dando pancadinhas na testa com um lenço. Chegando ao próprio quarto, no andar de baixo, trancou-se. A primeira providência que tomou foi buscar no guarda-roupa uma garrafa e um cálice, mantidos ali fora da vista policialesca da tia Leta. Serviu-se de uma dose heróica da heróica bebida e bebeu de um gole igualmente heróico. Depois respirou profundamente.
– Palavra! – falou para si mesmo. – Estou inteiramente... Que coisa louca! Na minha idade! Bebeu de um gole outro cálice de heroísmo e começou a mudar de roupa: um colarinho muito alto, muito reluzente e muito duro, desses que mantinham o queixo erguido o tempo todo; um colete branco todo trabalhado, a corrente do relógio de ouro atravessando de lado a lado; uma sobrecasaca, que ele usava somente em casamentos e enterros; a cartola muito bem escovada. Apanhou uma flor no vaso (colocado ali por tia Leta), prendendo-a à lapela. Procurou um lenço limpo (um lenço excelente, impossível de se encontrar hoje em dia), deixando cair nele algumas gotas do que se chamava frasco de cheiro. Atarraxou o monóculo de fita preta diante do olho e foi olhar-se no espelho.
As crianças são bobas de um jeito, os adultos de outro. Naquele momento tio André estava começando a ficar bobo ao jeito dos adultos. Como a feiticeira não estivesse com ele na mesma sala, já se esquecera do quanto ficara aterrorizado, passando a pensar no quanto ela era deslumbrantemente bonita. Ficou repetindo para si mesmo: "Que mulher! Que mulher! Que criatura impressionante!".
Também tratara de esquecer que foram as crianças que trouxeram a "criatura impressionante": sentia-se como se ele próprio, por sua força mágica, tivesse trazido a mulher de um mundo desconhecido. Mirando-se no espelho, disse:
– André, garoto, você está diabolicamente conservado para a sua idade. Um homem de aparência muito distinta, cavalheiro.
Veja você: o tonto do velhote estava de fato começando a imaginar que a feiticeira ficaria apaixonada por ele. Provavelmente os dois goles ajudavam a sustentar essa opinião, e as melhores roupas também. Mas, enfim, sempre fora vaidoso como um pavão; foi só por isso que se fez feiticeiro.
Abriu a porta, desceu as escadas e mandou a empregada procurar um cabriolé (todo o mundo podia ter uma porção de empregadas naquele tempo). Na sala de visitas, como esperava, encontrou tia Leta. Estava ajoelhada, muito entretida em remendar um colchão.
– Ah, minha irmãzinha querida – disse tio André –, eu... ham... hum... tenho de sair. Só queria que me emprestasse umas cinco libras, por aí...
– Não, meu caro André – respondeu tia Leta com sua voz inflexível, sem erguer os olhos do trabalho. – Já disse a você inúmeras vezes que não lhe empresto dinheiro.
– Por favor, mana, não complique; é de uma importância transcendente. Ficarei numa situação terrivelmente embaraçosa se...
– André, – disse tia Leta, fitando-o – você não tem vergonha de me pedir dinheiro emprestado?
Escondia-se toda uma comprida e aborrecida história de gente grande atrás daquelas palavras. Basta você saber o seguinte: tio André "zelava pelos negócios de tia Leta". Como nunca trabalhou e gastava muito com charutos e conhaque (os quais a irmã sempre pagava), conseguiu deixá-la mais pobre do que era trinta anos antes.
– Minha querida, você não está entendendo. O caso é que eu tenho umas despesas extraordinárias hoje. Sou forçado a levar a passear... uma...
– Levar a passear quem, André?
– Uma... uma estrangeira que acabou de chegar... da mais alta distinção.
– Da mais alta asnice! Há uma hora que a campainha não toca.
Nesse momento a porta escancarou-se. Tia Lera virou-se e, com o maior assombro, viu ali parada uma imensa mulher, esplendorosamente vestida, de braços nus e olhos chamejantes. Era a feiticeira.
