Capítulo 4 – Visita inesperada.
Ron vacilou feio dessa vez. Como um garoto poderia ser tão idiota e insensível? Hermione tinha razão quando disse que ele tinha a amplitude emocional de uma colher de chá.
Saiu para o jardim procurando Harry com o olhar, mas não o encontrou, então entendeu. Aquilo foi só para despistar os outros, não que ele não tivesse ficado chateado com o que Ron disse, mas o garoto era muito esperto para perceber que aquela seria uma das poucas oportunidades para o "segredinho" dele.
Voltou para casa e viu que todos ainda se encontravam na cozinha. Subiu até o último patamar da casa, dirigindo-se ao quarto em que Harry e Ron dormiam.
Abriu a porta com cuidado, sem bater, para não chamar atenção. Ela espiou e viu Harry deitado na cama, o tronco seguro por seus cotovelos apoiados na cama.
Opa! Por um momento ficou admirada, Harry estava lendo um livro?! Não, tudo isso estava muito estranho. Quando é que ele perdia tempo de suas férias estudando...a não ser que Mione o obrigasse às vezes.
- Harry?
O garoto fechou o livro de repente, o ruído do livro pesado se fechando ecoou pelo quarto laranja. Ele tentou esconder o livro, mas Ginny foi mais rápida e apanhou o objeto de sua mão e olhou-o indignada.
- Harry... Por que você... O que você está fazendo com um livro desses? – Ginny disse, praticamente gritando.
- Shhh. Cale a boca. Isso não te interessa. O que você está fazendo aqui? – Harry disse com a voz cheia de raiva.
- Eu fiquei preocupada com você por causa da baboseira que Ron mencionou. – retrucou.
Harry não respondeu, ficou apenas fitando Ginny com seu olhar de desconfiança.
- Você contou à Mione alguma coisa sobre suas suspeitas?
- Claro que não.
- E de onde ela tirou aquela curiosidade toda?
- Sei lá. Harry, você conhece Mione, sabe muito bem que ela não é boba... Esqueceu que ela convive com dois meninos encrenqueiros? – perguntou e ao mesmo tempo esboçou um sorrisinho cheio de sarcasmo no rosto.
- Não fuja do assunto. – retrucou Harry sem paciência.
- Já disse que não comentei nada com ela. – respondeu rispidamente.
Mas uma pausa surgiu na conversa. Ginny e Harry lançavam um para o outro um olhar de desconfiança.
- Minha vez de fazer perguntas. – disse a garota.
- O que? – Harry estava indignado.
- Você me fez uma pergunta e eu a respondi com sinceridade. Agora eu pergunto e você responde com sinceridade.
A garota sufocou uma gargalhada ao ver a reação de Harry, mais uma vez ela ganhara.
Harry ficou sem reação, seus olhos estavam vidrados, quase fora de órbita, como se tivesse acabado de ser atacado com um Obliviate.
- É justo. – zombou ela.
- Ah, droga! Por que você sempre tem cartas na manga?
- Tenho o quê? – perguntou a garota sem entender.
- Ah, esquece. É uma expressão trouxa.
Ginny o encarou cobrando a reação dele sobre a "justa" proposta.
- Ok. Manda.
- Onde você achou esse livro? – e apontou para o objeto que deixara cair na cama com repugnância.
- Alguns dias depois da...
Harry não conseguia simplesmente dizer "morte de Sirius", ainda o afetava bastante, não estava pronto para falar sobre aquele fato. Ginny pareceu perceber a dificuldade do garoto e o incentivou a continuar.
- Depois do Ministério...
- Foi encontrado o testamento dele e Dumbledore mandou me entregar. Hmmm... E bem... Ele deixou o Largo Grimauld e tudo que estava lá para mim.
Ginny não pareceu surpresa com o fato de Sirius deixar a casa da família para Harry, então prosseguiu.
- Quando li que tudo na casa me pertencia, decidi que faria uma visitinha lá mais uma vez. Numa certa noite resolvi passar lá para dá uma olhada naquele enorme acervo e achei alguns livros de meu interesse...
- Do seu interesse? Desde quando você se interessa por Artes das Trevas? – explodiu a garota.
- Desde quando Sirius morreu! Desde quando as pessoas que são importantes para mim estão correndo perigo! – retorquiu o garoto no mesmo tom de voz irritada.
De repente risadas altas começaram a se aproximar, então Fred e George apareceram na porta.
- Ei Harry, temos uma coisa para te mostrar...
Mas Ginny não os deixou continuar, deu alguns passos até seus irmãos e fechou a porta na cara deles.
- Harry, desculpa! Mas para mim nada do que você falou pode justificar. Nunca imaginei que você seria capaz disso. – disse Ginny com raiva.
Harry ia começar a falar, mas a garota o interrompeu.
- Não adianta. Eu sei o que você vai dizer. Harry, você sempre disse que nada que acontecesse faria-o recorrer às Artes das Trevas. Quero ver a reação da Mione quando souber. – olhou-o com repugnância.
A garota encarou-o por um instante, mas logo se virou bruscamente em direção da porta, batendo-a ao passar.
Harry saiu correndo atrás de Ginny. Não, ela não poderia contar para Mione. Ela não faria isso. Ou faria?
Ele desceu as escadas até o segundo andar, onde esbarrou com Fred e George.
- Harry, queremos te mostrar uma...
Fred gritou, mas Harry o cortou.
- Não tenho tempo agora, desculpem.
- Tá bom, nós temos todo o tempo do mundo. É só na nossa imaginação que temos uma loja para administrar. – ironizou George.
- GINNY... – gritou ele, pois acabara de ver a garota dobrar a escada em direção ao térreo, e saiu correndo, para tentar alcançá-la.
- Vem me impedir Harry. – revidou a garota.
- Que tal subirmos e verificar quanto estrago foi feito? – perguntou Fred a George.
- Por que você acha que teve algum estrago? Eles são sempre tão calmos. – ironizou mais uma vez George.
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Harry saiu gritando com Ginny ao longo da escada. Ela não poderia fazer isso com ele, mas ela era capaz de tudo quando estava com raiva. E agora ela não estava só com raiva, estava muito pior.
- Ginny, você não ouse fazer isso. – Harry falou com a raiva clara em sua voz.
- É mesmo? E o que você vai fazer para me impedir? – Ginny provocou-o.
Os dois ficaram se encarando por um longo tempo. Não perceberam que a cozinha estava lotada de gente até a hora que a Sra. Weasley alteou a voz e disse:
- Meninos, por favor, tenham modos. Por que estão brigando? – os garotos encararam a Sra. Weasley, estava claro que ninguém diria nada, então ela continuou. – Ok, não me interessa, já entendi. Mas se vocês olharem em volta, verão que temos visita e não fariam todo esse escândalo.
Não precisaram olhar muito para verem que realmente havia uma pessoa que nunca tinham visto na vida. Perto da porta, ao lado de Bill e Fleur, estava parada uma mulher de cabelos na altura dos ombros, com cachos repicados, castanho-escuro, seu rosto era delicado, formando traços joviais, o que a tornava muito bonita. Parecia ser bem simpática e aparentava ter na faixa de 30 anos. O olhar dela demorou-se em Harry, ela lançava ao garoto um olhar de profunda admiração, mas pelo que pareceu, apenas Ron, Mione, Ginny e ele perceberam isso.
A Sra. Weasley foi para mais perto da mulher e sorriu para ela.
- Estes são Harry e Ginny. – disse Molly apontando para os garotos.
- Bem, só pelos cabelos ruivos, posso dizer que a garota é sua filha. – disse a mulher, sorrindo para Ginny. – Mas Harry mora com vocês?
- Ah, não! Bem que gostaríamos. - disse a Sra. Weasley dirigindo a Harry um olhar extremamente maternal e o garoto sorriu timidamente. – Mas infelizmente ele mora com sua família trouxa, porém sempre vem passar as férias conosco.
- Hmmm... Que bom que cheguei a tempo de conhecê-los. Soube que vão para Hogwarts daqui a dois dias, certo? – disse a mulher.
A Sra. Weasley de repente deu um gritinho abafado e correu até a sala, voltando com um objeto seguro na mão.
- Harry, querido, quase esqueci. Quando fui ao Beco Diagonal ontem para comprar o material de vocês, achei isso dentro do seu envelope. Parabéns querido. – acrescentou a Sra. Weasley, ao mesmo tempo em que Harry estendia a mão para ver o que era.
Quando pegou o objeto, sentiu uma alegria imensa o contagiar. Devia ser um engano, Dumbledore tinha errado o envelope. Mas não tinha sido engano, pois no distintivo havia escrito com uma caligrafia inclinada "Capitão" e logo abaixo "Harry Potter".
De repente o garoto foi cercado por tapinhas nas costas e abraços, parabenizando-o pelo novo título.
- Droga cara, eu queria voltar para Hogwarts só para poder treinar quadribol com você no comando. – disse George.
- Se eu fosse você não diria isso, talvez eu seja pior que Olívio. – falou ironicamente, Harry.
- Acho meio improvável. Olívio tinha uns 15 parafusos a menos, e você, bem... Diria que tem uns 12. Mas três parafusos a mais podem te fazer ser menos obcecado que ele. – brincou Fred.
- Quer dizer que você herdou o talento de seu pai, só espero que o talento para se meter em confusões tenha permanecido com ele. – disse sorrindo, a nova hóspede da casa.
- Você conheceu meu pai? – perguntou interessado.
- Claro. A propósito, meu nome é Becky Biltch. – logo continuou. – Eu era um ano mais nova, mas fui amiga de sua mãe. Lily era uma pessoa maravilhosa. Tanto ela quanto James não mereciam ter morrido tão jovens. Assim como sua mãe, eu também não gostava dos Marotos, mas quando entrei para o time de quadribol e passei a conviver mais com seu pai, percebi que era uma ótima pessoa, e então, no fim do sexto ano deles, eu fiz Lily conhecê-los, e bem... Deu no que deu não é? – concluiu Becky com um sorriso extravagante.
- Becky? É você mesmo? – perguntou uma voz rouca e curiosa.
Becky olhou para trás e viu Lupin parado ao lado da porta, onde ela estivera há alguns minutos atrás. A mulher sorriu largamente.
- Lupin. Nossa você está com uma aparência horrível. Seu problema lunar ainda está o afetando muito hein?
- Ah, e como está. E principalmente agora, nessa época horrível que eu não tenho descansado um minuto. Mas por Merlin, o que você está fazendo aqui? – de repente Lupin assumiu uma expressão feroz, como se a qualquer momento fosse atacá-la. Ninguém entendeu nada, há um minuto ele estava todo alegre por vê-la novamente e agora assumira uma expressão totalmente irritada.
- Por favor, Aluado, deixe para conversarmos mais tarde. Eu explicarei tudo que quiser, ok? Mas agora me deixe curtir um pouco. Preciso compensar a viagem também.
Remus confirmou com a cabeça e foi cumprimentar Harry, já que tinha acabado de ver o distintivo no peito do garoto.
Depois do jantar agitado, quando todos se recolheram, exceto Fred e George que tinham voltado à loja, Remus pediu para conversar com Becky.
- Por que você voltou? – perguntou Remus enraivecido. – Não há mais nada que você possa fazer por aqui, apenas vai complicar mais ainda a vida do Harry.
- Eu apenas soube que Sirius tinha conseguido fugir de Azkaban, então voltei. Achei que ele estaria aqui com Harry e os outros. Harry já sabe que ele é seu padrinho, não sabe?
- Claro que sabe. Tanto sabe que agora está sofrendo muito com a perda de Sirius. – acrescentou Lupin no mesmo tom de raiva na voz.
- Então onde Sirius está? Por que deixou Harry sofrendo assim? – indagou Becky.
- Sirius nunca abandonaria Harry, se não fosse pela pior coisa que poderia ter acontecido a ele. Sirius morreu, não está mais entre nós, faz dois meses. –Lupin dessa vez, pareceu muito mais cansado que qualquer outro dia. Falar do amigo, ainda doía muito. A perda de Sirius ainda não fora superada por ele nem por Harry.
Becky arregalou os olhos e despencou na cadeira. Não poderia ter acontecido isso, não mesmo. Logo quando ele consegue fugir, quando conheceu seu afilhado, quando ela estava voltando, ele morre. Não podia ser, não conseguia acreditar.
- Ok. Mas eu quero apenas saber umas coisas. Primeiro, por que você foi embora? Segundo, o que você andou fazendo todos esses anos? Terceiro, por que você voltou?
- Eu era nova, não tinha consciência do que estava fazendo. Hoje, quando me lembro do que eu fiz, abandonei meus amigos quando eles estavam em apuros, me sinto muito mal. Eu fui uma egoísta. Como pude? Nem eu consigo explicar o porquê de eu ter ido embora. – disse Becky, a beira das lágrimas.
- Sério mesmo Becky? Você não tem noção do motivo de você ter desaparecido e deixar a todos nós muito preocupados. Você foi embora, não avisou a ninguém, e agora de repente volta? O que você esteve fazendo? Para onde você foi?
- Eu tinha um conhecido no Brasil, então decidi me mudar para lá. Eu tive medo no que eu poderia me meter por estar envolvidos com vocês, ainda não sei por que Voldemort não foi atrás de mim, eu era tão inútil para meus amigos, típico de gente que ele costuma procurar. Mas eu precisava de um emprego, e então fiquei sabendo que tinha uma vaga para professor de Transfiguração na escola de bruxaria brasileira, não perdi mais nenhum minuto e fui direto procurá-lo, me aceitaram e então todos esses anos eu fiquei trabalhando como professora lá no Brasil. – concluiu Becky, agora as lágrimas escorregavam por sua face delicada.
- E como conseguiu voltar? E porque voltou? – perguntou Lupin indignado, já que depois de todos esses anos desaparecida, ela de repente volta sem dá satisfação nenhuma para ninguém.
- Bem, eu sempre mantive contato com Bill. Teve uma época que ele estava querendo ir para o Brasil, então ele se comunicou com a escola, para que o ajudassem a achar um local, essas coisas. A escola acabou escolhendo a mim, já que eu era britânica, então seria muito mais fácil a comunicação. Mas infelizmente ele não pode ir, mas eu nunca quebrei meu contato com ele.
"Então, quando soube que Sirius tinha conseguido fugir, entrei em contato com Bill, e entre nossas correspondências, ele acabou citando que Harry tinha amizade com os Weasley. Pedi a Bill que me ajudasse a encontrar um local e me mantivesse perto de Harry, mas ele nem desconfia sobre a verdade. Ele então me ofereceu sua casa para eu ficar, perguntei se tinha algum problema e ele me disse que não, então aceitei. Estava muito ansiosa para conhecer Harry e rever Sirius. Entretanto, a segunda opção tornou-se impossível. Deixe-me ao menos ir visitá-lo no túmulo. "– implorou Becky.
- Não há túmulo. A morte dele foi bastante rápida e misteriosa. Estávamos numa batalha contra os Comensais lá no Ministério, e ele travou um duelo com Bellatrix, que o estuporou e o fez cair em um véu, dali em diante, ninguém entendeu nada, na hora Harry queria ir atrás de Sirius, mas eu o contive, não poderia deixá-lo morrer. Ele eu podia salvar, mas Sirius eu nem tive chance. Mesmo agora, ninguém conseguiu achar uma explicação razoável para a função daquele véu. – explicou Lupin.
- Batalha com Comensais, mas Voldemort não tinha caído? – indagou curiosa a mulher.
- Tinha, mas de alguma forma conseguiu voltar. No quinto ano de Harry, ele sofreu muito com zombarias feitas pelos estudantes de que ele era louco, já que admitia que Voldemort tivesse voltado, mas o Ministério não quis aceitar e então puseram uma de suas funcionárias para ser professora de Hogwarts, mas ela foi outra que castigou muito Harry, para falar a verdade, ele ainda guarda a cicatriz de suas detenções e creio eu, que vá durar para sempre.
- Mas que absurdo. Lupin, você tem que me ajudar. Eu preciso dizer a Harry quem eu realmente sou. Não posso simplesmente aparecer do nada na vida dele sem explicações nenhuma. – implorou Becky.
- Não, você pode. Uma hora você terá que revelar quem você é, mas por enquanto, acredite em mim, é melhor você esconder isso, se aproximar dele normalmente e depois quando tudo estiver mais calmo você conversará com ele. Nós conversaremos com ele. Agora Harry tem coisa demais na cabeça, ainda está muito atormentado com o último acontecimento. Eu prometo que daqui a um tempo eu lhe ajudarei a revelar que você é...
