- Kamus! Pensei que você demoraria mais um pouco no coquetel de Saori. E a Shina?- o cavaleiro de aquário não respondeu a pergunta de Saga – Está com olhar tão sério e ao mesmo tempo desligado. Por acaso vocês andaram discutindo?

- Do que você está falando, Saga? – perguntou Kamus parecendo confuso.

- Nada não, deixa. E como foi o restante da noite?

- Normal. O que foi que Kanon aprontou para você sair correndo daquele jeito?

- Bebeu muito e só ficava falando de quanto fez a Tétis sofrer, e mais um bocado de besteiras que uma pessoa no estado em que se encontrava falaria. E para piorar, vomitou tudo. Tive o maior trabalho para dar um banho nele e fazê-lo vestir uma de minhas roupas. Só depois que ele pegou no sono foi que deu para limpar toda a sujeira e ver Aioria subindo acompanhado de uma mulher.

- Até que enfim aqueles dois se acertaram.

- Ele não subiu com a Marin. Pelas condições dele, acredito que nem sabe o nome daquela mulher.

- Sugiro que esqueça o que viu, Saga. Aioria já tem idade suficiente para saber o que faz. – sentindo o cansaço abater-se sobre seu corpo começa a seguir seu caminho murmurando - Boa noite.

- Boa noite Kamus.

Assim que o cavaleiro de aquário continuou seu percurso, Saga pensou: "Pelo jeito a noite dele não deu nenhum resultado. Será que estou imaginando coisas, ou os dois não sentem nada um pelo outro? Bah, o que importa? Eu deveria meter-me apenas com minha vida e deixar a dos outros em paz." Saga se dirigiu-se ao sofá já que seu irmão estava esparramado em sua cama, e ficou ali até pegar no sono.

Na manha seguinte, receberam um arauto de Asgard. Ele trazia consigo uma mensagem de Hilda de Polaris. Ela pedia que o santuário enviasse um cavaleiro para investigar uma série de incidentes que vinham acontecendo com freqüência em Asgard. E que o caso era tão sério que as calotas polares já estavam começando a derreter. Os cavaleiros de ouro foram chamados para uma reunião extraordinária.

Todos já estavam reunidos no salão do Grande Mestre. Saga tentava deixar Kanon atento embora ele mesmo estava parecendo um pouco desligado e completamente fatigado. Milo e Aioria ficavam bocejando o tempo todo, e parecia que ainda tinham um pouco do resquício da noite anterior em seu hálito. Shura olhava para Aioria com um olhar estranho. Kamus parecia absorto em seus próprios pensamentos. O Grande Mestre observava sem tecer nenhum comentário. Então começou a relatar todo o ocorrido em Asgard, e concluiu com uma pergunta:

- Então Saga, quem você acha que deveria ir nesta missão?

Saga estava com olheiras pela noite mal dormida, e ainda estava preocupado com o irmão, por isso não conseguiu responder de imediato. Como que para resolver o problema de cavaleiro de gêmeos, Kamus deu um passo a frente e disse:

- Asgard não fica muito longe da Sibéria. Talvez eu desse ir.

- Sendo assim, providencie tudo o que for necessário e parta o quanto antes.

Kamus fez uma reverencia respeitosa ao Grande Mestre e saiu do salão, sendo acompanhado pelos outros cavaleiros. O Grande Mestre chamou a atenção de Saga que deixou seu irmão dando alguns passos vacilantes para fora do templo:

- Tire um dia de folga, Saga. Seu estado está deplorável hoje. Aproveite e dê folga para seu irmão, Aioria e Milo.

- Obrigado. – Saga fez o mesmo que Kamus e saiu pensando: "O Grande Mestre poderia ter dito isso quando todos estavam presentes. Porque será que ele fica sempre contando comigo para resolver essas questões?"

Logo a noticia de que Kamus partira para Asgard espalhou-se por todo santuário. Uma amazona em especifico ficou oscilando entre feliz por não ter que vê-lo tão cedo e não desejando que tivesse partido. "Logo agora que eu queria mostrar pra ele que não preciso, nem nunca precisei da ajuda de ninguém para resolver questões como a da noite passada. Até parece que me preocupariam em danificar um vestido idiota."

Os primeiros seis dias Shina sentia-se contente por não ter que ver a cara daquele cavaleiro que achava-a que fosse incapaz de resolver qualquer problema sozinha. Mas nos dias seguintes, esse sentimento havia mudado. Ninguém comentou se havia chegado mensagem de Asgard. Seria possível que um dos cavaleiros de ouro mais forte do santuário estivesse em perigo? Não, isso era impossível. Mas essa crença foi ficando abalada a cada dia que se passava, até que já tivesse passado um mês. Shina então aproveitou que estava no dia de entregar o relatório semanal ao Grande Mestre, e tentar sondar para ter alguma noticia.

- Ontem o cavaleiro de Cisne esteve aqui, procurando seu mestre. – quando viu que o Grande Mestre nada dizia, tentou insistir – Apenas disse pra ele que Kamus estava em uma missão.

- Fez bem. Não precisamos de um garoto de bronze indisciplinado se metendo em uma missão que foi dada a um cavaleiro de ouro.

Shina percebeu que aquilo seria tudo o que escutaria do Grande Mestre. Fez uma mesura respeitosa e saiu. Descendo a escadaria, praguejava mentalmente a falta de notícia de Asgard. Nas semanas seguintes, tentava outras abordagens sutis para descobrir alguma coisa. Sem nenhum sucesso. Dois longos meses se passaram, e ela estava insuportável. Os aprendizes treinavam cada dia mais que o dia anterior. Até que um dia, ela já nem fazia mais questão de tentar obter alguma notícia. Só ia ao salão do Grande Mestre para entregar o relatório. Quando já estava de saída o Grande Mestre chamou-a:

- Poderia ler a carta que acabou de chegar de Asgard, Shina? – dizia apontando, sem olhar para ela.

Shina pegou a tal carta que estava abandonada encima de uma mesinha, e deu uma rápida olhada, e tudo o que pôde entender foi à assinatura:

- Desculpe-me, Grande Mestre, não leio este idioma.

Shina entregou a carta ao Grande Mestre quando este pediu a carta. Era de se esperar que a amazona partisse, afinal não entenderia o conteúdo da carta se não fosse traduzida. Mas ela manteve-se lá, a espera de noticias. Então o Grande Mestre resolveu matar sua curiosidade. Lia traduzindo todo o texto:

***

Saudações, vossa alteza.

Venho por meio desta comunicar que ao chegar em Asgard tive que enfrentar uma situação delicada. Alguns aldeões estão se rebelando contra o palácio.

Hilda pede que trate da questão com o mínimo de feridos possível. Ela opta pelo ato diplomático. Infelizmente todas as tentativas de dialogo resultaram em completo fracasso. Ainda não consegui descobrir o motivo desse motim, quem são seus lideres, nem quando acontecerá o próximo ataque. Escrevo em meu idioma natal para impedir, caso esta mensagem seja extraviada, que os rebeldes tenham conhecimento de seu conteúdo. A princesa me contou que várias cartas nunca chegaram ao santuário, e que por isso, a desordem se instaurou por completo. Acredito que mesmo conseguindo resolver as questões pendentes do reino, provavelmente terei que permanecer aqui por mais um tempo para garantir a segurança de Hilda, e do reino. Assim que encontrar os responsáveis pelos atos terroristas em Asgard entrarei em contato.

Obs: durante o confronto Hilda e eu nos ferimos. Nada muito grave.

*****

- Pela data a carta foi enviada há quase dois meses. Provavelmente a situação já foi resolvida.

- E como saberemos se não foi resolvido, e que Kamus está bem? – perguntou com um tom de voz que demonstrava aflição.

- Preocupada com o cavaleiro de aquário, Shina?

- Não senhor. – respondeu de imediato, tentando mostrar que interpretava erroneamente suas palavras – Ele é um cavaleiro de ouro. Pode dar conta de tudo sozinho... A menos que ele tenha sido pego desprevenido.

- Kamus é um cavaleiro experiente e cauteloso. Em menos de um mês ele deve estar de volta.

Shina pensou: "Será mesmo, Grande Mestre? Kamus deu a entender que ainda ficaria em Asgard por mais algum tempo. Será que isso não seria uma desculpa para ficar mais um tempo ao lado de Hilda? Que ele vá pro inferno q eu não me importo." Assumindo uma feição irritada escondida atrás da máscara que cobria seu rosto, fez um gesto brusco para indicar que já estava de saída. O Grande Mestre sorriu ao vê-la sair daquele jeito.

Os dias passaram, cada um aparecia com um problema diferente. Marin estava tendo dificuldades com uma certa vingança. Ela havia se metido numa farsa com Shura, e agora as coisas não andavam nada bem. June acabara de ficar noiva do irmão gêmeo errado. Mais um dia havia passado e teve o maior quebra pau com Tétis. Para piorar, Milo ainda a faz subir e descer aquela escadaria incontáveis vezes. Ou ela havia enlouquecido, ou então todos a sua volta enlouqueceram. Até mesmo a Tétis havia fixado residência na vila das amazonas. Alguns diziam que seria temporário, pois provavelmente ela iria morar na terceira casa zodiacal. E para completar seu humor ia de mal a pior. Sentia-se angustiada sem saber o motivo. Ou pelo menos achava que não sabia.

Mais alguns dias haviam passado. O casamento de June foi muito conturbado. Nem teve paciência para ficar até o final. Não foi apenas porque não lhe interessava o desfecho daquela historia. Sentia-se solitária, apreensiva, e mau-humorada. Já havia passado um mês desde a primeira e única noticia de Kamus. O que poderia estar acontecendo em Asgard para que ele demorasse tanto a enviar notícias, ou simplesmente aparecer?

- Quem disse que me importo com o destino do cavaleiro de aquário? Por mim que ele fique por lá, pois deve se sentir em casa no meio de todo aquele frio. Aliás, ele nem tinha tanta utilidade assim quando estava aqui.

Shina pensava que estava sozinha, por isso não conteve a voz que verbalizava seus pensamentos. Terrível engano. Saga tinha acabado de deixar Tétis na vila das amazonas. O cavaleiro não deveria cutucar a besta com vara curta, mas não resistiu:

- Boa noite, Shina. Escutei uma voz falando alguma coisa sobre ele não ter tanta utilidade quando estava aqui. Foi você que disse isso? Se foi você, de quem estava falando?

- Saiba, cavaleiro de gêmeos, que a vila das amazonas é o domínio exclusivo apenas para amazonas. Não é um lugar para um cavaleiro ficar zanzando por ai como se fosse as doze casas zodiacais. Sugiro que evite pisar aqui novamente se não quiser que eu ou qualquer outra amazona leve isso a conhecimento do Grande Mestre.

Shina saiu dali com os punhos fechados. Estava irritada por ser pega falando de Kamus, e não por Saga estar andando por ali naquele horário. Quanto a Saga, teve vontade de responder que não se intimidava com sua ameaça, todavia, nada disse para não irritá-la ainda mais. Ele tinha certeza que os novatos é que pagariam um dobrado com ela no dia seguinte. Tudo o que o cavaleiro de gêmeos podia fazer era voltar pra casa e desejar que Kamus retornasse logo. Infelizmente seu retorno não seria a única coisa para resolver esse mau humor da amazona. Ele teria que colaborar. Sabendo o quanto o cavaleiro de aquário era fechado, jamais trocaria algumas palavras sobre o motivo de Shina se importar tanto com ele.

Mais um mês e meio havia se passado, e finalmente chegou notícias de Asgard. Saga estava presente quando o Grande Mestre informou sobre o que tinha se passado em Asgard. Bado, um ex-guerreiro deus de Asgard tinha fomentado intrigas envolvendo o nome de Hilda. Dizia que Asgard tinha uma aliança com o santuário da Grécia que foram os responsáveis pela morte dos sagrados guerreiros deuses. Agora Asgard não passava de vassalos do santuário, e que isso estava trazendo a fome para o reino. Na verdade, com toda essa ameaça, Hilda não podia se arriscar a providenciar mantimentos para a população, e isso gerou uma guerra civil, que atingia o palácio. Infelizmente Bado conseguiu fugir, mas a paz foi restaurada. No final da carta, afirmava que dentro de duas semanas estaria retornando ao santuário.

- Bado teve uma vida de privações por causa de uma crença nórdica em que irmãos gêmeos trazem a desgraça para a família. Sempre ter ambicionado ser um guerreiro deus, e não uma sombra também pode ter sido o motivo dessa vontade de destronar Hilda. Ou talvez tenha sido por causa da morte de seu irmão.

- Seja qual for o motivo, Saga, devemos ficar atentos com o que pode estar acontecendo a Asgard.

- Grande Mestre, Saori Kido enviou um convite para que todos venham a sua casa. Ela disse que tinha algo muito importante a falar com os habitantes do santuário, e deu a entender que desejava que todos a visitassem amanha a noite.

- E como ficará a segurança do santuário?

- Temos os aprendizes, soldados e uma amazona que ninguém gostaria de chegar perto. Além do mais, estamos em tempo de paz com os deuses. Será uma noite tranqüila mesmo sem a presença dos cavaleiros de ouro.

- Realmente. Só essa semana repreendi Shina três vezes, desmarquei aquele torneio das amazonas de Hera. Já estou ficando sem opções para tentar resolver esse mau comportamento dela.

- Esta querendo dizer que pretende bani-la do santuário?

- Isso, ou prendê-la no cabo Sunion. Faz idéia de quantos aprendizes ela mandou para enfermaria? Dois deles quebraram a perna e o braço em vários pontos, e acredito que não servirão nem para ser soldados.

- Dê mais uma chance para ela. Tentarei ter uma conversa com Shina assim que for possível.

Saga despediu-se respeitosamente e se encaminhava para as grandes portas quando o Grande Mestre disse:

- Está ciente que Kamus poderá chegar amanha, quando todos os cavaleiros de ouro estiverem na presença de Saori Kido?

- Sim. – foi a única resposta que Saga deu. Não desejava ter que dar maiores explicações sobre o que pretendia com saída de todos do santuário.

Nunca o santuário pareceu tão silencioso quanto uma tumba. Estava tarde sim, mas esperava encontrar o cavaleiro de Áries lendo na sala, ou Aldebaran roncando, ou os gêmeos se pegando por alguma besteira. Nas casas seguintes foram do mesmo jeito, silêncio e nem uma alma viva para recepcioná-lo. Nem mesmo Milo estava em sua casa. Isso era realmente muito estranho, pois conhecendo o amigo como conhecia, estaria esperando que retornasse. Talvez ele estivesse na frente da décima primeira casa. Sua idéia também estava errada. A casa estava tão só quanto as outras. Sentia-se cansado e sofria com o calor daquela noite. Tomaria um longo banho e depois procuraria saber o que estava acontecendo.

Shina havia retornado de sua ronda do lado oposto da entrada das doze casas. Tinha deixado dois aprendizes como guardas na entrada. Não gostou do que viu ao chegar. Irritada com a irresponsabilidade deles, deu um chute na canela dos dois que dormiam em pé, encostados a uma árvore, fazendo-os cair com a dor.

- Eu devia dar uma grande surra em vocês para que nunca mais durmam em serviço. Alguém poderia ter... – Shina se interrompeu ao ver algo que não tinha visto ao sair – Vocês três aí, montem guarda junto com esses inúteis, e não deixe mais ninguém passar. É melhor ficarem de olhos bem abertos se não quiserem sofrer as conseqüências.

Shina subia a escadaria correndo e pensando: "Pela primeira vez sou a única responsável por manter o santuário em segurança, e agora aqueles dois idiotas deixaram uma pessoa passar. A confiança que o Grande Mestre depositou em mim estará abalada, e nunca mais serei responsável por nada. A única solução é expulsar o intruso e torcer para que ninguém saiba desse infeliz deslize." Finalmente havia chegado na casa de aquário. As luzes da sala estavam apagadas. Então de onde seria aquela luz que viu lá embaixo? Subiu alguns degraus na absoluta escuridão, chegando ao piso de cima. Também estava escuro ali, com exceção de uma porta entreaberta. Entrou pronta para lutar com quem quer que fosse o intruso. Tudo o que viu foi um homem despido, mergulhado na banheira. Virou-se rapidamente de costas e tentou se desculpar, mas a voz saiu meio tremula e gaguejava um pouco:

- Desculpe, não sabia que você tinha retornado. Pensei que fosse um invasor... - ao perceber que nada era dito, irritou-se – Francamente, Kamus, já cansei de sempre ser ignorada por você. Preocupei-me com você enquanto esteve fora, e tudo o que recebo é sua indiferença.

Nada. Mais uma vez Shina escutava apenas o silêncio. Virou-se para ele tentando entender porque não dizia nada. Chegou bem perto para verificar se ele estava bem. Estava dormindo profundamente. Não conseguia desviar os olhos daqueles lábios. Pareciam tão macios que tinha vontade de tocá-los com a ponta de seu dedo e depois com seus lábios. Se arrepiou ao imaginar a sensação daquela idéia. Foi desviando o olhar para o peito, depois para o abdômen e quando menos esperava estava parada, olhando um pouco mais abaixo. Seu rosto estava rubro por trás da máscara. Sabia disso porque parecia que sua face estava pegando fogo. Envergonhada com o que estava fazendo, saiu correndo pela casa escura, procurando a saída. Estava tão escuro que não percebeu uma grande caixa de metal a sua frente. Tropeçou nela e caiu no chão fazendo um grande estardalhaço. Sua máscara foi parar longe. Tentaria achá-la se não sentisse que algo em seu pé direito estava errado. Era só o que faltava, a sandália havia arrebentado uma das correias. Praguejou baixinho, tirando as duas sandálias. Tateando o piso finalmente conseguiu encontrar a máscara. Levantou-se e já ia recolocar a máscara quando sentiu sua cintura ser agarrada por braços fortes. Seu grito de espanto morreu na garganta, o barulho metálico de sua máscara de encontro ao chão soou pela casa. Debatia-se na tentativa de se soltar, sem sucesso algum:

- O que está fazendo na minha casa, amazona?

Shina sentia o corpo dele junto ao seu, molhando suas costas. Com espanto constatou que ele não teve tempo de se enxugar e colocar uma roupa. Seu corpo tremeu, seu rosto corou violentamente.

Continua...