The Tracker
Bella andava de um lado para o outro em sua cozinha, Jacob apenas esperava pacientemente o acesso de raiva que a garota estava tendo. Ela sabia que algo estava acontecendo, conhecia muito bem seu amigo lobisomem para não reparar na significativa mudança de humor que ele havia tido nos últimos dias.
- Bells, você está ficando paranoica.
Jacob falou em um tom neutro, rezando mentalmente para que a garota parasse de andar em círculos, isso estava deixando-o tonto.
- Algo está errado, Jacob. Sinto que você sabe de algo e não quer me contar!
Ela travou o maxilar e Jacob apenas revirou os olhos, sabia que quando ela o chamava pelo primeiro nome, ela estava começando a ficar descontrolada. Bella Swan descontrolada nunca era algo bom, era sempre difícil de manejar a situação.
Por mais que ele tentasse disfarçar, Jacob sabia que ela estava certa, mas havia recebido ordens diretas de Sam para que a garota não ficasse sabendo dos novos ocorridos. E Jacob não precisava da ordem de seu Alpha. Se fosse agir por conta própria, faria o que estava fazendo no exato momento. Ele não pretendia contar de jeito nenhum que havia sentido um cheiro de vampiro aos arredores da casa dos Swan. Sabia que o aroma pertencia a algum Cullen, mas definitivamente era de uma espécie feminina.
- Você está ficando paranoica, Bells.
Repetiu a mesma frase e Bella apenas parou de andar, fitando o lobisomem com certa raiva e ao mesmo tempo tristeza. Por mais que ela ficasse nervosa quando sentia que Jacob estava lhe escondendo algo, parte dela queria esquecer aquilo, sabia que era quase impossível que, a qualquer momento, seu melhor amigo entrasse pela porta dizendo que eles voltaram.
- Tudo bem, Jake.
Jacob sentiu a voz dela sair de forma cansada pela boca e relaxou sua postura, temendo sucumbir à sua decisão. Por mais que ela fosse ficar feliz ao saber que um Cullen havia passado por perto, Jacob sabia que isso não iria durar muito. Bella criaria esperanças, que seriam despedaçadas em poucos dias.
O lobisomem se aproximou da garota e beijou com ternura a testa dela. Ela fechou os olhos, apenas apreciando o contato quente que Jacob sempre possuía. Estava chovendo e a escuridão tomava conta da casa. Era uma noite de sábado e Charlie estava na casa de Billy, tomando as últimas providências para a pescaria do dia seguinte. Bella iria dormir só, mas ela não estava preocupada com isso.
- Boa noite, Bells. Estaremos por perto.
Jacob afagou levemente as ondas dos cabelos castanhos e saiu pela porta. Bella respirou fundo, decidindo não comer nada e ir direto para a cama. Estava cansada e com sono. Subiu as escadas de forma lenta, seu corpo ainda levemente aquecido. Estava com raiva de Jacob, e não conseguiria tirar isso de seu corpo tão cedo.
Ela entrou no banheiro e escovou os dentes, evitando se olhar no espelho, nunca gostava do que o objeto revelava nos últimos meses. Caminhou para o quarto e vestiu o pijama, se enfiando por debaixo da coberta grossa. As gotas de chuvas batiam na janela de seu quarto, ela podia ouvir tudo o que estava à sua volta. A casa estava coberta de silêncio. Mas ela não sentia medo, sabia que do lado de fora de sua casa, lobos gigantescos faziam suas rondas rotineiras, visando sua proteção.
Por mais que não quisesse, ela sabia que sempre naquele momento da noite, quando estava sozinha e na sua cama, seus pensamentos eram voltados para Edward, o vampiro que havia a abandonado há meses. A ferida no peito abriu-se um pouco ao pensar no namorado e uma lágrima ameaçou escorrer, mas ela fingiu não se importar mais com isso. Sempre sentia pena de si mesma quando se dava ao luxo de sentir saudade do vampiro, e sinceramente, não queria isso para ela mais.
Seus pensamentos giraram em torno do lobisomem que com certeza estava do lado de fora da casa, e a cabeça de Bella reagiu da mesma forma que reagia sempre quando pensava naquele assunto: girou de forma confusa. Não sabia se dava uma chance a Jacob, poderia tentar ser feliz ao lado do melhor amigo, mas poderia deixá-lo magoado, pois não conseguiria se entregar sentimentalmente e completamente igual havia se entregado a Edward.
Dois uivos chamaram a sua atenção e ela apenas estremeceu, encolhendo-se na cama devido ao frio da noite. Odiava quando eles uivavam, nunca sabia se era por brincadeira, para avisar que estavam lá, ou para comunicarem que a acharam. Pensar na vampira ruiva que estava a caçando no momento definitivamente fez com que Bella começasse a perder o sono. Remexeu-se inquieta na cama e virou-se, ficando de costas para a janela.
Sentia-se como uma criança precisando de cuidados especiais. Sabia perfeitamente que não conseguiria se defender sozinha caso seu adversário fosse uma vampira feita de pedra, mas lobos ao redor de sua casa em vigilância constante infelizmente lhe lembravam os Cullen. Aquele zelo exagerado, como se a garota fosse de porcelana, aquela proteção exacerbada quando James estava atrás dela. Bella bufou, começando a ficar com raiva devido aos pensamentos.
Queria tirar todas essas preocupações de sua mente, queria descanso de lobisomens e vampiros, queria sentir-se como uma garota normal que achava que o mundo sobrenatural só existia em romances doces e filmes de terror. Definitivamente não iria passar seu domingo se lamentando e preocupando-se com seu o perigo constante que vivia. Ela decidiu fazer uma trilha na floresta. Claro que não iria se afastar muito, apenas respirar um ar novo, sem se preocupar com seus próprios problemas.
Apenas ela e a floresta.
Bella adormeceu cinco minutos depois.
Ela acordou relativamente tarde naquele dia de domingo. Gostaria de ter se levantado mais cedo, pretendia ter ido à floresta e voltado antes do meio dia, mas definitivamente não iria desistir de sua caminhada egoísta. Levantou-se da cama e colocou uma roupa mais confortável, enfiando as botas nos pés e caminhando para o banheiro a fim de escovar os dentes.
Bella arriscou-se a se olhar no espelho, às vezes tinha esses lapsos de coragem e decidia encarar seu reflexo. O que viu não a surpreendeu. A garota que a olhava tinha olheiras profundas, mas não tão escuras quanto aos meses passados. Os cabelos estavam jogados displicentes para trás. Não era feia, mas poderia concluir com convicção que precisava cuidar-se melhor.
Já estava passando da hora de Bella parar de se lamentar e recomeçar a viver como um ser vivo.
Claro que ainda teria muito tempo para pensar se realmente valia a pena sair de sua estafa pessoal e arriscar-se a viver. Viver sem ele.
Tirou tais pensamentos da cabeça e desceu as escadas, pegando uma barra de granola e abrindo-a, enquanto saía de casa e caminhava em direção à orla da floresta. Respirou, sentindo o cheiro de grama úmida do lugar. Havia chovido a noite inteira, e com alguma sorte o solo estaria bom para andar. Com muita sorte.
Entrou na floresta e começou com passos tímidos, tomando mais coragem à medida que entrava mais profundamente na floresta e percebia a paz que as árvores lhe passavam. Ela ficou ousada e subiu um morro, enfiando o pé no barro de forma errada. Isso dificultou um pouco, mas Bella sabia dos obstáculos antes mesmo de começar a trilha.
Parou por um momento, um pouco ofegante devido ao lugar elevado que acabara de subir, seus olhos castanhos fitaram a paisagem de cima, observando tudo atentamente, e no momento em que viu que as árvores haviam ficado mais densas, ela percebeu que estava completamente perdida. A sua respiração era o único som cortando o silêncio da floresta, até o momento em que ela escutou um galho se quebrando.
A garota olhou em direção a origem do som e não teve tempo de pensar quem estava por detrás dele. Sentiu seu corpo se desprender do chão com facilidade, e percebeu a familiar sensação gelada envolta do seu pescoço. Seu corpo voou em direção a uma árvore, as costas batendo com força no tronco áspero e a garota abriu os olhos depois do impacto, percebendo que o seu pesadelo estava em frente a ela.
A vampira ruiva a olhava com olhos negros, como se estivesse cobiçando Bella por muito tempo. E estava. Uma presa quase impossível, mas que agora estava ao seu alcance para que Victoria fizesse o que estava planejando há meses. A ruiva sorriu para a garota e Bella engoliu em seco, não sabendo como reagir.
- Você vai morrer.
Victoria disse com uma voz felina, sibilando de forma assustadora. Os olhos castanhos de Bella correram pelo rosto da vampira de forma contida e automaticamente passaram pela floresta.
- Eles não vêm, humana. Estão longe daqui.
Bella soube que Victoria estava falando de Jacob e os outros. Não conseguia acreditar que os lobisomens estavam longe dela, a garota estava mesmo duvidando de sua sorte dias atrás, mas agora havia confirmado de que realmente nunca possuíra alguma.
- Está sozinha... deve entender agora a dor que é perder um companheiro.
Ela sabia de quem Victoria estava falando, e engoliu em seco ao se lembrar do vampiro que havia a atacado meses atrás. James. Se Bella pudesse escolher, nunca teria sido motivo da morte do vampiro, não estava mais suportando esconder-se, sempre fugir, sempre ter proteção.
- Vou acabar com a sua dor.
Victoria disse e ela apenas fechou os olhos, amolecendo o corpo e entregando-se definitivamente para a morte. Esperaria a mordida, que nunca cessaria até que seu corpo estivesse seco. Sabia que Victoria não iria parar, mas desconfiava de que a vampira não iria se dar por satisfeita em apenas matá-la. Era pouco. Muito pouco.
Por mais que Bella estivesse à beira da morte, ela não estava assustada ou determinada a viver. Pelo contrário, queria morrer para acabar de uma vez com todo aquele pesadelo. Victoria a seguindo, ser tratada por lobisomens como se fosse um bebê, ter sido abandonada pelo namorado por não ser boa o suficiente para ele. Poderia afirmar com convicção que preferia morrer a viver uma vida sem Edward.
Bella sentiu algo fincar em sua pele e arfou com a dor que a envolveu. O líquido quente começou a escorrer pelo seu braço e o cheiro metálico invadiu os sentidos dela da pior forma possível, e de Victoria também. A garota abriu os olhos e percebeu que a vampira ponderava se a bebia com sede, ou se a torturava mais um pouco.
Os olhos castanhos observaram com relutância o braço cortado, Bella viu seu sangue manchar toda a sua pele, e pela primeira vez no dia ponderou se realmente valeria a pena morrer por alguém que nem ao menos estava ali. Um novo corte foi feito e ela sentiu sua mente começar a se desprender do corpo. Não, não poderia desmaiar. Os rostos de seus pais e de Jacob invadiram sua mente e ela decidiu por lutar por sua vida. Não queria morrer, mesmo sem Edward ao seu lado, ela ainda possuía pessoas em sua vida, pessoas pelas quais valia a pena lutar.
Começou a se debater inutilmente, tentando sair do aperto frio das mãos de Victoria. A vampira riu, se divertindo ao ver a tentativa patética da garota de se livrar da morte certa. O sangue da humana escorria por todo o braço, pingando na grama úmida do local. Victoria estava achando aquilo um desperdício, e decidiu acabar com a vida da garota ali mesmo.
Ela abriu a boca, prestes a morder a presa. Bella respirou fundo ao ver os dentes brancos cintilando por causa da claridade da floresta, mas a mordida nunca chegou. Em vez disso, Bella viu duas mãos fortes e masculinas fecharem em torno do pescoço da vampira, e então a garota estava livre. O corpo dela tombou no chão e seus olhos conseguiram capturar apenas borrões escuros em frente a ela.
Bella piscou os olhos, colocando a mão em um dos cortes e tentando estancar o sangramento. Não conseguia enxergar direito o que estava acontecendo, mas sabia que aquilo era uma luta de vampiros. Mas a luta não durou muito. Ela escutou um barulho estranho de algo se rasgando e de repente os borrões se tornaram figuras sólidas. O vampiro estava de costas, e ela por um momento achou que Edward havia salvado sua vida. Mas sua felicidade se esvaiu em um segundo.
O vampiro se virou e ela percebeu que ele era um pouco mais alto do que seu ex-namorado. Mas não foi essa característica que mais a surpreendeu. O imortal que agora estava a olhando não possuía os olhos dourados que Bella estava familiarizada. As orbes era em um tom carmim escuro. Os braços fortes estavam ao lado do corpo de forma aristocrática, as mãos seguravam pedaços desconhecidos do que antes fora um corpo feminino.
Definitivamente o vampiro que a fitava não era Edward Cullen.
