CAPÍTULO IV
Carla não tinha escolha se quisesse voltar ao mundo bruxo para ajudar Sirius. Teria que voltar a morar na velha mansão. Ela tinha acabado de comer o delicioso almoço servido por Dixie quando resolveu ir até o Beco Diagonal pegar seus pertences e trazê-los de vez para sua nova residência. Aparatou de volta em frente ao portão de entrada da propriedade e, em menos de segundos, ouviu uma voz atrás dela sussurrar:
– Sabia que a encontraria aqui, cara Srta. Bastet – disse-lhe Lúcio.
– Não precisou pensar muito, não é, meu bem? – Carla retrucou sem se virar.
Ele a segurou pelo braço, virou-a e encarou seus olhos castanhos. Carla devolveu-lhe o olhar.
– O que quer de mim, Lúcio? – ela perguntou.
– Talvez... – aproximou-se dela o bastante para que sentisse seu perfume – apenas uma xícara de chá. Importa-se que entremos? – Estendeu-lhe o braço.
– Não. – Carla passou seu braço pelo dele e sorriu. – Você sempre foi de casa, Malfoy.
– Não tanto como eu gostaria. – Começaram a andar na direção da Mansão, e ele completou: – Contudo, ainda podemos reverter esta situação.
– Você ainda quer se unir a uma meia trouxa só porque sua família e a do meu pai já tiveram casamentos arranjados? – ela falou incrédula quando pararam na porta da Mansão. – Esqueceu que é um Comensal e que o sangue puro é o que importa?
– Nesse caso tenho que admitir... – puxou-a para si – que sempre houve mais que isso em jogo, minha cara.
Lúcio debruçou-se sobre Carla, seus lábios roçaram nos dela, mas antes que o beijo se prolongasse, ela conseguiu se esquivar e abrir a porta, dizendo:
– Vou pedir a Dixie que nos traga chá. – Fitou-o. – Alguma preferência?
– O tradicional inglês. – Entrou na sala com sua capa negra esvoaçando.
– Sim, eu ainda me lembro. – Indicou-lhe o sofá. – Sente-se, por favor. Não demoro.
Carla saiu em direção à cozinha, enquanto Malfoy se sentava no sofá que lhe fora indicado. Logo depois, ela estava de volta trazendo uma bandeja de prata com um serviço completo do mesmo metal, para o chá. Carla apoiou a bandeja na mesa em frente ao sofá e se sentou ao lado de Lúcio.
– Dixie não está? – ele perguntou sorrateiro.
– Oh, não... Está sim – ela respondeu maliciosamente enquanto servia as duas xícaras de chá. – Eu achei melhor não sermos interrompidos.
– Vejo que continua muito esperta, Bastet. – E demorou-se alguns instantes com sua mão sobre a dela antes de retirar a xícara que lhe era oferecida.
– Você continua o mesmo. – Ela sorveu um pouco do líquido da sua xícara. – Não perde uma ocasião. Como está Narcisa?
Lúcio empalideceu um pouco, mas logo retomou o autocontrole. Posou a xícara na bandeja à sua frente e chegou mais perto de Carla. Ela, por sua vez, não se moveu, continuando a bebericar seu chá. Carla sabia que Malfoy viria procurá-la mais cedo ou mais tarde, e se ele soubesse de algo sobre Pedro, essa era sua chance de saber. Tinha total consciência da forte atração que exercia sobre ele, e podia usar isso a seu favor.
– Ela está bem, obrigado por sua preocupação. – Seu tom era meio dissonante de seu temperamento.
– Não tem por que me agradecer. Afinal, Ciça e Bella eram minhas amigas, e... – suas palavras morreram em seus lábios. Lúcio a encarava com um olhar furioso.
– O que pretende com isso? – Ele perguntou segurando-a pelo pulso. – Sabe que me casei com a Narcisa porque você me disse não. Que joguinho é esse Bastet?
– Não há jogo algum, Lúcio. – Ela ergueu-se do sofá. – Sei muito bem o que fiz... e porque fiz. São coisas que não posso mudar.
– Então você se arrepende? – Um brilho passou pelos olhos dele.
– Talvez – murmurou, andando em direção à lareira.
Sentiu as mãos dele puxarem-na pela cintura, a respiração quente próxima à sua nuca, mas não se virou. Malfoy a puxou, fazendo-a encará-lo, parando apenas há alguns centímetros de seus lábios, e essa distância diminuiu em segundos. Ele agarrou seus cabelos e intensificaram o beijo enquanto as mãos dele percorriam suas costas. A loucura se apossou de seus corpos, pareciam dois adolescentes de escola experimentando um beijo pela primeira vez. Uma coisa Carla tinha que admitir para si própria: Lúcio sabia como enlouquecer uma mulher e tê-la a hora que quisesse. Ela o empurrou, ele ainda tentou uma nova investida, mas Carla se esquivou deixando-o de encontro ao nada.
– Acho melhor você ir – disse com os olhos baixos.
– Eu queria... – Ele não completou.
– Por favor... Saia. – Ela o fitou.
– Está bem, se é isso o que quer... Eu vou. – Beijou-a na mão. – Adeus, Bastet.
Carla sorriu palidamente vendo-o deixar a sala com a capa esvoaçando pela porta aberta. Malfoy desaparatou quando chegou no portão. Ela então se jogou no sofá e suspirou longamente, deixando um sorriso aflorar em seus lábios enquanto pensava: Você caiu direitinho. Apesar de ainda beijar muito bem, Lúcio Malfoy. Adormeceu ali mesmo, e mais uma vez as lembranças voltaram à sua mente.
Estava no quinto ano; seu grupo era formado por Narcisa, Lúcio e Bella. Bella, a fatal; Narcissa, a apática; e Malfoy... Bom, ele era seu namorado naquela época e dispensava qualquer comentário. Muitas vezes Régulo e Snape também se juntavam a eles. E outras tantas, ela juntava-se aos Marotos; é claro, sem que os sonserinos soubessem.
Os Marotos eram ninguém menos que os três meninos do trem – Sirius, Remo e Tiago – e mais um outro garoto estranho, chamado Pedro Pettigrew. Haviam adotado esse nome como brincadeira e se reconheciam através de apelidos, respectivamente: Almofadinhas, Aluado, Pontas e Rabicho. Carla achava que o último combinava totalmente com o dono. Um dia, porém, soube o motivo da brincadeira ter surgido e acabado por se tornar tão séria a ponto de determinar esses apelidos. Remo era um lobisomem, e os amigos resolveram se transformar em animagos para lhe fazerem companhia nas noites de lua cheia.
No dia em que Sirius lhe contou isso, Carla foi apresentada à Lílian Evans, a futura Sra. Potter e mãe de Harry. Infelizmente naquela época, Evans não via com muito bons olhos as brincadeiras por vezes exageradas dos garotos. Numa delas, Snape quase morrera, se não fosse salvo por Tiago. O que valeu a Sirius uma grande bronca de Carla, mesmo que segundos depois ele estivesse roubando o primeiro beijo entre os dois.
Carla sempre fora apaixonada por Sirius, desde a primeira vez que o vira no trem. Porém, só quando tomou formas de mulher foi que pareceu despertar esse sentimento no amigo. Não havia como negar que se sentiam imensamente atraídos um pelo outro, mas muitas coisas os impediam de ficar juntos. Naquele dia, porém, o coração falou mais alto. Sirius havia saído da floresta de onde poucos segundos antes Tiago viera arrastando Snape.
Seus olhos encontraram os de Carla, que o fuzilavam. Ele abaixou os olhos e seguiu pela trilha que margeava a Floresta, fingindo não tê-la visto, mas ela percebeu seu ardil e foi na direção dele, interceptando-o.
– Sente-se bem com a brincadeira, Black? – Seus olhos estavam intensos sobre ele. – Podia tê-lo matado, seu idiota!
– Escute aqui, eu não vou ficar aqui ouvindo uma sonserina me dizer o que é certo e o que é errado. – Seus olhos cinza brilharam. – Vá ver o que seu namorado anda aprontando. Devia se preocupar com ele, não comigo! Eu sou apenas um estúpido grifinório arrogante, não é mesmo?
– Não sei aonde quer chegar, Black, mas não acho isso de você... – ela murmurou, não esperava aquela atitude intempestiva do amigo. – Eu...
– Vamos. Diga, Bastet! – Ele se aproximou mais, a voz segura e forte inquirindo-a.
Carla o encarou; por alguns segundos ficaram presos no olhar um do outro. Ela tentou articular alguma coisa que quebrasse o silêncio ou o efeito das palavras que foram ditas, mas foi a voz dele, agora suave, que novamente soou clara na noite.
– Eu poderia ficar aqui a noite toda, Bastet, dizendo a você o quanto é bela, o quanto me atrai... – Os dedos dele posaram no seu rosto, e ela fechou os olhos, sorvendo aquele toque. – O quanto desejei esse momento nos últimos meses, mas não sei se faria diferença. – Ele fitou os lábios rosados a frente dele, pensando em como eles atormentavam seus sonhos. – Eu sinceramente gostaria que fizesse. Eu amo você, Bastet. Consegue entender o que é isso?
– Sim... – Ela abriu os olhos, os lábios dele mais próximos, suplicantes.
– Então não me deixe sair daqui sem ter o que nós dois viemos buscar. – Sirius a trouxe próxima, colada ao seu corpo, e tocou suavemente seus lábios com os dele.
Ela não opôs resistência, a língua dele explorou sua boca suavemente, depois intensamente, até que todas as barreiras foram rompidas e as bocas se devoraram num beijo apaixonado. As peles quentes, as mãos que corriam a procura de um contato mais íntimo. Ela tirou o pullover dele, enquanto Sirius levantou sua saia até os quadris. Carla estremeceu, e ele sorriu; a respiração descompassada demonstrava que todos os hormônios dignos da adolescência estavam a ponto de entrar em ebulição. Mas Sirius se conteve, afastou-a propositalmente, fixando olhos cinza no rosto rubro à frente dele.
– Se for para você ser minha, Bastet, não será no meio do mato – ele deu-lhe um sorriso maroto –, ou nos cantos do Castelo. Nem tampouco a dividirei com o Malfoy. – Ela o fitou aturdida, e ele sorriu mais abertamente. Naquele instante soube que seria o primeiro, e aquilo o fez se sentir pleno, um homem. – Será do meu jeito, e terá que confiar em mim.
Ela assentiu ainda presa às sensações que ele provocara nela, nas palavras de amor, e, no dia seguinte, terminou seu namoro. Malfoy nunca a perdoou. Carla e Sirius namoraram muito tempo escondidos dos olhos de todos, sempre acobertados pelos Marotos e, posteriormente, por Evans também.
Só quando Carla escolheu ficar ao lado de Voldemort foi que as coisas mudaram. Ela se separou de Black e chegou a ter um novo relacionamento com Lúcio, mas não durou muito; ela nunca esquecera Sirius. Sabia que ele pertencia à Ordem, e isso era um fator essencial para que ficassem separados. Sem que ela esperasse, Voldemort a chamou para fazer uma tarefa que o envolvia. Carla soube então que Rabicho falara sobre seu romance adolescente com Sirius. Afinal, ele era o único que tinha conhecimento do ocorrido. Nem mesmo Bella, prima do Sirius, ficara sabendo. Sem alternativas, ela foi impelida a fazer o que lhe fora ordenado.
Carla remexeu-se no sofá quando sentiu uma leve respiração quente no pescoço. Abriu os olhos, e Sirius estava agachado ao seu lado acariciando-lhe os cabelos. Ela sentou rapidamente e perguntou:
– Está aqui há muito tempo? – E ajeitou-se. – Como entrou?
– Há tempo suficiente para admirá-la dormindo. – E sorriu. – Esqueceu que sei os feitiços que protegem a casa?
– Sim. – Desviou o olhar. – Lúcio esteve aqui.
– Aqui? – Sentou-se ao lado dela. – Por quê?
– Relembrar o passado... – Analisou a reação dele.
– Sei... – Usando de malícia, continuou: – E imagino que tenha sido bom...
– Não sei se diria bom... mas proveitoso, com certeza. – Ela o encarou.
– Ah... Proveitoso. – O tom dele era frio. – Diga-me, de que parte ele se aproveitou mais?
A mão de Carla subiu ao ar em direção ao rosto de Black, mas ele a impediu de prosseguir sua trajetória. Com a outra mão livre, puxou-a para si e a beijou apaixonadamente. Ela ainda tentou fugir, mas a pressão dos lábios que a prendiam era forte demais. Ele agarrou seus cabelos enquanto Carla deslizava as mãos pelas costas dele. A respiração dos dois acelerou, e eles se levantaram trôpegos do sofá. Beijavam-se, abraçavam-se, embolavam-se, e começaram a subir as escadas. Num piscar de olhos, Sirius a tomou nos braços e levou-a para o andar de cima. Carla enlaçou seus braços pelo pescoço dele e, segundos depois, era colocada ternamente sobre os lençóis de seda da sua cama.
Black fechou a porta e a fitou, o fino tecido da veste deixava sua silhueta a mostra e demonstrava claramente que ela estava entregue. Ele sorriu, andou até ela, a camisa de linho cru aberta, o tórax moreno a mostra, as linhas bonitas e másculas do rosto escondidas pelos cabelos escuros compridos e espalhados com a brisa que entrava pela janela. Carla sorriu ao vê-lo deitar por cima dela e, agarrando os cabelos dele, trouxe-o grudado aos seus lábios, exigindo que as carícias recomeçassem. A respiração de ambos voltou a acelerar, sentiu quando ele se entregou aos beijos mais ousados na região do ventre, mas quando ela escorregou seus lábios sobre o volume já tão desperto pelo seu toque, Sirius não a deixou prosseguir; tomou seus lábios com os dele, deixando que o gosto dela se espalhasse por toda sua boca. Impregnando-se em sua pele, gentilmente abocanhou os seios dela, demoradamente, minando qualquer resistência ao seu toque. E foi a vez dela fazê-lo parar, enxergando cinza em castanhos, ambos desejosos, à beira do descontrole, da insanidade. As bocas voltaram a se encontrar, mas desta vez, o balanço dos seus corpos se tornou absoluto sobre a razão dos dois e, minutos depois, sucumbiam, saciados. A noite desceu sobre o vale e sobre a Mansão Bastet.
No dia seguinte, ao jogar sua mão para o lado, como sempre fazia para puxar o travesseiro, deparou-se com a cabeça de Sirius recostada nele. Carla se levantou, ainda era bem cedo, andou pelo quarto e sentou-se na poltrona em frente a ele.
Ela o fitou, encolhendo as pernas para cima da poltrona e enlaçando-as, apoiando seu queixo sobre elas. Os cabelos escuros caíram pelos ombros, enquanto Carla analisava cada parte do rosto adormecido à sua frente. As feições de Sírius sempre foram bonitas, e a idade parecia ter apenas acentuado-as, a barba por fazer. Ela nunca esqueceria o dia que teve que deixá-lo. O maldito dia em que deixara aquele mundo, o dia em que Voldemort desaparecera. Grossas lágrimas rolaram pela sua face, e ela abaixou os olhos. Se ao menos soubesse como tudo terminaria, com Black em Azkaban acusado da morte dos Potter, ela teria interferido.
Carla protelara ao máximo o dia de reencontrar Black depois que deixara Hogwarts e, mais ainda, depois que tornara-se uma Comensal da Morte. Bonita, jovem, inteligente, rica e com uma vontade enorme de se provar, resolveu seguir seus amigos da Sonserina. Havia algum tempo que não via Sirius, mas quando Pedro revelou seu segredo para Voldemort, ela não teve escolha a não ser ir atrás de Black. Principalmente quando Snape ouviu uma parte da profecia sobre Potter, e o Lorde das Trevas se tornou obcecado por ela, cego pela ambição de caçar o menino ao qual a profecia se referia.
Foi quando ela se reaproximou de Sirius, mas não deu certo. Carla não conseguia mentir para ele, acabou contando tudo e entrou num jogo muito arriscado. Porém, surtiu efeito durante seis meses, até Snape entrar em cena em Hogwarts e Voldemort ir atrás dos Potter. Carla avisou Sirius, mas já era tarde demais. Ela mesma seguiu Voldemort até a casa dos Potter naquela noite, mas alguém do Ministério a atingiu. Estava com Sirius quando Pedro cortou o dedo, mas para não pôr em risco seu disfarce, ele a estupefou. Carla só se lembrava de ter acordado no St. Mungus algum tempo depois e descobrir que Black estava em Azkaban. Tudo pareceu fugir ao seu controle, e ela deixou o mundo mágico.
Agora ela estava ali, de volta e novamente envolvida com Sirius Black. Ele espreguiçou e abriu os olhos, fitando-a. Carla deu-lhe um sorriso, e ele então levantou uma parte da coberta e a chamou. Sem esperar por um segundo pedido, ela aceitou e se aninhou nos braços dele. Poderia morrer naquele momento, morreria feliz e nos braços do único homem que amou. Sirius encarou seus olhos castanhos e perguntou baixinho ao seu ouvido:
– Dormiu bem, princesa? – E lhe deu um sorriso.
– Melhor impossível. – Ela o enlaçou pelo pescoço e o beijou ardentemente.
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N/A: Minhas lindas, eu agradeço de coração
cada palavrinha deixada com carinho por vcs! Amo a todas!!!! E espero
que o Sirius esteja sendo redimido dos seus pecados!
