Capítulo 4 - Mandinga

...K., Lucas, Sheila, Nina, Tatiana, Rogério, Fabiano...cada nome tem uma ocasião, e cada ocasião tem um nome, uma finalidade. Quando não se esconde detrás de uma máscara dentro da internet, este homem chama-se T...

T. levantou-se da cadeira do computador, caminhando pelo quartinho apertado. Irrequieto como sempre, estava à procura de idéias. Sempre muito geniosas e egoístas as idéias, querendo sempre que as coisas aconteçam quando elas desejam! Mas T. sabia como fazer as idéias obedecerem-no.

Alcançou uma pequena bolsa espatifada num canto do quarto, sentou-se no chão e abriu-a, deixando cair no chão seu conteúdo: vários dados. Cuidadosamente ele foi pegando um por um e arrumando-os, entretido.

"Foca é um idiota. Desde que este estúpido entrou para a KK tem feito muita merda. Já foi parar na prisão, matou gente que não devia, roubou o que não tinha de ser roubado, e ainda estuprou várias meninas. Pelo menos agora ele fez algo de útil: ter achado o caderno assassino".

Os dados estavam perfeitamente alinhados. T. tomou um punhado deles e jogou-os, somando os resultados, enquanto seu cérebro continuava a pensar:

"E pensar que tudo começou com a morte de seis estudantes por inesperados ataques cardíacos? Quando ouvi essas reportagens pela primeira vez não posso negar que meu coração palpitou de alegria ao cogitar a possibilidade da volta de Kira, depois de quatro longos anos de silêncio".

"Apesar de fazer muito tempo eu ainda me lembro quando Kira apareceu há mais de oito anos atrás. Ele possuía este estranho poder de matar pessoas com ataques cardíacos. Mesmo com tal habilidade, ele só a usava para matar criminosos. Nunca houve relato de pessoas inocentes mortas por Kira. Portanto, assim que esses seis estudantes apareceram mortos eu tinha de saber se eles eram criminosos, correto? Afinal, se Kira tivesse retornado, ele não iria matar inocentes".

Pegou outros dados e arremessou. Conforme seu pensamento progredia T. puxava a perna esquerda para o peito, dobrando o joelho.

"Como eu previa, Kira não retornou. Esses seis estudantes mortos não tinham ficha criminal. Eram inocentes. Esse Kira atual não seria o mesmo Kira de anos atrás. Na verdade, nem precisava saber se estas seis vítimas eram criminosos. Bastava eu perceber quão estúpidas eram as ações tomadas por esse novo Kira".

"O velho Kira duelou com L, o maior detetive do mundo. Eu me lembro perfeitamente disso. Foram momentos memoráveis, e sua batalha durou anos. Eu tenho certeza de que L acabou pegando Kira, pois acredito que o desaparecimento repentino de Kira significou sua derrota para L. Quando ele sumiu, pensei que tivesse acabado, até agora".

"Foi muito fácil investigar essas seis vítimas e descobrir que todas tinham como objeto comum o ódio a um irritante estudante: Fábio Carlos, o idiota do Foca. Quando soube disso já tornou-se óbvio para mim que ele era o novo possuidor dos poderes de Kira. Eu tinha de descobrir como ele fazia isso".

Vários dados estavam espalhados pelo chão. Tinham muitas cores e muitas formas. Enrolando alegremente as madeixas castanho-escuras do cabelo, T. levantou-se procurando alguma coisa.

"Foi só questão de tempo. Entrei nas salas de bate-papo que ele freqüentava, mandei mensagens pelo orkut, hackiei seu MSN. Enfim, descobri logo do que se tratava seus poderes: um caderno. Um Death Note"

Depois de tanto procurar, T. encontrou um piloto azul e começou a rabiscar num quadro branco que tinha em sua mesa.

"Um Death Note. Dá para acreditar? Quem tiver o nome escrito nele irá morrer. Esse era o estranho poder de Kira. Que conveniente, não? Pior que isso são as regras bizarras que vêm nele, e o tal do Shinigami que parece estar sempre ao lado do dono do caderno. Isso tudo parece até história de ficção e eu sequer daria ouvidos. Mas não é ficção. É real. Bem real"

"Tudo que precisava agora era de provas do caderno e saber os limites dele. Afinal, não ia deixar o Foca possuir tamanho poder, ia? Eu tinha de saber como esse caderno funcionava para poder saber como e quando atacar. Foi bem fácil manipular o idiotinha do Fábio usando nomes falsos pela Internet e fazê-lo testar o Death Note para mim"

T. olhou para o quadro branco, repleto de rabiscos e letras soltas.

"Vamos ver o que sei até agora: Só se pode matar pessoas que você saiba o nome e conheça o rosto. Pode-se matar as pessoas de outras formas além do ataque cardíaco. Pode-se arrancar uma folha do caderno que ela ainda manterá as propriedades mortíferas. Pode-se fazer um pacto com o Shinigami dono do caderno e receber alguma coisa chamada 'olhos de shinigami', e assim será possível saber o nome de uma pessoa apenas olhando para ela"

"Com essas informações ele já teria informações suficientes para atacar. Contudo, há mais um fator chave que apesar de se invisível, inaudível e inodoro, é crucial para o sucesso ou falha de todo o seu plano"

Com desprezo na mente T. desenhou com força uma única letra no quadro branco.

L

"Eu sei que L já está sabendo de tudo. Eu sei que ele deve ter mandado espiões para cá. Eu sei disso. Afinal, ele derrotou o antigo Kira. Esse L... é a única coisa que pode fazer meus planos falharem. Provavelmente L já estava pronto para prender aquele desgraçado do Foca, aquele burro bizarro. Eu tenho de ganhar tempo".

Levando um dedo na boca T. deixou a mente vagar enquanto fitava hipnóticamente a letra L que desenhara.

"Tenho de armar um encontro com Foca. Irei dizer que sou um membro do alto escalão da KK e que quero me encontrar com Fábio Carlos para discutir sobre planos da ordem. Isso. L não irá atacar Foca antes do encontro. Ao invés disso irá preparar o ataque no dia do encontro pois assim teria a chance de prender tanto Kira quanto um dos líderes da KK".

"Enquanto L se confunde com esse encontro de faz de conta, eu uso minha brecha para atacar Foca e roubar dele o Death Note. E, com o caderno em mãos, eu poderei descobrir um jeito de encontrar L e destruir de uma vez por todas a única ameaça contra meu objetivo, meu grande Plano"

T. apagou a letra L do quadro.

"Um Novo Mundo, nascido do sangue da destruição do antigo"

Caminhou até a janela, cuja luz estava tapada por uma cortina de plástico. Levantou silenciosamente a barreira e observou a lua no céu.

"Este mundo está podre. Já está na hora de outro ser plantado".


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Capítulo 5 - Cortina

O plano de T. e a decisão de Near