Parte 1

- A Rainha de Copas é a criatura mais vil que já pisou no País das Maravilhas. - Começou o Chapeleiro Macabro com sua explanação. - Nós, como homens respeitáveis que somos, temos o dever cívico de extirpá-la da face da Criação.

- Está falando de assassinato? - Perguntou Bolivar, que foi instruído pelo seu pai que aquela não era uma atitude respeitável.

- Não, estou falando da profecia. Uma menina do seu mundo irá trazer paz e justiça ao nosso.

- O que fazemos enquanto ela não chega?

- Tomamos chá, ora bolas. Está servido? - Como não comera nada desde que saiu da casa de seu tio, Bolivar estava esfomeado. Ele começou a comer o que encontrava pela frente até quase engasgar. - Calma, garoto, a comida não vai fugir da mesa. - Ao redor da mesa retangular estavam sentados uma tartaruga, um lobo, um gato e um rato, todos de chapéu. Grace não fazia parte do clube, mas sentou-se assim mesmo para se aproveitar da farta comida. Geleia, amoras, pudim, bolos de vários tipos. Era um verdadeiro banquete. - Terminem de comer e vou apresentá-los à Rainha de Copas. - Bolivar não esboçou emoção, só se tocando que o assunto era sério devido a expressão de medo de Grace, uma menina que achava tão destemida.

- O que essa Rainha de Copas tem de especial?

O rato de cartola passou o dedo por seu pescoço e respondeu. - Ela gosta de cortar cabeças.

Parte 2

A Rainha de Copas, no alto de seu castelo, exibia a execução de mais um desafeto. Vítima de uma guilhotina, a cabeça de um labrador rolou pelo chão como uma bola de futebol. Seu corpo ficou tremulo devido a decapitação repentina. - Meu Deus, a alma dele ainda está no corpo. - Disse Bolivar, que ficou mais maravilhado com o espetáculo do que aterrorizado.

- Não se preocupem, as profecias nunca mentem. A garota da Terra irá acabar com o reinado de terror da rainha, mais cedo ou mais tarde.

A mania de decapitação da rainha, achava Bolivar, vinha do fato de sua cabeça ser grande demais para o próprio corpo. Se não fosse por suas capacidades cognitivas normais, ela mais parecia alguém com hidrocefalia. Uma rainha cabeçuda que cortava a cabeça dos outros porque não podia cortar a sua própria. Ao lado da rainha soldados se faziam presentes fazendo sua segurança. Soldados vermelhos com o formato de cartas e possuidores de lanças com pontas em formato de coração. Outra figura que se destacava na cena, e que foi apresentado pelo Chapeleiro Macabro, era o Valete, o principal escudeiro da Rainha de Copas. Ele era um homem alto e magro demais que dava preferência ao preto no seu vestuário e usava um tapa-olho no olho direito.

- Agora que já conhecemos quem teremos que enfrentar, está na hora de comprar para você uma cartola.

Parte 3

A chapelaria era vista pelos olhos de Bolivar como um pequeno paraíso. Cartolas das mais elegantes abrilhantavam o lugar. - Quem é o dono dessa chapelaria? - Perguntou o garoto ao notar que não havia vendedor.

- Está falando com ele. - Ao notar o fascínio do jovem pelas peças expostas, o Chapeleiro Macabro não pôde deixar de perguntar. - Filho, gostaria de aprender a nobre arte da chapelaria?