E eu não posso substituí-lo?

Por Amanda Catarina


Capítulo 4

Noriyuki Nakagawa tinha acabado de ser avisado por sua secretária da chegada dos jovens Seiya Kou e Serena Tsukino quando seu celular tocou. Seu primeiro ímpeto foi deixar que a ligação caísse na caixa postal, mas diante do nome de um de seus mais importantes clientes na tela do dispositivo, sentiu-se compelido a atender, e foi o que fez.

Mesmo com uma agenda assim sempre tão disputada, Noriyuki não pôde deixar de atender ao apelo de Seiya para uma reunião informal de aconselhamento, afinal de contas conhecia o rapaz antes mesmo de ele o os irmãos terem vindo ao mundo, pois ele e sua esposa, Sayako, eram muito amigos do casal Kou, que atualmente morava no Reino Unido. Noriyuki e Sayako se casaram no mesmo dia que os pais de Seiya - a jornalista Keiko Mizuiro e o arquiteto Yushiro Kou -, eles inclusive fizeram uma só festa pelos casamentos. Em suma, era um quarteto de amigos que se gostava como irmãos. E por isso mesmo Noriyuki, sentia-se responsável por Seiya e os outros dois; como se Yushiro o tivesse deixado incumbido de olhar por seus garotos enquanto estivesse no estrangeiro.

O escritório desse bem sucedido advogado consistia em um prédio comercial de dois andares, recentemente construído, no qual mais de meia dúzia de pessoas trabalhava. O lugar exibia uma bonita decoração, mesclando o clássico e o moderno em plácida harmonia.

Aguardando na sala de espera, sentado ao lado de Serena, Seiya sentia-se muito ansioso. Tanto para ouvir as orientações daquele a quem tinha como a um mestre, como por estar junto de sua linda colega de classe. Embora fossem apenas estudantes, sem que tivessem combinado, ambos vieram trajados ao estilo dos advogados. Seiya vestia um terno preto, camisa branca e gravata vermelha, e Serena, um conjunto de blazer e saia, na cor verde escuro, camisa clara e sapatos de salto. Observando a moça discretamente, ele se alegrou com o entusiasmo no semblante dela.

Seiya ficara sabendo que, além da sede por justiça, algo muito nobre motivava Serena. Ela havia lhe contado que Darien era filho único e que fora um filho gerado quando os pais já tinham uma idade um tanto avançada. A criança viera num momento inesperado, mas nem por isso foi motivo de desgosto, muito pelo contrário. Contudo, como eles não eram ricos, prover o sustento e, principalmente, a educação do menino, fora um desafio para os dois. Darien estava terminando a faculdade e fazendo um estágio remunerado, assim, tinha apenas começado a retribuir o muito que os pais haviam feito por sua carreira, mas tudo isso ficou perdido com sua morte prematura. Por isso Serena queria tanto ajudar o casal Chiba a receber a indenização. De certo modo, ela sentia que devia isso a Darien.

– Você vai ver, Serena, o senhor Nakagawa é o melhor advogado da cidade! Eu tenho certeza que ele vai ajudar a gente.

Ela virou o rosto na direção do rapaz e lançou-lhe um sorriso contente.

Seiya ficou admirado com a beleza e com o brilho dos olhos dela. E até teria expressado sua admiração em palavras se a porta do escritório não tivesse se aberto naquele exato instante, e um homem alto para os padrões japoneses, com os cabelos não muito grisalhos penteados para trás, usando terno azul marinho e óculos, não tivesse aparecido ali.

– Ah, senhor Nakagawa - exclamou o rapaz, levantando-se e curvando-se em saudação, o que levou Serena a fazer o mesmo.

– Bom dia, Seiya - saudou o homem, curvando-se também. – E você deve ser a senhorita Tsukino. É um prazer conhecê-la - disse e se curvou outra vez.

– O prazer é todo meu, senhor Nakagawa - respondeu Serena, já cativada pela presença carismática do advogado.

– Por favor, me desculpem fazê-los esperar tanto. Um cliente ligou e precisei mesmo atendê-lo.

– Não há porque se desculpar - rebateu Serena em um tom amigável. – Foi muita bondade do senhor nos atender. O Seiya me falou o quanto o senhor é ocupado.

O advogado apenas sorriu em resposta.

– Entrem, por favor - disse e deu passagem aos dois jovens.

Nos minutos que se seguiram, os três comentaram casualidades referentes ao clima e ao trânsito, enquanto Seiya, bem à vontade por já conhecer o lugar, dispunha a papelada do processo em uma mesa oval, posicionada a um dos cantos do cômodo, que contava com dois ambientes. Serena tratou de ajudar o colega. E Noriyuki chegou a fazer alguns questionamentos a ela acerca do caso, como em qual fórum tinha sido o julgamento e há quantos dias, e a Seiya, perguntou sobre os irmãos.

Depois que estavam todos acomodados e que o escopo do caso fora em parte lido e em parte exposto pelos dois jovens, o advogado, sentado a uma das extremidades da mesa oval, com Seiya à sua esquerda e Serena, à direita, detinha-se na leitura das resoluções do processo. Os jovens o olhavam com atenta expectativa.

Noriyuki então inspirou fundo, retirou os óculos, deixou a pasta sobre a mesa, olhou para Seiya e depois para Serena, e finalmente se pronunciou:

– Bom, eu vou ser sincero com vocês: é um caso difícil. Vocês fizeram um bom trabalho no esboço desse recurso, muito bom na verdade, mas, pela minha experiência, eu acho que tudo isso que vocês pensam em alegar pode não ser o suficiente para conseguir a reabertura do inquérito policial.

Os dois jovens se perturbaram com a declaração e, mesmo tendo percebido isso, o advogado continuou:

– Para ter uma chance de virar a balança, vocês precisavam conseguir uma nova prova. Algo como uma gravação de celular do momento do acidente, ou uma filmagem de algum radar ou comércio próximo.

– Mas por que, senhor Nakagawa? - questionou Seiya.

– Porque o laudo pericial está muito a favor do motorista do caminhão. Os peritos declararam categoricamente que ele não teve culpa e que o responsável pelo acidente foi a própria vítima.

Serena abaixou momentaneamente a cabeça, buscando dominar suas emoções. Sempre que ouvia aquele fato, ela sentia um forte aperto no coração.

Percebendo o quanto ela tinha ficado abalada, Seiya tratou de se manifestar, dizendo:

– É por isso que nós queremos que esse laudo seja revisto, senhor Nakagawa! Isso não pode estar certo. Foi uma batida horrível e o rapaz... - ele hesitou um instante, escolhendo as palavras, preocupado com o impacto que causariam na já abalada Serena, então concluiu: – Acabou perdendo a vida. Alguma coisa errada tem! Tem que ter!

Serena ergueu o rosto e olhou para o colega, que estava com o rosto voltado para o advogado, surpresa com a exaltação dele.

– Por isso eu disse que é um caso difícil - insistiu o advogado, porém com muita brandura. – Reverter essa sentença não vai ser tarefa fácil.

Seiya encarou Noriyuki por alguns instantes, então, numa desenvoltura que não deixava nada a desejar a um advogado veterano, ele falou:

– Mas, senhor Nakagawa, é como nós dissemos, a advogada de defesa se apoiou demais no fato de que o motorista não estava acima da velocidade permitida para afirmar que ele não foi imperito. Mas não é porque o cara não estava acima da velocidade permitida que ele não poderia ter evitado o acidente. Se não há testemunhas do momento do acidente, essa dedução não pode ser considerada abusiva?

– Pode sim - concordou o advogado. – As duas coisas não estão necessariamente ligadas.

Seiya sorriu contente para Serena, que instintivamente reagiu da mesma forma. Sentindo-se então mais animada, ela também quis tomar parte na argumentação.

– Além disso - começou ela –, o estudo que foi feito da colisão não foi conclusivo. Pelo exame das latarias dos dois veículos não se pode ter certeza de quem bateu em quem. Sem falar que já era noite. Por mais que o motorista alegue que o meu Darien virou de repente, sem testemunhas, fica o depoimento desse homem contra o silêncio de quem já não pode depor.

Tendo naturalmente reparado no tom carinhoso que ela proferiu o nome do falecido, antes que ela voltasse a ficar abalada, Seiya tratou de ajuntar:

– É por isso que queremos a reabertura do inquérito.

– Eu entendo. O problema é que a escassez de provas e o fato de não haver testemunhas faz com que as poucas provas existentes tenham muito peso. E a advogada de defesa soube se aproveitar disso. Acreditem em mim, sem uma prova adicional que revele alguma discrepância nesse laudo pericial, será muito difícil sair desse impasse.

– Ah, não! Vira essa boca pra lá, senhor Nakagawa! Nós não podemos deixar essa transportadora se safar fácil assim.

– Foi bom você ter comentado isso, Seiya. Me fez lembrar uma coisa que estou querendo perguntar desde ontem: Por que vocês falam como se já estivessem em disputa contra a Transportadora Galáctica?

– Mas como assim, senhor Nakagawa? - estranhou Serena.

– É. Como assim? - repetiu Seiya.

O advogado se atentou bem à expressão de estranhamento dos dois jovens e então disse:

– Ah, não... Não me digam que estão achando isso mesmo?

Sem esconder sua confusão, ambos assentiram.

– Puxa vida, mas então essa foi uma falha de comunicação muito infeliz. Ontem você até comentou alguma coisa sobre indenização, Seiya, mas nem passou pela minha cabeça que pudesse ser esse o motivo.

– Do que exatamente o senhor está falando, senhor Nakagawa? - questionou Seiya.

Antes de responder, Noriyuki fitou os dois jovens com um ar apreensivo.

– Pelo que estou entendendo, vocês estão achando que já estão em disputa contra a Transportadora Galáctica, mas não, não é isso. Este é um processo criminal contra o motorista e não uma disputa entre a família e a transportadora.

Seiya prendeu o fôlego de tão surpreso, mas Serena não demorou a contestar:

– Mas eu estive na audiência com os pais do Darien, senhor Nakagawa, e me lembro muito bem quando a advogada que defendeu esse motorista se apresentou e disse que trabalhava para a Transportadora Galáctica há cinco anos!

O advogado franziu o cenho e alcançou a peça de defesa do motorista deixada ali na mesa.

– Como é mesmo o nome dessa advogada? - ele indagou.

Antes que ele encontrasse a resposta, Serena se antecipou, dizendo:

– Ela se chama Chuuko, Chuuko Nezu.

– O senhor já esteve em disputa contra ela, senhor Nakagawa - comentou Seiya. – É aquela bem baixinha. Dá até pra confundir ela com uma criança. Ela também tem um apelido engraçado de Iron Mouse.

– Ah, sim, a doutora Chuuko. Tem razão, ela parece uma criança, mas é na verdade uma advogada bastante experiente. Esse estilo de defesa é bem o estilo dela mesmo, muito técnico. Ela gosta de transformar pequenos detalhes em grandes evidências.

Serena encarava o advogado com um olhar aflito e impaciente.

– Seja como for, vocês confundiram mesmo as coisas. OK, a advogada que defendeu esse motorista foi a doutora Chuuko e ela é sim uma das advogadas da Transportadora Galáctica, mas não precisava ter sido ela, poderia ter sido qualquer outro advogado. Nessa audiência, senhorita Tsukino, a doutora Chuuko estava representando apenas o motorista e não a transportadora. Esse processo não foi direcionado à transportadora.

Os dois jovens ficaram apenas encarando o advogado.

Diante da expressão tão desconcertada deles e levando em consideração que eles ainda eram estudantes, Noriyuki resolveu prosseguir com as explicações de um modo mais professoral.

– Vamos lá, do começo... Assim que a notícia da morte foi recebida, um inquérito policial foi instaurado. Uma pessoa morreu e era necessário averiguar o que causou a morte. Foi preparado um laudo pericial que concluiu que a vítima foi imperita e que o motorista do caminhão não teve culpa. Mesmo assim, o Ministério Público, e não a família - notem isso -, acusou o motorista de ter cometido homicídio culposo. Lembram? Aquele quando não há intenção de matar. O motorista precisava se defender dessa acusação e foi assim que a doutora Chuuko entrou na história. Muito provavelmente por ordem da própria transportadora, que claro tinha todo o interesse do mundo na absolvição dele.

Depois de ter dado algum tempo para que os dois assimilassem os fatos, Noriyuki perguntou:

– Entenderam agora porque eu disse que vocês estão em um impasse?

A dúvida ainda presente na expressão dos estudantes, fez com que o advogado soltasse um leve suspiro, então ele tentou ser ainda mais direto:

– Se esse recurso for indeferido, o caso será encerrado. E se o caso for encerrado, vocês não vão ter como processar a transportadora. Agora pouco quando comentei sobre a necessidade de conseguir anular essa sentença, eu estava achando que vocês estavam cientes disso.

– Como é que é? - Seiya exclamou alto. – Não vai ter como processar os caras?

Serena tampou a boca com uma das mãos de tão desconcertada e os olhos dela ficaram muito vidrados e brilhantes.

– Não tem como - confirmou Noriyuki. – A circunstância de culpa exclusiva da vítima afasta desse motorista qualquer tipo de responsabilidade criminal e civil, e isso se estende a empresa empregadora. Não foi à toa que a doutora Chuuko deu tudo de si nessa defesa. Ela sabia muito bem que livrando o motorista da acusação, a empresa também ficaria livre de responsabilidades.

Serena fez que não com a cabeça. Seiya se angustiou com a expressão perturbada dela, mas antes que ele dissesse qualquer coisa para acalentá-la, ela explodiu em revolta.

– Mas isso não é justo! Agora são só os dois e eles já têm idade. O pouco de dinheiro que eles tinham, usaram para pagar a faculdade do Darien. Isso não é justo! - o tom dela ficou embargado, então não pôde mais segurar o choro.

Diante das lágrimas dela, Seiya experimentou a horrível sensação de se sentir de mãos atadas. Ele concordava, não era justo. Cerrando os punhos, ele logo tratou de retrucar:

– Pelo amor de Deus, senhor Nakagawa, todo mundo sabe da péssima reputação dessa transportadora. O senhor mesmo sabe disso muito bem. O jurídico deles nunca joga limpo! Sem falar que essa empresa é podre de rica. Por maior que fosse uma indenização paga a esse casal, isso não deve ser nada perto do que essa empresa fatura em um único mês. Agora para esse casal fará toda a diferença. Eles já perderam o filho e ainda vão ter que ficar assim sem qualquer tipo de assistência? Não, isso não tá certo!

Durante todo o eloquente discurso de Seiya, Serena manteve seu olhar fixo nele, outra vez muito surpresa com a entrega dele à causa dos Chiba.

– Eu concordo com você, Seiya - disse o advogado. – E tenho pra mim que o promotor de justiça do Ministério Público deve ter insistido na acusação desse motorista, ao invés de optar pelo arquivamento do caso e a despeito do laudo pericial, justamente porque ele pensou na família da vítima. Mas a doutora Chuuko não quis saber de ser tão condescendente. Uma empresa mais humanista, mais responsável socialmente, talvez até tivesse se prontificado a prestar um auxílio a esse casal, independente das resoluções da lei.

Diante das complexidades e dificuldades expostas pelo advogado e percebendo que não havia muito o que fazer, Serena foi abatida pelo desânimo e pelo desespero.

– Como vou poder ajudar eles, meu Deus? - ela murmurou consigo mesma.

Seiya ficou angustiado diante da cena. Passados alguns instantes, ele se obrigou a tentar encontrar uma solução.

– Tudo bem, senhor Nakagawa, agora eu entendi porque o senhor disse que estávamos em um impasse. Mas com o que temos na mão, o senhor acha que não dá mesmo pra ganhar?

Após fitar a moça por alguns instantes, muito penalizado, Noriyuki respondeu:

– O que acontece, Seiya, é que um pedido de revisão do laudo pode ser tomado como uma tentativa de colocar em dúvida a idoneidade dos peritos que trabalharam nele. Em geral, solicitações assim costumam ser negadas, já que atendê-las acaba forçando o órgão envolvido a reconhecer que alguém não fez seu trabalho direito. Agora, surgindo uma nova prova, a revisão passa a ser mais que justificada.

Um pesado silêncio pairou na sala.

Serena abaixou a cabeça em sinal de desolação e Seiya cerrava os punhos, inconformado.

Noriyuki suspirou fundo, não era a primeira vez que ele se via diante de uma situação tão pesarosa. Mas, passados alguns instantes, ele sentiu que devia aproveitar a oportunidade para ensinar uma difícil lição àqueles dois estudantes, então em um tom brando, mas bastante sério também, ele voltou a falar:

– Eu sei que é muito triste que um rapaz tão jovem tenha perdido a vida desse jeito. E que tudo deve parecer ainda mais triste com a lei cumprindo seu papel assim de forma tão imparcial, sem levar em conta toda a dor desses pais.

– Sim, é muito triste... - Serena entrecortou.

Mesmo com o coração apertado no peito, firme em sua resolução, o advogado continuou:

– Nós seres humanos somos seres passionais, mas a lei não é assim, a lei é imparcial. Posso imaginar o que está sentindo, senhorita Tsukino. Sei o que é perder uma pessoa querida em um acidente de carro; um primo meu também morreu assim. Eu sei que é difícil se conformar, mas, independente da má reputação dessa transportadora, infelizmente, o que aconteceu ao seu namorado foi uma fatalidade.

Os olhos de Serena ficaram ainda mais brilhantes pelas lágrimas, porém ela assentiu.

– Espera, senhor Nakagawa, o senhor não pode estar tentando nos dizer que teremos que nos resignar - disse Seiya, muito perturbado.

Sob olhar atento de Serena, o advogado respondeu:

– Por mais difícil que seja para mim dizer isso a vocês eu não acho sensato levar esse caso adiante, ao menos não no pé em que as coisas estão, porque talvez isso só sirva para expor esse casal a mais sofrimento.

– Mas esse recurso é um direito deles! - retrucou Seiya.

Serena fez um gesto ao colega, como quem dissesse que estava tudo bem e depois se voltou ao advogado.

– Senhor Nakagawa, posso perguntar como foi o processo do seu primo?

Noriyuki demonstrou surpresa com a pergunta.

– Claro. Bom, eu ainda não era formado na época, então foi outro advogado que cuidou do processo. O meu primo faleceu, mas tanto ele com o motociclista envolvido tiveram culpa no acidente. Eram veículos particulares, então não teve empresas envolvidas. As duas famílias receberam uma pequena indenização da prefeitura, porque um semáforo próximo do local do acidente estava quebrado. Enfim, foi um caso bem diferente.

Serena assentiu e depois olhou na direção do colega.

– Não vamos levar isso adiante, Seiya. Mesmo antes de ouvir o senhor Nakagawa, eu estava na dúvida. E agora que sei que as chances de ganhar são assim tão pequenas, eu não quero correr o risco de fazer com que os pais do Darien voltem a se decepcionar, mesmo porque eles já estão conformados com a decisão do juiz.

– Mas você mesma disse que eles precisam demais dessa ajuda.

– Eu sei o que eu disse, Seiya. Mas se entendi bem tudo que o senhor Nakagawa explicou, por pior que o pessoal da Galáctica seja, nesse caso pelo menos eles estão jogando limpo. Foi o meu Darien quem cometeu um erro - ela pestanejou e inspirou fundo antes de continuar - e infelizmente foi um erro fatal. Então agora só me resta pensar em alguma outra forma de ajudar os pais dele.

Noriyuki ficou impressionado com a maturidade e firmeza da jovem estudante.

– Calma, Serena, ainda não está... - dizia Seiya, mas ele se calou ao ouvir o som de um celular.

Era o celular do advogado, mas dessa vez não era uma chamada e sim um aviso.

– Ah, eu sinto muito, mas terei que deixá-los agora. Tenho uma audiência daqui quarenta minutos - ele se levantou –, mas vocês podem continuar aqui pelo tempo que quiserem. Também podemos retomar essa reunião hoje à noite.

– Não é necessário, senhor Nakagawa - disse a moça. – O senhor já nos ajudou até demais. Eu agradeço muito pela sua orientação.

– Não, não precisa agradecer. Eu tenho mesmo que ir agora, mas prometo que se me ocorrer alguma coisa, irei avisá-los na mesma hora.

Serena e Seiya se curvaram em agradecimento e Noriyuki também se curvou, mas em despedida, porém antes que ele deixasse o escritório, ele se aproximou de Serena, pousou gentilmente a mão no ombro dela e ofertou-lhe um olhar muito fraterno.

– Sei que esse não é o melhor momento, mas tendo eu visto seu empenho e entusiasmo, não posso deixar de dizer isso: não desista de ser uma advogada!

Pega de surpresa, Serena vidrou um pouco os olhos, mas logo assentiu.

Seiya se manteve em um perturbado silêncio, mal acreditando no desfecho da reunião.

Assim que Noriyuki se foi, Serena e Seiya ficaram encarando um ao outro. Não achavam o que dizer. Então Serena abaixou a cabeça e deu vazão às lágrimas outra vez.

– O que eu vou fazer agora? - ela se perguntou em um sussurro.

Angustiado, Seiya ficou apenas olhando para ela, mas sua vontade era de passar os braços ao redor daquela cintura fina, puxá-la para junto de si e ampará-la em seu peito. O que o detinha era a lembrança do dia em que estudaram o caso na faculdade, de como ela ficara indignada quando ele, num ímpeto, apenas segurou-lhe o pulso. Deduziu então que um abraço, por mais casto que fosse, não seria bem recebido por ela. Porém, transcorridos mais alguns instantes, vendo o choro dela se tornar mais e mais convulsivo e reparando nos ombros miúdos subindo e descendo e nas lágrimas se acumulando no carpete da sala, ele não pôde mais se deter: Aproximou-se dela, rodeou-lhe os ombros e a abraçou.

Na mesma hora, Seiya sentiu o corpo de Serena retesar num susto e percebeu ela erguer a cabeça, mas ele evitou seu olhar, mantendo o próprio rosto reto, fitando um ponto fixo na porta entreaberta logo à frente. Passados alguns segundos, para alívio dele, aconteceu de Serena não reclamar e nem tentar se desvencilhar. Silenciosa, o que ela fez foi escorar a cabeça no peito dele e se encolher. Seiya então, sem afrouxar o abraço, fechou os olhos, triste, muito triste, porque tinha fantasiado estar junto dela daquele jeito inúmeras vezes desde que a conhecera, mas quando esse anseio finalmente se concretizou foi numa hora tão amarga. Pediu forças a Deus, tanto para ela, quanto para si.

Em mais alguns instantes, o respirar de Serena se normalizava e Seiya soube que ela estava se recompondo. Por fim, ela tossiu, limpando a garganta e, em seguida, disse em um tom baixo:

– Eu acho que vou aceitar sua carona dessa vez.

Mais cedo, Serena havia se recusado a vir até a firma de carro com Seiya, preferiu vir de ônibus.

– Claro. Eu te deixo na sua casa.

Serena fez uma leve pressão contra os braços de Seiya, que imediatamente entendeu que deveria soltá-la e foi o que ele fez. Então, ela se afastou alguns passos de lado e se achegou à mesa para recolher a papelada do processo. Ele logo se juntou a ela na tarefa. Guardaram tudo em uma pasta executiva, a qual Seiya se prontificou em carregar, então eles deixaram o escritório.


O carro de Seiya estava estacionado bem na frente do prédio. Seiya abriu a porta do veículo para Serena e, depois que ela entrou, comentou que havia lenços de papel no porta-luvas. Em pouco tempo, estavam a caminho. O percurso dali da firma de Noriyuki até a casa de Serena não deu mais que seis quilômetros, assim eles chegaram rápido ao seu destino. Serena não falou nada durante o caminho e Seiya achou melhor ficar quieto, temendo que ela voltasse a chorar.

Quando Seiya parou na frente do sobrado, avistou uma mulher varrendo o quintal. Essa mulher veio depressa até o portão.

– Filha? - chamou e olhou para Seiya com perceptível assombro. – E você quem é?

– Esse é o rapaz de quem falei, mãe. Meu colega de classe. O nome dele é Seiya.

A mãe de Serena ficou olhando para o moço por alguns instantes, até que, esquecendo-se de se curvar em cumprimento e até de se apresentar, ela perguntou:

– Por acaso o senhor é parente do falecido Darien?

– Eu não! - Seiya respondeu de pronto, muito desconcertado.

– Claro que não, mãe! De onde tirou isso? - a moça falou em um tom bravo.

– Desculpe - pediu a mulher e enrubesceu um pouco. – É que ele era muito parecido com você e também tinha os olhos da mesma cor que os seus.

– É mesmo? – devolveu o rapaz. – Mas, não, nós nem chegamos a nos conhecer.

Muito sem jeito com a gafe, a mulher assentiu.

Serena então quebrou o clima de constrangimento, ao se dirigir ao rapaz, dizendo:

– Muito obrigada por tudo, Seiya.

– Ah, não precisa agradecer. Além do mais as coisas não saíram como a gente esperava.

– Isso não importa. Valeu muito sim, serviu de aprendizado - apesar do evidente desânimo, o tom dela foi convicto e isso o deixou admirado.

– O senhor não gostaria de entrar? - perguntou a mulher.

Ele gostaria sim, daria tudo para poder ficar mais algum tempo ao lado de Serena, mas intuiu que ela precisava de um momento sozinha.

– Quem sabe outro dia... Mesmo porque eu tenho um compromisso agora - ele se justificou, mas não dizia a verdade, pois, logo ao sair de casa, ele acertara com os irmãos que não compareceria ao ensaio naquele dia.

– Ah, eu já estava esquecendo a pasta - disse Serena, aproximando-se de novo do carro.

– Serena, será que eu poderia ficar com esses documentos mais um pouco?

– Pra quê, Seiya?

– Eu só quero entender melhor como é a dinâmica das coisas. Eu prometo que te levo tudo hoje à noite, na faculdade.

– Não sei se vou ter cabeça pra aula hoje.

– Então eu devolvo quando você for.

– Ah, que seja... - cedeu ela, um tanto brava e se encaminhou ao portão da casa.

– Não seja grosseira assim, Serena! - advertiu a mãe.

– Por favor, não brigue com ela, senhora... - Seiya emudeceu, pois não sabia o nome da mulher.

– Ai, meu Deus, eu nem me apresentei! Sou Tsukino Ikuko, muito prazer - disse ela e se curvou.

– O prazer é todo meu, senhora Tsukino - devolveu o rapaz e se curvou também. – Mas agora acho melhor eu ir. Qualquer novidade, eu ligo. Tudo bem, Serena?

Ela apenas fez que sim com a cabeça. Ikuko, muito perdida e deslocada, não achou o que dizer.

– Senhora Tsukino, tenha uma boa tarde - ele se despediu, curvando-se outra vez e a mulher fez o mesmo. – Até mais, Serena.

– Até...

Tão logo Seiya deu partida no carro, Serena entrou correndo na casa e subiu direto para seu quarto, onde se entregou a um choro inconsolável.


Bem mais tarde, quando Seiya chegou em casa, ele encontrou Taiki preparando um lanche na cozinha.

– Ah, é você, Seiya. Pensei que fosse o Yaten. Você demorou.

– É que resolvi dar uma volta, depois que deixei a Serena na casa dela.

– E aí como foi?

– Um desastre.

Deixando os alimentos sobre a pia, Taiki voltou-se para o irmão e perguntou:

– Sério? Mas por quê?

Seiya assentou-se em uma das altas banquetas e apertou uma das mãos no rosto. Depois de uns instantes, ele contou:

– A família do cara não tem direito à indenização. Pelo menos não da transportadora.

– Mas por que não?

– Porque o motorista do caminhão não teve culpa, a culpa foi toda do próprio falecido... Era uma via expressa e ele sem mais nem menos virou com o carro do nada e acabou batendo no caminhão. Com a força da batida, o carro foi jogado longe. O motorista do caminhão se machucou um pouco, mas o tal Darien só não morreu na hora por milagre.

– Puxa vida, mas que coisa trágica.

– Trágica demais. Ontem, quando a Serena me contou tudo isso, ela não conseguiu não cair no choro. O cara só aguentou ficar vivo para se despedir dos pais e dela.

– Que barra, hein?

– Nem me fale... Ao que tudo indica o motorista do caminhão não teve mesmo culpa. Ele ficou lá, chamou o resgate, prestou o depoimento, fez tudo direitinho.

– Então acabou tudo?

– Tecnicamente sim. Vindo pra cá, eu pensei de tentar mover uma ação contra a prefeitura, alegando irregularidade na pista. Tipo, ele deve ter tido uma razão para virar de repente, não iria fazer isso do nada.

– Faz sentido. É isso que você vai tentar?

– Ainda não sei. Mas alguma coisa eu preciso tentar.

– Precisa? Mas precisa por que, Seiya?

– Porque o cara era filho único, os pais dele já são quase idosos e a Serena se sente na obrigação de fazer alguma coisa para ajudar esse casal.

– Ah, e você, que nunca tinha ficado tão balançado assim por uma mulher, se sente na obrigação de ajudá-la.

– Mas é claro! E não só porque eu... - ele emudeceu, incapaz de repetir o comentário do irmão.

– Porque você está interessado nela.

– É. Não é só por isso. O casal precisa mesmo da indenização e esse raio dessa transportadora tem milhões!

Antes que o mais velho falasse qualquer coisa, Yaten chegou à cozinha um pouco assustado, por causa do tom exasperado de Seiya e da expressão de pesar de Taiki.

– O que foi? O que aconteceu?

– O caso que ele ia assumir com a garota da sala dele, não vai ter jeito.

Vendo o irmão tão abatido, mesmo o sempre ranzinza e individualista Yaten não pôde não se compadecer.

– A gente pode fazer alguma coisa pra ajudar? - ele perguntou, despertando certa surpresa em Taiki e em Seiya também.

Seiya se aproximou e pousou levemente a mão no ombro do mais novo, em sinal de agradecimento, e disse:

– Valeu... Parece que é um beco sem saída, mas não vou desistir assim tão fácil!

Logo em seguida, ele se levantou e foi saindo da cozinha.

– Claro que não - incentivou Yaten. – O lema da nossa família é nunca se resignar.

– É isso aí - ajuntou Taiki. – Descansa um pouco e tenta dormir, de repente, quando você acordar, pensa em alguma coisa.

– É... Vou fazer isso.


Seiya não teve ânimo de ir para faculdade naquele dia. Então, depois de um banho demorado, ele vestiu o pijama e ficou estirado na cama. Tentava desligar o pensamento, mas não conseguia. Dois sentimentos batalhavam em seu íntimo: o inconformismo e a paixão.

No momento em que teve Serena nos braços, naquele momento em que tudo parecia tão errado, ao mesmo tempo, por tê-la junto a si, para ele, tudo pareceu tão certo. Fechou os olhos com força e se recriminou:

– Eu não passo de um egoísta.

Era difícil ter que admitir que um laivo de felicidade estivera nele naquela hora, a despeito da tristeza de Serena. Sentia-se mal com isso, mas não havia como se esquivar do fato também. Não havia como não pensar que uma e a mesma coisa - a morte de Darien -, que era motivo de tanto sofrimento para Serena, seria um fator determinante em sua própria felicidade. Aturdido com a crueza desse raciocínio, ele até sentiu uma pequena falta de ar.

Fechou os olhos, inspirou e expirou fundo algumas vezes e assim que voltou a se sentir melhor, ele pensou que Taiki estava certo, jamais estivera tão balançado por uma mulher.

– Mas não é do meu amor que ela precisa agora. É de uma solução pra esse impasse. E eu juro por Deus que se houver uma gota de irregularidade nesse caso eu vou descobrir. Vou descobrir e dar um jeito de conseguir essa indenização.

CONTINUA...


Nota sobre os personagens.

Nezu Chuuko é o nome da falsa identidade de uma das quatro inimigas comandadas pela perversa Sailor Galáxia, as Sailor Aluminates; é aquela que parece uma ratinha, a pequena Sailor Iron Mouse. Ela apareceu pela primeira vez no anime no episódio 173 e chegou a descobrir a verdadeira identidade de Seiya, antes de ser exterminada por Sailor Galáxia. Aqui nessa fic, a doutora Chuuko ainda vai dar algum trabalho para os nossos queridos estudantes. Quanto aos demais personagens citados nesse capítulo (Noriyuki, Sayako, Keiko e Yushiro), eles são meus OC, não existem na série, nem no mangá.

Bom, se ainda houver alguém com ânimo de acompanhar, depois de mais de 2 anos (sim, você leu isso mesmo: 2 anos!), decidi retomar e concluir esse projeto. Vamos ver se vai rolar... Comentários são sempre bem vindos e um incentivo para a continuação. Deixo um agradecimento especial às duas advogadas que me ajudaram muito com a parte técnica do capítulo, mas por questões de segurança não vou citar os nomes delas aqui, ok? E quem ler, tenha em mente que, abusando da licença poética, eu tomei como referência as leis brasileiras. No Japão, as coisas podem ser diferentes.