A porta para o palácio da memória de Hannibal Lecter se encontra na escuridão de sua mente e possuí um aldrava[1] decorado como um leão segurando a argola pela boca. Este portal se entreabre para imensos espaços bem iluminados no antigo estilo barroco com corredores e câmaras. Por toda parte há exibições, cada qual ligada a lembranças que levam a outras em progressão geométrica. Existem fragmentos dos seus primeiros anos de vida, os tempos na escola de medicina e as consultas feitas enquanto exercia o cargo de psiquiatria. Outras salas, conservam sons e movimentos. Até mesmo cheiros sentidos há muito tempo atrás. Súplicas e gritos agonizantes também habitam aqueles terrenos, aonde o próprio Hannibal não se sente tentado a ir. Mas os corredores não ecoam os gritos, e sim, música para aqueles que apreciam.
O palácio fora uma construção iniciada nos períodos iniciais onde Lecter era apenas um estudante. Foi se aprimorando durante os anos de encarceramento, melhorando e ampliando aquelas paredes, fortalecendo-as. Sua riqueza de detalhes e informação servira muito quando era negado o acesso a livros. Alana sabia ser extremamente cruel quando queria. A decoração assemelhava-se com a Capela Palatina, em Palermo. O piso tem uma certa peculiaridade: uma caveira. Um lembrete singelo da mortalidade. Um lugar rico em beleza, severidade e atemporal.
Ele mesmo se via visitando um dos cômodos mais vezes do que lhe era adequado. Onde guardava cópias quase idênticas das pessoas que considerava importantes. No seu palácio também havia um Will Graham. Não chegava aos pés do original, entretanto, saciava o desejo de o reencontrar novamente. Às vezes repassavam conversas já tidas no passado, ou iniciavam algumas que – provavelmente, jamais terão nesta vida. Abigail e Mischa estavam materializadas em memórias, como cacos de gesso quebrados. Imaginava inúmeras realidades e possibilidades diferentes onde as duas ainda poderiam estar vivas. O que infelizmente, nunca poderá correr nesta.
Nada é eterno, tudo tem um tempo nesta vida. Somente coisas emprestadas que um dia serão reclamadas de volta. Hannibal já tivera muitas coisas que foram tomadas de si. Algumas que não fizeram falta alguma, e outras que ardem como o inferno por conta de sua ausência. Ele mesmo já tomou coisas dos outros. Apenas pelo prazer amargo de brincar de ser Deus.
— Como era o nome de sua mãe ? — O timbre vibrante ecoou pela escuridão.
— Chama-se Simonetta. — Falou, calmamente.
O homem logo revelou-se em meio ao breu. Era Will novamente. Hannibal mostrou-se verdadeiramente contente. De todos os que mantinha conversas em seu palácio, de longe este era o favorito. O cenário mudou. Estavam em seu velho consultório psiquiátrico, em Baltimore. Sentados frente-a-frente. Lecter gostava daquele lugar, fora uma pena perde-lo.
— Nós não costumávamos falar muito sobre parentes. — Os olhos azulados brilharam de forma desafiadora. — Ela era uma boa mãe ?
— De longe, a melhor que possa imaginar. Sempre estava preocupada com o meu bem estar e com o de Mischa. — Cruzou as pernas antes de continuar. — E como a sua se chamava, Will ?
— Eu já lhe disse. Não a conheci. — A cópia de Graham sorriu, torto. — Sente falta dela ?
— Penso em minha família todos os dias. Todos eles.
— Sente a minha falta ?
Hannibal estreitou os pequenos olhos cor âmbar. Meneou calmamente a cabeça para o lado, encarando o outro a sua frente. Recordava-se de Will como aquela vez em que o mesmo o manipulou para que acreditasse estar ao seu lado, pois era sua aparência favorita. A sedução, a manipulação, a traição e o preço pago. Os cabelos cacheados devidamente arrumados. Roupas mais elegantes e uma loção pós-barba com um cheiro melhor – pois francamente, a que costumava usar, causava uma irritação nas narinas do mais velho de tão ruim. Particularmente ele achava que os óculos usados por Graham estragavam sua aparência. Escondiam os incrivelmente belos olhos azuis. A tonalidade deles nem sempre eram como os céus, às vezes turquesa, outrora verdes, uma miscelânea de nuances.
— Mais do que pensei que sentiria. — Era verdade. Hannibal encontrava sustento somente em estar na presença do outro.
— Você acha que ele também sente a sua ? — A cópia se referia ao verdadeiro William. — Pensa muito nele ?
E foi nesse momento que ele decidiu sair de seu palácio da memória, e trancar as portas daquele cômodo para sempre. Era importuno quando sua consciência lembrava-o que aquilo não passava de uma simulação. E por mais que sentisse falta ou pensasse muito em Graham, era irrefutável a sua sentença. Ele não iria mais o procurar. Após muito ponderar sobre o que fazer, o seu veredito foi deixa-lo livre. A sua compaixão por Will era um tanto inconveniente. Mas ao contrário de Lecter, ele ainda poderia seguir uma vida sem precisar se esconder ou correr da polícia. E isto foi provado quando conseguiu arranjar uma esposa.
O ato desesperado de se entregar para o FBI depois de Florença e Fazenda Muskrat só salienta o fato de ter se tornado um dependente do outro. Hannibal deixou que a relação excedesse os limites, e ganhou como consequência um ponto fraco. Um ponto extremamente frágil. Quando o assunto era Will, até mesmo ele, que era consideravelmente uma pessoa bem alinhada, perdia as rédeas.
Não se pode viver com ele, não pode viver sem ele.
O único consolo era a noite em que os dois mataram Francis Dolarhyde. A junção de almas, a excitante dança sincronizada coberta pelo sangue fresco, a troca de olhares selvagens e cobertos por desejo. Ultrapassava qualquer tipo de declaração de afeto. Ali ele soube, que mesmo longe, a alma de Will ainda lhe pertenceria. E a sua, estaria sob posse dele. Mas aquilo não era tudo. Ele queria e precisava que a transformação de Will fosse completa. O cordeiro se transformando na besta. E o único modo era fazer que o mesmo o acabasse com a vida de Hannibal.
Se posicionou estrategicamente na beira da falésia. Era um recado dado e uma oportunidade única. Se fosse para enfim liberar a verdadeira forma escondida por tanto tempo dentro de Will Graham, sua morte valeria a pena. Ele sabia que se não fosse desse modo, jamais que o outro teria coragem para aniquila-lo. Só não estava em seus planos, o fato de Will também se jogar junto a si. Um final digno de Romeu e Julieta, qual tiveram um amor sincero, que lutou contra todas as adversidades, quebrou barreiras, resistiu a todos os males e no final recorreu à morte quando não conseguiram ficar mais juntos.
Mas a história entre Will e Hannibal não era nada bonita, para muitos. Era marcada por uma trilha de sangue e corpos. Batalhas, dualidades e tragédias. Uma união fadada à desgraça. Uma loucura compartilhada a dois. Todavia, Hannibal não encarava as coisas desse modo. Sempre via o belo no feio. Por trás de toda aquela dor provocada por ele mesmo, conseguiu preencher as lacunas do cerne de William, enxergando a grandiosidade por trás da casca débil exposta. Naquela noite, todo o seu ser vibrou. Não só conseguiu que o de olhos azulados matasse alguém, como participou disso.
Era tudo o que sempre tinha desejado. Para eles dois.
Apesar do ataque, ser jogado contra o mar rochoso, ter ficado gravemente ferido, triunfou silenciosamente. Foi uma batalha vencida depois de muitos anos. Uma da qual abriu mão após abandonar o corpo inconsciente de Will e fugir com Chiyoh até a Ásia. Precisamente, Japão. Talvez fosse egoísmo de sua parte. Mas se ficasse, correria o risco de voltar para o Hospital Estadual de Batilmore para Criminosos Insanos. E francamente, ele já havia cedido muito de seu tempo para aquele lugar mesquinho. A ideia de ficar confinado que nem um animal não lhe apetecia. Hannibal ainda pensou em ir atrás de Will. Mas ele parecia feliz com sua outra vida, e não com que a Lecter escolhera. Agora ele tinha uma esposa, uma família. Aquilo que Hannibal jamais poderia oferecer, não depois do que fizera a Abigail. E pela primeira vez em anos, aceitou a rejeição de Will e decidiu seguir em frente.
Escolheu a Ásia por conta de sua tia, uma velha paixão não-correspondida do passado. A conhecera enquanto buscava vingança pela morte de Mischa.
'Eu amo você, Lady Murasaki.' Disse enquanto se aproximava da mulher.
Ela abriu o olhos e se afastou das mãos dele, cobertas por sangue.
'E o que restou em você, que seja capaz de amar !?'
Seu palácio mental também a abrigava. Por muito tempo a mulher tinha sido a sua pessoa preferida no mundo, até Will aparecer. Porém, após finalmente conseguir se vingar dos homens que assassinaram sua família e Mischa, o coração de Hannibal entrou em um longo inverno e se perdeu. Murasaki acabou se apaixonando, mas não suportou o ver nesse estado e voltou para casa, em Hiroshima. Apesar de a considerar muito, não tinha planos de a procurar. Chiyoh possuía uma casa em Kioto, e lá eles ficaram. Precisou modificar sua aparência, pintando os cabelos dourados de preto, deixou-os crescer, agora usava lentes de contato verdes e barba por fazer. Engordou um pouco, deixando o rosto menos esguio.
— Nós poderíamos ir até a estação de Tokyo, Hannibal. — Chiyoh usou o nome de batismo, ao invés do falso, por estarem sozinhos. — É outubro. As flores Higanbana já estão por lá.
— Higanbana ? — Questionou.
— Sim. São muito populares aqui no Japão. Possuem até uma lenda. — Disse enquanto soltava os cabelos negros, que antes estavam presos em formato de 'coque'. — Um duende chamado Manju, era responsável por fazer as flores florescerem, enquanto Saka, as folhas. Mas eles nunca conseguiam se encontrar, pois a planta nunca dá flores e folhas ao mesmo tempo. Os dois estavam curiosos sobre si mesmos e queriam se encontrar, conhecer um ao outro. Desobedeceram as ordens dos deuses e marcaram um encontro. Por causa dessa desobediência, os dois duendes foram punidos por toda a eternidade, ficando separados. Por esse motivo, essa flor é associada à saudade e perda, abandono e memórias. Acredita-se que se você encontrar uma pessoa que nunca mais verá de novo, essas flores irão crescer em seu caminho.
Hannibal pareceu pensar muito. Chiyoh apenas observou, sorrindo. Ela sabia o porquê de estar pensativo.
— Higanbana é Lírio da Aranha Vermelha, na língua ocidental. — Ainda sorrindo, a mulher ditou devagar.
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Aria Da Capo de Bach, preenchia o cômodo. A cada nota tocada, Lecter sentia seu corpo flutuar. A melodia combinada perfeitamente com os cortes realizados na carne macia. Tempero fora usado, o fogão ligado e a carne preparada. Montou estrategicamente e artisticamente a entrada principal. Com o tempo restante, dedicou-se a preparar a sobremesa. Um sanguinaccio dolce, o mesmo que fizera enquanto estava encarcerado. Mas desta vez sua receita incluía sangue, humano. Em fogo baixo, misturava o chocolate preto e o líquido carmim, até que ficasse homogêneo. Esperava que o sangue não fosse tão ruim quanto o dono proveniente. Um adolescente descortês que insistira em fumar bem em cima da cara de Hannibal. Crime teria sido deixa-lo vivo. Nada fora jogado fora, tudo reaproveitado. Infelizmente só os pulmões tiveram que ser descartados, uma lástima. Hannibal Lecter podia ser considerado insano por alguns, mas não ao ponto de comer um pulmão quase necrosado.
Ele podia mudar de país, mas o costume de dar festas mórbidas mudava junto.
Estavam no auge da noite. Todos os convidados se divertindo, comendo os tira-gostos e bebendo vinhos importados. Hannibal, sendo prestigiado por seus dotes culinários. Foi quando Chiyoh, o puxou para fora da propriedade. Os dois se distanciaram um pouco da casa, e conferiram se nenhum convidado havia os seguido.
— O que têm tanta urgência que foi preciso me tirar de lá, para ser dito ? — Perguntou, curioso.
— Foi a senhorita Du'Maurier. Ela estava vigiando a propriedade de Will, quando me ligou desesperada. — A oriental estava com o semblante atordoado. — Ela não encontrou movimentação na casa e achou que ele tinha saído para comemorar a virada de ano.
— E então ?
— A porta da casa estava aberta, ela entrou. — O nervosismo estava aparente. Nem mesmo Chiyoh saberia como Hannibal iria reagir a isto. — O Will...
— Estou ouvindo. — Lecter disse, impaciente. Ele sabia que pelo modo que a mulher estava enrolando, deveria ser algo sério. E não estava gostando disso.
— Will tentou se suicidar na noite de virada do ano, Hannibal.
