Ela era tão leve que Sesshoumaru logo se preocupou quanto ao seu peso e se estava saudável, naquele orfanato não pareciam prezar pela saúde das crianças que ali moravam. Subindo a escadaria principal com a menina adormecida em suas mãos, o youkai pensava que não havia outro jeito. Deixaria Rin passar a noite em sua mansão para se acostumar com o lugar, pelo menos teve tempo de mostrar uma parte da mansão para ela.

Deixou-a em cima da enorme cama de casal de uma das principais suítes, embrulhando-a com o cobertor mais quente que a governanta achara por lá. O que colocou no suco de morango era uma droga que só tinha efeito em humanos por ser extremamente leve, era mais ou menos um remédio para dormir e Rin só acordaria um dia depois, mas sentiria muito frio enquanto dormia e esse era o efeito colateral. Sesshoumaru não era mestre em relacionamentos sociais, disso todos sabiam, mas para conseguir o que ele queria sabia contornar todos os limites morais das relações.

Observou-a dormir por alguns segundos, apreciando a aparência angelical que a menina tinha. O cheiro suave e doce finalmente estava adentrando o local que Sesshoumaru mais gostava em Tóquio, e perceber que ao seu redor possuía um cheiro tão tranquilizante o deixava mais seguro sobre o que iria fazer. O longo cabelo da menina estava preso em uma trança de lado e, por algum motivo desconhecido, o youkai se sentou na cama e a desfez para que o longo cabelo escuro contrastasse com o branco intocado dos travesseiros e lençóis. Seus conflitos internos já haviam cessado desde que decidiu o que faria para que a menina não se afastasse dele.

Não era estúpido.

Rin estava começando a ver o mundo, não seria anormal vê-la interessada mais em seus estudos do que o próprio Sesshoumaru. Um pensamento arrogante, ele sabia, mas necessário. Aquela menina era o tipo que quando cresceria logo arranjaria diversos pretendentes.

Ela tem todas as qualidades necessárias.

Dedicada, inteligente, esforçada e pura. Era isso que importava para o youkai... e por isso tomou a drástica decisão de adotá-la.

Deixou um abajour aceso antes de sair da suíte, deixando a porta entreaberta. Por ser perto da suíte principal da mansão, Sesshoumaru escolheu aquele lugar para ela ficar por motivos óbvios. Foi inteligente em não deixar que ela fosse de volta para o orfanato, e ele não chegou adiantado para buscá-la. Até se atrasou, afinal, a reunião que havia marcado com a diretora do lugar preencheu sua tarde.

Se fosse uma pessoa normal, a burocracia seria maçante.

Mas eu não sou um qualquer.

Ele era o imponente Sesshoumaru Taisho, intimidação e retaliação era com ele mesmo. O Japão inteiro sabia disto, menos aquela menina que dormia a poucos passos de sua suíte principal. Como sempre, retirou a camisa social de seda negra enquanto pensava diante da lareira acesa. Não podia negar que a desejava.

Não, Sesshoumaru. Você não a deseja.

Rin precisava de alguém para servir de tutor pois ela não iria longe caso continuasse desamparada.

Fiz porque reconheço seus méritos.

Era o que ele preferia pensar, a verdade era um pouco diferente do que o próprio pensava estar fazendo. Respirou fundo tentando acalmar suas reações corporais diante daquela menina tão inocente, aquilo despertou algo incompreensível dentro dele.

Você tem que se acalmar.

Não podia deixar o seu instinto youkai dominá-lo por completo, Rin ainda era nova demais para fazer aquelas coisas. Para possuí-la. Tomá-la para mim. Penetrá-la. Tê-la em minha cama. E agora Sesshoumaru conseguiu fazer sua viagem de volta para os seus sentidos mais animalescos. Aquela pele branca era tão imaculada que a vontade de manchá-la o tentou praticamente o tempo inteiro, e teve que pensar muito bem antes de ter qualquer atitude impulsiva.

Sua vontade era de rasgar aquele vestido que a deixara mais inocente ainda.

Tê-la nua em minha cama.

Mas aí sua consciência aparecia novamente.

Vou adotá-la, seria o seu pai e responsável.

Não seria fácil, disso ele sabia muito bem, mas decidiu que a presença daquele cheiro suave e doce em sua vida era necessária. Aquilo o acalmava, fazia com que todas as suas preocupações e aborrecimentos desaparecessem magicamente.

Paz.

Iria adotá-la imediatamente, o resto ele poderia se arranjar depois com aquilo.

O membro pulsou dentro de suas roupas.

Ou não.

Suspirou exausto, tudo que precisava era de um demorado banho de banheira e uma longa noite de sono. Dormiria tranquilo por Rin estar debaixo de suas asas, não teria que pensar que algo aconteceria com ela caso ficasse mais um dia vivendo desorientadamente em uma rotina nada saudável para uma menina. Sesshoumaru definitivamente não pertencia à nova geração, principalmente em relação às mulheres.

A documentação sairia o mais rápido possível, mas já tinha a autorização de ficar com Rin em sua mansão.

Sesshoumaru se permitiu um pequeno sorriso de lado.

- Nada como uma boa ameaça – resmungou baixinho abrindo a torneira da banheira. Eram tantas irregularidades no local que praticamente deram Rin de presente quando Sesshoumaru deixou claro o que iria pegar para si – Mas isso não irá repercurtir bem.

Mas quem disse que ele tinha medo de alguém?

Se é o meu desejo, assim será.

Seu membro teria que se acalmar... e se controlar.

(...)

Sentia como se um caminhão a tivesse atropelado, o corpo e a mente pesavam o suficiente para ela não se mexer. Além de estar com a sensação de que seria impossível abrir os olhos, o lugar em que estava deitada era confortável o suficiente para pensar em sair dali. Não se lembrava de ter voltado para o orfanato, pensando bem, a maciez daquele colchão definitivamente não era o seu. Lutou contra o seu cansaço e abriu os olhos remelentos, e...

...ONDE EU ESTOU?

Esqueceu até do caminhão que provavelmente passou por cima de si no dia anterior. Rin levou um susto tão grande que seu corpo foi paralisado depois de se sentar na cama. Não sabia quantos travesseiros e almofadas estavam ao seu redor, a coberta que a embrulhava era feita de peles... bem, parecia ser de verdade. Não que ela fosse boa em reconhecer esse tipo de coisa, mas era macia demais para ser sintética. Ao olhar para o próprio corpo notou que ainda vestia a roupa que visitou a mansão luxuosa de Sesshoumaru Taisho, só a sapatilha que estava ao pé da cama.

Peraí.

Rin olhou para a direita, esquerda, frente e atrás. O quarto estava completamente escuro por causa das cortinas verde-escuro, alguns raios solares atravessavam um fino espaço entre os tecidos. O coração da menina começou a acelerar, sentia a pulsação ir até sua garganta. A cama era tão grande que daria para colocar quatro Rins lado a lado confortavelmente, mas o que a deixou mais confusa ainda era hora que havia acordado. Um relógio digital estava no criado-mudo, e já passava das duas da tarde.

A aula!

O seu coração parou por causa disso. Esqueceu aonde estava, na verdade ela só suspeitava que havia dormido na mansão de Sesshoumaru, e suas dúvidas a respeito do porquê que ela havia dormido lá desapareceram no ar. Pela primeira vez havia perdido um dia de aula na Academia, e se não tivesse uma justificativa plausível colocariam uma observação na pasta dela.

Rin, sua irresponsável!

Calçou as sapatilhas de qualquer jeito, tropeçando no tapete negro felpudo do quarto. Estava escuro demais para procurar suas coisas, tinha que achar sua mochila e dar um jeito de ligar para a Academia de Kyoto justificando sua ausência. Seu coração estava saindo pela boca, tinha dado duro para entrar naquele disputado colégio e ali ela estava, dormindo como se não tivesse nada para fazer.

Aliás... como eu vim parar aqui?

- Pelos céus, o que será que aconteceu ontem? – perguntou para si ainda chocada da situação que havia se enfiado – Não lembro de nada...

Se fosse Sakura, falaria que Sesshoumaru havia abusado dela... o que Rin simplesmente rejeitava. Ele nunca faria isso com ela, até porque estava vestida e intocada. Tinha que lembrar de não abrir a boca sobre isso para a amiga senão ouviria um sermão quilométrico.

Escutou três batidinhas leves na porta, que estava entreaberta.

Rin voltou sua atenção para a pessoa que entrava no cômodo, demorando para lembrar quem era aquela mulher. O rosto oval, os olhos verde-claro e o cabelo castanho-escuro não lhe eram tão estranhos assim, mas parece que sua memória não estava lá essas coisas naquele dia.

- Srta. Rin? – perguntou polidamente, deixando a menina cada vez mais confusa. Quem é essa mulher agora? – Vim ver se a senhorita já tinha acordado. Deseja um banho relaxante? Os sais de banho que o Sr. Sesshoumaru ganha de presente da Sra. Taisho estão disponíveis... ou prefere se alimentar? Posso mandar fazer sua comida favorita.

A menina piscou algumas vezes, ainda não entendia o que estava acontecendo. Tinha uma levíssima sensação que as coisas estavam fora de ordem. Em pé no meio do quarto, finalmente sentiu a bexiga cheia.

- E-eu... - ...e agora? - ...err... qual o seu nome?

- Me chamo Satsu Ichiya, sou a governanta desta mansão – respondeu educadamente, o típico tom de voz de gente puxa-saco.

Agora que Rin se lembrou daquela governanta que a olhou estranhamente na noite anterior, já não parecia encará-la da mesma forma. Era até cômico.

Espera, não há nada cômico nisso aqui.

Viu que o quarto possuía um banheiro, sua cabeça doía insistentemente, assim como o corpo, e sua bexiga estava prestes à explodir.

- Onde está o Sr. Sesshoumaru? – perguntou desorientada.

- Está em uma reunião importante na biblioteca, Srta. Rin – respondeu em um tom de bajulação suprema – Meu senhor pediu para avisá-lo quando a senhorita acordasse, deseja comer algo...? Um banho relaxante, talvez...?

Agora entendo porque Sesshoumaru mantém os criados longe.

Sentia uma total perda de liberdade ter aquela mulher perguntando se preferia tomar banho ou se alimentar.

- Posso pedir qualquer coisa para comer? – perguntou Rin e a governanta assentiu obedientemente – Então eu quero comer torta de limão, de preferência um pouco azedinha.

A governanta assentiu novamente. Até que não era tão ruim assim.

- Deseja algo para beber?

- Humm... – Rin levou o dedo indicador esquerdo nos lábios, pensativa - ...só água mesmo. Obrigada por me ajudar.

- É o meu trabalho, senhorita – falou – Se me permite, irei até a cozinha. Darei o recado que a senhorita acordou para o Sr. Sesshoumaru. Me aguarde meia hora, está bem?

Assim que a tal da Satsu saiu do cômodo, Rin correu até o banheiro. Era tão chique que ficou com medo de quebrar os cristais coloridos decorativos sobre o balcão de mármore claro. O espelho retangular tinha as bordas decoradas em prata, pelo menos era o que parecia. Ainda admirada com a opulência do local, quase esqueceu de esvaziar a bexiga.

Abriu as torneiras prateadas da banheira quando percebeu que seu corpo ainda doía, nunca havia sentido aquela sensação. O tempo que passou dentro d'água, água gelada por sinal, a fez analisar tudo que estava ao seu redor. Nunca viu um lugar tão majestoso, parecia que aquele youkai realmente apreciava luxo e conforto. Por ter uma arquitetura diferente, era mais iluminado do que casas normais.

Será que alguém comunicou que eu faltei à Academia de Kyoto?

Provavelmente. O Sr. Sesshoumaru parecia ser muito prestativo, só não entendia porque as pessoas tinham uma opinião tão radical sobre ele. Rin resolveu se aventurar nos conteúdos dos vidrinhos coloridos do balcão da pia, jogando um que gerou imensas bolhas coloridas. Se sentiu uma criança brincando com elas, jogando água no chão e...

Espera aí.

- Eu não tenho roupa aqui – essa constatação acabou com o seu humor, suspirando em seguida – Mas essas toalhas são grandes o suficiente para servirem de lençol nas camas do orfanato.

Ouviu três batidinhas na porta do banheiro.

- Srta. Rin, sua torta está pronta – avisou a voz da governanta – Já separei uma roupa para a senhorita, estou esperando-a. Creio que vai precisar de ajuda para vesti-la.

Mas... por que eu precisaria de ajuda para enfiar uma calça?

Se enrolou em uma toalha branca e entrou no quarto, a mulher a esperava com uma caixa de madeira polida em mãos.

- O que é isso? – perguntou enquanto molhava o piso despreocupadamente.

A governanta Satsu Ichiya sorria de forma plastificada, a mesma coisa de pregar um adesivo em seu rosto e assim ficar por anos. Não confundia puxa-saquismo com gentileza, Rin já havia notado que a mulher, se dependesse dela, não estaria servindo-a. Mas eram ordens do Sr. Sesshoumaru, então não havia nada a se fazer.

O problema é saber porque estou aqui.

Se sentiu estranha, se fosse uma garota normal já teria chamado a polícia.

Sakura não pode sonhar isso.

- É a sua roupa para hoje à noite, Srta. Rin – respondeu colocando a caixa em cima de uma mesinha quadrada do quarto, mas vendo ainda o olhar intrigado da menina a governanta voltou a falar – O Sr. Sesshoumaru decidiu que, como filha adotiva, a senhorita...

...

- MAS O QUÊ?! – berrou terrivelmente chocada – Mas...? Como...? Olha só, eu não vivo em um conto de fadas. Minha vida se resume em estudar, dormir, dormir e estudar. Isso não pode estar acontecendo comigo, afinal, cadê o orfanato nessas horas? Mas... mas...

A governanta balançou a cabeça pacientemente, mas manteve-se afastada. Isso chamou-lhe a atenção imediatamente.

- As ordens que recebi foram te vestir dignamente para o casamento do Sr. Inu-yasha, Srta. Rin.

Casamento?!

Rin havia sido uma péssima garçonete reserva no noivado, e agora no casamento...

Mas...

A menina ainda estava paralisada.

- Onde o Sr. Sesshoumaru está? – perguntou decidida – Vou até ele perguntar o que está acontecendo já que você parece ter ordens para não se meter.

- Mas...! – só que a menina havia sido mais rápida do que a governanta, sem contar que esta parecia também ter ordens expressas de não tocar nela pois não se aproximou. Era basicamente o que acontecia com o Sesshoumaru e seus criados.

Rin prendeu a toalha branca entre os seios, não que fossem grandes assim, e saiu procurando o youkai pelo corredor, molhando o lugar inteiro. O cabelo molhado, e longo, terminava de compôr aquela aparência nada sedutora. Descabelada e molhada, ela definitivamente não se sentia como as meninas em sua posição se sentiriam.

Estou sendo... adotada?

Era um sonho virando realidade.

Passou por duas portas em que reconheceu ser a suíte principal que Sesshoumaru disse que dormia. Feita em carvalho desenhado, as portas eram por si só um artigo de luxo. Rin respirou fundo e nem se lembrou de bater na porta, girou a maçaneta e adentrou o enorme e luxuoso aposento. O youkai jazia sentado em uma poltrona e curiosamente mexia no celular. Era uma cena esquisita.

Sempre vestido em negro, ele levantou o olhar para ela.

- Pensei que dormiria até mais tarde – comentou casualmente, como se Rin sempre acordasse em mansões alheias todo o tempo. Pediu que ela se aproximasse com um gesto – O que achou do seu quarto?

- E-eu... - ...cadê o discurso que montei? - ...a Sra. Satsu me falou que o senhor está me a-adotando...? Isso é verdade?

Ele assentiu levemente, o olhar sério e calmo pousado na aparência descabelada dela.

- O que significa que o senhor já falou com o... o... – estava tão nervosa que nem conseguiu completar a frase.

As coisas começaram a embaralhar em sua mente, tinha que ter algo errado ali.

Essas coisas não acontecem... comigo.

- ...sim, já falei com eles e tenho sua posse agora – completou pacientemente.

'Posse'...?

Mas... oi...?

- Eles me deram tão rápido assim? – perguntou incrédula – Eu ensinei metade daquelas crianças a ler!

- Na verdade, não aconteceria assim tão rápido por causa dos documentos e do tempo que eu esperaria para ter a autorização de sua posse - ...eu sou uma propriedade...? – Mas não sou conhecido por ser paciente, Rin.

Entendi o recado.

Um ponto para Sakura.

- Então... – ela coçou o pescoço, estava um pouco sem jeito com a situação - ...vou morar aqui?

- Você já mora aqui, Rin – respondeu olhando no celular, digitando algo, e voltando a atenção para ela – Receio que tive que usar meios suspeitos para fazê-la dormir aqui. Vai descobrir com o tempo que não peço desculpas à ninguém.

- Eu não quero desculpas, só quero saber o que aconteceu – falou dando de ombros, sentando-se em outra poltrona em frente a dele – Acordei em uma cama confortável, fiquei com medo de ser um pesadelo.

- 'Pesadelo'? – ele repetiu curiosamente.

- Sim, porque aí eu acordaria no orfanato e veria que tudo não havia passado de uma ilusão – explicou como se fosse a coisa mais lógica do mundo – O que aconteceu comigo, Sr. Sesshoumaru?

- Não que precisa ser lembrado, só isso – respondeu colocando o celular no braço da poltrona – Já estudou Maquiavel? – Rin assentiu prontamente – Então não tenho mais nada a falar sobre isso.

Os fins justificam os meios?

- E esse casamento? – perguntou curiosa, estava querendo perguntar antes mas precisava ter certeza de que ele havia colocado-a para dormir forçadamente – Eu saí do banho e a governanta disse que eu precisava de ajuda para colocar a roupa.

Sesshoumaru a analisou dos pés à cabeça.

- Do banho, sim, disso tenho certeza – é uma brincadeira? Rin não era muito boa em notar o senso de humor alheio, às vezes não sabia se uma pessoa estava brincando ou não... e imaginá-lo fazendo piada era a mesma coisa que imaginar um peixe voador – Meu pai é um youkai que preserva as tradições japonesas, então o casamento será tipicamente japonês.

- Mas o casamento não é do Sr. Inu-yasha? – perguntou confusa.

- Não é bem assim que as coisas funcionam lá em casa – respondeu dando de ombros – O que importa é que teremos que ir usando roupas tradicionais, por isso a Sra. Satsu irá lhe ajudar com o quimono. Só peço para ter cuidado, o quimono que separei tem o dobro da minha idade.

Rin engoliu em seco.

- O senhor não tem um mais simples? – perguntou com receio de estragar a roupa – Lembra que me conheceu...

- 'Simples'? – ele repetiu arqueando as sobrancelhas – Olhe ao seu redor, Rin. Não gosto de simplicidade.

Percebi.

- Mas... e se eu cair? – perguntou mordendo o lábio inferior – E se eu te fizer passar vergonha?

- É só segurar em meu braço, você não cairá – Sesshoumaru falava com tanta habilidade que não havia como Rin contestá-lo – Vá se alimentar antes de começar a arrumar, Rin. Tenho que resolver uma situação ainda.

- Algum problema, Sr. Sesshoumaru? – perguntou ligeiramente preocupada, mesmo sabendo que ele é a única 'pessoa' no mundo que geraria preocupações.

- Famílias são difíceis de lidar, logo verá o que estou lhe falando – respondeu se levantando – Vou sair, mas não demoro. A Sra. Satsu irá lhe ajudar com o resto.

Rin tinha uma sensação esquisita remexendo dentro de seu peito. Gostava de ouvir sua intuição, mas a perspectiva de andar com aqueles tamancos altíssimos e ainda sendo apertada por uma obi gigante, bem, era o mesmo para pedir um tombo majestoso. Não deveria ter comido tanta torta de limão, a Sra. Satsu colocava e recolocava dezenas de tecidos do quimono. A cor de fundo era uma tonalidade muito clara de amarelo, mas as estampadas de flores vermelhas estavam por todo o tecido. Era tão delicado que Rin não tinha coragem nem se tocar no tecido. A obi vermelha eram completamente lisa, mas o pequeno cinto que passava em cima dela era feito de ouro trabalhado para parecer raízes de plantas.

Rin sorriu quando viu aquilo, era bem a cara de Sesshoumaru lhe mandar algo para vestir que tenha a ver com jardinagem.

Ele parecia ser muito, mas muito prestativo.

Não entendia como as pessoas poderiam ter medo dele.

Não se reconheceu quando percebeu que aquela menina do espelho era seu reflexo, era a mesma coisa de pensar em sonhos e depois jogar em cima da realidade. Agora ela tinha uma casa para onde voltar, alguém para lhe amparar e até mesmo quimonos...

...quantos anos será que Sesshoumaru tem?

Era uma dúvida considerável.

- Sra. Satsu, quantos anos o Sr. Sesshoumaru tem? – perguntou enquanto a governanta terminava de amarrar sua obi, jogando um pequeno travesseiro dentro dos tecidos avermelhados.

- Olha, Srta. Rin, eu não posso lhe dar a certeza de uma resposta – começou respirando pesadamente por causa do esforço, colocar um quimono tradicional completo não era para qualquer uma. Como vou andar com essa coisa? – Mas do que conheço a história da família Taisho, o Sr. Sesshoumaru tem alguns séculos de vida.

- 'Séculos'? – repetiu assombrada, e a governanta sorriu.

- Sei que a mãe do Sr. Sesshoumaru tem um milênio de vida – informou-a rindo, era bom ver a expressão facial daquela mulher sendo suavizada – Mas eu nunca a vi, embora dizem parecer uma rainha de algum reino distante. O que eu sei, se me permite essa pequena fofoca, é que ela e o Sr. Sesshoumaru não costumam ter uma boa relação. Ela nunca mais voltou para o Japão depois que a Sra. Izayoi se tornou uma Taisho.

A família dele parece ser um drama só.

- Conte-me sobre eles, Sra. Satsu – pediu gentilmente – Não os conheço, então preciso saber o básico para não fazer o Sr. Sesshoumaru passar vergonha.

- Está bem, mas não conte ao Sr. Sesshoumaru.

- Não contarei, pode deixar – assegurou com uma piscadela, fazendo a governanta rir – E então?

- O meio-irmão do Sr. Sesshoumaru, nunca fale isso na frente de nenhum dos dois, é um rapaz bonito mas que não sabe viver sem causar problemas e certo dia encontrou uma mocinha de dezesseis anos, conseguindo um milagre: a humana engravidou. Hanyous são muito difíceis de aparecer na sociedade, não é porque escondem e sim porque a genética não permite facilmente. É algo assim. Então a Sra. Izayoi e o Sr. Taisho não se preocuparam quando o jovem Inuyasha apareceu com a namorada humana grávida, o motivo está mais que na cara. Mas isso enfureceu o Sr. Sesshoumaru porque o meio-irmão não tem responsabilidade alguma na vida, e criar um Taisho, querida, é difícil. Convivo com os Taisho desde que nasci porque minha mãe foi criada pessoal da Sra. Izayoi, então agora estão forçando o pobre do Inuyasha a ter mais responsabilidades, e essa tarefa foi passada para o Sr. Sesshoumaru.

- E o que Sr. Sesshoumaru fez? – perguntou curiosa – Sei que ele deve ter cuidado bem do assunto, nunca conheci alguém mais prestativo que ele.

Uma pausa esquisita.

- Err... a senhorita tem razão, mas depende de quem é a pessoa que o Sr. Sesshoumaru está lidando – falou cuidadosamente, mas Rin não entendia o porquê daquilo – O Sr. Inuyasha e o Sr. Sesshoumaru não dão certo, Srta. Rin. Mas devo perguntar algo que, eu sei que está fora da minha alçada, mas o que a senhorita fez para o meu senhor? Sei que não faz parte do meu trabalho, mas uma governanta sempre é a melhor amiga da patroa, assim como minha mãe se tornou para a Sra. Izayoi.

Rin piscou algumas vezes.

'Patroa'?

- O Sr. Sesshoumaru é muito gentil comigo e simpatizou com minha situação, sendo órfã e tudo mais – respondeu sorrindo, será que aquela era a realidade? – Mas não entendi o que falou sobre ser 'patroa'.

A governanta sorriu sem-graça, a plástica havia vacilado.

- É a única fêmea da casa, Srta. Rin – ...fêmea? Sou um animal? – Não me olhe assim, senhorita. É assim que os empregados que trabalham para youkais costumam falar sobre o gênero dos humanos, acabei acostumando com isso e aqui estou. O que falo sobre ser a 'patroa' é que nesse tempo todo, eu nunca vi a namorada do Sr. Sesshoumaru dormir aqui.

O coração da pequena Rin contraiu dolorosamente dentro do peito.

Namorada?

A Sra. Satsu terminava de pentear seus longos cabelos negros em um penteado elaborado, passando uma leve maquiagem em seu rosto, enfeitando o coque alto com um pente de safiras. A expressão facial da menina havia mudado completamente quando escutou que Sesshoumaru tinha alguém em sua vida, e pior...

...ele nem me falou.

Se sentiu uma idiota por ter alimentado esperanças, claro que ele não era para o bico dela. Primeiramente, Rin era humana. Segundo, havia se tornado filha adotiva do homem, como poderia pensar que algo aconteceria entre eles?

Rin respirou fundo antes de voltar a falar.

- Ele não me contou dela.

O sorriso da governanta se alargou estranhamente.

- Eles estão juntos há muito tempo, a Sra Izayoi costuma dizer que eles são perfeitos um para o ou...

- O seu trabalho... – a voz de Sesshoumaru adentrou o quarto, elas só notaram a presença silenciosa do youkai naquele momento. Mas algo Rin reparou imediatamente: ele não havia gostado de nada que escutara - ...é meramente vesti-la. Recolha sua opinião insignificante para si. Saia.

N/A: Mais um capítulo saind do forno! Estou com pouco tempo, então agradeço às sempre prestativas Sotam, Lappstift (é assim?) e o resto de vocês. Obrigada! Estou no meio de uma viagem, aí tá difícil procurar por reviews por pouco tempo que estou tendo no momento. Sorry. Beijos!