Cap IV- O Que Me Tornou Mais Fria.

Um raio de Sol invadiu o quarto e refletiu diretamente para os olhos de uma Sango mais mulher do que nunca. Automaticamente fez-se um sorriso em seu rosto, só por ter relembrado da noite maravilhosa de réveillon que passara com Miroku. Por falar em Miroku... Onde ele estava?

- Miroku? – a mulher arregalou os olhos e o procurou por todos os cantos. – Não pode ser... Ele não pode ter sumido de novo... – a feição de Sango mudara para algo melancólico.

Inconformada com o sumiço do homem ela encostou-se na cabeceira da cama e abraçou as próprias pernas. Mas seu coração disparou de felicidade ao ver seu amado entrando no quarto por si só com uma linda bandeja de café da manhã.

- Mesmo depois de acordar continuas linda! Bom dia, princesa. – Beijou-lhe a testa e deixou a bandeja no criado mudo perto da cama.

- Eu podia jurar que tinha sumido de novo... – o suspiro de alívio da mulher foi tão forte que qualquer um perceberia que estava realmente preocupada.

- Jamais faria isso com você... É que eu costumo acordar cedo, então resolvi fazer um agrado a você.

- Nossa... Como consegue ter acesso a cozinha do Cruzeiro?

- Ahn... Digamos que isso é uma artimanha que não posso contar se não acaba o encanto. – Ele sorriu para sua amada.

- Hm, to achando você muito bonzinho para ser de verdade. Será mesmo que não estou num sonho? – Sango parecia estar hipnotizada por Miroku.

- Bom... Se for pelo menos estamos juntos nele, não é verdade? É sinal de que pensa em mim. – o rapaz não resistiu em dar um selinho na moça. – Mas agora vamos comer?

- Claro, meu amor!

Era surpreendente como o modo de ser daquela mulher que não acreditava no sentimento dos outros havia mudado tanto. Tão surpreendente quanto a mudança do homem que Miroku era antes de conhecer Sango...

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Definitivamente Miroku virou o hobby predileto de Sango nos últimos 10 dias que faltavam para terminar o Cruzeiro. Às vezes, quando o casal se esbarrava em Shima, Miroku procurava se afastar cada vez mais, talvez para evitar brigas com a sua amada, quem sabe... Ele parecia valoriza-la mais que tudo, parecia que aqueles 10 dias eram os últimos em que estaria com Sango, e ela percebia esse jeito do Miroku, mas relevava, o importante é que estavam juntos e ela estava sentindo uma felicidade que jamais sentira depois que seus pais e irmão faleceram.

Nove dias haviam se passado rapidamente ao ver dos pombinhos, no dia seguinte já iriam desembarcar, mas mesmo assim procuravam aproveitar cada segundo da viagem.

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Todos ali presentes levantaram para aplaudir o grupo de bailarinas que acabara de se apresentar no salão de atrações. Aplaudiram com muito gosto, pois aquela tinha sido a última apresentação da viagem. Todos iam desembarcar logo de manhã cedo.

- Você gostou da apresentação, amor?

- Adorei, foi linda! – Sango respondia Miroku diante da multidão ainda aplaudindo. – Pena que tudo acaba amanhã...

- Esquece isso, vamos aproveitar cada segundo, certo? – o homem a abraçara por trás e beijara seu pescoço docemente. Aproveitou a proximidade para sussurrar ao seu ouvido. – Eu te amo, Sango.

- Eu também te amo, Miroku... – aquela proximidade toda estremecia o corpo da mulher e ela amava isso.

- Nunca se esqueça disso, não importa o que aconteça...

- Nossa! Você tá falando como se esse fosse o último dia que estaremos juntos... Não é, certo?

- Você realmente acha que é isso que eu quero? Nunca... – o rapaz agora estava virado de frente para sua amada, abraçando-a pela cintura.

- Então você vai desembarcar comigo, nos casaremos e teremos muitos herdeiros de nossos bens...

O homem não respondeu sua amada porque estava olhando para o capitão como se tivesse que sair dali naquele momento. O capitão começou a se aproximar do casal e Miroku apenas sorriu e puxou Sango. – Temos que sair daqui.

- Por... Por que isso de novo? – obviamente não era a primeira vez que Miroku estava fazendo isso.

- Só venha comigo, amor. – ele acelerava os passos e quase que a moça não conseguia alcança-lo.

Finalmente chegaram ao lado externo do navio, estava ventando bastante e a mulher estava com frio. Como todo bom cavalheiro o rapaz tirou seu paletó e cobriu as costas da friorenta Sango.

- Obrigada, amor... – ela beijou-lhe os lábios ternamente, mas logo parou. – Mas por que corremos tanto até aqui?

Antes mesmo do rapaz poder responder um grupo de seguranças rodeou o casal e o capitão logo foi até Miroku pegando suas mãos e algemando-as.

- Eu tentei dar uma chance pra você, mas não fez por merecer! – o capitão continuava a falar rudemente com Miroku e o mesmo só ouvia cabisbaixo. – Agora além de ser demitido vai responder por seus atos na cadeia!

Sango estava totalmente confusa. Cadeia? Demitido?

- Alguém pode me explicar que diabo está acontecendo aqui? – A mulher perdeu a paciência e gritou para o capitão, que fingiu não ouvir e levou Miroku para a cabine aonde o prederia temporariamente.

- Senhorita, venha conosco – um dos guardas disse.

- Não vou enquanto não me derem uma explicação!

- Saberá de tudo se vier conosco.

Ela não tinha outra opção a não ser ir com eles. Foi levada pelos seguranças até a cabine do capitão a bordo. Enquanto o capitão estava sentado numa cadeira de frente para ela, Miroku encontrava-se algemado dentro de uma pequena cela logo atrás do homem que o prendera. Não parava de olhar para Sango nenhum segundo sequer, seu olhar era de lamento. Enquanto ela era informada da verdadeira identidade de Miroku não trocou um olhar sequer com o homem.

- Então, senhorita Sango. Miroku era um funcionário do Cruzeiro fazia 4 anos. Mas nos 2 últimos anos recebemos reclamações e até denúncias de senhoritas que foram enganadas por ele, assim como você.

- Não... – sua voz já estava extremamente rouca de tanto que segurava o choro.

- Infelizmente sim, senhorita. Esse rapaz seduzia as mulheres com o álibi de um jovem rico, pegava seus dinheiros e diamantes que elas traziam. Ele fazia isso no dia do desembarque e depois dizia para elas que não tinha sentimentos reais para desembarcar e viver com elas.

Cada palavra parecia uma facada no coração da moça. Já havia conhecido Kuranosuke e agora Miroku também a iludira, o caso atual a machucara muito mais já que havia realmente se apaixonado por Miroku e perdido sua virgindade tão valorizada com ele. Sem perceber o desanimo da moça o frio capitão continuou falando.

- Ele jurou parar com isso, mas ano passado o fato se repetiu e agora novamente. Me perdoe pelo transtorno. Sua estadia no Cruzeiro vai ser totalmente por nossa conta, para nos redimirmos do tal transtorno e... – sua voz foi abafada por um grito.

- Se o que você queria era o meu dinheiro por que não me avisou? Eu preferia ter dado tudo de uma vez do que sentir esse desgosto que estou sentindo agora! – Sango já não estava se importando com as incontáveis lágrimas que escorriam por seu rosto enquanto berrava.

Ela foi até a cela e ficou de frente para Miroku o olhando com total ódio e fúria.

- Não vai ser com cadeia que você vai pagar o que fez pra mim e para as outras mulheres... Você vai apodrecer por dentro. Você morrer sozinho... Nunca vai saber o que é ter uma vida digna e feliz... Seu maldito! – o desespero lhe subiu a cabeça e não resistiu em estapear o rosto do rapaz que ouvira tudo calado apenas a olhando com a velha cara de arrependimento.

- Eu não iria fazer isso com você... Eu mudei desde que te conheci. Eu te amo. – talvez a ardência do rosto junto com a amargura em seu peito fizera com que sua voz saísse baixa.

- Cala a boca! Não ouse dizer mais nenhuma mentira para mim! – somente quando o seu berro passou a incomodar os próprios ouvidos a mulher resolver falar num tom mais baixo. – Você não tem noção do quanto eu te odeio...

Ela saiu dali tão rápido quanto uma flecha, o capitão até tentou impedi-la, mas reconheceu o sofrimento da mulher. Miroku não estava conformado com tudo que tinha acontecido, só sentia uma forte dor no peito por ver o sofrimento de sua amada e ouvir as coisas horríveis que dissera para ele. O homem estava mais preocupado com a saudade e o arrependimento que iria tomar o lugar de Sango, não estava nem mais ligando com o fato de ser um homem preso.

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O dia mal tinha clareado e Sango já não estava mais na cama. Ela não pregara o olho a noite toda, não conseguia associar tudo o que tinha acontecido com os 9 dias maravilhosos que teve a bordo, as lágrimas já vinha involuntariamente e ela nem tentava lutar contra essa fraqueza.

Todas as malas estavam prontas. Na cama ainda tinha o cheiro de Miroku, no fundo ela não queria sair dali, mas precisava virar essa página de vez.

A roupa que desembarcara naquele dia era preta, demostrando o luto em homenagem a sua alma morta que iria carregar a partir de agora. Se antes de embarcar ela já era uma mulher fria, agora ela passaria a ser muito mais.