Capítulo 4: Melancólico, miserável... e descrente.

"Você já se sentiu como se precisasse de alguém?

Você se sentiria sozinho em um mundo como este?

Você já se sentiu como se precisasse de abrigo?"

Adela havia feito seu trabalho e agora voltava para casa. Estava exausta por descer todos aqueles degraus e naquele momento pensava muito no escalda-pés que faria quando chegasse em casa. Pensava nisso e no delicioso banho que tomaria, seguido do jantar. Se não estivesse tão cansada, faria um passeio pela praia. Já tinha um tempo que não fazia isso, afinal de contas não podia deixar Ajax sozinho.

Após todas suas vontades realizadas e um menino travesso já no vigésimo sono, ela finalmente deitou em sua cama. Porém não tinha tanto sono assim. Acendeu um pequeno lampião e começou a ler um livro. Mas logo descobriu-se sem vontade de fazer aquilo. Estava muito distraída para leituras.

Acontece que estava num verdadeiro estado de euforia com seu novo trabalho no Santuário. Não imaginava que as coisas ali fossem tão bonitas. Apesar de a tal dona Agathe não ser exatamente como ela esperava que fosse ela era até divertida. Um pouco inconveniente, é verdade, mas divertida. Só mesmo aquela matrona pra lhe recepcionar falando dos "homens lindos do Santuário". E isso era algo que ela não podia negar. Havia mesmo muitos homens bonitos ali. Mas não estava trabalhando lá com esta intenção. Queria apenas proporcionar algo bom para o futuro do irmão.

Queria que ele fosse tão forte e gentil como seu pai e tão bom e generoso como o cavaleiro de gêmeos havia sido com ela, quando machucou a mão enquanto cuidava das flores.

Mas se ele era mesmo assim, qual o motivo de haver tanta tristeza em seu rosto? Qual o motivo para tanta melancolia? De acordo com o que diziam na vila, de todos que voltaram a vida, ela fora o único a voltar diferente daquele jeito.

Bastante intrigante, mas, não era da sua conta.

Acomodou-se na cama e buscou o sono.

XxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxX

Alguns dias depois.

As coisas pareciam um pouco melhores para Saga. Conseguia ter um sono decente, conseguia trabalhar sossegado e arriscava até a dizer que estava de bom humor, apesar de não demonstrá-lo.

Naquele dia havia terminado o trabalho antes do final da tarde e não havia muita coisa para fazer em outros lugares e ele não queria voltar pra casa. Uma caminhada sem rumo certo era uma boa idéia. Ficar longe da agitação do Santuário, do barulho da vila, das pessoas lhe cumprimentando e lhe olhando com cara de pena. Queria ficar sozinho. Como sempre.

Havia um lugar, afastado dali onde ele gostava de ir. E para lá ele foi.

Era surpreendente como às vezes fica isolado e longe de tudo lhe fazia bem Punha a cabeça no lugar, renovava suas energias, pensava na vida.

Ultimamente estava com a sensação de que algo aconteceria em sua vida. Parecia ser algo bom, mas o que poderia ser bom naquela sua vida? Era difícil até para ele mesmo tentar descobrir.

Caminhou pelas areias brancas da praia sem se importar com os grãos que entravam nas botas da armadura. Afastou-se do movimento o máximo que pode. Subiu com facilidade em algumas pedras que haviam ali e lá ficou, sentindo o vento bater em seu rosto, ouvindo apenas o som das ondas do mar.

Fechou os olhos para aproveitar aquela sensação boa. Costumava ir naquele lugar só por causa disso. Eram exatamente aquelas duas coisas simples que lhe acalmavam e que lhe davam forças para conseguir resistir na sua luta diária. Mas ele próprio sabia que somente aquilo não lhe bastava. Principalmente por causa daquele imenso vazio no seu peito. Vazio esse que ele próprio sabia que tinha de aturar, já que sempre buscava isolar-se. Como fazia agora.

Ali ele ficou, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo, até o cair da noite. Não estava tão tarde, mas sentiu que deveria ir.

A brisa permanecia fresca, ao menos para ele. As ondas que quebravam mais fortes agora, graças à maré cheia, espalhavam pequenas gotículas pelo ar. "Como é gostosa a sensação que elas causam quando entram em contato com a pele", pensou ele caminhando de volta pelas areias brancas. Achava que estava sozinho por ali e se surpreendeu ao encontrar uma segunda pessoa. E não estava tão perto do movimento do Santuário assim. Estranho.

- Senhorita Adela?

- Mestre Saga. Ahn... Boa noite. – disse ela também surpresa.

- O que faz por aqui? Quer dizer... Algum problema?

- Não senhor.

- É que não é fácil ou costumeiro encontrar moças como você por aqui.

- Moças como eu? Não entendi. O que o senhor quis dizer?

- Desculpe-me, eu... Eu não quis ofendê-la em momento algum. Expressei-me mal. O que eu quis dizer foi...

- Está tudo bem mestra Saga. Não precisa explicar. Sei que não tinha essas intenções.

- Não, eu...

- Mas e o senhor? Não sabia que cavaleiros de ouro faziam rondas na praia. Eu não costumo vê-los por ai.

- Não costuma ver um cavaleiro de ouro por ai?

- Não com a armadura dourada.

- Eu não estava fazendo ronda. Estava apenas buscando um lugar pra ficar só. Mas já estou de volta pra casa. E se me permite dizer, acho que deveria fazer o mesmo. Não se sabe o que poderia acontecer com uma moça sozinha por aqui.

- Claro. Eu já estava indo.

- Eu a acompanho.

- Obrigada.

- Você parece com frio.

- Um pouco. Mas é só esfregar um pouco os braços que passa.

Saga prontamente puxou a capa branca que cobria suas costas e envolveu as costas de Adela para aquecê-la.

- Mas e o senhor?

- Não estou com frio. Não se preocupe. – disse ele começando a caminhar sendo seguido por ela.

- Obrigada. Ahn... Posso lhe perguntar algo?

- Pode.

- O senhor disse que procurava um lugar para ficar só... Por que está sempre sozinho e triste? Quer dizer, o senhor é um homem tão bom e tão generoso, mas vive fechado e melancólico o tempo todo. E é tão sério. Dizem pro ai que o senhor não era assim e que de todos que voltaram a vida o senhor foi o que voltou mais diferente, como se carregasse um peso enorme.

"E carrego". – pensou ele um tanto incomodado com aquela pergunta. – Bom você já ouviu várias histórias sobre nós. – disse ele dirigindo-se a um tronco que havia ali.

- Sim senhor. Muitas.

- Qual delas mais assustou você?

- Ahn... Eu acho que... – começou indo sentar-se ao lado dele – Talvez... Bom, ouvi dizer que o mestre de Câncer pendurava nas paredes de sua casa a cabeça dos homens que matava.

- Isso é verdade, mas não era nada além de um capricho vaidoso dele. – Saga disse mais para si mesmo do que para Adela. – Aquele insano.

- De qualquer forma, é assustador.

- E sobre mim? Que historias ouviu?

- Que o senhor não era como é hoje.

- E o que mais?

- Que durante a Guerra Santa o senhor comandou a invasão das Doze Casas ao lado de mestre Kamus e mestre Shura.

- Isso também é verdade.

- Mas eu não ligo.

- Não liga? –perguntou surpreso olhando para ela

- Não.

- Mas como não?

- Não sei. Mas quando olho para o senhor, algo me diz para que eu não me importe. Algo em seus olhos. Por isso não consigo entender como o senhor pode ser tão bom e generoso, mas viver imerso em tristeza e melancolia, como se...

- Eu fiz coisas terríveis no passado. Piores que as de todos os outros onze. Isso faz de mim um homem marcado. E com muitos pecados para pagar.

- Pode haver pecados, mas ainda consigo enxergar muita bondade no senhor.

- Bondade? O que menos fiz no passado foram bondades. Eu fui um verdadeiro monstro. Você deveria ter medo de mim agora.

- Mas eu não tenho. Não importa o que diga mestre Saga, eu sei o que vejo quando olho para o senhor. E não é um monstro. Disso eu tenho certeza. – disse ela tocando-lhe levemente a face.

Mais uma vez Saga surpreendeu-se com ela. Sua sinceridade. Sua delicadeza. Estava momentaneamente em choque. Mas a falta daquele toque delicado o fez acordar.

- Acho melhor irmos. Está bem tarde e tanto eu, como a senhorita temos trabalho amanhã. – disse ele levantando-se.

- Claro.

- E o seu irmão?

- Está dormindo.

- Você o deixou sozinho em casa?

- Não. De jeito nenhum. Ele passou a tarde toda brincando com o filho de uma amiga, ficou cansado e acabou dormindo por lá. E ela não me deixou acordá-lo para levá-lo para casa. Então decidi fazer algo que há muito tempo não fazia.

- Caminhar na praia?

- Sim senhor.

- Quantos anos ele tem?

- Está com sete anos.

- Parece ser um bom menino.

- Um pouco travesso algumas vezes, mas é um bom garoto sim.

Encerraram a conversa por ali e só voltaram a falar algo novamente quando ela quebrou o silêncio.

- Está tudo bem agora mestre Saga. Posso ir para casa e o senhor para a sua.

- Não. Eu faço questão de levá-la até sua casa. Já estamos em Rodório, mas lembre-se que está tarde. Não se pode confiar em todos. Prefiro deixar a senhorita em segurança.

- Adela. Apenas Adela.

Todo bem. Eu prefiro deixá-la em segurança Adela.

- Obrigada. Eu moro na próxima alameda.

Tudo nas ruas estava quieto e somente os dois caminhavam por ali. Saga tentava não deixar transparecer, mas desde o momento em que ela lhe tocara o rosto ele sentia-se alvoroçado.

- Ali, minha casa é aquela. Muito obrigada pela gentileza, mestre Saga.

- Não precisa me agradecer. Boa noite Adela.

- Boa noite senhor.

Ela entrou na casa e fechou a porta. E só então notou que ainda estava enrolada na capa dele.

- Mestre Saga espere! Sua capa!

Mas ele já não estava mais lá.

Ela sorriu levemente e enrolou capa. Devolveria a ele no dia seguinte.

XxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxX

Saga chegou em casa ainda desnorteado.

"Pode haver pecados, mas ainda consigo enxergar muita bondade no senhor."

Não podia ser verdade. Aquilo deveria ser gozação. Mas se era gozação, por que sentia-se tão perturbado com aquilo? E por que sentia que Adela dizia a verdade? Será que, além de melancólico e miserável, tinha se tornado um descrente também? Que não acreditasse mais em si próprio tudo bem, mas quando foi que deixou de acreditar em pessoas como Adela? E seu irmão... E seus amigos...

Quando foi que ele se perdeu dentro de si próprio?

Quando foi que ficou cego para as verdades que todos tentavam lhe mostrar?

Notou então quer ainda estava no escuro total em casa.

Acendeu a lamparina e tratou de remover a armadura. Nem notou a falta da capa em suas costas. Serviu-se de um copo com água e algum tempo depois estava de banho tomado e comia algo na cozinha. Sabia que aquela seria mais uma noite sem sono, principalmente porque as palavras de Adela não lhe deixavam em paz.

Sentiu seu coração aquecido e por um instante a solidão havia lhe deixado em paz. Sentiu-se maravilhosamente bem ao lado dela. Queria muito poder sentir tudo aquilo de novo e ter a certeza de que um momento como aquele seria duradouro. Chegou até a pensar em Adela como sua companheira, mas sabia que pesar tudo aquilo lhe era proibido. Era completamente errado.

Começou então mais uma batalha com seu subconsciente.

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O dia mal havia amanhecido e o movimento na vila era grande. Em sua casa Adela preparava o café da manhã para ela e o irmão, quando ele acordasse e voltasse para casa.

Na casa de Gêmeos, Saga não tinha tanta sorte assim.

Passara a noite toda acordado, compenetrado com sua batalha pessoal sobre o certo e o errado. Estava péssimo e cansado e não tinha nenhuma solução ou conclusão sobre o que fazer. E não estava nem perto de conseguir uma coisa ou outra.

XxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxXxX

Adela finalmente saía de casa, após organizar tudo e arrumar o café da manhã de Ajax. Trazia um pacote nas mãos e precisava entregá-lo antes de fazer qualquer outra coisa. Por sorte a pessoa que procurava estava caminhando ali perto.

- Mestre Saga, espere.

Continua...


Desculpem a demora pela postagem meninas, meu setembro e meu inicio de outubro foram bastante turbulentos... Meus pais saíram de férias e eu fiquei cuidando da casa, quando eles voltaram, eu tive semana de pós-graduação (que foi por sinal bastante conturbada), e some-se a isso problemas de família que eu prefiro não lembrar senão sou capaz de matar um.

Ok, mais um capitulo meio curtinho, mas era isso ou ficar sem um inicio decente pro próximo capitulo. Preparem-se meninas. As coisas vão começar a mudar. Vou ser boazinha com o Saga nos capítulos seguintes... Mas não posso dizer mais nada.

Becky Gemini: UAHUAHUA Na verdade não. A Adela não é tão perva assim. Tipo, na verdade ela nem pensa muito nisso, de se envolver com alguém, so quer fazer o trabalho dela. Por enquanto. UAHUAHAUA... A parte que eu mais gostei em escrever o capítulo passado foi justamente o desabafo do Kanon.

Jaque Urdile: Eu pensei em fazer os dois discutirem mais uma vez, mas seria coisa demais pra ambos. Até pq eles já tinham brigado antes, então não seria legal. Então nada melhor que fazer o Kanon pedir desculpas ao irmão. Mas na verdade, é bom ficar de olho no Kanon. Auhuahuaa

É isso meninas, espero que gostem.