19 de fevereiro de 2016 – Esmola grande

(Quinn)

Tinha um ditado que o meu pai sempre repetia: "Quando a esmola é grande o pobre desconfia." Ele dizia que era preciso aproveitar a esmola até o fim, mas se preparar e, se possível, se antecipar para o baque que vinha a seguir. Era assim que ele armava várias pequenas armadilhas nos negócios e sempre saía beneficiado. Dos inúmeros defeitos que ele tem, certamente não era isso que fazia dele uma má pessoa. Até hoje não tinha certeza se ele realmente o era, apesar de todo o tempo que não o via.

Achava que a esmola grande era a abertura que Rachel me dava desde Valentine's Day. Ela estava extra-carinhosa, me chamando sempre para dormir na casa dela, jantar juntas, fazer alguma coisa após o expediente. E o sexo estava uma maravilha. Se eu sugerisse para comê-la no meio da Times Square, ela providenciaria e abriria as pernas, juro. Pode parecer um tanto quanto chauvinista da minha parte pensar assim, mas é que ela fazia naquele momento uma das coisas que sabia que eu sabia que ela não gostava porque dizia que era uma posição submissa.

Lá estava Rachel Berry-Lopez, de quatro em cima da cama, enquanto eu a estocava por trás com a ajuda do meu amiguinho. Não era sexo anal, porque Rachel tinha medo de encarar. Eu também jamais a forçaria a tal uma vez que a minha experiência com Sam em minha adolescência nessa posição não foi das melhores. Mas sim, ela estava de quatro numa posição submissa enquanto eu realizava uma pequena fantasia. Essa era a parte que eu aproveitava a esmola. Retirei-me quando a ouvi gritar por meu nome e me dei por satisfeita. Rachel parecia exausta, mas bem.

"Isso foi..." – ela estava ofegante quando tombou de lado na cama.

"Foi bom, mas ainda não terminamos" – ela me olhou incrédula enquanto eu me libertava do meu amiguinho e em seguida fiquei na beira da cama apontando para o meu próprio sexo – "Preciso de uma ajudinha aqui."

Rachel acenou e não demorei a sentir a boca quente dela no lugar onde precisava. Mais uma vez ela estava numa posição submissa, de joelhos, enquanto trabalhava no meu orgasmo. Poderia até pensar melhor a respeito, mas àquela altura os meus pensamentos voaram para um lugar longe e tudo que me concentrava era nas ondas de prazer que ela me proporcionava. Até que cheguei ao gozo e relaxei.

"Mais algum desejo, minha deusa grega?" – disse em voz pequena e ainda assim procurava ser sugestiva.

"Vem aqui" – a puxei para um beijo carinhoso e a conduzi de volta à cama para que ela pudesse dormir nos meus braços.

Uma coisa boa em só fazer o trabalho final no semestre é que eu não precisava ir à NYU todos os dias, apesar de ter de estudar muito para concluir minha monografia. Rachel também não precisava acordar cedo porque tinha compromisso algum por aqueles dias a não ser ir fazer a peça. Aninhei a minha namorada em meus braços e dormimos.

Quando despertei, Rachel ainda estava morta para o mundo. Talvez nossas atividades tenham sido um pouco mais intensas que gostaria e por isso não quis acordá-la. Vesti o hobby dela e fui ao banheiro me lavar. Eram quase nove horas e aparentemente Santana já tinha saído para a Columbia a julgar pelos resquícios de café da manhã em cima do balcão que dividia a cozinha da sala. Tomei um banho rápido e quando voltei para o quarto, Rachel estava sentada na cama ainda procurando se situar.

"Bom dia, minha lady" – eu a beijei nos lábios.

"Nem me esperou!"

"Você estava com o sono tão pesado ainda. Não quis te incomodar" – eu a beijei mais uma vez nos lábios, então Rachel levou a mão a boca para bocejar.

"Que horas são?" – perguntou enquanto se espreguiçava.

"Nove e dezoito."

"Hummm" – se espreguiçou novamente antes de se levantar. Caminhou até o closet e pegou um roupão enquanto eu me apressava em me vestir – "Preciso malhar..."

"Está em ótima forma, Rach" – estava mesmo. Rachel nunca foi de ter músculos abdominais definidos, como eram os meus na época em que era uma cheerio, antes de engravidar de Beth. Ainda tinha barriga durinha e magra, mesmo que sem muita definição, mas era por conta da minha corrida e das abdominais que fazia por conta própria. Agora, por causa do teatro, ela procurava ficar em forma e os músculos dela começavam a se definir – "Não acha que pode dar um tempo? Talvez hoje?"

"Quando a peça acabar, talvez..." – me deu mais um beijo na passagem e saiu do quarto.

Enquanto coloquei a mesa do café (era bom estar numa casa em que as opções não se restringiam ao pacote de waffles com margarina e ao biscoito recheado). Rachel foi rápida na chuveirada e saiu do banheiro em trajes de ginástica. Geralmente essa era a dica de quando eu deveria ir embora para a minha casa ou cuidar da minha vida. Mas não antes de comer um pouco.

"Aonde você compra esse pão?" – não me lembrava daquela marca na época em que morava com Rachel e Santana.

"No mercado árabe" – era delicioso.

Havia uma colônia islâmica expressiva pelas redondezas, mas Rachel e Santana sempre tiveram receio de se aproximar por serem judias. Ao que parece, perderam tal medo. Tanta coisa mudou na casa desde que fui embora, ou melhor, expulsa. Não foram apenas os meus livros e filmes que desapareceram da estante da sala. A decoração mudou um pouco. Tinha mais enfeites espalhados pelos móveis, um pouco mais de desorganização sem necessariamente passar má impressão aos visitantes. Era possível ver coisas que gritavam também a personalidade de Santana. A verdade é que a casa tornou-se mais família, de alguma forma.

"Vai para o teatro às cinco?" – ela apenas acenou – "E o que pensa em fazer no fim de semana?"

"Nada em mente. Talvez você possa tomar conta disso" – ela sorriu sugestiva.

"Podemos passar uma tarde no museu. O que acha?"

"Seria ótimo!" – ela disse sem hesitar e foi aí que a esmola chegou ao limite. Embora Rachel até possa entrar em um museu de qualquer espécie e apreciar certas coisas, não era o passei favorito dela. Ela não era uma garota de ir a exposições de quadros, de comentar fotografia, de se interessar por história da humanidade. A não ser que o assunto fosse importante para um papel. Some isso a semana sexual incrível que ela estava me proporcionando. Alguma coisa estava errada.

"Depois do museu, a gente poderia fazer sexo ao ar livre em pleno Central Park. Eu te como enquanto você canta Marvin Gaye para mim. O que me diz?"

"Claro..." – ela respondeu de forma automática e depois caiu em si – "O quê?"

"O que está acontecendo, Rach?"

"O que está acontecendo o quê?"

"Quando a esmola é grande o pobre desconfia" – citei o ditado popular – "Não é que eu esteja achando ruim, Rachel, mas você está excessivamente carinhosa comigo. E ontem a noite..."

"Você não gostou?" – ela se assustou.

"Eu... amei, adorei... você realizou pequenas fantasias... mas Rachel, por mais que eu queira pensar que isso seja uma grande fase nossa, um Valentine's Day gigantesco, eu ainda sou uma pessoa que procura manter os meus dois pés no chão. Algo me diz que isso é o beijo antes do tapa. Então mande o tapa, por favor."

Ela me encarou e piscou algumas vezes. Tentou voltar a atenção ao café da manhã, mas também não conseguiu, o que mais ou menos confirmou a minha desconfiança.

"Slings and Arrows será gravado a maior parte do tempo em Los Angeles neste ano" – ela disparou e eu não consegui processar a informação direito.

"O quê?"

"Slings and Arrows" – ela repetiu mais devagar – "será gravada a maior parte do tempo em Los Angeles neste ano" – meu coração disparou.

"Isso significa que..."

"Isso significa que eu vou passar cinco meses em Los Angeles se contar as gravações do filme que vou protagonizar. Vou para lá em meados de abril, quando as gravações da série começam e só voltarei para casa no início de outubro, quando as gravações do filme terminarem. Nesse meio tempo, eu virei a Nova York para filmar algumas poucas cenas externas de Slings e para passar alguns fins de semana em casa."

"Há quanto tempo você sabe disso?" – meu coração estava disparado. A notícia caiu como se fosse um bloco de concreto sobre a minha cabeça.

"Confirmado?" – acenei sem ter certeza do que ela queria dizer com aquilo – "Desde janeiro."

"E você passou todo esse tempo sabendo disso e não teve a coragem de me contar?" – meu peito foi se enchendo de fúria – "Por quê?"

"Porque o nosso relacionamento já passa por uma fase delicada, Quinn, e eu temo por nosso futuro. Eu te amo muito, mas eu tenho medo, por isso que eu achei melhor adiar porque pensei que..."

"Pensou o quê, Rachel?" – bati na mesa – "Que se você me dopasse com sexo poderia me fazer aceitar qualquer coisa depois? Acha que eu sou uma imbecil que não consegue separar as coisas? Ou como um homem que só pensa com o pênis? Vai para o inferno, Rachel. Vai para o inferno!"

Levantei-me da mesa, passei a mão na minha bolsa e saí daquele apartamento. Estava louca da vida. Louca. Como ela podia? Rachel poderia se mudar para a China, para o Japão ou para o inferno. Mas ela tinha de ter me contado assim que soube da notícia em nome de coisas simplórias chamadas respeito e consideração.

Peguei o metrô em direção a minha casa. Estava possessa de raiva. Meu celular tocou. Era Santana. Não atendi. Anos de namoro com Rachel me deixou familiarizada com certos esquemas entre as irmãs. Havia momentos que Rachel pedia para Santana me ligar porque sabia que eu não a atenderia. Bom, elas teriam de arrumar outro esquema em comunicações de crise porque esse fiou manjado demais.

Cheguei em casa e encontrei Santiago desenhando qualquer coisa. Provavelmente o tal filme imaginário que ele está produzindo na imaginação. Eu não estava com paciência ou espírito sequer para falar com o meu amigo. Simplesmente fui para o meu quarto e bati a porta trás de mim. Atirei minha bolsa no chão e me joguei em cima da minha cama. Se tinha uma vantagem em morar longe de Astoria e do Queens, era essa de poder ter o meu próprio quarto e me fechar no meu próprio mundo. Santiago não era um cara muito chegado a sentimentalismos. Ele não batia a minha porta para perguntar se eu estava bem quando claramente não estava. Era ótimo morar com um homem nesse sentido.

Não quis almoçar. Fiquei enrolando na minha cama até dar a hora de ir para a Bad Things junto com Santiago. Joguei bastante água gelada no meu rosto, escovei os dentes, penteei os cabelos e fiz um rabo de cavalo. Coloquei uma roupa fresca e fui trabalhar.

"Ouvi boatos sobre a conta da Victória's Secret" – Santiago disse casualmente no ônibus – "Parece que a Bad Things fechou com a empresa, mas ainda não pode anunciar oficialmente. Imagine só a gente trabalhar junto com aquelas supermodelos? Fazer o catálogo e tudo mais? Imagine você tratando todas as fotos daquelas modelos lindas?"

"Você é incorrigível."

"Um cara pode sonhar."

Revirei os olhos e balancei a cabeça. Aquele cara ali ao meu lado, que tinha até namorada, não sei como, sonhando com supermodelos. Por outro lado era ótimo ter esse tipo de leveza, mesmo que sacana, em minha vida. Quando chegamos ao trabalho, Santiago foi direto para o departamento de criação. Era onde melhor aproveitavam os dotes artísticos dele para desenho, embora ele pudesse ser muito mais. Depois de uma parada rápida na copa da empresa para tomar o café e ver se tinha sobrado alguma coisa por lá, como biscoitos, uma vez que senti fome. Arrumei um quarto de um pacote de biscoitos de Rose, que também estagiava na empresa, só que na área de produção. Entrei na sala do departamento de fotografia e parecia haver uma pequena reunião do pessoal. Sempre que isso acontecia era porque havia entrado novos trabalhos e as tarefas precisavam ser distribuídas. Isso ou lavar roupa suja, que acontecia às vezes.

"Fabray!" – meu coordenador me chamou – "Preciso que você me acompanhe numa conversa com Liam daqui a pouco."

Acenei e o pessoal do departamento continuou em reunião. Fiquei ansiosa. Meu dia já não estava fácil depois da discussão com Rachel e agora eu iria visitar um dos patrões pela primeira vez desde que entrei na Bad Things. A produtora tinha três sócios: Liam Mortinson, Gary Abrams e Barbra Esteves. Liam e Gary são cineastas dos mais gabaritados, ao passo que Barbra é a mulher do dinheiro. Não que ela tenha o dinheiro, mas é a mulher do dinheiro e dos negócios. Liam e Gary trabalham diretamente com o chamado "alto escalão", que são profissionais fodões que tem vínculo com a empresa. São eles que fazem os filmes lucrativos, os seriados e os produtos mais importantes da Bad Things. Barbra é a mulher que negocia, que fecha os contratos grandes com uma Victoria's Secret ou com a Paramount, ou talvez com a CBS. Todo o pessoal do andar debaixo, onde eu trabalho, é o operariado.

Minha contratação foi feita pelo pessoal do operariado. Meu superior era Terry Python, que era o coordenador do departamento de fotografia e a pessoa que eu tinha de dar satisfações. Por tudo isso, acompanhá-lo para uma conversa com Liam, que eu só conhecia de vista, era razão para me deixar ainda mais nervosa. A reunião levou 15 minutos para acabar. Terry deixou um pessoal da equipe mais ou menos à toa, eu inclusive. Isso costumava ser sinal de que seríamos reservados para integrar um trabalho posterior dentro do departamento. Torcia para que fosse uma filmagem.

"Vamos?" – ele sorriu e bateu nos meus ombros.

Acenei e engoli seco. Minhas pernas tremiam ao seguir Terry até as escadas para subir a um dos escritórios dos grandes chefes.

"Oi Emma" – Terry disse para uma das secretárias – "Liam está me esperando?"

"Está sim, pode entrar."

Mais informal do que poderia imaginar. Tudo que Terry fez foi dar pequenas batidas à porta de vidro fosco antes de entrarmos no escritório que não era muito grande, mas com certeza tinha estilo. Havia cartazes dos filmes que Liam dirigiu ao longo da carreira e uma série de bonequinhos e brinquedos do filme de animação que ele roteirizou mais no início da carreira.

"Fala Terry!" – os dois se cumprimentaram como dois bons amigos – "Cara, estava pensando naquele lance que você me disse naquele dia. Sabe que faz sentido?" – disse enquanto Terry se sentava numa das cadeiras e apontou para que eu sentasse ao lado – "Falei por alto com a Barbra e ela concordou. Acho que pode rolar" – não tinha ideia do que eles estavam falando.

"Pois é. Pensa mesmo com carinho porque se rolar, acho que vai dar uma injeção de gás no pessoal" – e apontou para mim – "Bom, Liam, você queria conhecer Quinn Fabray. Aqui está ela."

"Pois é" – ele digitou alguma coisa no teclado touch embutido à mesa dele. De repetente apareceu no monitor de led o clipe da Cat Power que eu participei – "Foi você que fez a direção de fotografia desse clipe?" – eu acenei timidamente e fechei os olhos. Achei que eles fossem me demitir – "Você, uma estagiária aqui, já faz esse tipo de trabalho?"

"Bom..." – estalei meus dedos de nervoso – "Eu conheço o pessoal da The Beats e sou amiga do Lewis Gore..."

"Sim, eu conheço aquele bastardo lunático. Talentoso, mas um pouco confuso, por isso que as coisas não vão pra frente na produtora dele."

"Bom, eu fiz a fotografia do documentário do Alan, que vai ser lançado em Tribeca neste ano. E depois fiz esse clipe para eles, mas como freela!" – ressaltei ainda nervosa.

"Terry me chamou a atenção para isso" – Liam encostou-se mais à poltrona dele e parecia relaxado – "Ele chegou para mim e disse: Pô, você viu que uma estagiária nossa fez a fotografia do clipe novo da Cat Power?" – olhei espantada para Terry. Não tinha comentado que ia fazer esse trabalho com ninguém na Bad Things, exceto com Santiago.

"Esse nosso mundo é pequeno, Fabray. Já deveria saber" – Terry sorriu.

"Pois é" – Liam continuou – "Você fez um bom trabalho aqui, Fabray. Infelizmente eu nunca vi outras coisas suas, mas estive conversando com Terry e chegamos a conclusão de que não dá para manter alguém como você como estagiária aqui dentro da Bad Things" – meu coração disparou e eu abaixei a cabeça. Eles estavam mesmo me demitindo – "Acho que você deveria ser efetivada."

"O quê?" – fiquei confusa. Eu entendi o que eles disseram, mas eu me recusava a acreditar.

"Tratar foto e ajudar o pessoal do grip não é a sua, Fabray. Um dos meus trabalhos na coordenação é observar o potencial da minha equipe e teria sido muito melhor e mais fácil se você tivesse se aberto comigo, conversado mais, mas enfim. Acho que a gente não explorou nem um décimo do que pode render."

"Nós fechamos a produção de um piloto para a ABC. Comédia de meia hora a ser rodada nos nossos estúdios em Nova Rochelle. Fora isso tem algumas campanhas grandes que precisa de pessoal qualificado para participar das filmagens das campanhas publicitárias. Nós temos nossos diretores de fotografia designados, mas Terry pensa que talvez você possa assumir um dos postos dos câmeras e eventualmente fazer trabalho de assistência."

"O salário inicial é de 2,5 mil dólares mais os benefícios que você já recebe como estagiária. Mas a carga horária e de oito horas diárias" – Terry completou. Ele era o homem da burocracia dentro do nosso departamento – "Terá carteira assinada, benefício médico, um vale refeição com valor um pouco melhor. O que me diz?"

"Aceito!" – disse sem hesitar. Sair da frente do computador e colocar a mão na massa era tudo que eu queria na Bad Things. Sobretudo recebendo um salário que não era muito, mas dava para pagar o aluguel, comer com qualidade razoável, comprar roupas e pagar uma droga de passagem de trem para Lima para ver minha mãe e minha filha – "Só que há um problema..."

"Qual?" – os dois me olharam espantados.

"Estou no meu último semestre do curso de Cinema da NYC e preciso de pelo menos duas manhãs dos meus dias da semana para fazer a minha monografia. Quer dizer, o ideal é eu ter um encontro semanal com o meu orientador e me dedicar o restante do tempo com as pesquisas, mas no caso, com o trabalho, ainda precisaria de uma manhã para conversar com o orientador e outra para ter tempo de ler alguma coisa, escrever..."

"Posso te liberar duas manhãs até você se formar sem prejuízos salariais, Quinn" – Terry entrelaçou os dedos e repousou as mãos sobre a barriguinha que tinha – "Isso se o patrão aqui concordar e autorizar."

"Terry, meu querido, já disse que confio inteiramente no seu trabalho de coordenação lá na fotografia. Por mim tudo bem" – ele se levantou e estendeu a mão para me cumprimentar – "Seja bem-vinda ao time dos veteranos, Fabray. E da próxima vez, não esconda seus talentos de nós. Não há nada de errado em fazer freelas assim, desde que não role trairagem. Por isso fale com Terry, que o cara está aqui para te ajudar, não para te sacanear. É que o pessoal da The Beats não concorre, mas se fosse por outra produtora, aí teríamos um problema" – acenei. Lição assimilada.

Saímos do escritório de Liam. Ao menos uma coisa boa aconteceu no meu dia. Eu tinha um emprego. Não um estágio que me fazia quase passar fome. Era um emprego de verdade numa das produtoras mais incríveis da cidade com um salário que me proporcionaria certa tranqüilidade. Melhor ainda: eu iria começar a ficar atrás das câmeras literalmente. Isso era maravilhoso.

"Eu vou passar dois ofícios para o DP. Um para cancelamento do seu estágio e outro para a sua contratação como funcionária do Departamento de Fotografia" – Terry me explicou no caminho de volta – "Claro que tudo isso só vai ficar pronto na semana que vem, até porque hoje é sexta e o pessoal não vai trabalhar nisso agora. Não tenho certeza, mas acho que você ainda vai passar um dia ou dois resolvendo burocracia, mas é coisa simples. Eles vão te pedir documentos, carteira de trabalho e essas coisas. Você só vai passar a trabalhar também pelas manhãs quando assinar o contrato. Até lá Fabray, rotina de estagiária. Ah, e procure não comentar isso com os seus colegas para evitar ciumeira, ok?" – acenei – "E, por favor, converse mais comigo, me conte sobre seus trabalhos e quando você receber convites para freelas, porque esse tipo de coisa pode dar demissão aqui dentro."

Acenei mais uma vez. Procurei controlar a minha ansiedade pelo resto do dia. A minha vontade era de invadir o departamento de criação e contar tudo para Santiago. Pior: pegar o meu celular e contar tudo para Rachel. Que a minha sorte talvez estivesse mudado, que as coisas começaram a melhorar. Mas não. Ainda estava magoada com a omissão dela. Por me esconder uma informação séria e importante para o nosso relacionamento.

"Quinn Fabray?" – um entregador veio até o nosso departamento com um buquê de rosas vermelhas. Lindas – "Entrega para a senhorita" – ele me pediu para assinar um recibozinho e foi embora. Os olhares dos meus colegas caíram sobre mim e eu fiquei quase tão vermelha quanto as rosas.

"Hum... quem é o cupido?" – uma colega perguntou.

"Minha namorada" – respondi da forma mais neutra possível.

Peguei o cartão e li o pequeno bilhete.

"Perdão. Eu te amo mais que tudo." – Rachel B. Berry-Lopez

E tinha o desenho de uma estrela no final ao lado de um coração e uma coroa, além de um "4ever". Queria dizer: Rachel ama Quinn para sempre. Suspirei.

"Aposto que você vai se dar bem hoje a noite, Fabray" – o pessoal disse com malícia.

Meu celular tocou no fim do meu expediente. Era Rachel. Ela sabia que odiava atender ligações particulares enquanto trabalhava, a não ser que fosse um caso de emergência. Talvez aquela ocasião fosse mesmo.

"Ei" – respondi assim que vi a fotografia dela no meu monitor.

"Está saindo do trabalho?"

"Quase. Meu expediente termina em vinte minutos."

"Eu estou aqui no teatro. Daqui a pouco começa a peça... mas eu queria saber se posso te ver quando sair daqui. Posso ir à sua casa?"

"Claro" – respondi seca. Ainda estava ferida – "Não é que eu vá bater a porta a sua cara caso apareça."

"Eu sei que errei, Quinn. Errei feio. Mil perdões, mas é que eu ando insegura em relação a tantas coisas a ponto de não pensar direito."

"A gente conversa mais tarde, ok?"

"Ok. Até mais."

Suspirei e terminei de fazer as poucas coisas que tinha no dia. Nada além de terminar um serviço para, se deus quiser, começar outra etapa dentro da Bad Things.

"Fui contratada" – disse a Santiago no caminho de casa.

"O quê?"

"Fui contratada pela Bad Things para ser câmera e para trabalho de assistência. Não serei mais estagiária."

"Isso... uau, Fabray. Isso é impressionante. Precisamos comemorar o fato de que você vai injetar mais uma grana lá em casa!"

"Explorador."

"Pizza de calabresa?"

"Com bastante cebola."

"Coitada da sua garota!" – ele apontou para o buquê de rosas.

"Não será meu problema."

Uma das coisas boas e fáceis em se conviver com Santiago é que ele jamais complicava. Nunca, jamais. Em vez de possíveis vibrações de ciúmes porque fui contratada na produtora em que ele trabalha há mais tempo e, pior, foi praticamente ele quem me empurrou para fazer o teste, Santiago pede uma pizza. Mas eu sabia que a contratação dele era só uma questão de tempo. A Bad Things não seria louca em deixar escapar um talento como aquele. Nossa refeição chegou meia hora depois do pedido e saboreamos tudo acompanhados de duas latinhas de cerveja que estavam em nossa geladeira quase vazia. Eu tinha uma garrafa de vinho escondida, mas não iria desperdiçar assim. O importante é que celebramos falando asneiras sobre garotas e sobre a vida.

Fiquei ansiosa quando o relógio marcou dez da noite porque sabia que era o horário que Rachel costumava sair do teatro. Meia hora depois, o interfone tocou. Rachel subiu e me flagrou em pijamas. Sim, fiz isso de propósito. Santiago assistia ao noticiário apenas de short (duvido que ele usava cueca). Mania dele e eu não mais me aborrecia. Ele acenou para Rachel e se retirou para o quarto dele.

"Hora imprópria?" – Rachel entrou na minha sala de móveis usados e velhos.

"Porque diria isso?"

"Vocês parecem que já vão se recolher para dormir."

"Eu iria. Não sei de Santiago."

Rachel sentou-se no sofá.

"Você vai me torturar, por causa disso, não é mesmo?"

"Só porque você não contou antes que vai passar metade do ano do outro lado do país?" – ironizei – "Imagine!" – cruzei os braços.

"Perdão, Quinn. Pela enésima vez, perdão. Eu sei que eu errei. Eu deveria ter te contato desde o início em vez de tentar te amaciar primeiro com..."

"Sexo."

"Isso."

"Não estou reclamando pela parte do sexo, Rach. Mas você me feriu não pela notícia que não é boa para o nosso relacionamento, mas porque você não confiou em mim. Porque você me julgou imatura ou incapaz em lidar com esse tipo de coisa. Isso dói. Isso dói pra caramba... E você é uma hipócrita também."

"O quê!" – ela reagiu a minha ofensa.

"Porque você vem com todo o discurso de construir confiança entre nós, mas foi a primeira a quebrar isso. Confiança não diz respeito apenas a fidelidade, Rachel. O conceito é bem mais amplo. E se você não confia e não tem o respeito suficiente por mim em contar algo realmente importante logo no começo, acha que precisa de recursos para disparar a notícia, então todo nosso esforço em fazer dar certo vai ser em vão."

"Isso não vai acontecer novamente" – ela disse abaixando o tom.

"Agradeço!" – respondi ainda exaltada e sentei-me ao lado dela.

Passamos alguns minutos em silêncio, até que eu procurei amenizar as coisas com as boas novidades.

"A Bad Things me contratou para ser câmera e fazer trabalho de assistência nos sets de filmagem."

"Isso é maravilhoso, Quinn" – Rachel me encarou. As feições dela estavam mais suavizadas.

"É sim."

"Precisamos comemorar."

"Eu já comemorei, de certa maneira" – apontei para a caixa de pizza e para as latinhas de cerveja.

"Isso é..."

"Foi só uma pizza, Rach."

"E nós?"

"Acho melhor o nós ficar para amanhã" – ela acenou concordando e se levantou do sofá.

"Eu te ligo, então" – já disse à porta.

A gente trocou um beijo rápido na boca e Rachel foi embora. Melhor assim. Eu não estava a fim de dividir a minha cama com ninguém mesmo naquelas condições. Nem com ela. Tranquei a porta, fui para o meu quarto e demorei um século para dormir.